Bolsonaro, herói ou mártir? Ópera Bufa? “Commedia dell'Arte”? Santo do Pau Oco?

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Claudio Antunes Boucinha 

[Licenciado em História. Mestre em História do Brasil].



Princípios

Princípios universais são preceitos ou leis consideradas incontestáveis e válidas para toda a sociedade civilizada, em qualquer lugar do mundo, independentemente da cultura, época ou religião. Eles regem a existência humana e são a base para a convivência social, servindo como regras fundamentais que devem ser seguidas para garantir justiça, paz e equilíbrio. Exemplos de princípios universais são o amor, a felicidade, a liberdade, a paz e a plenitude. Esses princípios são compartilhados por todas as pessoas e sua adoção não oferece resistência, sendo construídos, na maioria, desde o ambiente familiar. [MENDES, Jeronimo. Princípios, Valores e Virtudes. QualidadeBrasil.com.br. Disponível em: https://arquivos.trf5.jus.br/TRF5/Gestao_Estrategica_Artigos/4994-principiosvaloresvirtudes.pdf . Acesso em: 18/10/2025]. 

Um dos princípios mais comuns em diversas tradições filosóficas e espirituais: “Não julgue”. A razão para essa proibição é implícita, mas fundamental: seres humanos limitados não conseguem julgar de forma justa e completa. Nunca conhecemos a totalidade dos fatos, a história de vida, as intenções, os medos e as pressões que levaram uma pessoa a agir de determinada maneira. Nossos julgamentos são frequentemente contaminados por nossos próprios vieses, experiências passadas, emoções do momento e preconceitos. Ao julgarmos os outros, muitas vezes nos esquecemos de nossas próprias falhas e fragilidades. A instrução inicial é um alerta contra a soberba e a precipitação. É um convite à humildade, reconhecendo que nosso lugar natural não é o de juiz dos outros.

O julgamento não é absolutamente proibido, mas sua legitimidade depende de condições muito estritas. Não se trata de uma autoridade arbitrária ou autoconcedida. Refere-se a um cargo ou função legitimamente constituída. Isso implica um processo estruturado, com regras claras e conhecidas por todos. É o oposto de um julgamento impulsivo baseado em fofoca ou opinião. É o princípio do devido processo legal. A autoridade para julgar não vem do poder pessoal, mas de um mandato de serviço à coletividade. O juiz, neste contexto, não é um dono da verdade, mas um funcionário a serviço da justiça e do bem comum. Só se pode julgar quando se é um agente investido de autoridade formal, por um processo justo, e com o propósito de servir à sociedade.

Mesmo que todas as condições para julgar sejam satisfeitas, a maneira de julgar é o que define a qualidade do ato. A capacidade de sentir com o outro, de reconhecer sua humanidade e sofrimento. É o ponto de partida. Sem compaixão, o julgamento se torna um exercício mecânico e frio. A escuta não é passiva. É ativa e inclinada ao perdão. Significa dar ao acusado o benefício da dúvida, ouvir sua história com um coração disposto a perdoar, não somente a condenar. Após ouvir, vem o esforço intelectual e empático de compreender as circunstâncias. A tolerância aqui é a aceitação de que os seres humanos são falíveis e a perfeição não é a norma. O ato de julgar em si só ocorre depois de todos os passos anteriores. Ele não é o primeiro impulso, mas o último recurso, após a compaixão, a escuta clemente e a compreensão tolerante. O Amor fornece a motivação correta (restaurar, educar, curar), e a Razão fornece a ferramenta correta (ser justo, lógico, proporcional). Amor sem razão é sentimentalismo ingênuo; razão sem amor é tirania cruel. O julgamento ideal equilibra ambos.

“A Lei de Compensação”: este é um conceito que remete a leis universais ou cármicas. Significa que, no grande esquema da vida, cada ação gera uma reação natural e proporcional. O universo, ou a vida em si, se encarregará de equilibrar as contas. O papel do juiz humano não é infligir punição divina, mas gerir uma situação específica da melhor forma possível. A “dívida” final será cobrada por uma lei maior.

Somente uma entidade onisciente pode conhecer todos os fatos, todas as motivações internas, todas as consequências passadas e futuras. Nosso julgamento é, por definição, limitado e incompleto. Somos, no máximo, administradores temporários de uma justiça que nos transcende.

Introdução

Talvez seja muito limitante, muito restrito, circunscrever a ideia de herói em meia duzia de palavras, em “Bolsonaro, herói ou mártir? Ópera Bufa? Commedia dell'Arte? Santo do Pau Oco?”. 

É obvio que “nosso” herói tem, em sua composição, muito do que se aproxima da tragicomédia. 

É evidente que se trata de um herói “rebaixado”, do “bas-fond”, do mundo urbano e suburbano que retratava o submundo do Rio de Janeiro nos anos 80-90 [https://rogeriotomaz.com/2020/08/25/o-dia-que-bolsonaro-apanhou-de-um-capitao-do-exercito/ ]. O que o aproxima da escória social, ralé, ou seja, a camada social mais degradada e marginalizada; que gosta de como “babado”, “acontecimento” ou “bafão”.

Mas tudo isso tem menor importância, irrelevante, para que se possa, realmente, compreender todo o movimento social em torno desse suposto “herói”, que não é somente do Brasil, mas que, em nosso país, teve, sim, essas características banais; não tão grandiloquentes, bem menos retóricas, e com conteúdos “exóticos”, deslocados de seu ambiente cultural, que viravam, no fim, serviriam de  motivos de chacota, riso, e bufonarias; a não ser por suas consequências funestas para a democracia como valor universal. 

Na verdade, tudo indica que o Brasil ficou ao sabor das águas, ao sabor dos ventos, do suposto anarco-capitalismo, que, embora esteja claro que é mistura incorreta, seus efeitos atuam como uma bomba-atômica na sociedade em geral, beneficiando principalmente os milionários. 

Aliás, desde 1982 que a famosa e não menos inescrupulosa “iniciativa privada”, vem tentando mostrar as suas “unhas”, os seus “tentáculos”, enquanto  percebe que pode ter mais lucros ocupando espaços que antes era na “iniciativa pública”, reclamando o Estado “mínimo”, contra o Estado do bem-estar social, alegando, entre outros, os gastos, os “encargos sociais”, preconizando a volta ao século XVIII. 

Só que agora, cansados da via “política”, preferem o assalto ao poder, já que, conforme a narrativa escolhida, os milionários são o que são por competência, eficácia, e toda essa baboseira mal explicada. Sobrando, para os pobres, a nova religião, não tão nova assim, do empreendedorismo: “Vá vender bala, nos cruzamentos, que você vira milionário”; é somente um exemplo, pois sabemos muito bem como vivem os pobres e miseráveis, para serem reduzidos a serviço ocasional. 

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, para o país, é muito mais que uma frase de efeito. 

Henrique Lima Araújo, [Navegar é preciso: O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, e o hipertexto. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Instituto de Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2019. https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/202447/001107107.pdf;jsessionid=11B287E3DE260B100B9D6E58C0FB7A46?sequence=1 ] explora a célebre frase atribuída a Fernando Pessoa, “navegar é preciso / viver não é preciso”, que, na verdade, não é de sua autoria, mas sim uma máxima romana atribuída a Pompeu, mencionada por Plutarco. Fernando Pessoa a popularizou ao utilizá-la em seus escritos, particularmente nos versos de Álvaro de Campos e na prosa de Bernardo Soares no "Livro do Desassossego".

Henrique Lima Araújo usa essa frase para refletir sobre a virtualidade do livro e a transformação da noção de "navegar" na era digital. A metáfora original, que dizia respeito à navegação marítima e à coragem para enfrentar tempestades rumo a objetivos essenciais, é atualizada para o sentido contemporâneo da navegação na internet. Hoje, "navegar" na rede tornou-se uma atividade fundamental, quase indispensável, tão necessária — ou até mais — quanto "viver" no sentido tradicional.

A sociedade atual mostra uma dependência crescente dos sistemas digitais, que vão além do simples entretenimento ou informação, integrando-se às rotinas cotidianas, como pagamento de contas e controle de saúde. Além disso, a experiência vivida passa a exigir compartilhamento nas redes sociais para ser considerada completa.

Henrique Lima Araújo sugere que a hiper conectividade pode levar a uma fusão dos verbos: assim como no mito inicial navegar era preciso para a sobrevivência, na atualidade navegar (na internet) passa a ser sinônimo de viver. Ou seja, a própria existência se entrelaça com a experiência digital e a conexão permanente.

Henrique Lima Araújo utiliza a frase para mostrar como a modernidade redefiniu o conceito de viver e navegar, enfatizando a centralidade da internet e das redes digitais na vida contemporânea.

Das célebres frases atribuídas a Fernando Pessoa e que caíram no gosto popular, muitas vezes equivocadamente, uma nos surge para iniciar a discussão a respeito da virtualidade do Livro do Desassossego: “navegar é preciso / viver não é preciso” (PESSOA, 2006a, p. 146), retirada não da poesia do ortônimo, mas dos versos de Álvaro de Campos e da prosa de Bernardo Soares, no próprio Desassossego. Pessoa tornou célebre um lema dos argonautas, os marinheiros do mito grego de Jasão. Tais navegadores, na verdade, faziam alusão a Pompeu, político romano que viveu entre 106 e 48 antes de Cristo e teria sido o verdadeiro autor da frase, conforme Plutarco [De acordo com Richard Zenith: “Maria Aliete Galhoz descobriu, nas Vidas Paralelas de Plutarco, a fonte primitiva da frase ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’. Foi dita por Pompeu quando, apesar de uma grande tormenta, ordenou que as suas naus partissem em direção a Roma, com o trigo que carregaram na Sicília, na Sardenha e na África. Pessoa terá descoberto a frase num artigo de Joseph Addison publicado na revista The Spectador e incluído numa coletânea que possuía, assinalando a frase” (PESSOA, 2006a, p. 530)]. A posteridade, no entanto, deu os créditos ao poeta português. Podemos repeti-la a partir da nova semântica do verbo navegar, criada com os avanços tecnológicos. Vivemos em uma sociedade que parece nos dizer exatamente essa fórmula: navegar na internet é mais necessário do que viver. A regra é tão evidente, que atualmente somos dependentes de sistemas operacionais, que não só entretêm ou informam, mas também já pagam contas e avisam a hora de beber água. Uma experiência vivida e não compartilhada nas redes sociais parece não estar completa, e a hiper conectividade é tanta, que o futuro talvez se encarregue de igualar ambos os verbos: navegar será viver. (ARAÚJO, 2019).



No entanto, o que mais se via no governo Bolsonaro era a falta de governo, de comando, não havia timoneiro, não havia piloto, não havia nada. 

Causa estranheza, estupefação, a ocupação militar que houve do Estado brasileiro, as avessas, pela porta dos fundos, ocupando cargos de civis, causando prejuízos enormes aos erários, em desvios de funções inimagináveis, procurando preencher espaços de técnicos qualificados, especialmente durante a pandemia, e na Amazônia; com servidores públicos que não tinham capacidade para tal. A pergunta feita é o porquê de tudo isso. Tal tamanho despropósito só tem sentido se houve um plano urdido nas casernas de tomar o poder civil de outra maneira, passando o Brasil a ter um governo militar alheio as urnas. Ainda bem que a racionalidade imperou nos quartéis, com a defesa da constitucionalidade. Agora, todo esse bom senso, foi realmente assim? Ou foi só porque não havia apoio internacional, especial dos EUA, para os propósitos dos militares?

Estranhamente, também, o apoio de parte das forças armadas a Bolsonaro, visto que sempre foi alvo de críticas, bem consistentes, por parte dessas mesmas forças armadas. Aqui, a figura da marionete, aparece bem clara. Mas esqueceram de avisar a suposta marionete, avessa a dirigismos, já de priscas eras. 

O apoio dos evangélicos precisa ser filtrado, passar pelo crivo da crítica. Não são todos os evangélicos, mas um determinado tipo, que se aproximou do judaísmo. Esse mesmo judaísmo que prega um Israel bíblico com interesses políticos, já que milicianos sionistas foram os principais autores do Estado que ocupou terras de posse dos palestinos. Una-se a isso uma parte dos católicos, muito próximos também do judaísmo, numa releitura das tradições, em função supostamente de profecias apocalípticas. Aliás, o apocalipse une todos esses segmentos que se reuniram em torno de Bolsonaro. Possivelmente vem daí essa sede por um messias, por um salvador da pátria, um salvador do mundo, encarnado sabe quem?

O discurso misógino, e outros discursos de intolerância, como contra os grupos LGBTQIAPN+, na maioria das vezes, relacionados, propositalmente, à pedofilia e outros crimes e barbaridades, também une essa turma em torno de um salvador da pátria. Nesse tipo de discurso, a irracionalidade toma conta e não tem jeito de sair. 

Nesse sentido, os evangélicos assumem um tom calvinista, com a doutrina da predestinação, que une com parte dos judeus, como supostamente o povo escolhido, e com parte dos católicos, com certos posicionamentos e práticas durante a cruzada contra os albigenses. 

A frase da Cruzada Albigense.

Arnold é famoso por ser creditado com a frase "Matem todos eles. Deus reconhecerá os seus!" ("Caedite eos. Novit enim Dominus qui sunt eius."), [ Cesário de Heisterbach (1851). J. Estranho, ed. Dialogus Miraculorum (em latim) . Pág. 302.] proferida durante o cerco da cidade francesa de Béziers em julho de 1209, durante a Cruzada Albigense . De acordo com Jacques Heers , esta frase seria falsa. [ "A Invenção da Idade Média”, p.256 ]

A frase também foi atribuída ao Papa Inocêncio III (Anagni, 1161 - Perugia, 16 de julho de 1216), 176º Papa da Igreja Católica (de 1198 a 1216) e também foi atribuída a Simão IV de Montfort , quinto duque de Leicester (c. 1160-1218), visconde de Béziers e do viscondado de Carcassonne, que foi o protagonista da Cruzada contra a heresia albigense.

Cesário de Heisterbach, um monge cisterciense , foi o primeiro a atribuir a frase a Arnaldo Amalrico, trinta anos após o fim da Cruzada Albigense em seu Dialogus miraculorum ; embora Cesário, que normalmente declarava suas fontes, neste caso preceda a citação com um duvidoso "é relatado que ele disse" ("fertur dixesse"). A frase ecoa as passagens bíblicas de 2 Timóteo 2:19 [¹⁹ Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade. ²⁰ Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. ²¹ De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra. 2 Timóteo 2:19-21] e Números 16 : 5 [A rebelião de Corá, Datã e Abirão

¹ Corá, filho de Isar, filho de Coate, filho de Levi, tomou consigo a Datã e a Abirão, filhos de Eliabe, e a Om, filho de Pelete, filhos de Rúben.

² Levantaram-se perante Moisés com duzentos e cinquenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação, eleitos por ela, varões de renome,

³ e se ajuntaram contra Moisés e contra Arão e lhes disseram: Basta! Pois que toda a congregação é santa, cada um deles é santo, e o Senhor está no meio deles; por que, pois, vos exaltais sobre a congregação do Senhor?

⁴ Tendo ouvido isto, Moisés caiu sobre o seu rosto.

⁵ E falou a Corá e a todo o seu grupo, dizendo: amanhã pela manhã, o Senhor fará saber quem é dele e quem é o santo que ele fará chegar a si; aquele a quem escolher fará chegar a si.  Números 16:1-5], o que de outra forma torna provável que a frase tenha vindo de um clérigo educado. [ Lambert, 2001 , pág. 144. Lambert, Malcom (2001). A Outra História dos Cátaros . Barcelona: Martínez Roca. ISBN  84-270-2644-7 ]. [https://es.wikipedia.org/wiki/Arnaldo_Amalric ].



As palavras foram retiradas de um Exemplum [referência  desejada] , uma breve narrativa histórica destinada a instigar a imaginação, com uma tendência ao exagero típica deste gênero literário. No entanto, independentemente de esta frase ter sido ou não pronunciada, a ordem que deu aos cruzados foi cumprida. Se a carta não é, portanto, certa e historicamente não comprovada, o espírito parece ser consistente com as decisões dos líderes da cruzada relatadas por Guilherme de Tudela em O Canto da Cruzada Albigense [Guilherme de Tudela, A Canção da Cruzada Albigense , Paris, Livre de Poche, coleção Lettres Gothiques,1992 ]: "os barões da França e os da área circundante de Paris, o clero e os leigos, os príncipes e os marqueses, todos concordaram que em qualquer cidade onde o exército se apresentasse e que não se rendesse, todos seriam passados ​​à espada e mortos .  " Jacques Berlioz , que dedicou uma obra inteira a esta famosa frase [ Jacques Berlioz, "Mate todos eles, Deus reconhecerá os seus", a cruzada contra os albigenses vista por Césaire de Heisterbach , Portet sur Garonne, Loubatières,1994 ] e sobre sua realidade histórica ou não, especifica: "quanto às terríveis palavras do legado, se elas permanecem um enigma histórico, uma vez que, embora prováveis, não se pode demonstrar sua autenticidade, elas testemunham sem hesitação a brutalidade da repressão" . Fernand Niel [ Fernand Niel, Albigeois e Cátaros , PARIS, PUF, col.  “  O que eu sei? N.º 689”,1994 ] também sublinha que "não há prova histórica de que esta frase não tenha sido pronunciada, pelo contrário, ela é cruelmente confirmada pelos fatos". [https://fr.wikipedia.org/wiki/Arnaud_Amaury ].



No entanto, ainda estamos longe para compreender efetivamente o fenômeno religioso que leva evangélicos a apoiarem Bolsonaro. Uma das possibilidades da origem está na própria organização dos evangélicos, especialmente no Rio de Janeiro, bem como movimentos políticos que tem um certo passado histórico entre os católicos, o domínio do político, pela fé. 

O líder da Assembleia de Deus afirma que "somente os eleitos de Deus devem ocupar os postos-chave da nação", revelando uma pretensão clara de que eles têm direito divino para governar. Essa visão cria uma dificuldade para essa seita se ver como igual a outros atores políticos, aceitando somente ser marginalizada ou dominante ("cabeça"). Entre certos carismáticos de classe média, há um senso de triunfalismo, acreditando que os evangélicos têm um direito divino não só para participar, mas para dominar o poder secular. Um deputado federal, sendo também televangelista, afirma que se um dia dominarão a terra literalmente, já poderiam começar a tomar o poder como um "antegosto". Essa ideia está vinculada ao conceito de "batalha espiritual", ou seja, uma luta divina para transformar o Brasil pela "restauração espiritual da nação". O presidente do Conselho Nacional de Pastores reforça, dizendo que os evangélicos, como "seres espirituais, nascidos de novo", são a "nata da sociedade" e detêm as respostas que os políticos necessitam.

« Somente os eleitos de Deus devem ocupar os postos-chave da nação», diz um líder da Assembleia de Deus. A pretensão é clara. É difícil para a seita imaginar outro papel político para si mesma. Ela sempre se viu como moralmente superior. Por isso, com relação ao poder secular, ela tem dificuldade em integrar-se em pé de igualdade com outros participantes ; só admite ser marginalizada ou ser «cabeça». Sobretudo entre alguns carismáticos de classe média, há um triunfalismo baseado na ideia de que os evangélicos têm um direito divino de governar. Segundo um deputado federal, um televangelista, «se um dia vamos dominar literalmente na terra, por que hoje não podemos começar, como antegosto, a tomar o poder ? ». Este direito de governar se liga com conceitos de «batalha espiritual». « A transformação do Brasil há de começar pela restauração espiritual da nação. Deus está levando homens cheios do Espírito para a tomada dos postos de comando». Ou nas palavras do presidente do Conselho nacional de pastores : «como seres espirituais, nascidos de novo, somos a "nata da sociedade". A Igreja tem a resposta que os políticos procuram». [Preston Paul. Protestantismo e democracia no Brasil. In: Lusotopie, n°6, 1999. Dynamiques religieuses en lusophonie contemporaine. pp. 329-340; https://www.persee.fr/doc/luso_1257-0273_1999_num_6_1_1274 ].



No absolutismo europeu clássico, a teoria do direito divino dos reis defendia que o monarca recebia de Deus a legitimidade para governar, sendo seu poder absoluto e não se sujeitando a qualquer outra autoridade terrena. Essa teoria visava justificar e reforçar o poder político centralizado e incontestável do rei.

No caso dos pentecostais brasileiros, observa-se uma reivindicação de que "somente os eleitos de Deus devem ocupar os postos-chave da nação", ou seja, que há um direito divino para governar, com base numa interpretação religiosa e espiritual específica. No entanto, essa ideia está inserida num contexto democrático contemporâneo, mas com uma forte pretensão de supremacia moral e política dos crentes "eleitos", ligados ao conceito de "batalha espiritual" para a transformação da nação.

Preston (1999) ressaltava  que isso não é uma forma de "constantinismo" (a oficialização da Igreja pelo poder temporal), mas sim "a apropriação do Estado pela seita". 

A história não apoia a ideia de uma correspondência entre doutrina e política, segundo a qual o protestantismo seria favorável a uma política universalista e ética, ao contrário da umbanda com sua «rede celestial de patronagem» que oferece suporte ideológico para a política clientelista. Não podemos ler as implicações para a democracia a partir da doutrina religiosa, pois a prática é influenciada também por outros fatores : a organização interna, tamanho, posição relativa a outras confissões, vínculos estrangeiros e recursos culturais e econômicos. A situação é de crescimento sectário rápido num contexto democrático. As tendências triunfalistas e corporativistas levam em si perigos para a democracia. O sectarismo tem dificuldade em elaborar uma perspectiva universalista da política porque sempre foi excluído ou autoexcluído de tais preocupações. Não há projeto para a sociedade no pentecostalismo brasileiro. O corporativismo enfatiza a conquista de um lugar na religião civil, as questões morais e um governismo pragmático que busca maximizar os retornos. Isso reflete o conceito sectário de missão. Para garantir as melhores condições de funcionamento para a Igreja, aceitam-se os acordos. Como disse um candidato : «onde na Bíblia está escrito que os servos do Senhor devem financiar a expansão do reino das trevas ? Antes, não deveria ser o contrário ? ». Isso não é ingenuidade perante o poder, mas um pragmatismo autorizado pela visão sectária do mundo. Os benefícios recebidos não são vistos como traição à mensagem evangélica, mas como um imposto que o poder «mundano» paga à verdade. Não é constantinismo (a oficialização da Igreja pelo poder temporal) ; é a apropriação do Estado pela seita. «Somente os eleitos de Deus devem ocupar os postos-chave da nação», diz um líder da Assembleia de Deus. A pretensão é clara. É difícil para a seita imaginar outro papel político para si mesma. Ela sempre se viu como moralmente superior. Por isso, com relação ao poder secular, ela tem dificuldade em integrar-se em pé de igualdade com outros participantes ; só admite ser marginalizada ou ser «cabeça». Sobretudo entre alguns carismáticos de classe média, há um triunfalismo baseado na ideia de que os evangélicos têm um direito divino de governar. Segundo um deputado federal, um televangelista, «se um dia vamos dominar literalmente na terra, por que hoje não podemos começar, como antegosto, a tomar o poder ? ». Este direito de governar se liga com conceitos de «batalha espiritual». « A transformação do Brasil há de começar pela restauração espiritual da nação. Deus está levando homens cheios do Espírito para a tomada dos postos de comando». Ou nas palavras do presidente do Conselho nacional de pastores : «como seres espirituais, nascidos de novo, somos a "nata da sociedade". A Igreja tem a resposta que os políticos procuram». [Preston Paul. Protestantismo e democracia no Brasil. In: Lusotopie, n°6, 1999. Dynamiques religieuses en lusophonie contemporaine. pp. 329-340; https://www.persee.fr/doc/luso_1257-0273_1999_num_6_1_1274  ].



Ou seja, há uma tentativa de legitimar um poder político exclusivo fundado numa autoridade divina percebida, ressoando com o princípio do direito divino, mas manifestando-se como uma forma de triunfalismo religioso que reivindica domínio político no espaço público.

Embora não exatamente igual ao absolutismo clássico, essa reivindicação pentecostal incorpora uma lógica semelhante do direito divino para legitimar poder político, trazendo desafios para o pluralismo e a democracia num Estado não confessional; que apresenta o ideal do pluralismo religioso como alternativa para um Estado laico e não dominado por uma única religião.

Na história do protestantismo mundial, há três posturas básicas com relação ao Estado. Uma é a rejeição da participação que caracterizou a maioria dos anabatistas do século XVI. A segunda é o ideal da «nação cristã»,  abraçado por Calvino em continuidade com a era medieval. A Igreja está no centro da sociedade, fornecendo seu credo oficial. O governante piedoso deve promover a verdadeira religião e moral por meios políticos e legais. Posteriormente, o ideal da nação cristã fragmenta-se num arco que vai desde os reconstrucionistas que vão além de Calvino, defendendo uma teocracia baseada na lei mosaica, até o liberalismo moderno das Igrejas territoriais europeias que solicita somente privilégios para os valores cristãos. Na forma severa, a nação cristã implica perseguição ; na forma branda, somente discriminação na religião civil. A terceira posição básica também remonta aos primórdios do protestantismo e floresceu entre alguns dos primeiros batistas e os «niveladores» da Guerra civil inglesa, e posteriormente no neo-calvinismo holandês. É o pluralismo de princípio, a liberdade religiosa num Estado não confessional. A situação no Antigo Testamento é excepcional ; hoje, o Estado deve limitar-se a funções civis. Os cristãos participam, mas sob o signo do consenso e não do domínio, evitando que o cristianismo se transforme em religião civil.  [Preston Paul. Protestantismo e democracia no Brasil. In: Lusotopie, n°6, 1999. Dynamiques religieuses en lusophonie contemporaine. pp. 329-340; https://www.persee.fr/doc/luso_1257-0273_1999_num_6_1_1274  ].


A escatologia milenarista tradicional (pré-milenarismo), predominante entre evangélicos latino-americanos até os anos 1980, pregava que o mundo estava corrompido e que a segunda vinda de Cristo era iminente. Isso levava os fiéis a uma postura de afastamento das questões mundanas, incluindo a política. A ideia era de que o mundo não valia ser transformado, pois seria substituído pelo Reino de Deus após o retorno de Cristo.

No entanto, houve uma transição para o pós-milenarismo, especialmente entre os neopentecostais. Essa nova escatologia propõe que o Reino de Deus pode e deve ser instaurado aqui e agora, por meio da ação dos fiéis. Essa mudança teológica é o que Algranti chama de “Teologia do Reino Presente”:

— Otimismo escatológico: ao invés de esperar passivamente pela salvação futura, os fiéis são convocados a agir no presente.

— Empoderamento espiritual e político: os devotos são vistos como herdeiros do poder divino, com autoridade para transformar a sociedade.

— Conquista das nações: há uma missão explícita de influenciar e dominar espaços públicos, inclusive a política, em nome de Deus.

Essa visão teológica legitima e impulsiona a entrada agressiva dos neopentecostais na política, para realizar a vontade divina na terra. O engajamento político deixa de ser visto como mundano ou pecaminoso e é uma extensão da missão religiosa.

No Brasil, por exemplo, essa visão contribuiu para a formação de bancadas evangélicas, apoio a candidatos como Jair Bolsonaro e a defesa de uma “agenda moral” baseada em valores religiosos. A mudança escatológica dos neopentecostais foi o motor que os levou da “greve social” à “teologia da prosperidade” e, finalmente, ao ativismo político.

Como corretamente afirma Joaquín Algranti ao se referir ao caso argentino, essa reformulação da escatologia milenarista, vinculada à se gunda vinda de Cristo; é o que leva certos cristãos a trabalhar ativamente pela restauração do Reino de Deus na terra e constitui uma característica essencial dos grupos neopentecostais que entram agressivamente no mundo da política. 

“‘A Teologia do Reino Presente’ é uma das características específicas do neopentecostalismo que o diferencia dos grupos pentecostais. É uma escatologia da vitória, que torna os devotos verdadeiros herdeiros do poder, da autoridade e do direito divino de conquistar as nações em nome de Deus. O Reino de Jesus Cristo não se refere mais a uma promessa de bênçãos fu turas, mas ao tempo presente do fiel e de sua igreja” (ALGRANTI, 2010, p. 21). [Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI / (organização José Luis Pérez Guadalupe e Brenda Carranza). —  Rio de Janeiro : Konrad Adenauer Stiftung, 2020 https://www.al.sp.gov.br/repositorio/bibliotecaDigital/24396_arquivo.pdf ].



Existe o risco de instrumentalização da democracia por grupos religiosos que, ao invés de respeitarem a pluralidade de ideias e crenças, buscam impor uma visão teológica específica como base para toda a estrutura política de um país. 

Nas últimas décadas, os evangélicos deixaram de ser um grupo marginalizado na esfera pública e passaram a ocupar posições estratégicas no Legislativo e Executivo, especialmente no Brasil:

— Crescimento demográfico dos evangélicos

— Mudanças teológicas (como o pós-milenarismo e a teologia do domínio)

— Interesse em transformar o “capital religioso” em “capital político”

— Reação contra pautas como a “ideologia de gênero” e o secularismo.


Há um alerta para um fenômeno do neoconstantinismo — uma tentativa de restaurar a aliança entre Estado e religião, como na época do Império Romano sob Constantino. Isso se manifesta em:

- Uso da democracia para fins teocráticos: grupos religiosos buscam legitimar sua agenda moral por meio do voto, mas para eliminar a dissidência e impor uma visão única de cristianismo.

- Alegações de “maioria moral” ou “maioria cristã”: Quem questiona quem define essa maioria e como ela pode ser usada para silenciar minorias.

- Nomeações estratégicas: A proposta de nomear juízes “terrivelmente evangélicos” ao STF é vista como uma ameaça à imparcialidade judicial e à laicidade do Estado.

Esse tipo de ativismo religioso pode comprometer:

— A separação entre Igreja e Estado

— O pluralismo democrático

— Os direitos das minorias religiosas, sexuais e ideológicas.

Embora os evangélicos tenham o direito legítimo de participar da política, isso não pode se transformar em um projeto de hegemonia religiosa que desrespeite a diversidade da sociedade brasileira e latino-americana.

O maior risco dessa segunda posição é que eles procurem usar meios democráticos para implantar uma “ditadura confessional” que anule minorias (e às vezes maiorias) sob um suposto mandato divino do governo teocrático. Um exemplo do risco que essas posições religiosas podem acarretar é a reivindicação de impor, não o cristianismo, mas sua maneira particular de interpretar ‘cristianismo’ para toda a política governamental de um país sob uma alegada ‘maioria moral’ ou ‘maioria cristã’, sem respeitar os pensamentos dissidentes. Frases como “as minorias devem se curvar à maioria” (quem determinará quem é a maioria e o que elas querem? Quem defenderá os direitos das mino rias?), ou que “O espírito cristão deve estar presente em todos os poderes do Estado” (isso significa a volta do Estado confessional? Procura-se implantar um neoconstantinismo?) ou tentar nomear juízes “terrivelmente evangélicos” no Supremo Tribunal Federal (suas sentenças também serão terrivelmente evangélicas? E se eles não convencerem pela fé ou pela razão, farão isso pela força?), podem comprometer o jogo democrático e a necessária independência entre religião e política nos Estados seculares do nosso continente. [Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI / (organização José Luis Pérez Guadalupe e Brenda Carranza). —  Rio de Janeiro : Konrad Adenauer Stiftung, 2020 https://www.al.sp.gov.br/repositorio/bibliotecaDigital/24396_arquivo.pdf ].


O direito divino do rei, conceito fundamental do absolutismo monárquico, sustenta que o poder político é uma incumbência outorgada diretamente por Deus, conferindo legitimidade incontestável ao governante, subordinando a autoridade terrena à vontade divina. Essa doutrina teve papel central na Europa dos séculos XVI a XVIII, justificando regimes autoritários com base religiosa e afastando a possibilidade de contestação política, configurando uma simbiose entre Estado e Igreja. 

A trajetória e atuação política da IURD refletem uma versão contemporânea desse modelo, onde a “soberania espiritual” é usada para legitimar a presença e influência da Igreja no poder civil. Edir Macedo e sua rede religiosa adotam estratégias que evocam a centralidade do controle sobre os fiéis e a ocupação de espaços de poder, com uma estrutura hierárquica, culto à autoridade e proselitismo agressivo. A retórica da IURD e seu partido político (PRB/Republicanos) enfatizam o papel messiânico e quase “divino” do líder religioso na mobilização política, projetando uma teologia da vitória e da prosperidade ligada à obediência e envolvimento dos fiéis.

A Igreja Universal aposta na massa de fiéis como instrumento decisivo no jogo eleitoral e no controle do poder estatal, numa espécie de “direito divino moderno”, onde a legitimidade política se baseia na mobilização religiosa e não em processos democráticos tradicionais. Essa simbiose entre religião e política, não sem tensões e desafios, reproduz o paradoxo histórico da ligação entre a “razão de estado” e a “razão da igreja”, onde a religião oferece fundamentos metafísicos para a dominação temporal.

A influência e atuação da IURD na política brasileira ilustram como o “direito divino” pode ser ressignificado numa modernidade laica, mas ainda marcada por demandas por certezas e lideranças providenciais. As tensões entre religiões tradicionais, denominações protestantes e o crescimento pentecostal refletem disputas de hegemonia tanto espiritual quanto política, atreladas à mobilização de base e controle social.

Sob a ótica do direito divino dos absolutistas, a atuação política de Edir Macedo e da Igreja Universal pode ser compreendida como uma tentativa de atualização desse modelo de soberania sagrada, usando a religião como meio para legitimar e exercer poder político; numa lógica de controle e centralização da autoridade religiosa e civil, resgatando antigos paradigmas de legitimação da dominação. (https://interessenacional.com.br/as-hostes-politicas-de-edir-macedo/).

O absolutismo, formulado durante a Idade Moderna e representado por pensadores como Jean Bodin e Bossuet, sustentava o princípio da soberania indivisível, encarnada no rei, cujo poder derivava diretamente da vontade divina, tornando qualquer contestação política um desafio à ordem natural e sagrada.

A Igreja Católica, historicamente, dividiu o mundo em esfera espiritual (sob a autoridade divina) e temporal (sob a autoridade política), mas em regimes absolutistas essa distinção se apagava em favor da teocracia ou de um regime estatal com respaldo religioso incontestável.

No caso brasileiro contemporâneo, a IURD atua como um intermediário entre o divino e o político, mobilizando a fé de massas para garantir legitimidade e influência pautadas numa “razão de estado” com inspiração religiosa, numa política que explora o sentimento de pertencimento e a promessa de salvação material e espiritual.

Essa influência religiosa na política traz desafios para o processo democrático, ao tender a concentrar poder em lideranças carismáticas, subordinar discussões políticas a dogmas religiosos e promover uma cultura de conformismo e obediência, impactando a pluralidade e o debate público.

A busca por hegemonia da IURD, aliada ao partido político PRB/Republicanos, representa uma tentativa de colonizar o espaço público com valores e estruturas de poder que transitam entre o sagrado e o civil, podendo tensionar os princípios laicos da democracia.

Tal dinamismo é típico de regimes híbridos e democracias afrontadas por forças autoritárias que exploram elementos religiosos para fundamento do exercício do poder. A instituição da “soberania espiritual” por grupos religiosos em espaços democráticos expressa a persistência de paradigmas antigos em novas formas, que dialogam com os cenários de crise civilizatória e busca por respostas transcendentais em tempos de incerteza. O controle exercido pela IURD, usando recursos midiáticos, estratégias empresariais e mobilização popular, exemplifica uma forma contemporânea de “direito divino” adaptado à política eleitoral e à cultura do espetáculo.

Santo do pau oco

A expressão popular "santo do pau oco" remete a uma figura que parece ser um verdadeiro santo, mas que esconde uma falsidade por dentro, ou seja, é uma fachada enganosa. Do ponto de vista do herói, esse conceito pode ser interpretado como a contrapartida negativa da jornada heroica e da construção mítica do herói.

O "santo do pau oco" simboliza uma figura que aparenta possuir qualidades excepcionais, virtudes ou poderes proibidos, mas que, na verdade, é oculta e vazia por dentro. Em termos de mitologia do herói, seria o anti-herói ou o falso herói — alguém que se apresenta à sociedade com a máscara do salvador, mas que carece da substância moral, coragem ou integridade esperadas do verdadeiro herói. Essa figura pode representar traições, enganos ou ocultações que rompem o pacto simbólico entre o herói e sua comunidade.

A jornada do herói pressupõe uma transformação genuína, coragem para enfrentar desafios e a capacidade de retornar com um "dom" ou ensinamento para o coletivo. O "santo do pau oco" quebra essa expectativa, pois suposta "ventura" não passa de ilusão, abafando a autenticidade e a verdadeira transformação. Isso causa desapontamento, perda de fé e descrédito no mito do herói, sendo elementos essenciais para fortalecer comunidades e narrativas coletivas.

A metáfora de algo "oco" denuncia o desequilíbrio entre a imagem e o conteúdo. Um herói genuíno deve ter coerência entre sua fachada pública e sua essência interna, enquanto o "santo do pau oco" é dissimulado, ativo nas sombras, e contradiz sua aparência. Essa figura pode servir de alerta sobre os perigos de confiar cegamente em figuras carismáticas sem questionar suas reais intenções e capacidades.

Do ponto de vista do herói, a expressão "santo do pau oco" representa o falso herói, uma antítese do verdadeiro herói mítico que atravessa desafios e retorna transformado, trazendo esperança e mudança. Ela destaca a importância da autenticidade, da substância moral e da integridade para a construção simbólica do herói, e serve como uma crítica àqueles que manipulam aparências para enganar ou ludibriar a coletividade.[https://issoeunaosabia.wordpress.com/2012/05/25/santo-do-pau-oco/ ].

O artigo "Ópera bufa" [https://www.academia.org.br/artigos/opera-bufa ] usa a metáfora do gênero teatral cômico para descrever a situação política brasileira recente, especialmente sob o governo Bolsonaro. A partir da ideia do herói, essa metáfora permite uma análise crítica da construção simbólica do líder político e dos personagens envolvidos na cena pública.

Na ópera bufa, o herói não é uma figura grandiosa ou trágica, mas um personagem cômico, exagerado e por vezes patético, que representa uma caricatura dos conflitos sociais. Bolsonaro, nessa leitura, seria um “herói” da ópera bufa — uma figura que ganha destaque não pelas virtudes heroicas clássicas, mas pelo espetáculo teatral que mistura bravatas, incoerências e gestos simbólicos controversos.

Diferentemente do herói campbellista, que enfrenta o caos para trazer ordem e transformação, o "herói" da ópera bufa aparece mais como um agente da confusão e do espetáculo — alguém que não realiza jornadas de superação, mas atua num cenário de paródia e exagero, onde a seriedade e a legitimidade se dissolvem.

O herói do texto transita entre máscara e anti máscara — ora encarna o papel público idealizado do líder forte e patriótico, ora revela a face desmoralizada, contraditória, que contribui para a crise simbólica do país. Essa alternância dramatiza a instabilidade da identidade política e cultural.

A inclusão de militares e grupos extremistas na cena dramática constrói um elenco de “personagens” que reforçam o caráter cômico e trágico ao mesmo tempo, refletindo a crise da autoridade e da governança que caracterizam o estado atual da nação.

O herói do presente cenário político não realiza a função tradicional de renovador e salvador, mas torna-se um símbolo da crise, da fragmentação e do espetáculo mediático. A metáfora da ópera bufa ajuda a entender como a ideia de herói pode ser desfeita e reconstruída em formas que impactam diretamente a vida social e política, tornando-se uma ferramenta de crítica e reflexividade sobre o poder e sua representação simbólica.

O texto "Jogo macabro"  [https://www.migalhas.com.br/depeso/323764/jogo-macabro ]utiliza uma forte metáfora para descrever a postura do governo Bolsonaro durante a pandemia, apresentando-o como um “herói” trágico, cuja aposta — a contenção da pandemia sem isolamento social — é ao mesmo tempo, uma “ópera bufa” e um “jogo macabro”. A partir do ponto de vista do herói, essa metáfora permite uma análise crítica da função simbólica e política desempenhada pelo líder no contexto da crise sanitária e social.

Bolsonaro, enquanto figura central da “ópera bufa”, desempenha um papel onde o herói clássico é desconstruído, cedendo lugar a uma figura marcada pela incoerência, pela comicidade trágica e pela irresponsabilidade. Ele não encarna a jornada de superação e salvação, mas uma postura que banaliza o sofrimento coletivo.

O “jogo macabro” simboliza a aposta do herói governante que arrisca a vida dos cidadãos brasileiros, contrapondo saúde e economia num falso dilema. Essa escolha coloca o herói em posição ambígua, onde o “jogo” toscamente manipulado resulta em tragédias humanas — vidas perdidas como fichas de uma aposta cínica.

A máscara do herói governante é a sua imagem pública de liderança, mas a anti máscara, revelada pela crise e pelos resultados desastrosos, mostra o lado sombrio da governança — falta de empatia, negligência e cinismo perante o sofrimento.

O texto enfatiza que a governança está caracterizada pela incoerência e pela banalização do risco, sonhando com um golpe militar que se tornou “paródia de si”. Essa crise enfraquece a autoridade do herói e cria um cenário de instabilidade cuja saída demanda a ação das outras instâncias do Estado para “salvar a governabilidade”.

Do ponto de vista do herói simbólico, Bolsonaro ocupa um papel ambíguo e controverso: não é o herói tradicional que conduz a sociedade à salvação, mas uma figura que encena um espetáculo tragicômico, cujas escolhas políticas têm consequências macabras. Essa leitura crítica ajuda a compreender a crise política e social brasileira como a falência do arquétipo heroico clássico e a emergência de uma “ópera bufa” de relações de poder e resistência.

O livro "Brasil Ópera-Bufa" de Luís Fernando Neis Blaschke [https://www.valinor.com.br/forum/topico/brasil-opera-bufa-luis-fernando-neis-blaschke.159873/page-3#post-2830765 ], com seu tom satírico, permite uma análise rica do ponto de vista do herói, principalmente sob a luz dos arquétipos clássicos e da função social do herói como figura simbólica.

Neis Blaschke constrói um “herói” que está longe da figura grandiosa e tradicional do herói épico ou do mito campbellista. O herói dessa ópera bufa é atravessado pelo escárnio, pela melancolia e por uma ironia aguda, que revelam a fragilidade, o ridículo e o conflito inerente à experiência política brasileira recente. O herói é um personagem complexo que enfrenta não só forças externas, mas suas próprias contradições e fragmentações.

O herói da obra oscila entre a máscara idealizada — que representa as esperanças e as construções simbólicas de identidade nacionais — e a anti máscara que expõe os defeitos, as falhas e a violência do cenário político e cultural. Essa tensão dramatiza a percepção caótica, contraditória e por vezes absurda do Brasil contemporâneo.

O herói na ópera bufa não aparece como sujeito coerente e sólido, mas fragmentado em múltiplas vozes e facetas. Essa multiplicidade aparece nos poemas como trovas, sonetos e versos rimados que ironizam os discursos políticos, sociais e culturais, sugerindo uma crise da autoridade e da narrativa unificada.

Ao construir poeticamente um retrato ácido e crítico do país e seus protagonistas, o poeta assume um papel heroico no sentido de provocar reflexão, riso crítico e autocrítica social. Sua sátira funciona como um espelho deformado que revela verdades dolorosas e provoca a ruptura com discursos ilusórios.

Diferente do herói clássico, que realiza uma jornada de transformação e conquista, o herói de "Brasil Ópera-Bufa" atua em um cenário onde a transformação é contada com humor ácido e distanciamento crítico, apontando para as dificuldades e talvez para a ausência de um rumo claro.

A análise do herói nessa obra revela como o arquétipo pode ser reinventado pelo humor, pela ironia e pela sátira para desempenhar uma função crítica essencial numa sociedade em crise. O herói deixa de ser somente um salvador para se tornar um agente de denúncia, questionando narrativas oficiais e estimulando a reflexão sobre a identidade e o destino coletivo.

O texto da edição n.º 5.182 da “Migalhas” [https://www.migalhas.com.br/amanhecidas/351299/migalhas-n-5-182 ] permite uma análise do ponto de vista do herói em torno da figura de Jair Bolsonaro e sua atuação política recente.

Bolsonaro atua como um herói polarizador que mobiliza fortes emoções nas massas, mas cujas ações e discursos são marcados por controvérsias, ataques às instituições e defesa de posturas que colocam em risco a democracia. Ele é um herói cuja narrativa envolve conflito intenso e oposição a poderes estabelecidos, especialmente o STF.

Na narrativa política construída, Bolsonaro se coloca na posição do herói vítima, sob ataque do sistema, representado principalmente pela Justiça e por seus adversários políticos. Essa posição fortalece sua imagem de combatente e resistência, que mesmo enfrentando dificuldades e acusações, mantém o apoio popular.

A trajetória do herói nesta narrativa é trágica, marcada por processos judiciais, acusações de golpe e desgaste político. A figura do herói não é a de um salvador invencível, mas a de alguém que enfrenta uma luta difícil, que desperta solidariedade e mobiliza seguidores pela identificação com sua causa.

Bolsonaro exibe uma máscara forte de líder, mas a anti máscara, representada por suas contradições, discursos agressivos e episódios controversos, revela a fragilidade e o desgaste que permeiam sua imagem pública, criando um herói marcado por tensões internas e externas.

Independentemente da avaliação ética, a construção de Bolsonaro como herói é um fenômeno político real que envolve mitificação, narrativa de luta e identidade coletiva, cuja importância social não pode ser ignorada para compreender os processos políticos atuais.

O conceito da "Nau dos Insensatos", originado do livro homônimo de Sebastian Brant (1494), é uma poderosa alegoria da condição humana em crise, amplamente usada na cultura ocidental para representar sociedades à deriva por falta de sabedoria e liderança. Aplicando essa metáfora à análise do artigo "A nau dos insensatos" do Observatório da Imprensa [https://www.observatoriodaimprensa.com.br/conjuntura-politica/a-nau-dos-insensatos/ ] no contexto político brasileiro recente, especialmente em relação à figura do herói, é possível extrair um diagnóstico simbólico relevante.

A "nau" é comandada por um capitão míope e cercado por marinheiros insensatos, que disputam o poder sem real conhecimento da liderança ou responsabilidade. Isso traduz o déficit ou falência do arquétipo do herói clássico, que deveria ser o agente sábio, corajoso e capaz de guiar a coletividade diante do caos.

No cenário retratado pelo artigo, o Brasil político está à deriva, numa nau comandada por figuras que não possuem a virtude heroica da sabedoria e do discernimento, mas que prolongam a crise e o caos, refletindo a perda ou mutação do herói tradicional em personagens caricaturais, incoerentes ou irresponsáveis.

A metáfora da nau também destaca a disputa interna por controle e poder entre os tripulantes, representando os conflitos sociais e políticos de um país fragmentado. Essa dispersão impede a unidade necessária para a superação de crises, evidenciando a ausência de um herói unificador.

Em oposição ao herói luminoso, a nau simboliza a anti máscara — as forças caóticas, incoerentes e destrutivas que ameaçam a organização social e a esperança de renovação.

O artigo sugere que, no Brasil atual, vivemos uma paródia ou uma tragédia dramática onde o herói está prestes a ser substituído pelo absurdo, pelo espetáculo da desordem e pela “nau de insensatos” sem rumo claro, implicando uma crise profunda da representação política e da autoridade.

A análise simbólica com base na "Nau dos Insensatos" como metáfora para o Brasil revela a crise do herói contemporâneo — a figura daquele que deveria guiar com sabedoria está comprometida, ausente ou caricatural. Essa metáfora dramatiza o momento de perda do rumo, da liderança responsável e do projeto coletivo, deixando a sociedade em uma condição de desafio para encontrar novos sentidos e renovação.

O artigo "Zé, o Messias" de Gaudêncio Torquato [https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/ze-o-messias/ ] utiliza a figura do herói messiânico para analisar criticamente a trajetória de Jair Bolsonaro, especialmente no contexto da tentativa frustrada de golpe de Estado e da crise política brasileira recente. Desde esse ponto de vista, é possível traçar uma análise do herói político como figura paradoxal, que mistura elementos clássicos do salvador com características ambíguas e contraditórias.

Bolsonaro é comparado ao Messias, ou a uma figura semelhante a Moisés que abriria o mar vermelho para salvar um povo. No entanto, essa “jornada heroica” se mostra um blefe — o herói não cumpre a missão salvadora, simbolizando um fracasso ou uma paródia do arquétipo heroico clássico, marcado pela desconexão entre promessa e realidade.

O artigo sugere que Bolsonaro exibe a máscara do herói salvador, mas sua anti máscara revela fracasso, confusão e crises internas, especialmente diante da ausência de apoio real e das maquinações ilegais em seu entorno. Essa dualidade é típica do herói contemporâneo, que pode ser ao mesmo tempo, mito e objeto de crítica.

A narrativa do herói que, desesperado, cai num poço profundo e não percebe a corda lançada para sua salvação é poderosa. Mostra-o como uma figura cega às oportunidades de redimir-se e presa a um destino de queda, simbolizando o bloqueio e a resistência a forças que poderiam restaurar a ordem democrática.

A figura do Messias mantém uma carga simbólica messiânica clássica — líder a ser seguido, salvador — incorporando mitos e esperanças em torno da identidade coletiva. Porém, na descrição do artigo, esse símbolo é desgastado e ironizado, denunciando a precariedade dos projetos políticos atuais.

Diferentemente do herói de Campbell, que enfrenta o caos para renascer e transformar, esse herói está preso na repetição dos erros, na luta de vão, e na incapacidade de ouvir os sinais para mudança.

A análise do texto mostra que o “Zé, o Messias” é um herói paradoxal: marcado por mitos de salvador, mas também por falhas e resistências que impedem a concretização de sua missão. Essa imagem ajuda a compreender a crise política brasileira como um conflito simbólico entre a figura idealizada do herói e a dura realidade da governança atualmente vivida.

O texto do artigo "Não há método na burrice"  [https://ptnosenado.org.br/nao-ha-metodo-na-burrice/ ]pode ser analisado a partir da perspectiva da teoria do herói, considerando as contribuições clássicas de Joseph Campbell, Carl Gustav Jung e Northrop Frye para as funções simbólicas dessa figura. Essa abordagem ajuda a entender a crise política e de liderança no Brasil descrita no artigo.

Campbell descreve o herói como aquele que realiza uma jornada de superação para trazer transformação e renovação à sociedade. No texto, porém, observa-se que o “herói” da atual conjuntura política brasileira — representado simbolicamente pelo governo citado — está ausente da sabedoria necessária e da competência para governar, caracterizando um herói disfuncional que não cumpre sua missão salvadora.

Jung destacaria que o herói precisa confrontar sua sombra para alcançar a individuação. No entanto, o artigo denuncia uma “ignorância ativa” e uma “burrice” que inviabilizam o autoconhecimento e a superação, revelando a sombra como negatividade não trabalhada que afeta o coletivo.

Frye fala da máscara como a identidade social idealizada do herói, enquanto a anti máscara expõe a face caótica, contraditória e destrutiva. O atual “herói” político, segundo o artigo, ostenta uma máscara de autoridade, mas revela-se frequentemente como anti máscara — um agente da desordem, da incoerência e do caos governamental.

A trajetória esperada do herói que enfrenta desafios, cresce e renasce está subvertida; o texto sugere desgoverno, improvisação e desorientação, que culminam na perda da legitimidade e na crise institucional.

A figura do herói disfuncional funciona como um alerta simbólico sobre o perigo de lideranças sem sabedoria e visão, que destroem o tecido social e institucional ao invés de promover a coesão e o progresso.

A partir da teoria do herói, o artigo revela a crise da função simbólica da liderança no Brasil contemporâneo, destacando a ausência de heróis tradicionais e o predomínio de figuras que, pela ignorância ativa e incompetência, aprofundam a crise social e política. Essa análise sugere a necessidade urgente de restaurar a figura do herói como agente de transformação positiva e responsável.

O editorial "O Brasil está nas mãos do demônio e é único na sua desgraça", de Mino Carta [https://www.cartacapital.com.br/opiniao/o-brasil-esta-nas-maos-do-demonio-e-e-unico-na-sua-desgraca/ ], pode ser analisado a partir do ponto de vista do herói para compreender a crítica à atuação política e à crise institucional que ele descreve.

O texto revela um cenário onde o herói clássico — aquele que representa sabedoria, coragem e capacidade de transformação — está ausente ou desacreditado na cena política brasileira. O governo Bolsonaro, aqui simbolizado por figuras que encenam uma pantomima da Commedia dell’Arte, falha em assumir o papel heroico de liderar a nação.

A referência aos Zanni e à pantomima destaca um herói que é, paradoxalmente, central, mas ridículo, cuja trajetória evoca elementos de ópera bufa — tragicômicos, exagerados e incoerentes — ao invés da jornada de superação e redenção típica do herói campbellista.

A máscara do herói governamental passa pela teatralidade, gestualismos e retóricas incoerentes, enquanto a anti máscara — as consequências reais da crise, as ineficiências e os escândalos — revelam a face sombria e desigual da liderança, contribuindo para a crise de legitimidade.

A ausência de um herói sólido e responsável cria um vácuo simbólico que reforça o clima de incerteza, caos e disputa pelo poder. O texto evoca essa crise da liderança como um momento ímpar de desorientação social e política, onde o mito heroico do salvador é desconstruído.

Do ponto de vista do herói, o editorial mostra que o Brasil vive uma crise simbólica onde o arquétipo do herói tradicional está em grave decadência. A liderança política falha em concretizar os ideais de sabedoria, coragem e transformação, configurando uma encenação tragicômica que amplia a crise institucional e social.

O artigo "Il Capitano Bolsonaro e mais de mil palhaços (sem graça) no salão" [https://www.cartacapital.com.br/politica/il-capitano-bolsonaro-e-mais-de-mil-palhacos-sem-graca-no-salao/ ] refere-se à encenação política ao estilo Commedia dell’Arte, enfatizando a teatralidade, a caricatura e o espetáculo na figura de Bolsonaro e seu entorno. A partir do ponto de vista do herói, essa análise pode ser aprofundada com base nas teorias clássicas do herói de Joseph Campbell, Carl Jung e Northrop Frye.

O herói aqui não é um salvador épico, mas um personagem de teatro popular, o Capitano Spavento (o Capitão Medo) da Commedia dell’Arte, que assume a máscara do herói valente, porém é um covarde e fanfarrão. Essa máscara simboliza a construção pública da figura heroica, que pode ser ilusória e contraditória ao mesmo tempo.

Como explica Frye, a máscara representa o ideal e a anti máscara revela o lado caótico e contraditório. Bolsonaro e seu governo, imitadores de palhaços e atores, exibem essa dualidade: enquanto se apresentam como heróis nacionais (máscara), suas ações expõem fragilidades e incoerências (anti máscara) que desconstroem o mito apoiador.

Campbell observa que o herói pode ser imperfeito, até mesmo cruel, mas deve exercer uma fúria heroica, ou seja, uma força que gera transformação. No caso, a fúria heroica aparece como uma energia disfuncional, que desestabiliza a ordem estabelecida não para renová-la, mas para criar um caos performático.

O herói é parte do espetáculo, onde a política se confunde com comédia e reality show — um campo simbólico onde o herói é um ator que desempenha papéis para alimentar emoções e cumprir agendas, nem sempre ligadas à verdade ou ao progresso real.

Essa figura heroica desconstruída, que brinca com o poder, reflete a crise da autoridade e da liderança genuína, ao substituir a jornada de crescimento por meras performances, divertindo-se com o espectador, mas sem oferecer um projeto de renovação.

Sob a ótica do herói, o texto destaca a mutação da figura heroica em um personagem teatral, um herói-palhaço que simboliza a encenação política contemporânea como espetáculo e crise, marcado por contradições, desordem e sentidos fragilizados. Essa análise elucidativa reforça a importância de se repensar a função simbólica da liderança e do mito heroico no contexto político atual.

O texto "País da casa-grande e da senzala mostra seu rosto verdadeiro", de Mino Carta [https://www.cartacapital.com.br/opiniao/pais-da-casa-grande-e-da-senzala-mostra-seu-rosto-verdadeiro/ ], pode ser enriquecido com uma análise do ponto de vista do herói, considerando a conhecida metáfora da "casa-grande e senzala" de Gilberto Freyre, que simboliza a estrutura social dual do Brasil — a elite dominante e os grupos historicamente subjugados, mas também a formação cultural mestiça do país.

O herói brasileiro contemporâneo precisa ser pensado na tensão histórica entre essas duas realidades simbólicas — a casa-grande, que representa o poder e a autoridade, e a senzala, que simboliza a resistência, a exclusão e a busca de identidade. A análise do texto revela que o herói não pode ser um representante exclusivo da casa-grande, mas deve dialogar com a complexa cultura híbrida e mestiça que moldou o Brasil.

O autor aponta que a figura do herói tradicional, como Macunaíma, não representa mais a complexidade atual do Brasil, especialmente na face da polarização política e das tensões sociais expostas no país. O herói precisa, portanto, se reinventar para abarcar essa multiplicidade social e racial, superando as divisões entre casa-grande e senzala.

Frente ao Brasil "demente" e polarizado descrito, o herói ostenta uma máscara pública de identidade nacional e soberania, mas a anti máscara revela fragmentação, exclusão e conflitos que ameaçam a unidade e a renovação do país. Essa tensão é fundamental para entender a crise política e social atual.

Herói como agente de reconciliação

A leitura sugere que o verdadeiro herói brasileiro deve emergir como figura capaz de mediar esses antagonismos, promovendo um projeto político e cultural inclusivo, que reconheça as raízes mestiças e a pluralidade das identidades, rompendo com o legado traumático da colonização e da escravidão.

Do ponto de vista do herói, o texto convoca uma reflexão sobre a necessidade de reinventar a figura heroica brasileira para poder ser agente de transformação social real, capaz de unir a nação em sua diversidade e complexidade, superando os antagonismos entre casa-grande e senzala. Essa perspectiva é chave para interpretar os desafios do Brasil contemporâneo.

Prolegômenos 

É interessante observar quem era os heróis de Bolsonaro, para que se possa compreender do que realmente estamos falando, quando se trata de conhecer o fenômeno de exaltação da extrema-direita no país e no mundo. 

É claro que se pode fazer comparações com a Alemanha hitlerista, ou a Itália fascista, enquanto movimento de massas que apoiaram ditadores, militarismo, sexismo, segregacionismo, preconceitos, intolerâncias, discriminações, sem abordar outros aspectos peculiares, como tipos de esoterismo, ausência de bioéticas, manipulações de todos os tipos, execuções de todos os tipos.

Mas a história não tem toda essa capacidade de ensinar a todos, ao mesmo e em todo o lugar, usando os mesmos exemplos e atitudes. 

E mesmo a própria história, concebida como um fazer de qualquer um, aceita o fim da razão, a manipulação ideológica, o mascaramento, teorias de conspiração, e tudo mais que alimentam o pensamento do senso comum, pouco crítico; e que precisam de uma explicação fácil, simples, simplória, para compreender a realidade cotidiana, o mundo em que se vive, que muda constantemente, muito mais que o pensamento tradicional, folclórico, conservador, gostaria de admitir. 

Então, o que está subentendido é que uma das questões colocadas para todos é a mudança do mundo em que vivemos, e como podemos compreender essas mudanças, num ambiente não muito sólido, mas bastante líquido, talvez pior, “que se desmancha no ar”.

Não é somente uma luta entre campo e cidade, num saudosismo sem fim, em idades do ouro que nunca existiram, em que o passado é glorificado na ausência de um presente mais feliz. 

E não se trata exatamente de destruições de instituições seculares, a olhos vistos, que inaugura humanidade, mas que nem todos estão preparados para isso. 

Há pesquisas que testemunham essas mudanças, inclusive tabulando a rapidez com que ocorrem, em tempos atuais. 

Por um lado temos novidades, em todos os setores, que impactam nossa vida, de maneira positiva, colocando a vida, em outros patamares. Não cabe citar todos eles, mas tem os mais evidentes, traduzidos em mudanças tecnológicas, que, desde a chamada revolução industrial da Inglaterra, já eram demonizadas, inclusive pela pungente e ressurgente classe operária. 

Mas a revolução industrial, como agora, não se resume em mudança tecnológicas, é muito mais. E o historiador, há muito, já esclareceu isso. 

Muitos elogiaram o capitalismo ressurgente, observando o quanto esse modo de produção abria caminhos inimagináveis para o desenvolvimento econômico, considerando especialmente o passado feudal, enquanto outro modo de produção. 

Usa-se a categoria de modo de produção porque melhor explica a totalidade, enquanto síntese de múltiplas determinações, no sentido de pré-condições, “sine qua non”, esse ou aquele desenvolvimento econômico possa ocorrer. 

Toda essa ideia de teoria ecônomo-politica, tem o sentido de tornar a humanidade sujeito de sua própria vida, com um instrumental teórico para poder compreender o mundo e como realmente se move. 

Existe um discurso de suspeita, de desmascaramento, de desvelamento, evidente, que é permanente, e não termina com essa ou aquela mudança econômica num lugar, ou tempo qualquer. 

Ninguém tem o estatuto da história, para afirmar que essa ou aquela mudança vai surtir o efeito desejado, pois a realidade, muita mais agora, é sempre dinâmica, inovadora, e a vida sempre é fértil, criativa, muito mais do que se pensa em qualquer tempo e espaço. 

Não há como lidar com a ideia de um sistema, ou um conjunto fechado, mas sem ter por norte que a história é um livro aberto. 

Pode-se tirar fotos da realidade, e tudo isso pode ser útil, para a interpretação da realidade, daí o valor da política, a qual é o campo natural onde as ideologias se desfazem e se refazem. 

Precisamos de heróis e mártires?

Antônio Roberto Soares foi um escritor e político brasileiro, nascido em Montes Claros em 20 de junho de 1942 e falecido em Belo Horizonte em 24 de março de 2022, vítima de leucemia. Ele foi deputado federal por Minas Gerais entre 2007 e 2015, filiado ao Partido Verde, e participou das Comissões de Meio Ambiente e de Cultura na Câmara dos Deputados. Formado em Filosofia, Direito e Administração de Empresas, também atuou como colunista e apresentador de rádio e TV. Publicou três livros sobre comportamento humano: “É Possível Ser Feliz”, “Eu te Compreendo” e “Relacionamentos”.   Ele teve formação em Filosofia, Direito e Administração de Empresas, além de cursos em Psicologia Organizacional e do Comportamento.  Foi escritor, colunista e apresentador, publicando três livros focados no comportamento humano.  Faleceu aos 79 anos, vítima de leucemia, em Belo Horizonte. [https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_Roberto_Soares ]. 

O texto de Antônio Roberto Soares, Psicólogo,  "O Herói", [https://www2.nenossolar.com.br/o-heroi/  ] aborda a figura do herói sob uma perspectiva simbólica e cultural, enfatizando seu papel como agente de transformação e superação de desafios no imaginário coletivo.

O herói representa a força capaz de romper com o estado atual das coisas, quebrar paradigmas e impulsionar mudanças profundas na sociedade ou no indivíduo. Herói é definido pela capacidade de enfrentar dificuldades e derrotar obstáculos, simbolizando o triunfo da vontade e coragem. A figura do herói permite inspirar outros, funcionando como um modelo a ser seguido em sua jornada de autoconhecimento e conquista. Antônio Roberto Soares remete à ideia de que o herói passa por um processo de morte simbólica e renascimento, o que é crucial para sua transformação e para o impacto que exerce na coletividade. O herói está relacionado a mitos ancestrais e padrões narrativos universais que atravessam culturas, funcionando como arquétipo presente em diversas tradições. Além do aspecto individual, o herói tem uma dimensão social, pois seu triunfo permite renovar e revitalizar valores e crenças compartilhadas. Essas ideias juntas apresentam o herói como figura-chave para entender processos de mudança cultural, psicológica e espiritual, valorizando sua relevância simbólica além do simples caráter biográfico ou histórico.  

O texto “O Herói”, de Antônio Roberto Soares, dialoga com concepções clássicas de herói presentes em autores como Joseph Campbell e Carl Gustav Jung, cuja teoria dos arquétipos e narrativas universais ilumina a compreensão simbólica dessa figura. Campbell identificou um padrão narrativo recorrente, a "jornada do herói", que atravessa culturas e mitologias. Antônio Roberto Soares enfatiza a transformação do herói por desafios e renascimentos, o núcleo desse monomito: partida, iniciação, retorno. A ideia de morte simbólica e renascimento no texto de Antônio Roberto Soares corresponde à etapa da “provação” e “apoteose” da jornada campbellista, momento em que o herói incorpora o aprendizado e retorna transformado. Campbell destaca que o herói significa mais que um personagem, representa valores universais que auxiliam a sociedade a processar seus conflitos e medos. Antônio Roberto Soares releva essa dimensão ao tratar o herói como modelo coletivo.

Para Jung, o herói é um arquétipo fundamental do inconsciente coletivo, símbolo da luta contra o mal, da superação interior e da busca pela individuação. Antônio Roberto Soares espelha isso ao apresentar o herói como mediador da transformação interior e social. O ciclo de morte e renascimento, destacado no texto, reflete o caminho junguiano de integração e superação do ego, em direção à consciência ampliada. O herói como figura que revitaliza valores e crenças comuns conecta-se à ideia junguiana de arquétipos, atuando como coordenadas para o inconsciente coletivo e a cultura.

Antônio Roberto Soares interpreta a figura do herói sob um viés simbólico-arquetípico que confirma e atualiza as teses de Campbell e Jung: o herói é um agente transformador que opera não só no nível pessoal (psicológico) mas também no social e cultural, promovendo renovação e esperança. Ao remeter ao ciclo de morte e renascimento, aproxima-se da hermenêutica psíquica que enraíza o herói na dimensão profunda do inconsciente coletivo. Dessa forma, a análise do herói como ícone narrativo e arquetípico reforça sua importância perene nas culturas humanas para representar a luta primária do ser humano pela superação e autotransformação.

Estrutura da Jornada do Herói vs. Processo de Individuação de Jung


| Aspectos da Jornada do Herói (Campbell) | Correspondências nos Conceitos Junguianos |

|-----------------------------------------|--------------------------------------------|

| Chamado à aventura: o herói é convocado a deixar o mundo conhecido para enfrentar desafios. | Representa a emergência do impulso inconsciente, o início do caminho para a individuação, que exige abandonar zonas confortáveis do ego. |

| Recusa do chamado: hesitação inicial diante do desconhecido. | Resistência do ego consciente a mudanças internas profundas, medo da transformação psíquica. |

| Encontro com o mentor: figura que oferece sabedoria e ferramentas para a jornada. | Arquétipo do sábio ou velho, manifestação do Self auxiliando o ego a integrar conteúdos inconscientes. |

| Travessia do limiar: passagem para um mundo novo, simbólico e desafiador. | Entrada nas regiões do inconsciente, confrontação com sombras e conteúdos reprimidos. |

| Provação e abismo: o herói enfrenta sua maior crise, morte simbólica. | Confronto com a sombra (aspectos negados da psique), momento crucial do processo de individuação onde o ego é dissolvido e reconstruído. |

| A recompensa (elixir): conquista de um conhecimento novo ou poder. | Integração de conteúdos reprimidos e manifestação do Self, ganho de consciência ampliada e equilíbrio psíquico. |

| Retorno: retorno ao mundo comum com transformação evidente. | Reintegração do ego transformado, capaz de agir em harmonia com o Self e influenciar positivamente o coletivo. |

Campbell: A viagem do herói restaura a ordem simbólica e oferece modelos universais de superação, sustentando mitos que estruturam culturas.

Jung: O arquétipo do herói serve como manifestação do inconsciente coletivo, orientando comportamento e valores sociais, funcionando como ponte entre psique individual e cultural.

Para Antônio Roberto Soares, a morte simbólica do herói significa a ruptura do velho eu, representando a crise existencial e psíquica enfatizada por Jung, enquanto o renascimento alude à renovação da consciência, presente como “retorno com o elixir” em Campbell. Essa dialética é fundamental para os dois autores.

Ambos os modelos se articulam para explicar a figura do herói como processo interno de transformação radical com impacto externo na cultura. Campbell focaliza a estrutura narrativa dos mitos, e Jung, o dinamismo psíquico arquétipo coletivo, fornecendo uma base teórica à simbologia que Antônio Roberto Soares explora.

Esse cruzamento aprofunda o entendimento do herói como símbolo de mudança vital, expressão do inconsciente coletivo e catalisador da renovação cultural e psicológica.

“O Herói de Mil Faces” (The Hero with a Thousand Faces, 1949):  Campbell explora o padrão universal da Jornada do Herói ou monomito, detalhando suas fases como chamado à aventura, iniciação, provação, apoteose e retorno. O livro é a principal fonte para entender a estrutura narrativa que permeia mitos e contos de diversas culturas. “A estrutura do mito é o caminho do herói; o herói é quem se dispõe a abandonar o mundo certo e se lança um desafio na aventura do desconhecido”. (Capítulo 1, "O Monomito").

“O Homem e seus Símbolos” (2016): Neste livro, Jung discute a natureza dos arquétipos e seu papel na psique coletiva, destacando o arquétipo do herói como representação da luta interna contra as forças da sombra para alcançar a individuação. “O herói representa o processo de individuação, a luta do ego para integrar os conteúdos do inconsciente que o ameaçam e transformam”. (capítulo “Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”).

O texto “O Herói”, de Antônio Roberto Soares,  pode ser lido à luz dessas referências como uma síntese acessível do processo mítico e psicológico do herói que Campbell descreve como jornada e Jung como individuação.

Assim, o texto de Antônio Roberto Soares expressa a ideia de que o herói não é só figura externa, mas encarna o processo psíquico de integração e transformação descrito por Jung. Antônio Roberto Soares sintetiza a jornada externa (campbellista) e a interna (junguiana) do herói, enfatizando a passagem decisiva pela crise de morte-renascimento.  A função do herói como modelo coletivo é enfatizada tanto no texto quanto nas obras estudadas, marcando seu papel simbólico transformador para a cultura e a psique.  Essa articulação confirma que “O Herói” de Antônio Roberto Soares representa uma leitura contemporânea e simbólica do arquétipo clássico, fundamentada nas teorias mitológicas e psicanalíticas.

O texto “O Herói” de Antônio Roberto Soares  propõe uma leitura simbólica e transformadora da figura do herói, que pode ser aprofundada por meio das teorias mitológicas de Joseph Campbell e dos conceitos psicanalíticos de Carl Gustav Jung. A análise crítica revela uma intersecção entre a narrativa estruturante da jornada mitológica e a dinâmica psicológica da individuação, oferecendo uma compreensão multifacetada do herói como agente de transformação tanto pessoal quanto social.

Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces (2000), destaca a jornada do herói como um padrão universal que atravessa culturas, constituído por etapas essenciais: o chamado à aventura, a travessia do limiar, a provação, a conquista do elixir e o retorno transformado. O texto de Antônio Roberto Soares ecoa essa perspectiva ao afirmar que o herói rompe paradigmas e promove mudanças profundas. Essa afirmação reflete a característica campbellista do herói como protagonista que enfrenta o desconhecido e transforma o mundo e a si. 

A articulação entre Campbell e Jung no texto de Antônio Roberto Soares realça que o herói atua simultaneamente em duas dimensões: uma narrativa-mítica, como estruturante da cultura e dos mitos compartilhados, e outra psíquica, como processo interno de autoconhecimento e superação. Essa dupla dimensão faz do herói um agente que inspira o coletivo enquanto atravessa sua própria crise existencial.

Assim, Antônio Roberto Soares propõe uma leitura integrada do herói, que assume sua função emblemática para representar ciclos universais de ruína e renovação, conectando a simbólica mitológica do chamado e provação do herói (Campbell) com a transformação psíquica da individuação junguiana. Essa articulação reforça o valor do herói como figura que catalisa tanto a mudança social quanto o processo subjetivo de autotranscendência.

Northrop Frye (teórico literário, sobre herói e mito):  sugere que, numa paráfrase,  “O herói é a encarnação da ordem cultural, que renova as estruturas sociais ao enfrentar o caos.”  (Frye, Anatomia da Crítica, 1957); apoia a função social e cultural do herói, conforme destacado em Antônio Roberto Soares e Campbell.

A ideia de que "o herói é a encarnação da ordem cultural, que renova as estruturas sociais ao enfrentar o caos" está tratada especialmente na seção do livro que discute a classificação das ficções pela força e condição do herói na narrativa.

Em particular, essa concepção está espelhada nas passagens sobre o herói em diferentes modos imitativos, onde Frye apresenta: O herói como ser divino superior tanto aos homens quanto ao meio (mito). O herói como figura que age em um mundo de maravilhas (romance/romanesco). O herói do modo imitatório elevado, próprio da epopeia e tragédia, dotado de autoridade e poderes maiores, que enfrenta desafios com coragem, fazendo crítica social e reafirmando a ordem natural — isto refere-se à função do herói como renovador da ordem cultural frente ao caos.

Embora a citação direta não esteja no trecho, o conceito se forma nos capítulos que discutem os papéis do herói e do mito, mostrando como o herói assume papel central na tensão entre ordem e desordem na narrativa, uma ideia fundamental para a teoria de Frye em Anatomia da Crítica.

Cinco modos da ficção conforme a “Teoria dos Modos” presente no Primeiro Ensaio de Anatomia da Crítica de Northrop Frye

Northrop Frye parte da análise aristotélica sobre as diferenças nas obras de ficção relacionadas à posição e caráter das personagens, especialmente do herói, para desenvolver uma classificação dos modos literários baseada na força de ação e status do herói em relação aos outros homens e seu meio.

1. Modo Mítico: O herói é um ser superior tanto aos outros homens quanto ao seu meio natural, ou seja, um deus ou semideus. As histórias são mitos, envolvendo divindades e acontecimentos extraordinários que excedem as regras da realidade comum. Essas narrativas estão fora das categorias normais da literatura comum, ao atuarem num plano altamente estilizado e simbólico.

2. Modo Romanesco: O herói é superior aos outros homens, mas não completamente divino. Trata-se do herói do romance ou da lenda, cuja ação inclui maravilhas e elementos fantásticos, como animais falantes e magia, mas num universo coerente com suas próprias regras internas. Aqui a ação prodigiosa é aceita porque faz parte dos pressupostos da ficção romanesca.

3. Modo Imitativo Elevado: O herói é superior aos outros homens, mas está sujeito ao seu meio natural, ou seja, suas ações respeitam a crítica social e as leis naturais. Exemplos típicos são os heróis das tragédias e epopeias, onde a figura do herói exerce forte paixão e autoridade, ao mesmo tempo, ligada a valores humanos mais amplos e reconhecíveis,.

4. Modo Imitativo Baixo: O herói é um indivíduo comum, “um de nós”, que não excede em nenhum aspecto as pessoas normais. Aqui a verossimilhança e a humanidade comum regem a narrativa, sendo o modo típico da comédia e da ficção realística. A distinção entre "alto" e "baixo" é meramente formal, sem julgamento de valor.

5. Modo Irônico: O herói é inferior em poder ou inteligência ao leitor, visto sob um olhar crítico que enfatiza a fraqueza, o fracasso ou o absurdo da condição humana. Existe uma distância irônica entre o leitor e a personagem, que está sendo julgada com independência, ainda que possa haver empatia situacional. Esse modo é característico da comédia irônica e do romance crítico.

Em suma, Frye organiza os modos da ficção em um continuum que vai desde o herói divino e mitológico até o herói irônico e fracassado, estruturando a literatura segundo a natureza da ação do herói e sua relação com o mundo e o leitor. Esse sistema permite entender as variações temáticas e éticas dos textos literários, situando-os em um esquema que equilibra verossimilhança, ação e valores culturais,,.

Northrop Frye expõe uma análise histórica e estrutural da evolução da ficção europeia ao longo dos últimos quinze séculos.

Primeiro, ele observa que a ficção europeia "desceu seu centro de gravidade", ou seja, passou por um processo de deslocamento das formas literárias predominantes em direção a modos literários menos elevados, começando com a forte presença da literatura ligada a mitos cristãos, clássicos tardios, célticos e teutônicos na literatura pré-medieval. Aqui, o cristianismo, como mito importado e dominante, influenciou fortemente essa fase, que hoje compreenderíamos na categoria da estória romanesca.

A história romanesca divide-se em duas formas principais:

1. Secular — relacionada à cavalaria e ao paladinismo (heróis cavaleiros, ideais de heroísmo e honra).

2. Religiosa — dedicada às lendas de santos, ambas baseadas em "miraculosas violações da lei natural".

Essas formas romanescas dominaram a literatura até o Renascimento, quando surgiu o culto do príncipe e do cortesão, e o modo imitativo elevado predominou, especialmente no drama (tragédia) e na epopeia nacional. O modo imitativo elevado valoriza a imitação da natureza e uma representação idealizada da realidade.

Com a crescente ascensão da classe média, foi introduzido o modo imitativo baixo, que dominou a literatura inglesa desde Defoe até o fim do século XIX, e que privilegia a representação do cotidiano e das classes mais comuns, com maior simplicidade e verossimilhança próxima da realidade comum.

Na literatura francesa, essa fase do imitativo baixo começou e terminou aproximadamente cinquenta anos antes da inglesa.

Nos últimos cem anos de sua análise (até o século XX), a ficção mais séria tem seguido predominantemente o modo irônico, caracterizado por uma atitude crítica, distanciada, que questiona a realidade apresentada e o herói, muitas vezes vendo-o com uma perspectiva algo superior (regida por ironia).

Frye comenta também diferenças entre tradições literárias e religiosas: em sociedades politeístas e mitológicas, como a antiga Grécia, com seus deuses e heróis deificados, é difícil separar claramente as categorias mítica, romanesca e imitativa elevada, dada a mistura do divino e humano. Já em tradições teológicas, como a cristã, que mantêm uma clara distinção entre o divino e o humano, o modo romanesco se destaca com maior autonomia, por exemplo, nas histórias de cavalaria e santos.

Northrop Frye remarca que o mundo clássico não conseguiu se livrar do "líder divino" em seu período tardio, refletindo também o desenvolvimento "imaturo" nos modos imitativo baixo e irônico, que tiveram início na literatura com elementos como a sátira romana.

O estabelecimento do modo imitativo elevado, representado sobretudo pela literatura grega, é vista como uma grande conquista civilizacional, estabelecendo uma tradição literária coerente baseada em uma ordem natural.

Além disso, Frye apresenta as distinções entre literatura "ingênua" e "exigente" em cada modo: a literatura ingênua é aquilo que ele toma do ensaio de Schiller como primitivo ou popular, enquanto a literatura exigente ("sentimental", no uso de Northrop Frye) é uma recriação posterior e mais reflexiva de modos literários mais antigos. Por exemplo, o Romantismo é um modo "sentimental" do romanesco, revisitando e recriando sua forma idealizada.

Finalmente, Frye assinala uma importante distinção entre ficções onde o herói se isola da sociedade (relacionadas ao trágico) e aquelas em que o herói se incorpora à sociedade (relacionadas ao cômico). Essas categorias atuam como aspectos gerais do enredo e não somente como formas dramáticas.

Northrop Frye oferece um panorama histórico da transformação dos modos literários na ficção ocidental, destacando seus períodos, características centrais, e as dinâmicas sociais e religiosas que influenciaram essa evolução, assim como uma explicação sobre as nuances entre modos ingênuos e sentimentais e a relação do herói com sua sociedade.

PRIMEIRO ENSAIO. CRÍTICA HISTÓRICA: TEORIA DOS MODOS. MODOS DA FICÇÃO: PREÂMBULO.

No capítulo segundo da Poética, Aristóteles fala das diferenças nas obras de ficção, causadas pelas diferentes posições das personagens. Nalgumas ficções, diz ele, as personagens são melhores do que nós, em outras piores, em outras ainda ficam no mesmo plano. Esta passagem não tem recebido muita atenção por parte dos críticos modernos, pois a importância que Aristóteles atribui à bondade e à maldade parece indicar uma visão, até certo ponto, estreitamente moralística da literatura. As palavras de Aristóteles para bom e mau, contudo, são ‘spoudaios’ e ‘phaulos’, que têm um sentido figurado de “importante” e "sem importância". Nas ficções literárias o enredo consiste em alguém fazer alguma coisa. O alguém, se indivíduo, é o herói, e a alguma coisa que ele faz ou deixa de fazer é o que ele pode fazer em podia ter feito, no plano dos pressupostos estabelecidos, para ele, pelo autor, e das consequentes expectativas da audiência. As ficções, portanto, podem ser classificadas, não moralmente, mas pela força de ação do herói, que pode ser maior do que a nossa, menor ou mais ou menos a mesma. Assim:

1. Se superior em condição tanto aos outros homens como ao meio desses outros homens, o herói é um ser divino, e a estória sobre ele será um mito, no sentido comum de uma estória sobre um deus. Tais estórias ocupam um lugar importante em

literatura, mas como regra situam-se fora das categorias literárias normais.

2. Se superior em grau aos outros homens e seu meio, o herói é o típico herói da estória romanesca, cujas ações são maravilhosas, mas que em si é identificado como um ser humano. O herói da estória romanesca move-se num mundo onde as leis comuns da natureza se suspendem ligeiramente: prodígios de coragem e persistência, inaturais para nós, são naturais para ele, e armas encantadas, animais que falam, gigantes e feiticeiras pavorosos, bem como talismãs de miraculoso poder,

não violam regra alguma de probabilidade, uma vez que os pressupostos da estória romanesca foram fixados. Aqui passamos do mito propriamente dito para a lenda, o conto popular, o ‘märchen’ e suas filiações e derivados literários.

3. Se superior em grau aos outros homens, mas não a seu meio natural, o herói é um líder. Tem autoridade, paixões e poderes de expressão muito maiores do que os nossos, mas o que ele faz sujeita-se tanto à crítica social como à ordem da natureza. Esse é o herói do modo imitativo elevado, da maior parte da epopeia e da tragédia, e é fundamentalmente a espécie de herói que Aristóteles tinha em mente.

4. Não sendo superior aos outros homens e seu meio, o herói é um de nós: reagimos a um senso de sua humanidade comum, e solicitamos ao poeta os mesmos cânones de probabilidade que notamos em nossa experiência comum. Isso nos dá o herói do modo imitativo baixo, da maior parte da comédia e da ficção realística. "Elevado" e "baixo" não têm conotações de valor comparativo, mas são puramente diagramáticos, como "high" e "low" o são, quando se referem aos críticos bíblicos ou aos anglicanos. Neste plano, a dificuldade de manter a palavra "herói", que tem um sentido mais limitado nos modos precedentes, ocasionalmente impressiona algum autor. Assim, Thackeray sente-se obrigado a chamar Vanity Fair um romance sem herói.

5. Se inferior em poder ou inteligência a nós mesmos, de modo que temos a sensação de olhar de cima uma cena de escravidão, malogro ou absurdez, o herói pertence ao modo irônico. Isso é verdade mesmo quando o leitor sente que está ou podia estar na mesma situação, pois a situação está sendo julgada com maior independência. 

Examinando esse rol, podemos ver que a ficção europeia, durante os últimos quinze séculos, desceu constantemente seu centro de gravidade, lista abaixo. No período da literatura pré-medieval, prende-se ela estreitamente aos mitos cristãos, clássicos tardios, célticos ou teutônicos. Se o cristianismo não tivesse sido tanto um mito importado como um devorador de rivais, essa fase da literatura ocidental seria mais fácil de isolar. Na forma onde a possuímos, sua maior parte já passou para a categoria da estória romanesca. A estória romanesca divide-se em duas formas principais: uma forma secular, que trata da cavalaria e do paladinismo, e uma forma religiosa, devotada às lendas de santos. Ambas apoiam-se pesadamente em miraculosas violações da lei natural, para beneficiar-se como estórias. As ficções romanescas dominam a literatura até o culto do príncipe e do cortesão, no Renascimento, trazer ao primeiro plano o modo imitativo elevado. As características desse modo são clarissimamente vistas nas espécies do drama, particularmente na tragédia, e na epopéia nacional. Depois, um novo tipo de cultura da classe média introduz o imitativo baixo, que, na literatura inglesa, predomina do tempo de Defoe até o fim do século XIX. Na literatura francesa, começa e termina cerca de cinquenta anos antes. Durante os últimos cem anos, a ficção mais séria tendeu crescentemente a ser do modo irônico. Algo da mesma progressão pode ser também acompanhado

na literatura clássica, de forma grandemente reduzida. Onde uma religião é mitológica e politeísta, onde há corporificações promíscuas, heróis deificados e reis de descendência divina, onde o mesmo adjetivo "divino" pode ser aplicado a Zeus ou a Aquiles, dificilmente se poderá separar completamente as faixas mítica, romanesca e imitativa elevada. Onde a religião é teológica e acentua uma divisão pronunciada entre as naturezas divina e humana, o romanesco se isola mais claramente, como se vê nas lendas da cavalaria e da santidade cristãs, nas Mil e Uma Noites muçulmanas, nas estórias dos juízes e dos profetas taumaturgos de Israel. Semelhantemente, a incapacidade do mundo clássico, de livrar-se do líder divino, em seu período tardio, tem muito em comum com o desenvolvimento imaturo dos modos imitativo, baixo e irônico, que mal se iniciaram com a sátira romana. Ao mesmo tempo, a instituição do modo imitativo elevado, o desenvolvimento de uma tradição literária com o sentido coerente, dentro dela, de uma ordem da natureza, é uma das grandes façanhas da civilização grega. A ficção oriental, tanto que eu saiba,

não se afasta muito das fórmulas mítica e romanesca. Cuidaremos aqui principalmente das cinco épocas da literatura ocidental, como atrás demarcadas, usando paralelos clássicos somente incidentalmente. Em cada modo será útil uma distinção entre a literatura ingênua e a exigente. A palavra "ingênuo", tomo-a do ensaio de Schiller sobre a poesia ingênua e sentimental: quero dizer com ela, contudo, primitivo ou popular, enquanto em Schiller soa um tanto mais como clássico. A palavra "sentimental" também significa algo mais em inglês, mas não temos bastantes termos críticos genuínos para prescindir dela. Com aspas, portanto, "sentimental" se refere a uma recriação posterior de um modo mais antigo. Assim, o Romantismo é uma forma "sentimental" do romanesco, e o conto de fadas, na maior parte, uma forma "sentimental" do conto popular. Há também uma distinção geral entre ficções nas quais o herói se isola de sua sociedade, e ficções nas quais ele se incorpora nela. Esta distinção é exprimida pelas palavras "trágico" e "cômico", quando se referem a aspectos do enredo em geral e não simplesmente a formas de drama. (pp. 39–42)


Jan Vansina em 2010 destaca que a tradição, especialmente a oral, tende a idealizar pessoas e eventos, criando estereótipos paradigmáticos e místicos que nem sempre correspondem à “verdade histórica”. Estas idealizações funcionam como modelos de comportamentos e valores, como o “rei mágico”, o “rei justo” ou o “rei guerreiro”, sendo figuras estereotipadas e facilmente reconhecíveis. Vansina explica que essa distorção dos fatos não é exclusiva do Ocidente, mas comum em várias sociedades. O "herói cultural" é uma dessas figuras estereotipadas que simboliza a transformação do caos em ordem social, onde o caos é descrito como um mundo “às avessas”, uma realidade invertida e desorganizada. Esse processo de criação de estereótipos paradigmáticos permite conservar a tradição e reforçar a memória coletiva, oferecendo modelos de identidade e legitimidade social. Em resumo, Vansina destaca que:  A tradição oral constrói narrativas que tendem à idealização e à mitificação; essas narrativas criam figuras estereotípicas para facilitar a identificação e a função social;  O “herói cultural” é um arquétipo dessas narrativas, representando a ordem que emerge do caos social;  A noção de caos simboliza uma desordem que só pode ser superada pela ação do herói. Essa visão crítica e antropológica ajuda a entender como a memória coletiva e a tradição constroem o passado e os mitos sociais, mesmo que nem sempre reflitam a história factual.

Jan Vansina (2010, p. 152) explica que a tradição, sobretudo nas narrativas orais e culturais, tende a idealizar personagens e eventos, criando estereótipos paradigmáticos e mitificados, independentemente da exatidão histórica. Estes estereótipos funcionam como modelos culturais para comportamentos e valores, como os arquétipos associados a reis ou líderes — o “mágico”, o “justo”, o “guerreiro” — que facilitam a identificação social e reforçam a legitimidade simbólica.

Vansina aponta que essa idealização pode distorcer fatos (como guerras realizadas por outras pessoas serem atribuídas a reis guerreiros), e essa prática é comum em diversas sociedades, não somente na ocidental. Um exemplo é o “herói cultural”, figura estereotipada que simboliza a transformação do caos social — concebido como um mundo às avessas e desordenado — em uma sociedade organizada. Assim, Vansina ressalta que as tradições criam narrativas paradigmáticas que, mesmo sem serem historiograficamente precisas, cumprem uma função social importante: dão sentido ao passado coletivo e fornecem modelos para identidade cultural e ação social, evidenciando a relação entre mito, memória e poder cultural.

A tradição sempre idealiza; especialmente no caso de poemas e narrativas. Ela cria estereótipos populares. Toda história tende a tornar-se paradigmática e, consequentemente, mítica, seja o seu conteúdo “verdadeiro” ou não. Assim, encontramos modelos de comportamentos ideais e de valores. Nas tradições de reis, os personagens tornam-se estereotipados, como num western, e, portanto, facilmente identificáveis. Um rei é o “mágico”, outro governante é o “justo”, outra pessoa é o “guerreiro”. Mas isso distorce a informação; algumas guerras, por exemplo, são atribuídas ao rei guerreiro, quando as campanhas foram de fato conduzidas por outrem [...] Também não é difícil encontrar estereótipos de diferentes personagens, especialmente de líderes, em outras sociedades. É o caso do “herói cultural”, frequentemente encontrado, que transforma o caos numa sociedade bem ordenada. A noção estereotipada de caos é, no caso, a descrição de um mundo literalmente às avessas. (VANSINA, 2010, p. 168). 

[VANSINA, Jan. “A tradição oral e sua metodologia”. In: KI-ZERBO, Joseph (editor).História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. Brasília: 2.ed.UNESCO, 2010. https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/57180896/VANSINA__1982_-_A_tradicao_oral_e_sua_metodologia-libre.pdf?1534197330=&response-content-disposition=inline%3B+filename%3DVANSINA_1982_A_tradicao_oral_e_sua_metod.pdf&Expires=1757902486&Signature=KmMwDKoRXKV0oGPDoMWjJ9XO9NbgPB0PWO0iXgU59smQ77Lk~UZ2nB6DvMu6H1DHdULB9eKOoOT3ifK4mlgBvMzfP1oZReIuVPwnj4BsH1ZVdzp2YYiKrAcSvGVlTHZHstkzBlVxsU4KO3tmyF3KNAZgy2QaNdSQ7cg6g9xKHMwPWz7OgTiIChtLc-XZsqnASg~2YenZUX7xpcRbzBmHOSEWw~~qscDKVDWI4-4nSZn3E8fS-o68OBfj34nReX17zV4cNyxGEvrWCMK~aIHvNMq5NqkCl1C3XTr6RM6YuSPPwn7TdEvFmBZ5TS2g31kBiHQLdL6ynL39nEREAF4eTQ__&Key-Pair-Id=APKAJLOHF5GGSLRBV4ZA ]. [Citado por: UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS. Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. IGOR FERNANDO XANTHOPULO CARMO. DIMENSÕES DO HERÓI MOÇAMBICANO EM AS ANDORINHAS DE PAULINA CHIZIANE. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientadora: Prof.ᵃ Dr.ᵃ Rosangela Sarteschi. São Paulo, 2014, p. 26. https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8156/tde-29072015-143237/publico/2014_IgorFernandoXanthopuloCarmo_VOrig.pdf#page=159.83 ].


Os “Heróis” de Bolsonaro

João Filho [https://www.intercept.com.br/2019/03/03/todos-os-herois-de-jair-bolsonaro/ ] critica a admiração do presidente Jair Bolsonaro por diversos ditadores e torturadores da história, como Alfredo Stroessner, Augusto Pinochet e Alberto Fujimori. Relata eventos em que Bolsonaro elogiou figuras históricas conhecidas por violações de direitos humanos, indicando uma normalização da exaltação a regimes autoritários. Destaca as atrocidades cometidas por esses líderes, como tortura, assassinato e abuso sexual, ressaltando especificamente o legado negativo que deixou em seus respectivos países. Menciona a declaração de Bolsonaro em favor da tortura, sugerindo uma conexão entre suas opiniões e a glorificação de figuras que praticaram essas ações. Analisa a justificativa comum usada por Bolsonaro de que a violência era necessária para manter a ordem, desconsiderando o sofrimento humano e a moralidade dessas ações. Discute o impacto que esses discursos e homenagens têm sobre a sociedade brasileira, refletindo uma falta de consciência sobre a história e suas implicações atuais. Esses pontos reforçam uma crítica à ideologia política de Bolsonaro e seu papel na promoção de narrativas que glorificam a violência e a opressão.

O texto do Intercept Brasil sobre “Todos os heróis de Jair Bolsonaro” https://www.intercept.com.br/2019/03/03/todos-os-herois-de-jair-bolsonaro/  permite uma análise crítica da figura do herói a partir de sua exaltação pelo presidente brasileiro, revelando um perfil controverso do que é instituído como modelo heroico.

Bolsonaro exalta figuras que historicamente são tratadas como ditadores violentos, torturadores e assassinos, como Alfredo Stroessner, Augusto Pinochet, Fujimori e coronéis do regime militar brasileiro. Isso subverte a imagem tradicional do herói como modelo moral e símbolo de superação positiva. O grupo exaltado simboliza a ordem social imposta pela força bruta, repressão, tortura e controle autoritário, refletindo uma concepção de herói que valoriza o autoritarismo como meio de “resgatar a ordem” frente ao “caos” social. Essa definição se distancia do herói clássico que inspira transformação ética e emancipação. O “herói” bolsonarista é um estereótipo de força que justifica práticas abomináveis como tortura, assassinatos e repressão de opositores, invertendo o sentido heroico tradicional e criando um mito político em torno da violência institucionalizada. A figura desses líderes pode ser vista como uma anti máscara (termo usado em crítica literária e simbólica), uma máscara arquetípica que desponta nas formas mais sombrias e extremas da figura do poder, uma orgia de violência inversa à idealização heroica de coragem e justiça. Bolsonaro constrói um imaginário heroico que reforça suas bases políticas, criando uma identidade coletiva marcada pela exaltação da força autoritária e pela rejeição de valores democráticos e direitos humanos, com forte impacto na polarização social.

Do ponto de vista mítico, a análise revela que Bolsonaro reinterpreta o conceito de herói político incorporando figuras que operam uma hegemonia pelo terror, invertendo a função tradicional do herói como símbolo de libertação, justiça e superação. Essa escolha expressa um imaginário cultural autoritário onde o “herói” é conotado pelo controle violento, pela repressão e pela manutenção de uma ordem excludente e brutal.

Essa construção mitológica do herói pode ser compreendida como um fenômeno social que legitima práticas de violência institucional e rechaça a memória histórica dos abusos dos regimes exaltados, afirmando uma visão de mundo marcada pela polarização extrema e pelo culto à força.

A análise da figura do herói no contexto da influência de Enéas Carneiro sobre Jair Bolsonaro, conforme o artigo da Carta Capital [https://www.cartacapital.com.br/politica/meu-nome-e-eneas-lenda-da-extrema-direita-influenciou-bolsonaro-diz-le-monde/ ], revela importantes aspectos sobre como o herói é construído e mobilizado na extrema-direita brasileira.

Enéas Carneiro é exaltado por Bolsonaro como um “herói da pátria”, uma personalidade “firme e corajosa”, que nunca cedeu à pressão e que representaria um exemplo político a ser seguido. Essa construção o posiciona como um modelo de força e determinação para a ação política conservadora e nacionalista. O bordão icônico “Meu nome é Enéas” simboliza não só uma marca de reconhecimento, mas um chamado para identificação coletiva com um herói que se apresenta como outsider e contestador de uma ordem política vigente percebida como “podre” e “antipatriótica”. Bolsonaro se apropria desse mito, reforçando a própria figura como continuidade dessa luta. Enéas é associado à ideia de mérito pessoal, inteligência e competência, elementos valorizados por Bolsonaro. O herói é um símbolo de uma meritocracia “à brasileira”, que rejeita elites tradicionais e aspira a um conservadorismo forte e autoritário. Tanto Enéas quanto Bolsonaro mobilizam narrativas de combate a ameaças internas e externas — comunismo, estrangeiros interessados na Amazônia, elites corruptas —, fazendo do herói uma figura que defende a nação contra essas forças. Esse aspecto fortalece a polarização e a identificação com um herói-guerrilheiro da ordem idealizada. A reverência pública a Enéas, inclusive com tentativas de oficializar sua memória, serve para Bolsonaro consolidar sua base social e discursiva, ancorada em mitos de resistência e controle, ligando sua ação a uma linhagem de valores e combatividade.

A figura do herói que Bolsonaro projeta com base em Enéas remete à ideia campbellista do herói-arquetípico como aquele que enfrenta o caos social e reinstitui a ordem, porém com uma forte conotação autoritária.   Esse herói é construído como um paradigma que simboliza a luta contra o “inimigo interno” e externo, reforçando a identidade do grupo político e sua narrativa de renovação.  A mitologia do herói dessa linha política enfatiza características como coragem, firmeza e luta contra o mal coletivo, elementos que se alinham com a função social do herói como símbolo reforçador de valores e coesão.

A figura do herói na política brasileira pode ser entendida a partir da metáfora da máscara e anti máscara, que ajuda a explicar como os líderes são simbolicamente construídos e percebidos no imaginário social.

A máscara é o papel público e idealizado que o herói político desempenha, geralmente associado a virtudes como coragem, justiça, defesa da ordem e liderança. No Brasil, líderes como Lula, Sergio Moro e outros foram representados em máscaras em manifestações, simbolizando sua popularidade, autoridade ou oposição. Essas máscaras projetam um ideal coletivo, muitas vezes simplificado, facilitando a identificação e mobilização social. A anti máscara é a desconstrução da máscara idealizada, mostrando aspectos ocultos, perversos ou contraditórios do herói. No caso da política brasileira, algumas figuras exaltadas como heróis têm suas faces sombrias reveladas por denúncias de corrupção, violência ou autoritarismo, causando rupturas na imagem pública e críticas sociais. Diferente de uma imagem unívoca, as figuras políticas brasileiras carregam máscaras múltiplas e, às vezes, polarizadas (ex: Lula como herói e vilão em diferentes manifestações). Isso reflete a complexidade do papel simbólico e o uso da máscara como instrumento retórico e emocional na disputa política. O uso das máscaras e codinomes enfatiza que a política brasileira frequentemente se desenrola como um espetáculo onde a construção da identidade heroica é central para o poder e a legitimação.

Bolsonaro e Enéas também podem ser entendidos como figuras que explicitam a construção da máscara de herói autoritário, enfatizando a força, a ordem e o combate ao “inimigo”. A anti máscara desses heróis aparece nas críticas ao autoritarismo, às violações de direitos e à reinterpretação distorcida do arquétipo clássico.

Na política brasileira, a figura do herói se manifesta por meio das metáforas da máscara e da anti máscara, conceitos essenciais para compreender a construção simbólica e imaginária dos líderes e seus seguidores. A máscara heroica representa o papel idealizado desempenhado pelo líder, que esconde suas contradições e potencializa suas virtudes percebidas pela coletividade. A anti máscara, por sua vez, revela esse idealismo como uma construção passível de retorno, expondo as sombras, conflitos e a violência associada à figura pública.

No Brasil contemporâneo, figuras como Jair Bolsonaro e Enéas Carneiro ilustram essa complexa dinâmica simbólica. A máscara heroica que projetam é a do líder firme, corajoso, nacionalista e combatente contra o “caos” e as “ameaças” — corporificados em inimigos internos e externos. Essa construção é parte de um mito político que reforça a coesão da base e legitima a identidade autoritária.

Porém, a anti máscara desse herói político revela lados sombrios: a intolerância, o autoritarismo, a exaltação de torturadores e regimes repressivos, associando a ordem defendida à violência institucionalizada e exclusão social. Essa tensão figura como um conflito simbólico entre a promessa de renovação e o espectro da opressão.

Assim, a máscara e a anti máscara se inscrevem como instrumentos para entender a construção política do herói no Brasil: ambas coexistem em permanente disputa, refletindo o modo como líderes são simultaneamente idealizados e contestados, exaltados e vilipendiados, inspiradores e temidos.

O artigo "Entre máscaras e armas, Brasil de Bolsonaro escolhe seus heróis" [https://www.brasildefato.com.br/2020/06/03/artigo-entre-mascaras-e-armas-brasil-de-bolsonaro-escolhe-seus-herois/  ] apresenta uma análise crítica da figura do herói a partir do modo como Jair Bolsonaro constrói e exalta seus modelos heroicos, algo que pode ser compreendido em profundidade a partir das teorias clássicas do herói, especialmente nas suas manifestações simbólicas e culturais.

Bolsonaro constrói seus heróis sociais e políticos como figuras da “máscara” no sentido simbólico — representações idealizadas de força, coragem e combate, que ocultam aspectos sombrios. Esses heróis são militares e torturadores envolvidos na repressão à Guerrilha do Araguaia e na ditadura, como o tenente-coronel Curió, celebrados como portadores do “bastão da vitória”. Assim, a máscara heroica funciona para legitimar uma versão autoritária da história e do poder. Embora exaltados simbolicamente, esses heróis carregam uma “antimáscara” de violência, repressão e abuso de direitos humanos, revelando um conflito simbólico entre a imagem oficial e a realidade histórica de mortes, torturas e desaparecimentos forçados. Este conflito expõe a face sombria da construção heroica feita pelo governo, uma tensão entre a idealização do poder e a denúncia das violações. A escolha desses heróis pela Presidência sustenta uma narrativa autoritária, legitima o uso da violência estatal e perpetua a exaltação de valores conservadores e repressivos, refletindo a função social do herói como modelo e mobilizador ideológico na esfera pública. O episódio indica também a função da máscara do herói na ocultação da memória das vítimas da ditadura, tratando torturadores como “heróis de guerra” e deslegitimando as buscas por justiça, evidenciando o papel simbólico do herói para o controle da narrativa histórica.

A fala de Jair Bolsonaro que classifica o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em ação policial, como “herói da Polícia Militar” quando foi condecorado [https://www.dw.com/pt-br/bolsonaro-diz-que-miliciano-morto-era-her%C3%B3i-quando-foi-condecorado/a-52393417 ], gera uma análise interessante do ponto de vista do herói, especialmente em seu contexto político e simbólico.

Bolsonaro produz uma figura de herói marcada por uma máscara simbólica de bravura, heroísmo e luta contra o “crime”, refletindo a valorização da força e da autoridade. Essa construção do herói exclui as controvérsias judiciais e a acusação de envolvimento com milícias e crimes graves, compondo uma imagem homogênea e positiva, embora controversa. A figura heroica atribuída a Adriano é uma máscara que oculta a sombra ligada ao universo miliciano — intimidação, violência ilegítima e supressão de direitos —, um lado obscuro que permanece sob a anti máscara, a face real do conflito simbólico e moral. Essa exaltação reforça narrativas autoritárias e conservadoras que justificam o uso da força policial como mecanismo de controle, conferindo ao líder e seus aliados uma legitimidade simbólica para práticas questionáveis, reafirmando um arquétipo heroico de combate e ordem.

Conforme teoria junguiana e campbellista, o herói tradicional promove a individuação, a justiça e a superação do caos de modo ético. No caso de Adriano e da militância bolsonarista, o herói é reconstruído como agente unilateral da ordem, cujo destaque mascara práticas violentas. A condecoração política é um ato simbólico que reforça uma máscara pública do herói, utilizada para mobilizar apoio e construir identidade social.   A negação das acusações e a ênfase na figura heroica atuam como um escudo simbólico que mantém a coesão do grupo e justifica sua visão de mundo.

A comparação feita pelo PL (Partido Liberal) entre Jair Bolsonaro e um herói da Marvel [https://www.poder360.com.br/poder-gente/pl-compara-bolsonaro-a-heroi-da-marvel-em-post-no-x/ ], conforme postagem nas redes sociais, oferece uma rica oportunidade para analisar a figura do herói no sentido simbólico e político.

A comparação com os heróis da Marvel — figuras populares, poderosas, carismáticas e dotadas de virtudes e poderes extraordinários — busca construir para Bolsonaro uma máscara heroica que ressoa com a cultura pop contemporânea, mobilizando a identificação afetiva e coletiva. Bolsonaro é apresentado como o “herói do povo”, sem capa e sem filme, mas que usa a camisa da seleção e a bandeira do Brasil. Essa imagem reforça o papel do herói como representante da identidade nacional e da luta pelos valores patrióticos, ao mesmo tempo, desconstruindo a necessidade de espetáculos midiáticos tradicionais para legitimar a liderança. A postagem dividiu opiniões, mostrando que a figura do herói é também um símbolo polarizador, capaz de inspirar tanto apoio apaixonado quanto críticas ferozes. O herói político, assim, torna-se um eixo de identidades coletivas conflitantes.

A articulação do herói com a identidade nacional amplia a legitimação política de Bolsonaro, posicionando-o como defensor da “ordem” e do “povo brasileiro” contra o que é percebido como ameaças internas e externas. Ao associar Bolsonaro a heróis de quadrinhos — arquétipos modernos da coragem, da resistência e do poder — a narrativa política busca ligar o líder a uma tradição de figuras que transcendem o ordinário para atuar como agentes de transformação e salvadores, mesmo que essa construção seja contestada.

A análise da relação do bolsonarismo com o nazismo [https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/12585/onze-vezes-em-que-o-bolsonarismo-flertou-com-o-nazismo ], do ponto de vista do herói, requer uma compreensão crítica das formas como a figura do herói é construída e instrumentalizada no discurso político atual, especialmente em contextos que flertam com ideologias autoritárias e símbolos de exclusão e violência.

No bolsonarismo, a figura do herói é moldada por atributos marcados pela ordem rígida, pela força, e pelo combate a “inimigos internos”, remetendo a ideias autoritárias que foram centrais no nazismo. Essa construção heroica valoriza o líder e seus seguidores como portadores da “salvação” da nação, um elemento mitológico clássico da figura heroica, porém carregado de uma dimensão política repressiva e excludente.

Conforme teoria junguiana, o herói enfrenta a sombra, mas no caso do bolsonarismo, a sombra é muitas vezes projetada e não integrada, manifestando-se na presença de símbolos, gestos e discursos que evocam o nazismo e suas práticas de violência e exclusão. Portanto, a máscara heroica do bolsonarismo inclui uma sombra iluminada por elementos neonazistas e autoritários, uma anti máscara que revela o lado obscuro dessa construção.

Segundo estudos, o discurso bolsonarista utiliza uma gramática de ódio cifrada, similar àquela usada pelos nazistas, que legitima a violência simbólica e real contra minorias. O herói bolsonarista é, assim, investido de uma missão messiânica que autoriza e impulsiona práticas antidemocráticas e nocivas.

O discurso bolsonarista utiliza uma "gramática de ódio cifrada" que se assemelha em suas estratégias àquela usada pelos nazistas, tendo como efeito a legitimação da violência simbólica e real contra minorias. Essa expressão significa que o bolsonarismo articula suas falas e práticas políticas por meio de um repertório retórico que promove antagonismos, exclusões e desumanização, mas o faz de forma muitas vezes indireta, codificada, e adaptada para inflamar o conflito social sem necessariamente expor explicitamente discursos de ódio.

Significa que o ódio é comunicado por estratégias discursivas que não são sempre explícitas, usando temas como o medo do “comunismo”, a teoria da conspiração, a deslegitimação de grupos minoritários, e a demonização do “outro”. Essa codificação permite alcançar amplos públicos e reforçar a polarização sem ser juridicamente responsabilizado por discurso de ódio formal. A retórica cria um campo em que grupos são banalizados, desumanizados, ou vistos como inimigos da ordem e da “pátria”. Isso valida a hostilidade contra essas minorias e a aceitação social e política de ações como agressões, exclusão e repressão.

No discurso bolsonarista, o líder — modelo heroico simbólico — é apresentado como salvador que “liberta” o país dessas ameaças internas e externas, assumindo uma missão quase divina de purificação ou luta contra o mal. Isso reforça a polarização, valida ações autoritárias e estimula seguidores a práticas antidemocráticas. Essa gramática fomenta a intolerância, o aumento da violência política e social, a destruição do debate democrático e o enfraquecimento de instituições, colocando em risco direitos humanos e pluralidade social.

O mito do herói, presente no bolsonarismo, é um potente instrumento de mobilização social e política que, como nos regimes totalitários, provoca forte polarização e conflito, marcando um “nós contra eles” que desconsidera a pluralidade e a convivência democrática.

Do ponto de vista simbólico, o bolsonarismo constrói uma figura de herói que ativa tanto o arquétipo de salvador quanto elementos sombrios da sombra coletiva, refletindo uma tensão entre a promessa de renovação e a repetição de práticas autoritárias. Essa construção heroica é central para entender o sucesso político e social do movimento, mas também suas contradições e perigos.

O texto "Jair Bolsonaro: O homem mediano assume o poder" [https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/02/opinion/1546450311_448043.html ] apresenta uma análise profunda da figura de Bolsonaro como um "herói" estranho, contra o modelo tradicional de liderança política no Brasil, que até então valorizava a excepcionalidade, o mérito ou uma trajetória de superação considerada exemplar, como a de Lula.

Bolsonaro é descrito como o "homem mediano", oposto ao herói tradicional que representa ideais elevados, excepcionalidade ou trajetória de sucesso singular. Sua força não vem de ser melhor que os outros, mas de ser igual, comum, um representante do homem mediano, um espelho para muitos brasileiros que se veem nele sem ilusões de grandeza. Esse "herói" tem apelo porque não promete transformação extraordinária, mas a reafirmação de uma identidade comum que se sentiu marginalizada ou atacada por mudanças sociais e culturais recentes. Bolsonaro é herói porque liberta o que estava reprimido em muitos grupos sociais: ressentimentos, ódios, preconceitos mantidos em segredo ou reprimidos pela dinâmica do "politicamente correto". Ele encarna a retomada desses sentimentos sem pudor, legitimando o que muitos sentem, mas não expressavam publicamente. Essa "libertação" é sedutora porque dá voz a grupos que sentem terem perdido privilégios ou seu lugar no mundo, que agora percebem um "ataque" a seus valores tradicionais e identidades sociais. Diferente do herói progressista ou revolucionário, Bolsonaro representa um desejo nostálgico de retorno a um passado idealizado, onde ordens hierárquicas e privilégios estavam mais claros e assegurados. Não é um herói que propõe mudança radical para o futuro, mas um que promete restaurar um "normal" que, na opinião dos seus seguidores, foi perdido. O texto destaca como as redes sociais ajudaram a construir o mito de Bolsonaro, onde a adesão e o significado das palavras são validados pelo número de curtidas, criando uma sorte de consenso social que legitima seu projeto. Aqui, o herói é também um fenômeno de cultura digital, mais que um líder tradicional de massas, a conexão direta via redes sociais substitui as instâncias tradicionais de mediação política. Uma crítica forte no texto está na comparação entre Bolsonaro e "um menino mimado", um herói que ocupa o poder sem a maturidade política e responsabilidade que o cargo exige. Esse aspecto ressalta a precariedade do tipo de liderança que ele representa, onde a dependência de grupos e a busca desesperada por aprovação das "figuras adultas" no poder denunciam sua fragilidade política.

A partir da ideia de herói, Bolsonaro emerge não como o tradicional líder excepcional, mas como um herói mediano e comum, cuja narrativa se apoia no retorno a um passado, na liberação das frustrações reprimidas e na construção digital do mito político. Ele não representa o melhor ou o excepcional, mas o "igual a mim" para milhões, e isso explica seu sucesso paradoxal e o impacto cultural profundo que causou.

O texto "Um breve currículo de Jair Bolsonaro – de cadete ao golpista", de José Antonio G. de Pinho [https://periodicos.fgv.br/cgpc/announcement/view/364 ], oferece uma narrativa crítica à trajetória de Bolsonaro, destacando aspectos relevantes para analisá-lo a partir da figura do herói político, embora numa perspectiva negativa e desconstrutora.

Bolsonaro é apresentado como um herói bastante atípico, cuja trajetória desde a carreira militar revela repetidos sinais de indisciplina, desequilíbrio e afastamento da hierarquia, incompatíveis com a figura idealizada do herói disciplinado e exemplar. Diferente dos heróis tradicionais, Bolsonaro não é ninguém reconhecido pela própria instituição onde se formou, sendo rotulado como "mau militar" e com performance baixa nas votações internas para cargos importantes, mostrando uma rejeição entre seus pares. Sua ambição pelo poder desponta como traço central, mas ela parece desprovida de apoio e reconhecimento formal, trazendo à cena um herói solitário, um "lobo solitário" sem rede de apoio real no sistema político tradicional. A busca pela imunidade parlamentar (por medo de represálias) e por saltos abruptos na carreira política compõe a figura de um herói que não surge do coletivo nem da trajetória ascendente natural. A trajetória heróica é marcada por uma defesa explícita da ditadura militar, posições misóginas, preconceituosas e autoritárias — traços que a figura do herói clássico rejeitaria, mas que para muitos seguidores constituem sua força simbólica. Seu apego ao messianismo se evidencia nas provocações para a quebra da ordem democrática, orientações golpistas e atuação na linha da retórica do salvador da pátria, prenhe de um dom divino e da convocação para a luta contra um inimigo interno.

O herói Bolsonaro se constrói também como figura de espetáculo nas redes sociais, carreatas e manifestações, onde mobiliza multidões, mas não representa necessariamente o consenso ou um projeto coletivo mais amplo. Essa figura do herói populista é marcada pela capacidade de mobilizar frustrações, medos e rancores, criando um mito que sustenta o poder simbólico apesar das fragilidades políticas evidentes.

Ao fim da sua trajetória discursiva e política, Bolsonaro é caracterizado como um herói fracassado, incapaz de assumir responsabilidades, hesitante diante de crises institucionais e bloqueado por suas próprias contradições e falta de preparação. A revelação de sua intenção golpista e, ao mesmo tempo, a covardia em efetivá-la revelam sua ambivalência e fragilidade enquanto líder heroico.

De um ponto de vista heroico, a figura de Jair Bolsonaro reflete um paradoxo profundo: é um herói disfuncional, autoritário e ambicioso, cuja trajetória desafia os moldes dos heróis republicanos e democráticos, construindo-se a partir do espetáculo, do messianismo e da defesa do autoritarismo. Sua história política é marcada por contradições que fragilizam seu status e evidenciam um herói polarizador, fracassado em sua missão essencial, mas capaz de mobilizar importantes contingentes sociais à sua volta pelo mito que criou de si.

Jair Bolsonaro não pode ser considerado um outsider no sentido estrito do termo na política brasileira. Embora tenha sido vendido como um candidato antiestablishment nas eleições de 2018, sua trajetória revela o contrário. Bolsonaro teve uma longa carreira parlamentar, com sete mandatos consecutivos como deputado federal, além de um mandato como vereador, demonstrando sua integração ao sistema político tradicional. Sua família também é um "empreendimento político familiar" consolidado, com três filhos atuando em cargos políticos importantes. Ele nunca ocupou posições de destaque institucional relevantes na Câmara dos Deputados, o que o torna mais um político marginal no sistema do que um outsider genuíno. Seu partido em 2018, o PSL, era um partido nanico e pouco influente, mas Bolsonaro usou sua estrutura para construir sua eleição, o que indica que, embora tenha se posicionado como outsider, ele operava nas engrenagens do sistema político. Estudos destacam que Bolsonaro é melhor descrito como um político marginal e "maverick" (que segue sua própria agenda) do que como um outsider total.

Jair Bolsonaro é descrito como um político marginal e "maverick" porque, apesar de sua longa permanência na política institucional, ele jamais teve uma posição de destaque formal ou liderança no sistema político brasileiro tradicional. 

Bolsonaro sempre esteve à margem das estruturas formais do Legislativo, nunca presidiu comissões, mesas diretoras ou teve cargos de liderança importantes. Sua atuação foi mais individualista e excêntrica, não se alinhando disciplinadamente com partidos ou grupos políticos tradicionais.

Maverick

Termo em inglês que define alguém que não segue regras ou padrões convencionais e age de acordo com sua própria agenda. Bolsonaro seguiu um caminho autônomo, com discursos e ações que confrontavam muitas vezes o sistema, centrando-se na defesa dos interesses militares e policiais, e na propagação de ideias extremistas e antissistemas.

Antissistema simbólico, mas não outsider total

Embora operasse nas instituições políticas por décadas, seu comportamento e discurso lhe conferiram a aparência de um outsider, um crítico feroz das elites e da democracia liberal, o que lhe rendeu o apelido de "mito" entre seus seguidores.

Ao fortalecer uma base eleitoral conservadora, evangélica e militarizada, Bolsonaro atuou como líder de movimento mais do que como político institucional tradicional, enfatizando um governo-movimento que busca mobilizar diretamente sua base militante em oposição às instituições.

Bolsonaro é um político que, embora seja parte do sistema político formal, age de forma dissidente, marginal, solitária e com postura antissistema, o que justifica tanto a designação como marginal quanto o rótulo de maverick, mas não o de outsider completo, pois ele não é externo à política institucional brasileira.

Jair Bolsonaro é descrito como político marginal e "maverick" porque, apesar de atuar por quase três décadas na Câmara dos Deputados, nunca teve cargos de destaque institucional, lideranças partidárias ou participação decisiva em comissões importantes. Essa marginalidade institucional o afastou do jogo político tradicional.

Como "maverick", Bolsonaro seguia sua própria agenda, não se alinhando disciplinadamente aos partidos em que esteve, focando na defesa dos interesses corporativos das polícias e militares, além de discursar frequentemente com linguagem ultrarradical e antissistema. Ele é um político que opera no sistema institucional, porém com comportamento dissidente, individualista e fora das regras tradicionais da política, o que lhe confere a aparência de outsider, mas que tecnicamente não é um outsider total, pois não é externo ou alheio ao sistema político estabelecido.

Bolsonaro é melhor entendido como um político que, estando no sistema, atua marginalmente e desafia as normas institucionais com uma postura independente e antissistema, característica do "maverick".

Bolsonaro foi um político medíocre e marginal no sistema, mas longe de ser um outsider, alguém completamente externo ou novo ao jogo político institucional brasileiro. Seu discurso anti-sistema era parte da estratégia política, mas não corresponde a uma distância real do establishment político.

A análise da revista Piauí sobre Jair Bolsonaro a partir do marketing do "homem cordial" traz uma perspectiva interessante para pensar sua figura como herói político [https://piaui.folha.uol.com.br/eleicoes-2022/bolsonaro-e-o-marketing-do-homem-cordial/ ], especialmente na construção da sua imagem pública e no modo como ele conecta com seu eleitorado.

Bolsonaro é construído como o "homem cordial 2.0", que age com base na emoção mais que na razão, priorizando laços pessoais e familiares, beirando a insubordinação às regras institucionais tradicionais. Essa cordialidade é marcada por uma expressividade que, embora agressiva e chocante para alguns, funciona como sinal de autenticidade para seus seguidores, que se identificam com essa humanidade imperfeita do herói. Seu discurso, por vezes grosseiro e ofensivo, é entendido por seus apoiadores como a manifestação de um herói que "fala o que pensa" e "passa verdade", diferentemente dos políticos convencionais que parecem artificiais e ensaiados. Essa autenticidade simbólica reforça sua figura como herói fora dos padrões, um homem que não aceita se submeter ao "politicamente correto", característica que mobiliza uma base fiel.

A defesa ferrenha de seus filhos e a proteção explícita à sua família reforçam a imagem do herói como pai protetor — uma metáfora poderosa que conecta dimensões pessoais e políticas, trazendo a figura mais próxima do povo. Isso legitima atos que em outras circunstâncias seriam criticados, dando ao herói uma aura paternalista.

Bolsonaro é um herói que mobiliza o segmento conservador que se sente ameaçado pelas mudanças sociais recentes como direitos LGBTQ+, direito das mulheres, etc. Sua figura é símbolo da resistência contra o avanço de um progressismo percebido como invasivo, trazendo para a arena política um discurso de defesa dos "valores tradicionais".

  A trajetória pública de Bolsonaro inclui o uso estratégico da ‘viralização’ pela internet, memes e falas chocantes, que aproximam o herói da cultura digital e do humor ácido das redes sociais.

O "mito" Bolsonaro nasce e se sustenta no espetáculo da provocação e na manutenção de um público fiel e engajado, que o protege nos momentos de oposição.

Do ponto de vista do herói, Bolsonaro é uma construção simbólica que mistura emoção, irreverência, proteção familiar e narrativas conservadoras. Sua imagem de "homem cordial 2.0" foi fundamental para estabelecer um vínculo visceral com seus apoiadores, reforçando seu perfil de herói populista que desafia regras e costumes, e cuja autenticidade é sua maior arma simbólica para mobilizar e sustentar seu poder político.

A análise do texto "Bolsoporcо - Bolsonaro pensa que pobre é igual a ele que não sabe comer com educação" (socialistamorena.com.br)  [https://www.socialistamorena.com.br/bolsoporco-bolsonaro-pensa-que-pobre-e-igual-a-ele-que-nao-sabe-comer-com-educacao/ ] do ponto de vista do herói revela um contraste nítido entre a construção heroica de Bolsonaro perante seu eleitorado e a percepção real das condições sociais da parcela mais pobre da população brasileira.

Embora Bolsonaro se construa como um herói do "homem comum", que fala "a verdade" e representa a "gente como ela é", a análise evidencia que sua visão do pobre é arrogante e descolada da realidade das condições de vida degradantes, fome e pobreza que milhões enfrentam no Brasil. Isso revela um "herói" que acredita que os pobres deveriam se comportar como ele, com hábitos de consumo e educação que ele considera corretos, mas que são inacessíveis ou irreais para boa parte da população.

Bolsonaro se apresenta como defensor do mérito, sugerindo que a pobreza decorre da falta de esforço, disciplina ou conhecimento individual, como se o problema fosse moral e comportamental, desconsiderando fatores estruturais como desigualdade social, desemprego e políticas públicas insuficientes. Essa visão do herói reforça um discurso moralizador e culpabilizante, que tende a deslegitimar reivindicações por direitos sociais e ajuda governamental.

A construção de Bolsonaro como herói tem um impacto polarizador: para seus seguidores, ele é o salvador que enfrenta o "politicamente correto" e defende valores tradicionais; para críticos, ele é visto como um herói negacionista e insensível ao sofrimento social. Essa polarização reforça a mitificação em torno de sua figura, alimentando tanto o culto quanto a rejeição.

O discurso do herói Bolsonaro contra programas sociais como o Bolsa Família, criticando a distribuição de riquezas, entra em rota de colisão com a realidade social de milhões de brasileiros que dependem dessas políticas para sobreviver. Essa postura revela um herói que se distancia dos interesses reais da maioria da população e se identifica com uma visão elitista ou conservadora de "ordem" e "esforço individual".

Do ponto de vista do herói, Bolsonaro representa uma figura que simultaneamente encarna o "homem comum" para seus apoiadores, mas que, na prática, evidencia uma profunda desconexão e alienação sobre a realidade dos pobres no Brasil. Sua versão do herói é marcada por um discurso autorresponsabilizante e moralizador, que ignora os determinantes estruturais da pobreza, criando uma imagem clara de um herói divisivo, distante dos problemas sociais reais e com uma visão restrita e elitista da sociedade.

A análise do ponto de vista do herói sobre os milhões gastos por Jair Bolsonaro em hotéis de luxo, sorvetes, cosméticos e outras despesas públicas [https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2023/01/12/hoteis-de-luxo-sorvetes-cosmeticos-os-milhoes-gastos-por-bolsonaro.htm ] durante seu mandato revela um contraste profundo entre a imagem construída do herói popular e sua prática efetiva enquanto governante.

Bolsonaro construiu sua imagem como um "homem simples", um herói que fala a verdade e representa o povo comum. Contudo, os gastos revelados — R$ 27,6 milhões em cartões corporativos, incluindo R$ 13,6 milhões em hospedagens, muitas vezes em hotéis de luxo, além de despesas significativas em alimentação cara, cosméticos e sorvetes — mostram um estilo de vida incompatível com a simplicidade que promoveu. Essa contradição mina o mito do herói humilde e reforça uma percepção de hipocrisia, prejudicando a credibilidade da figura pública construída em torno dele.

Os gastos refletem um herói que, embora se apresente como o defensor do povão, mantém um padrão elevado de conforto, o que pode indicar um herói espetáculo, mais preocupado com a aparência e o status do que com a coerência ética esperada. Esse descompasso entre discurso e prática pode ser interpretado como a desconstrução do herói, mostrando sua vulnerabilidade e fragilidade simbólica.

Ele mobiliza uma base fiel com sua linguagem direta e postura contra a elite tradicional, mas, nos bastidores, reproduz gastos dissonantes com sua narrativa anti-elitista. Essa ambivalência contribui para a polarização política, onde seguidores podem negar ou minimizar tais fatos em nome da defesa do mito, enquanto críticos usam esses dados para contestar sua imagem.

A revelação dos gastos pode ser utilizada pelo herói para se posicionar como vítima de ataques, alimentando a narrativa de perseguição por parte da mídia e da oposição, fortalecendo ainda mais o mito do herói injustiçado e perseguido.

Do ponto de vista do herói político, os gastos luxuosos e altos valores do cartão corporativo revelam uma faceta contraditória de Jair Bolsonaro, fragilizando sua representação como o "homem simples" e reforçando uma narrativa ambivalente que mistura populismo com práticas de consumo associadas ao poder. Essa contradição é um ponto crucial para entender a complexidade e as tensões na construção do mito bolsonarista, marcado tanto pela mobilização emocional de sua base quanto pela contestação crítica que essas revelações suscitam.

O escândalo das joias envolvendo Jair Bolsonaro, descoberto e investigado nos últimos anos [https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2023/03/15/escandalo-das-joias-pulveriza-imagem-de-bolsonaro-como-homem-do-povo.htm ], revela um paradoxo profundo que desestabiliza a construção do "herói" Bolsonaro como um "homem do povo" que se apresenta como humilde, simples e próximo dos brasileiros comuns.

Bolsonaro construiu seu mito político propondo-se como o homem mediano, aquele igual ao eleitor comum, distante dos políticos profissionais e das elites. O escândalo das joias, que envolve valores milionários e tentativa de desviar patrimônio público para uso próprio, fere profundamente essa narrativa, ao expor uma conexão clara com o luxo, riqueza e operação clandestina. O herói construído na imaginação do seu público é contradito por atos que revelam comportamento mais típico dos políticos tradicionais que ele criticava, gerando uma crise de legitimidade.

O escândalo mostra que o herói não é simplesmente o "homem comum" agindo em função do povo, mas alguém que se envolve em práticas ilegais para benefício próprio — uma ação típica das elites às quais ele dizia combater. Isso desmancha a ideia heroica de alguém cujo poder nasce da identificação com o cidadão comum, revelando uma trama de interesses privados e corrupção.

O herói Bolsonaro foi vendido como alguém autêntico, fora do sistema, que denuncia a corrupção dos outros. A revelação do escândalo coloca seu comportamento dentro das mesmas práticas que ele denunciava, indicando um paradoxo que desmonta a narrativa do líder antiestablishment. Essa contradição enfraquece seu carisma heroico e pode ser interpretada como uma traição à confiança de seus seguidores.

O episódio das joias evidencia que a construção do herói político depende de um ideal simbólico que pode se dissolver diante de fatos concretos que o desmentem. Isso exemplifica como o mito do herói, especialmente aquele que se baseia na empatia produzida pela imagem de "medianeidade" e "anti-elitismo", é frágil e vulnerável a escândalos que confrontam diretamente a imagem pública.

O escândalo das joias pulveriza a imagem do herói Bolsonaro como "homem do povo" ao revelar seu envolvimento com práticas ilegais e benefícios luxuosos, incompatíveis com a simplicidade e autenticidade que ele pregava. A partir da ideia do herói, essa crise simboliza uma perda de legitimidade e autenticidade, fragilizando seu papel enquanto figura política carismática e desafia a manutenção do mito construído em torno dele.

O artigo "Foram os evangélicos que elegeram Bolsonaro?" [https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/584446-foram-os-evangelicos-que-elegeram-bolsonaro ] apresenta uma análise complexa e plural sobre o papel do segmento evangélico na eleição de Jair Bolsonaro, destacando que a vitória do ex-presidente decorreu de uma confluência de fatores, discursos e estratégias, dos quais o voto evangélico foi importante, mas não o único determinante.

Jair Bolsonaro, no papel de líder político herói para seus seguidores, assume uma máscara simbólica que dialoga fortemente com valores do segmento evangélico — tradição e moral conservadora, fé e identidade social. Essa máscara heroica é construída a partir da conexão com uma comunidade que lhe atribui missão de salvador e defensor da ordem moral, promovendo um mito político.

A máscara do herói evangélico é a representação idealizada de um líder que encarna aspirações de justiça, proteção e redenção. A anti máscara revela as tensões internas do Brasil contemporâneo — a pluralidade social, o conflito de identidades e valores, e as contradições da base social de apoio, onde nem todos os evangélicos são homogêneos em pensamento ou voto.

Ao mobilizar um conjunto diversificado de evangélicos em sua base, Bolsonaro atua como um agente simbólico de um mito político que atende a desejos de mudança e a temores compartilhados por esse grupo. O herói político, nesse contexto, transcende os limites individuais para se tornar um representante coletivo, reforçando um sentimento de pertencimento e mobilização social.

O texto desmonta visões simplistas que reduziriam a vitória a um bloco homogêneo, mostrando que o herói evangélico é sustentado por uma base heterogênea, com múltiplas vozes e motivações, refletindo a complexidade do Brasil contemporâneo.

Do ponto de vista do herói político, o artigo revela que o sucesso de Bolsonaro está imbricado numa narrativa simbólica que conecta líderes carismáticos e comunidades diversas, especialmente evangélicas, que lhe conferem um estatuto heroico. Essa análise evidencia a importância de compreender o herói não somente como indivíduo, mas como um mito coletivo que articula identidades, valores e projetos em contextos sociais complexos.

O conceito de cristofascismo aplicado a Jair Bolsonaro, conforme análise do professor Fábio Py da UENF [https://uenf.br/portal/noticias/bolsonaro-e-o-cristofascismo-brasileiro-relacao-cristianismo-e-politica/ ], oferece um rico campo para entender a figura do herói sob um prisma simbólico complexo e controverso.

Bolsonaro é representado como um herói messiânico, uma figura ungida e eleita, equipada com uma cristologia profana no senso de um salvador escolhido para guiar e restaurar a ordem, particularmente em uma narrativa maniqueísta que divide o mundo entre “bem” e “mal”. Essa construção dá um forte componente místico e simbólico ao herói, mais ligado à fé e ao poder do que à razão ou ética tradicional.

Sob a teoria de Frye, a máscara heróica de Bolsonaro envolve o uso de símbolos cristãos, discursos religiosos e posturas de “servo sofredor” para legitimar sua ação política autoritária e ultraliberal. A anti máscara, por outro lado, revela um líder que promove exclusão, discriminação e políticas de morte, desconstruindo o mito tradicional do herói benfeitor.

Jung nos ajuda a entender esse herói como um arquétipo que também incorpora aspectos da sombra — o lado sombrio da cultura que emerge na forma de intolerância, ódio à pluralidade e negação da democracia, que se manifesta no discurso e na prática política bolsonarista.

O herói cristofascista aparece em um contexto de crise sanitária e social, em que seu poder é sustentado por forças religiosas conservadoras que reforçam um imaginário apocalíptico, criando uma “guerra dos deuses” simbólica para mobilizar apoio e combater os “inimigos” internos.

O herói não é somente figura simbólica, mas parte de uma estratégia política que utiliza o imaginário religioso para manter a coesão social em face da crise, sustentando políticas autoritárias e violentas enquanto mobiliza um projeto religioso-político neofascista.

Do ponto de vista do herói, o cristofascismo de Bolsonaro representa uma mutação do arquétipo clássico: o herói messiânico aparece para alguns como salvador, mas incorpora também elementos autoritários e violentos, constituindo um mito político que mobiliza crenças e medos para fins políticos controversos e graves para a democracia. Essa análise evidencia a importância do estudo simbólico do herói para compreender forças políticas contemporâneas complexas.

O artigo do Intercept, que trata da fabricação e disseminação de falsas polêmicas (fake news) nas redes sociais durante a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 [https://www.intercept.com.br/2018/07/22/como-os-reacionarios-conseguiram-pautar-as-redes-sociais-com-uma-falsa-polemica-na-ultima-semana/ ], pode ser analisado do ponto de vista do herói sob a lente das teorias de Joseph Campbell, Carl Jung e Northrop Frye.

Bolsonaro, enquanto herói político para seus apoiadores, constrói sua figura mitológica em meio a narrativas polarizadoras e maniqueístas que se beneficiam da disseminação de fake news para criar o antagonismo "nós contra eles". Essa técnica está alinhada com a jornada do herói que enfrenta e cria inimigos para reforçar seu papel como salvador da ordem e dos valores que representa.  

A máscara do herói político aqui é construída com símbolos e discursos que apelam à proteção das famílias, da moral tradicional e da "ordem", usando temas falsos sobre pedofilia para criar clima de medo e união em torno do líder. Essa manipulação simbólica evidencia a função da máscara como instrumento de mobilização coletiva, alinhada à visão de Frye sobre o herói.

Jung apontaria que o herói sempre projeta sua sombra, personificada no inimigo ou na ameaça a ser combatida. As fake news, temas persecutórios e discursos conspiratórios funcionam como projeção dessa sombra, transformando adversários e grupos sociais em inimigos demonizados que justificam a luta heroica.

Embora instalado na posição heroica, Bolsonaro atua numa realidade política marcada pela desinformação e pela polarização extrema, em que a verdade factual é relativizada. Isso cria uma tensão entre a máscara heroica legítima e a antimáscara — a manipulação e o discurso de ódio — que fragilizam a integridade do mito heroico.

Do ponto de vista do herói, a campanha de Bolsonaro evidencia a construção performática e simbólica da heroização política por meio da manipulação da informação, criação de inimigos e mobilização de afetos coletivos. Essa análise ressalta a importância de compreender a construção do herói político em sua dimensão simbólica e mitológica para apreender os fundamentos e desafios da política contemporânea.

A retórica militarista ultraconservadora e o fundamentalismo religioso se combinam no discurso de Bolsonaro de maneira estratégica para construir e intensificar o discurso de ódio, especialmente contra a população LGBTI+ e os defensores dos Direitos Humanos, conforme detalhado no texto [MORAIS, A. R. A. de; LOPES, L. P. da M. “Virada moral” e entextualização do homossexual como pedófilo em falas de Bolsonaro no congresso (2000 a 2018). ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 68, 2024. DOI: 10.1590/1981-5794-e17547. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/17547 . Acesso em: 18 set. 2025].

Equilíbrio e Interdiscursividade

A partir de 2011, o discurso de Bolsonaro começa a balançar e combinar elementos do discurso ultraconservador militar com o discurso fundamentalista cristão. Essa combinação cria um alinhamento entre as pautas militares — que defendem punições severas, segurança pública e uma visão autoritária — e as pautas religiosas — que enfatizam valores morais tradicionais e combate ao que é visto como ameaça à "família tradicional" e à ordem moral.

Bolsonaro vincula temas como "estupro", "pedofilia" e "ideologia de gênero" para criar uma narrativa em que políticas públicas voltadas à educação sexual ou direitos civis são transformadas em supostas ameaças morais e criminosas. O discurso militar reforça essa associação ao enfatizar o combate e punição rigorosa, enquanto o religioso acrescenta o caráter moralizante, condenando essas supostas ameaças como pecado e degeneração social.

O processo de desentextualização e reentextualização (Bauman & Briggs, 1990) é usado para extrair e remoldar termos como "pedofilia" do contexto original da CPI da Pedofilia (2008) para o debate político-educacional sobre o "Kit Escola Sem Homofobia". Assim, Bolsonaro entrelaça a retórica de segurança e autoridade militar com a moral religiosa para construir uma narrativa de pânico moral, onde o combate à homofobia é equiparado à promoção da pedofilia.

Na fase combinada, o discurso militar reforça o aspecto de segurança pública e controle social, enquanto o discurso religioso oferece uma fundamentação moral que demoniza e estigmatiza o público LGBTI+ como "monstros pedófilos". Essa construção promove a abjeção, o medo, o ódio e a repulsa, mobilizando o imaginário conservador para obter apoio político.

Bolsonaro transfere questões consideradas políticas para o campo moral e policial, deslocando o debate público de direitos civis para o da criminalidade e do pecado. Essa instrumentalização usa o discurso militar para reforçar a necessidade de punição e a retórica religiosa para justificar uma "cruzada moral" contra os que são apresentados como ameaças à moral pública.

Combinação do discurso militar ultraconservador com o fundamentalismo religioso constrói um discurso de ódio eficaz ao unir autoridade e rigor punitivo da esfera militar com o peso moral e a intimidação simbólica da esfera religiosa, gerando panos de fundo para estigmatizar, criminalizar e demonizar grupos minoritários e opositores políticos.

A associação entre homossexualidade e pedofilia promovida por Bolsonaro teve impactos significativos no panorama político brasileiro.

Essa associação contribuiu para a produção de um pânico moral, no qual o combate à homofobia e a defesa dos direitos LGBTI+ foram retratados como uma ameaça à moralidade, principalmente por meio da chamada “teatralização” da pedofilia ligada ao “Kit Escola Sem Homofobia” (renomeado pejorativamente como “Kit Gay”). Isso reforçou o medo e a insegurança moral da população conservadora e evangélica, alimentando discurso de ódio e exclusão.

Ao associar a defesa dos direitos LGBTI+ à promoção da pedofilia, o discurso bolsonarista dificultou qualquer reconfiguração positiva dessas pautas no debate público. A criminalização dessas políticas conduziu à deslegitimação dos movimentos e iniciativas em defesa da igualdade e do combate ao preconceito, deslocando debates da esfera política para a esfera moral-religiosa e policial, dificultando o diálogo democrático e a ampliação dos direitos civis.

Ao amalgamar o discurso militarista e o fundamentalismo religioso nessa narrativa, Bolsonaro se consolidou como a principal voz da extrema-direita no Brasil, especialmente entre grupos evangélicos e conservadores que ressonam com essa “virada moral”. Esse alinhamento fortaleceu sua base política e lhe possibilitou ascender politicamente, culminando na vitória presidencial de 2018.

A cadeia semântica que se estabeleceu — do “Kit Gay” aos “Direitos LGBT” e daí à “pedofilia” — construiu uma narrativa que transformou a Câmara dos Deputados na “Casa LGBT” sob ataque conservador, intensificando a polarização política. Esse deslocamento contribuiu para uma atmosfera de conflito moral profundo, tornando os temas de sexualidade e direitos humanos focos de batalhas ideológicas acirradas.

O discurso acusatório, qualificado como denuncia moral na Câmara, também serviu como estratégia política de Bolsonaro para obter apoio e posicionamento favorável do público conservador. Ao afirmar que cabe aos acusados provar que ele está mentindo, ele desloca o ônus da prova, dificultando a responsabilização jurídica e mantém o discurso de ódio impune.

Associação da homossexualidade à pedofilia teve o impacto de fomentar a exclusão social, criminalizar grupos minoritários, mobilizar uma base política conservadora e fundamentalista, polarizar a política nacional e transformar debates públicos complexos em batalhas morais carregadas de ódio e desinformação; contribuindo para o ambiente que levou Bolsonaro à Presidência do Brasil e para o fortalecimento da extrema-direita no país.

No artigo, Jair Bolsonaro é descrito como um personagem que se posiciona como um "defensor da moralidade", encarnando um herói na narrativa política conservadora e fundamentalista. A "virada moral" em seu discurso a partir de 2011 mostra como ele se apresenta como um paladino que combate os "monstros" da corrupção moral — simbolizados pela pedofilia e ideologias de gênero — que ameaçam a família tradicional e os valores cristãos.

Bolsonaro utiliza a pedofilia como uma “arma semiótica” para construir inimigos imaginários, tornando-se o herói que luta contra esses "monstros" — representados aqui pela pauta LGBTI+, pelos Direitos Humanos e pelas políticas de educação sexual progressistas. Essa dramatização promove uma guerra simbólica onde o herói combate forças consideradas maléficas, funcionando como estratégia para mobilizar apoio popular conservador.

O artigo evidencia que Bolsonaro articula discursos militaristas e religiosos para se consolidar como o líder da extrema-direita no Brasil, um herói que representa uma ordem moral e social idealizada por sua base. Ele é retratado como o protagonista que resgata a segurança, a disciplina e a moralidade tradicional em meio a um cenário de crise política e cultural.

Na lógica do discurso, o herói Bolsonaro aparece resistindo a forças que, conforme sua retórica, fragilizam a sociedade — como a Constituição de 1988, os Direitos Humanos e grupos da Esquerda — e combate a “insegurança jurídica e moral”. Assim, ele é simbólica e politicamente posicionado como o guardião da ordem, da lei e dos bons costumes.

Por outro lado, o artigo também evidencia que esse herói é construído a partir de discursos de ódio que produzem exclusão e estigmatização social, sobretudo das populações LGBTI+ e das agendas de direitos civis contestadas. Esse herói é controverso, pois sua atuação reforça o medo, o preconceito e a polarização política, levantando questionamentos éticos sobre o papel dos heroísmos políticos contemporâneos.

Artigo revela que Bolsonaro, na construção discursiva analisada, é herói político-moral que utiliza a construção do “inimigo” — a pedofilia associada à homossexualidade e à ideologia de gênero — para galvanizar uma base conservadora e fundamentalista, se apresentando como o defensor da família, da moral tradicional e da ordem social idealizada. Contudo, esse heroísmo é problemático, ao estar calcado em discursos de ódio e exclusão que acentuam conflitos sociais e políticos no Brasil contemporâneo.

Agência Pulsar Brasil, que aborda as declarações de Jair Bolsonaro e Damares Alves em relação à cultura do estupro e da pedofilia [https://agenciapulsarbrasil.org/declaracoes-de-bolsonaro-e-damares-reforcam-cultura-do-estupro-e-da-pedofilia-segundo-psicologa/ ], permite uma análise do ponto de vista do herói político sob as lentes psicanalíticas e simbólicas.

Bolsonaro e Damares são apresentados como figuras que, embora se coloquem na posição de líderes e defensores da moralidade e da infância, reforçam discursos e práticas que aprofundam a violência simbólica e o sofrimento de vítimas vulneráveis. Essa ambiguidade contamina a tradicional figura do herói, mostrando um herói cuja máscara de salvador oculta aspectos sombrios e prejudiciais.

A máscara heroica empregada utiliza uma linguagem moralista e religiosa para mobilizar apoio e legitimar ações políticas, mas a anti máscara revela discursos de ódio, exclusão e negligência, especialmente contra crianças e minorias. Essa dualidade revela a crise do mito heroico tradicional e sua instrumentalização política.

Sob a perspectiva junguiana, o herói aqui incorpora elementos da sombra coletiva no Brasil — a cultura do estupro, do autoritarismo e da discriminação. A figura simbólica do herói-morador do poder, em vez de integrar e transformar essas sombras, parece reforçá-las, aprofundando as divisões sociais e o sofrimento.

Enquanto a narrativa heroica esperaria a proteção dos vulneráveis e a promoção da justiça, a atuação simbolizada por essas declarações projeta fragilidades e falhas graves, evidenciando a crise da liderança responsável e ética, e convidando à reflexão crítica e à potencial reconstrução do mito heroico no Brasil.

Do ponto de vista do herói, a página evidencia a perda da função emancipadora e transformadora do herói político na figura de Bolsonaro e seus aliados, impondo um desafio para a reconstrução de narrativas e práticas que verdadeiramente protejam e promovam os direitos humanos. A análise simboliza a urgência de um herói capaz de integrar a sombra coletiva e conduzir a sociedade a um futuro mais justo.

Asenath Nicholson

Do ponto de vista do herói, o artigo "Friend to the Poor" sobre Asenath Nicholson, disponível no site da University of Notre Dame [https://breac.nd.edu/articles/friend-to-the-poor/ ], oferece uma narrativa rica em elementos que caracterizam Nicholson como uma heroína arquetípica.

Nicholson se destacou por sua coragem singular ao enfrentar condições adversas, caminhando sozinha pela Irlanda em plena Grande Fome, apesar de sua idade avançada e limitações físicas, revelando uma força de espírito típica dos heróis que enfrentam grandes desafios.

Sua viagem tinha como missão o auxílio direto e a compaixão pelo sofrimento dos pobres, colocando-se como uma figura que não somente observa, mas atua como agente transformador, personificando o herói compassivo cuja ação é movida por empatia profunda e dedicação ao outro.

Além do auxílio prático, Nicholson denunciou as falhas e a negligência das autoridades na administração da crise, assumindo o papel heroico de confrontar sistemas opressivos e injustos, caracterizando o herói que, além de salvar, questiona as estruturas de poder.

Ao compartilhar relatos vivos da miséria e solidariedade vividas, Nicholson funcionou também como uma mediadora cultural, levando a consciência das condições humanas ao mundo exterior, papel simbólico do herói como transmissor e inspirador.

Assim, Asenath Nicholson pode ser interpretada como uma heroína que incorpora o arquétipo do salvador humanitário, cuja jornada envolve não só o sacrifício pessoal e a ação compassiva, mas também a denúncia ética diante da injustiça estrutural. Sua figura inspira por traduzir a luta pela dignidade humana em um contexto de adversidade extrema, sendo um modelo de coragem e empatia arquetípicas.

A figura do Padre Mathew, cuja admiração Asenath Nicholson nutriu, pode ser vista como uma influência heroica em sua trajetória. Padre Mathew foi conhecido como um reformador abstêmio que teve grande impacto social na Irlanda, atuando pela temperança e pelas reformas morais, figura heroica do contexto moral e social da época.

No caso de Hannah More, a quem Nicholson também visitou, temos outra figura heroica que inspirou Nicholson. More foi uma educadora, abolicionista e filantropa reconhecida por suas ações e legado, representando um ideal heroico feminino ligado à educação e reforma social.

A referência à Dra. Adams sugere ainda a existência de outras heroínas menos conhecidas, profissionais certificadas que atuaram em contextos difíceis, mulheres que Nicholson admirava e associava a esse ideal do herói em ação.

Do ponto de vista do herói, Nicholson incorpora esse papel em sua jornada, não só por sua ação direta, mas também por seu diálogo e reverência a modelos heroicos anteriores, que fortaleceram seu próprio compromisso e coragem diante da adversidade da Grande Fome Irlandesa. [https://archive.org/details/compassionatestr0000murp/page/n5/mode/2up?q=hero ]

A obra de Maureen O’Rourke Murphy sobre Asenath Nicholson permite uma análise profunda da construção do arquétipo do herói sob a perspectiva simbólica, histórica e cultural, marcada por conexões com figuras heroicas anteriores que orientaram sua jornada.

Admirado por Nicholson, Padre Mathew é uma representação do herói reformador. Sua atuação na causa da temperança reflete um empenho por valores éticos e sociais que transcendem o indivíduo, inspirando ações coletivas para a transformação moral da sociedade. É um herói cuja força está na disciplina e no idealismo social, que alimenta a visão heroica de Nicholson.

More é um arquétipo do herói feminino cuja missão se dá por meio do ensino, da abolição da escravatura e da caridade. Sua influência sobre Nicholson reforça o aspecto da heroína que atua com base na educação e na transformação social pacífica, um contraponto essencial aos heróis militares ou confrontadores.

A referência à Dr.ᵃ Adams sugere que Nicholson via o heroísmo em diferentes formas, incluindo aquele exercido por profissionais dedicadas em contextos frágeis, como o da medicina. Isso amplia a compreensão do herói para além do mito tradicional, para um herói cotidiano e coletivo.

O termo "herói compósito" aplicado a Asenath Nicholson refere-se à sua construção como uma figura heroica que transcende um único modelo clássico de herói, incorporando múltiplas dimensões e influências que se articulam em sua trajetória singular durante a Grande Fome da Irlanda.

Nicholson assume uma postura crítica e denunciadora, contestando a negligência do governo e da Igreja, posicionando-se como agente ético que busca justiça social.

Sua ação direta junto aos pobres, com uma compaixão ativa e prática, representa o herói que cuida e participa da solução do sofrimento, não apenas o que supera provas ou desafios.

Inspirada por figuras como Padre Mathew e Hannah More, Nicholson incorpora elementos do herói que atua para transformação social e moral, ampliando seu papel para além da mera intervenção assistencial.

Embora seja uma figura singular, seu heroísmo está conectado a valores e ações coletivas, reafirmando o compromisso com a comunidade e a luta contra estruturas opressivas.

Sua crença em uma missão divina e seu ativismo, que inclui o acolhimento da religião e da moralidade reformista, ressoa com o herói que encarna um propósito transcendental.

Nicholson é, portanto, “herói compósito por seu arquétipo ser construído a partir da combinação dessas múltiplas facetas, ultrapassando modelos tradicionais para refletir um heroísmo complexo que dialoga com os desafios sociais, éticos e culturais do seu tempo.

Embutida nestas influências, Nicholson constrói sua própria jornada heroica, marcada pela coragem física (percorrendo a Irlanda a pé na fome), pela compaixão ativa (assistência aos pobres) e pela coragem moral (denúncia das injustiças das autoridades). Sua figura individual se alimenta da tradição heroica, mas é singular na forma de um heroísmo humanitário e social.

Nicholson não somente atua localmente, mas também cria narrativas que amplificam a voz dos marginalizados, desempenhando a função arquetípica do herói que transcende sua experiência para transformar a consciência coletiva.

Maureen O’Rourke Murphy, ao situar Nicholson em um quadro que dialoga com as figuras heroicas do Padre Mathew, Hannah More e outras mulheres pioneiras, amplia a noção do herói. Essa construção simbólica mostra como o herói emerge como um agente híbrido e multifacetado — marcado pela ação, compaixão, luta moral e educação, com um forte comprometimento social. Nicholson representa assim a renovação do arquétipo do herói para o contexto da história social e dos direitos humanos.

Do ponto de vista do herói, a obra "Compassionate Stranger: Asenath Nicholson and the Great Irish Famine" de Maureen O'Rourke Murphy (disponível em https://archive.org/details/compassionatestr0000murp/page/n5/mode/2up ) apresenta Nicholson como uma heroína arquetípica não somente pelo que fez, mas pela forma como encarnou elementos centrais do arquétipo do herói:

Nicholson enfrentou a adversidade da Grande Fome na Irlanda deslocando-se a pé por áreas devastadas e insalubres, mostrando coragem física e sacrifício pessoal. Seu esforço para estar presente onde a dor era maior remete ao arquétipo clássico do herói que se confronta com o sofrimento de seu povo.

Ela demonstra o arquétipo do herói compassivo, com uma missão de alívio e cuidado pelos necessitados. Sua abordagem é pragmática, reconhecendo limitações, mas agindo com efetividade na distribuição de ajuda, representando o herói que atua com sabedoria e empatia.

Nicholson assumiu uma postura crítica diante das autoridades negligentes, caracterizando o herói como aquele que não somente ajuda, mas denúncia o mal e a injustiça, enfrentando estruturas adversas para proteger os vulneráveis.

A jornada de Nicholson, sua determinação e compaixão a alinham com os mitos heroicos que narram a passagem pelo desafio e o retorno transformado, elevando-a de simples observadora a agente de mudança social.

Murphy recria Nicholson como uma heroína histórica cujo heroísmo transcende a coragem física para incluir a compaixão efetiva e a crítica moral, elementos que compõem um herói moderno cuja luta está pautada na dignidade humana e na justiça social.

A análise do ponto de vista do herói sobre a destruição da Amazônia no governo Bolsonaro, especialmente no período de 2019 a 2022 [https://amazoniareal.com.br/web-stories/a-destruicao-sob-bolsonaro/ ], revela um contraste nítido entre a figura heroica tradicional e a narrativa construída em torno desse governo.

O governo Bolsonaro, sob uma análise factual, está associado a níveis recordes de desmatamento, degradação ambiental e redução da fiscalização, com claras consequências negativas para a preservação da Amazônia, o maior bioma tropical do planeta. Esse cenário o coloca numa posição oposta ao arquétipo do herói que protege a natureza e a vida humana.

O aumento de 60% no desmatamento, os incentivos à invasão de terras indígenas e a onda de garimpo ilegal demonstram uma postura que compromete valores ambientais e sociais, configurando uma narrativa de “antihéroi” ou de um “herói negativo”, que age contra o interesse coletivo.

Ao invés de uma figura que resolve crises humanitárias ou ambientais, o governo se associa à aceleração de uma crise ecológica, liderando um processo de destruição que muitos analistas qualificam como sabotagem ambiental.

A atuação no desmonte das agências de fiscalização ambiental, a disseminação de desinformação sobre dados de desmatamento e a redução de multas configuram um herói que se coloca contra a proteção da coletividade e da natureza, caracterizando um perfil opositor à ideia tradicional do herói social.

Sob a lente do arquétipo do herói, Bolsonaro não representa o herói clássico ou humanitário como Asenath Nicholson, mas uma figura que, para seus críticos, encarna um perfil de “anti-herói” ou destruidor, cuja ação ou omissão gera danos elevados ao meio ambiente e às populações indígenas. Essa figura desafia a concepção tradicional do herói positivo, enfatizando a complexidade dos papéis heroicos na política contemporânea.

A análise da cobertura da Amazônia entre os governos Bolsonaro e Lula [https://www.vox.com/down-to-earth/2022/9/29/23373427/amazon-rainforest-brazil-jair-bolsonaro-lula-deforestation ], do ponto de vista do herói, revela perfis arquetípicos muito distintos.

Durante o governo Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia atingiu níveis recordes, com aumento de até 60% em relação aos anos anteriores, o maior em 15 anos segundo dados do Inpe. A gestão enfraqueceu órgãos ambientais, reduziu fiscalização e incentivou a expansão agropecuária e mineração.

Sob o arquétipo do herói, Bolsonaro se configura mais como um “anti-herói” ou figura destruidora, cujas ações ou omissões agravaram uma crise ambiental de proporção global, colocando em risco ecossistemas e povos tradicionais. Seu governo simbolizou uma ameaça às bases da vida e da sustentabilidade, afastando-se do herói protetor.

Em contrapartida, o governo Lula adotou políticas para reverter a tendência, resultando em queda substantiva (cerca de 30-34%) nos índices de desmatamento nos primeiros anos de seu mandato na retomada após 2023.

Lula assume o papel simbólico do herói restaurador, comprometido em proteger a floresta e as populações indígenas, buscando reconstruir a governança ambiental e fortalecer fiscalização. Entretanto, a tarefa permanece desafiadora, com críticas sobre riscos ainda presentes.

Bolsonaro representa, nesse contexto simbólico, um herói negativo que desafia a ordem natural e social, enquanto Lula aparece como o herói que luta para reparar o dano, restabelecer a ordem e assegurar a sobrevivência coletiva.

Essa polarização destaca como o conceito de herói pode ser mobilizado em narrativas políticas para simbolizar forças antagônicas na disputa pelo destino da Amazônia e do Brasil.

Sob a ótica do mito do herói, os governos configuram uma batalha simbólica entre destruição e proteção, entre ruptura e restauração, evidenciando que a figura do herói é central no imaginário político e ambiental brasileiro contemporâneo.

A análise do desmonte ambiental e do crescimento das emissões na Amazônia nos primeiros anos do governo Bolsonaro pelo ponto de vista do herói revela uma desconstrução do arquétipo tradicional do herói protetor [https://ufmg.br/comunicacao/noticias/desmonte-ambiental-fez-dobrar-emissoes-na-amazonia-nos-primeiros-anos-de-governo-bolsonaro ].

Os dados da UFMG e do Inpe indicam que entre 2019 e 2020 houve um aumento dramático nas emissões de CO₂ na Amazônia (89% e 122%), um incremento substancial no desmatamento (82% e 77%) e redução significativa das multas ambientais, o que estimulou a criminalidade ambiental.

Esse cenário coloca o governo Bolsonaro na posição simbólica contrária ao herói que protege o meio ambiente e a vida coletiva, pois seus atos e políticas provocaram destruição, risco e retrocessos ecológicos graves.

Em vez de assumir um papel de liderança para cuidar e salvar a floresta e suas populações, o governo adotou estratégias que favoreceram o aumento da devastação e a exploração econômica predatória.

O desmonte de políticas ambientais e a omissão na fiscalização resultaram em consequências desastrosas, associando o governo a um perfil de “anti-herói”, em oposição ao herói compassivo, ético e protetor.

A figura do “anti-herói” aqui é marcada pela ação/omissão que agrava uma crise social e ambiental, desestabilizando a ordem natural e humana.

Essa contraposição destaca como o papel do herói na contemporaneidade não se restringe a bravura física, mas envolve responsabilidade moral e ética perante a coletividade e o planeta.

O governo Bolsonaro, segundo evidências científicas sobre desmatamento e emissões, representa uma figura simbólica antitética ao herói protetor da Amazônia, refletindo a importância de ações heroicas pautadas pela ética, compaixão e compromisso social na defesa da vida e da natureza.

A análise do artigo "Visão da ditadura sobre Amazônia operou totalmente na gestão Bolsonaro" [https://apublica.org/2023/03/visao-da-ditadura-sobre-amazonia-operou-totalmente-na-gestao-bolsonaro-diz-pesquisadora/ ], do ponto de vista do herói, revela uma figura simbólica que se distancia do arquétipo do herói protetor e humanitário, aproximando-se de um perfil autoritário e destrutivo.

O governo Bolsonaro retomou uma tradição militarista herdada da ditadura, que vê a Amazônia não como um patrimônio a ser protegido em sua diversidade e equilíbrio, mas como um território a ser ocupado e controlado por forças militares. Essa visão considera a militarização como sinônimo de proteção, mas, na prática, enfocou a guarda da soberania via repressão e controle rigoroso, muitas vezes em conflito com povos indígenas e ambientalistas.

Essa abordagem produz um herói autoritário, que utiliza o poder e a força para garantir uma visão específica de soberania e desenvolvimento econômico, baseado no controle territorial e na exploração dos recursos naturais, em oposição ao herói compassivo e restaurador.

A gestão Bolsonaro, influenciada por essa visão militar, promoveu políticas que desmontaram proteções ambientais e indígenas, e propagou teorias conspiratórias que isolam a Amazônia e seus povos, tratando-os como obstáculos ou ameaças à “integração” e “proteção” nacionais.

Isso representa um herói que confronta não a injustiça social, mas as forças que lutam por direitos e sustentabilidade, invertendo a lógica do herói tradicional para uma figura que opera em defesa de interesses dominantes e por vezes predatórios.

O perfil que emerge é o de um “anti-herói” ou herói sombrio que reafirma um passado autoritário, com repercussão negativa para a floresta, os indígenas e a diplomacia ambiental brasileira.

A repetição do ideário da ditadura militar na Amazônia, sob Bolsonaro, reforça a persistência de narrativas e ações que operam contra a proteção integrada do território e da dignidade dos povos originários.

Sob a perspectiva do herói, o governo Bolsonaro encarna um herói militarizado, autoritário e destrutivo, em contraste com o herói compassivo e transformador que privilegia a justiça social e a sustentabilidade. Essa figura histórica-negativa ressoa com o passado autoritário do Brasil e representa uma ameaça para os modelos de governança democrática e sustentável da Amazônia.

Do ponto de vista do herói, o vídeo "Climate War", que retrata Jair Bolsonaro como criminoso de guerra em relação à Amazônia [https://cimi.org.br/2021/01/bolsonaro-e-retratado-como-criminoso-de-guerra-em-video-sobre-amazonia/ ], constrói uma narrativa arquetípica histórica e simbólica profundamente crítica ao ex-presidente.

O vídeo associa Bolsonaro à figura do inimigo climático que conduz um "exército da destruição" —  garimpeiros, madeireiros e invasores ilegais — responsáveis pelos danos à floresta e à morte de indígenas. Essa construção contrasta radicalmente com o herói tradicional, que protege e preserva seu povo e seu ambiente.

Apresentá-lo como criminoso de guerra coloca-o no lugar do vilão que deve ser parado e responsabilizado, ressoando com figuras históricas que ameaçaram a humanidade e a vida na Terra.

O vídeo marca o início de uma nova agenda de autodefesa dos povos indígenas, que emergem como heróis defensores da Amazônia, da biodiversidade e de suas culturas ancestrais, contrapondo-se ao "anti-herói" Bolsonaro.

Nessa luta simbólica, estar ao lado da Amazônia é posicionado como uma atitude patriótica e heroica, inversamente relacionada ao comportamento destrutivo e irresponsável do governante.

A narrativa do vídeo utiliza a figura do herói clássico para exaltar os povos indígenas na sua resistência e defesa da floresta, ao passo que reveste Bolsonaro e seus aliados da figura do “vilão” ou “anti-herói”, que promove a devastação e a violência.

Tal representação reforça a importância do herói como agente moral, ético e protetor coletivo, em oposição à figura do desordeiro ou destruidor.

A análise da devastação da Amazônia no governo Bolsonaro, a partir das imagens de satélite e dados do período 2019-2022 (como relatado pela InfoAmazonia) [https://infoamazonia.org/2022/10/28/imagens-satelite-desmatamento-amazonia-governo-bolsonaro/ ], sob a perspectiva do herói, apresenta um contraste profundo entre o arquétipo tradicional do herói protetor e a figura simbólica do governante nesse contexto:

A Amazônia, maior floresta tropical do planeta e lar de diversos povos indígenas e comunidades tradicionais, representa um patrimônio natural e cultural a ser protegido por um herói que valoriza a vida, a sustentabilidade e a justiça social.

O desmatamento acelerado, a expansão do garimpo ilegal, a invasão de terras indígenas e a degradação de unidades de conservação sinalizam o enfraquecimento da proteção e o rompimento do pacto social e ambiental, implicando no retrocesso da figura do herói como guardião.

O aumento da devastação — com mais de 40 mil km² desmatados, crescimento em áreas antes preservadas e ataques às terras indígenas isoladas — revela uma gestão que favoreceu a impunidade, reduzindo fiscalização e estimulando ações predatórias.

Esse cenário coloca o governo Bolsonaro no papel simbólico de um “anti-herói” ou agente destruidor, que age em oposição à preservação da vida e da floresta, afastando-se do perfil clássico do herói social e moralmente comprometido.

A destruição ambiental e social da Amazônia sob Bolsonaro pode ser vista como uma ruptura na narrativa heroica da proteção do território e dos povos originários, evidenciando um conflito entre interesses econômicos dominantes e direitos humanos e ambientais.

Seu governo representa uma ameaça para o ideal heroico de defesa da natureza e da dignidade humana, colaborando para a emergência de um imaginário coletivo de resistência e defesa da floresta por outros atores heroicos, como os povos indígenas.

Sob o prisma do herói, o governo Bolsonaro simboliza uma figura histórica que se opõe ao arquétipo do defensor da floresta e da vida, enfatizando a necessidade de reconstruir a narrativa heroica em torno da preservação ambiental e da justiça social na Amazônia.

O documento [PALMEIRA, Luma do Vale; PAIXÃO E CASARÕES, Guilherme Stolle. A Amazônia e o governo Bolsonaro: interesses particulares, discurso soberanista e os inimigos da nação. São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, Escola de Administração de Empresas, Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), 2022. https://periodicos.fgv.br/ric/article/view/86778/84965 ] aponta que os interesses particulares em relação à Amazônia, durante o governo Bolsonaro, envolvem a exploração econômica da região, frequentemente privilegiando setores como agropecuária, mineração e madeireira. Esses interesses tendem a se sobrepor às políticas de proteção ambiental, promovendo a flexibilização das normas ambientais para benefício de grupos econômicos específicos. A gestão valoriza a soberania nacional, porém essa retórica é utilizada para justificar a diminuição da proteção ambiental em favor de atividades econômicas com grande impacto na floresta e nas populações locais.

O discurso soberanista no governo Bolsonaro, conforme descrito no documento, é utilizado para legitimar a redução das políticas de proteção ambiental na Amazônia. Esse discurso enfatiza a defesa da soberania nacional contra supostas interferências estrangeiras, especialmente críticas internacionais sobre a gestão ambiental brasileira. Como resultado, ele serve como uma justificativa para a diminuição da fiscalização ambiental, a flexibilização das leis ambientais e a priorização de interesses econômicos nacionais sobre a conservação da floresta. Isso gera um enfraquecimento das políticas ambientais, dificultando ações efetivas de proteção e conservação da Amazônia. 

O artigo "A Amazônia e o governo Bolsonaro: interesses particulares, discurso soberanista e os inimigos da nação" de Luma do Vale Palmeira e Guilherme Stolle Paixão e Casarões pode ser analisado sob a perspectiva do herói a partir da forma como o governo Bolsonaro se posiciona em relação à Amazônia.

Do ponto de vista do herói, o governo Bolsonaro seria um agente que busca proteger a soberania nacional, enfrentando "inimigos da nação" — que, na retórica oficial, podem incluir organizações ambientais internacionais, grupos indígenas e outras nações que se dizem interessadas na Amazônia. Essa figura heroica se apresenta como defensora dos interesses nacionais e particulares brasileiros, atuando para afirmar o controle soberano sobre a região amazônica, considerada estratégica para o país.

No entanto, a narrativa heroica construída no artigo também levanta críticas, questionando se esses interesses particulares não estariam, na verdade, comprometendo a proteção ambiental e o respeito às comunidades locais. Assim, o "herói" do discurso oficial é um herói ambíguo, cuja luta contra supostos inimigos pode, segundo a análise dos autores, mascarar interesses que potencialmente colocam em risco a integridade da Amazônia e a sustentabilidade da região.

Análise do artigo sob a ótica do herói revela uma complexa construção simbólica, onde o governo Bolsonaro se posiciona como o defensor nacionalista da Amazônia, mas cujas ações e intenções são debatidas, apontando para tensões entre o discurso soberanista e os reais impactos sociais e ambientais na região.

A análise do ponto de vista do herói sobre o maior desmatamento da Amazônia em 11 anos, constatado durante o governo Bolsonaro [https://inesc.org.br/maior-desmatamento-na-amazonia-em-11-anos-atingidos-pelo-desmonte-ambiental-de-bolsonaro-se-reunem-em-brasilia/ ], permite compreender a gestão como uma ruptura simbólica profunda com a figura do herói protetor, humanitário e defensor da natureza.

Tradicionalmente, o herói é aquele que luta para proteger a vida e os bens comuns, como a floresta amazônica, reconhecendo seu valor ambiental, social e cultural para o equilíbrio do planeta e as populações que nela vivem.

O governo Bolsonaro concentrou-se no desmonte das políticas de proteção ambiental, redução da fiscalização, incentivo tácito a invasores e o avanço do agronegócio predatório, elevando o desmatamento a recordes históricos (mais de 40 mil km² entre 2019 e 2022).

A política ambiental desse período estimulou a grilagem, a expansão do garimpo ilegal e as invasões de terras indígenas, ameaçando a vida de povos isolados e minando a proteção de unidades de conservação.

Sob a ótica do herói, Bolsonaro representa a figura do “anti-herói”, cuja ação ou omissão resulta em destruição, retrocessos sociais e ambientais, colocando-o em oposição ao herói humanitário e ético.

Movimentos indígenas, organizações ambientais e comunidades locais emergem como os verdadeiros heróis na resistência contra essa devastação, empenhados em defender a Amazônia e os direitos dos povos originários diante da ação destrutiva do “anti-herói” governamental.

O período governamental de Bolsonaro na Amazônia simboliza a afirmação de um “anti-herói” político, cujo legado foi marcado pela destruição e pelo enfraquecimento das estruturas de proteção ambiental, em contraste com o ideal heroico de defender a vida, a justiça social e a natureza. Essa narrativa ressalta a importância de reconstruir a figura do herói protetor na gestão ambiental brasileira.

Do ponto de vista do herói, a análise do pesquisador Felipe Milanez, que compara Jair Bolsonaro ao imperador romano Nero em relação aos incêndios na Amazônia [https://www.brasildefato.com.br/podcast/brasil-de-fato-entrevista/2020/09/27/bolsonaro-e-o-nero-dos-incendios-na-amazonia-diz-pesquisador-felipe-milanez/ ], constrói uma narrativa de um “anti-herói” ou vilão.

Milanez destaca que Bolsonaro não somente negligenciou, mas promoveu e legitimou as queimadas e a devastação ambiental em biomas brasileiros como a Amazônia, o Pantanal e o Cerrado.

O paralelo com Nero, que teria incendiado Roma para reconstruí-la a seu gosto, simboliza uma figura que deliberadamente causa destruição para atingir interesses próprios ou uma visão política específica.

Essa imagem contrasta radicalmente com o arquétipo do herói tradicional, que protege seu povo e o ambiente, atuando para preservar a vida e a justiça.

Bolsonaro, segundo Milanez, promoveu um governo que incentivou a devastação, ao contrário das tentativas anteriores de conter as queimadas e proteger as florestas, rompendo com a responsabilidade moral e social esperada de um líder heroico.

Frente a esse “anti-herói”, emergem como verdadeiros heróis os indígenas, ambientalistas e populações locais que lutam para defender a floresta e seus modos de vida.

A resistência e a esperança de restauração são apontadas como forças de superação e reconstrução, elementos essenciais da jornada heroica coletiva.

Essa perspectiva simbólica, ao definir Bolsonaro como um vilão incendiário, reflete a tensão entre forças de destruição e forças de preservação, sendo necessária a reconstrução do herói que valoriza a vida, a ética e o meio ambiente para o Brasil e para a Amazônia.

A análise do artigo da Greenpeace "A verdade sobre a Amazônia sob o governo Bolsonaro" [https://www.greenpeace.org/brasil/blog/a-verdade-sobre-a-amazonia-sob-o-governo-bolsonaro/ ], feita do ponto de vista do herói, revela uma desconstrução da figura do herói protetor em relação ao ex-presidente Bolsonaro e sua gestão ambiental.

Bolsonaro, desde sua campanha e durante seu mandato, promoveu políticas que desmontaram a fiscalização ambiental, reduziram orçamentos, promoveram cortes de pessoal qualificado e enfraqueceram órgãos de proteção como Ibama, ICMBio e Funai.

A alta significativa do desmatamento (mais de 52,9% em média nos três primeiros anos, atingindo recordes históricos) associada a uma política que incentivou a legalização de grilagem e o avanço do garimpo ilegal sinalizam um quadro de destruição ambiental que se opõe à missão heroica de proteger a vida e os recursos naturais.

A política de colocar aliados para destruir instituições e promover benefícios a setores predatórios representa o cenário de um “anti-herói”, cujo legado está na destruição e na crise ambiental, diferentemente do herói humanitário e comprometido com a justiça ambiental.

A crise socioambiental causada tornou o Brasil internacionalmente criticado, afetando sua credibilidade e recursos para preservação.

Frente a essa destruição, emergem como verdadeiros heróis as populações indígenas, movimentos sociais, ONGs e pesquisadores que denunciam e atuam para reparar os danos e defender a floresta e seus habitantes.

Sob o ângulo simbólico do herói, o governo Bolsonaro constrói uma narrativa de ruptura com os valores heroicos da proteção, da compaixão e da defesa da vida ambiental e social, afirmando-se como um agente destruidor cujo impacto está fortemente marcado por perdas históricos ambientais. Isso destaca a necessidade da reconstrução da figura do herói protetor em defesa da Amazônia.

A análise do desmatamento na Amazônia durante o governo Bolsonaro (2019-2022) [https://www.brasildefato.com.br/2023/01/20/com-bolsonaro-desmatamento-na-amazonia-cresce-150-pior-marca-ja-registrada-pelo-imazon/ ], do ponto de vista simbólico do herói, mostra um colapso do arquétipo do herói protetor da natureza e da vida, dando lugar a uma figura de “anti-herói” ou de agente destruidor.

Segundo dados do Imazon e monitoramento por satélites, entre 2019 e 2022 foram derrubados mais de 35 mil km² de floresta, um aumento de quase 150% frente ao período anterior, equivalente a quase três estados como Sergipe e Alagoas juntos.

Essa devastação destruiu áreas antes protegidas, incluindo terras indígenas e unidades de conservação, resultando em graves impactos ambientais e sociais.

A política ambiental do governo Bolsonaro foi marcada pelo desmonte de órgãos de fiscalização, incentivo tácito à grilagem e expansão do garimpo ilegal.

Essa postura aproxima o governo do arquétipo do anti-herói, cujo legado está na destruição e na violação da justiça ambiental, em oposição ao herói compassivo, protetor e com compromisso social.

Frente a esse quadro, surgem como verdadeiros heróis os povos indígenas, ambientalistas e comunidades que lutam para preservar a floresta e sua diversidade cultural.

Essa resistência representa a busca por restaurar a figura do herói que protege a vida e o meio ambiente numa narrativa de superação e reconstrução.

Do ponto de vista do herói, o período Bolsonaro representa uma ruptura simbólica na missão de defesa da Amazônia, assentada em ações destrutivas e desmantelamento institucional. A reconstrução do herói protetor dependerá da retomada da proteção ambiental e da justiça social, e do fortalecimento da resistência popular e institucional.

A análise do índice recorde de desmatamento em áreas protegidas durante o governo Bolsonaro, segundo o Instituto Socioambiental (ISA) [https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/bolsonaro-deixa-presidencia-com-recorde-historico-de-desmatamento-em-areas ], feita do ponto de vista do herói evidencia uma contradição profunda com o arquétipo do herói protetor.

O governo Bolsonaro promoveu o maior retrocesso ambiental do século, com aumento de 94% no desmatamento em Áreas Protegidas (Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Territórios Quilombolas), fruto do desmonte dos órgãos de gestão ambiental, paralisação da demarcação de terras e quase total paralisação da fiscalização dos crimes ambientais.

O herói tradicional, defensor da vida e da justiça, teria fortalecido essas instituições e pautado sua ação na proteção do patrimônio comum, diferentemente do quadro de destruição e impunidade promovido.

O aumento de 157% no desmatamento em Terras Indígenas destaca a omissão criminosa do Estado e o estímulo à ilegalidade, colocando em risco a vida e cultura dos povos originários. Essa tragédia social e ambiental marca o afastamento do herói humanitário e aponta para um “anti-herói”, cuja ação contraria os valores de proteção e solidariedade.

A análise do ISA conclama à urgência de restaurar políticas de gestão e proteção ambiental, retomando instrumentos como o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI). Essa tarefa simboliza a reconstrução da figura heroica legítima, comprometida com a defesa da vida, justiça ambiental e respeito aos direitos sociais.

Do ponto de vista do herói, o período Bolsonaro representa um período de ruptura e destruição do valor heroico da proteção ambiental, demandando esforços urgentes para resgatar e reconstruir o modelo do herói que defende o meio ambiente e os povos originários.

Análise do aumento de 59,5% do desmatamento na Amazônia durante o governo Bolsonaro, segundo dados oficiais do Inpe e relato na fonte [https://www.oc.eco.br/bolsonaro-encerra-governo-com-alta-de-60-no-desmate-na-amazonia/], do ponto de vista do herói mostra uma ruptura grave com o arquétipo do herói protetor.

Sob a gestão Bolsonaro, que se iniciou com uma taxa média de 7.145 km² (2015-2018), a área desmatada saltou para uma média anual de 11.396 km², com recordes chegando a 11.568 km², o que representa uma escalada descontrolada da destruição dos biomas.

O herói, em sua concepção tradicional, é aquele que protege a vida, a natureza e os bens coletivos, atuando para preservar o patrimônio comum e enfrentar ameaças. Os dados revelam que, durante o governo Bolsonaro, essa missão foi sistematicamente descumprida.

O aumento do desmatamento, particularmente em regiões críticas como o Amazonas e Pará, o enfraquecimento do Ibama e a paralisação da fiscalização indicam a ação ou omissão deliberada contra a proteção ambiental.

A política de “passar a boiada”, retirada de lideranças ambientais e conivência com expansão do agronegócio predatório simbolizam o perfil do “anti-herói”, que atua contra o interesse coletivo em prol de forças econômicas e ideológicas.

O legado deixado é o de uma Amazônia “conflagrada”, um desafio histórico para o sucessor, que precisará reverter sérios danos ambientais e institucionais. A ocultação e manipulação de dados oficiais nas reuniões internacionais evidenciam uma postura contrária à transparência e à ética, reforçando o afastamento do ideal heroico.

No quadro simbólico do herói, o fim do governo Bolsonaro representa a superação de um “anti-herói” que falhou em proteger e preservar, deixando uma herança problemática. A reconstrução do herói protetor da Amazônia demanda ações firmes e éticas para restaurar a governança ambiental e social.

Os principais impactos das políticas de Jair Bolsonaro na Amazônia, conforme o artigo [RAMOS, Adriana. Amazônia sob Bolsonaro. Aisthesis, Pontifícia Universidad Católica de Chile, v. 70, p. 287-310, 2021. Enviado em 20 ago. 2021. Aceito em 10 dez. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.7764/Aisth.70.13  . Acesso em: 21/09/2025. https://www.scielo.cl/pdf/aisthesis/n70/0718-7181-aisthesis-70-0287.pdf ], incluem:

Durante o governo Bolsonaro houve um aumento significativo do desmatamento e da destruição ambiental na Amazônia, com a política do governo incentivando a ocupação e exploração da região, frequentemente em desacordo com normas ambientais.

Houve ameaças e desmobilização de órgãos de fiscalização ambiental, como o Ibama e o ICMBio. Por exemplo, fiscais foram ameaçados pelo próprio presidente, o que levou à paralisação de operações contra o desmatamento e garimpos ilegais.

O governo atuou para enfraquecer regulamentos e garantir a impunidade para crimes ambientais, buscando desconstruir o arcabouço de proteção socioambiental estabelecido nas últimas décadas.

A política ambiental de Bolsonaro afetou negativamente a imagem do Brasil nas negociações internacionais sobre clima, influenciando desde acordos bilaterais até processos de ingresso em organizações como a OCDE.

As políticas e discursos do governo tensionaram os direitos indígenas, com ações repressivas e investigações, conduzidas inclusive pela Polícia Federal, sobre lideranças indígenas. Em suma, as políticas de Bolsonaro na Amazônia resultaram num quadro de maior destruição ambiental, enfraquecimento institucional, aumento da impunidade e desgaste internacional, além de promover tensões e violações contra povos indígenas.

O envolvimento das Forças Armadas na questão da Amazônia sob o governo Bolsonaro é destacado em vários pontos do artigo de Ramos (2021).

Desde maio de 2020, o governo federal transferiu do Ibama a coordenação das operações de fiscalização ambiental para as Forças Armadas, que passaram a assumir maior responsabilidade na fiscalização, embora as primeiras operações coordenadas pelo Exército tenham sido ineficazes, sem multas ou apreensões.

Houve um crescimento expressivo nos gastos das Forças Armadas com operações na Amazônia, chegando a gastar 589,7 milhões de reais, valor muito superior ao usado por órgãos ambientais como Ibama e ICMBio (176,6 milhões). Contudo, esse aumento dos gastos não impediu que 2020 fosse o ano com a pior taxa de desmatamento na Amazônia desde 2008 e o maior número de focos de incêndio desde 2010.

Investigações apontam que recursos para ações contra o desmatamento foram usados para reformas em quartéis, inclusive fora da Amazônia, levantando questionamentos sobre a eficiência e o enfoque das ações militares.

O governo indicou policiais militares para cargos em órgãos como o ICMBio e tenta aprovar legislação para incluir polícias militares estaduais no Sistema Nacional de Meio Ambiente, numa estratégia criticada por defender a substituição dos fiscais ambientais por forças policiais, configurando uma "milícia ambiental".

Conforme declaração do General Mourão, há uma preocupação nos militares com a responsabilidade que pode recair sobre as Forças Armadas caso o governo "falhe" ou "erre demais". A militarização da política ambiental está ligada a uma ofensiva contra movimentos indígenas e organizações da sociedade civil, ampliando inquéritos políticos contra lideranças indígenas impulsionados pela Polícia Federal.

Em resumo, as Forças Armadas assumiram papel central e protagonismo nas ações relacionadas à fiscalização e controle da Amazônia no atual governo, com aumento de recursos e poder, mas sem resultados efetivos em conter o desmatamento e ainda gerando controvérsia quanto à gestão e objetivos dessas intervenções,,,.

No artigo “Amazônia sob Bolsonaro”, Adriana Ramos apresenta a complexa relação entre o governo Bolsonaro, a Amazônia e as populações indígenas, destacando diversos conflitos socioambientais. A partir da perspectiva do herói, podemos destacar alguns elementos-chave

O artigo de Ramos (2021) descreve a figura de Jair Bolsonaro como central na moldura do “herói” ou, mais precisamente, do “anti-herói” em um cenário socioambiental polarizado. Bolsonaro se apresenta, no discurso oficial, como o defensor da soberania nacional e do “direito de desenvolvimento” da Amazônia, que para ele está ameaçada por interesses estrangeiros e ambientais externos. Porém, essa autopercepção heroica está em conflito com evidências satelitais sobre desmatamento e com denúncias de órgãos e movimentos indígenas e ambientais que o acusam de “destruir a Amazônia”.

Na narrativa oficial governamental, Bolsonaro encarna o papel do salvador que luta contra inimigos externos (países, ONGs, acusações internacionais) e internos (organizações ambientais, indígenas) para defender o Brasil e sua soberania. Por outro lado, segundo Ramos (2021), essa jornada heroica é marcada por crescentes conflitos e resistências — tanto políticas quanto judiciais — traduzidas em campanhas de oposição e denúncias internacionais.

Ramos (2021) destaca que as Forças Armadas são fundamentais para o projeto governamental, funcionando quase como aliados ou instrumentos do herói Bolsonaro na “defesa” da Amazônia, inclusive com declarações sugerindo que, caso o governo falhe, “conta-se com as Forças Armadas”. No entanto, o papel das Forças Armadas é também colocado em questão, pois algumas narrativas apontam seu interesse corporativo mais do que ambiental ou indígena.

Na leitura de Ramos (2021), percebe-se um conflito clássico entre o “herói” (o governo) e os “outros” — indígenas e ambientalistas que defendem territórios e o meio ambiente, cujos direitos têm sido violados historicamente. Assim, o herói Bolsonaro não somente enfrenta inimigos externos, mas também confronta os legítimos defensores da floresta, inserindo-se em um conflito político e simbólico profundo.

A análise demonstra que a narrativa heroica do governo se choca com o consenso científico e os tratados internacionais, bem como com documentos que denunciam violações de direitos humanos contra povos indígenas. Essa dissonância coloca em xeque a legitimidade do “herói Bolsonaro” e evidencia a complexidade e ambiguidade dessa figura na defesa da Amazônia. Do ponto de vista do herói, o artigo de Ramos (2021) evidencia Jair Bolsonaro como uma figura central que encarna uma narrativa de defesa da soberania nacional e “salvamento” da Amazônia, em uma jornada de enfrentamentos e resistências. Contudo, essa imagem heroica é fortemente questionada e problematizada pela autora, que usa dados científicos e denúncias para evidenciar os impactos negativos e as contradições dessa narrativa; portanto, o “herói” aqui se torna um personagem polêmico, cuja trajetória está longe de ser heroica para todos os atores envolvidos.

A análise do especial do Intercept Brasil sobre a apropriação ilegal de terras públicas na Amazônia e a transformação dessas áreas em pasto e monocultura [https://www.intercept.com.br/2022/11/14/amazonia-desmatamento-pasto-terras-publicas/ ], do ponto de vista do herói, revela uma intensa luta simbólica entre forças opostas.

O herói é a figura que luta pela justiça, proteção da coletividade e preservação do meio ambiente, defendendo territórios e povos vulneráveis contra a exploração predatória e injusta. Na Amazônia, o território público e as terras indígenas representam bens comuns que deveriam ser protegidos por heróis na forma de órgãos ambientais, ativistas, comunidades e instituições dedicadas à defesa do bioma e dos direitos sociais.

O especial expõe a atuação de grupos criminosos poderosos que se apropriam ilegalmente de terras públicas, destruindo a floresta para lucrar com a madeira, a pecuária e a monocultura. Esses grupos, com conexões locais e econômicas, simbolizam forças “anti-heroicas” ou destrutivas, antagonistas do herói que protege o patrimônio comum. A impunidade, o conhecimento técnico usado para favorecer crimes e a conivência ou omissão estatal reforçam o poder dessas forças destrutivas.

O cenário desafia a capacidade de reconstrução do papel heroico, exigindo uma coalizão entre diversos agentes sociais, indígenas, cientistas e órgãos reguladores para enfrentar as ameaças. O fortalecimento do heroísmo coletivo é crucial para assegurar a defesa da Amazônia e a justiça socioambiental.

Do ponto de vista do herói, o especial "Ladrões de Floresta" revela um antagonismo claro entre o herói protetor do bioma e as forças destrutivas representadas pela grilagem e destruição ilegal. Essa luta simbólica é central para compreender os desafios atuais e a urgência da recuperação do papel heroico na governança da Amazônia.

A análise do especial do Intercept Brasil "Profissionais colocam Estado a serviço da grilagem de terras públicas na Amazônia" [https://www.intercept.com.br/2022/12/01/profissionais-colocam-estado-a-servico-da-grilagem-de-terras-publicas-na-amazonia/ ], do ponto de vista do herói, evidencia uma trama complexa e sombria de antagonismo simbólico entre o herói protetor e as forças anti-heroicas da grilagem e destruição ambiental.

O herói, no seu paradigma clássico, age para proteger bens coletivos e a justiça social, defendendo o meio ambiente, territórios públicos e direitos dos povos indígenas contra a exploração ilegal e predatória. A Amazônia, território público e patrimônio da humanidade, deveria ser resguardada por esses agentes heroicos compostos por órgãos ambientais, comunidades locais e movimentos sociais.

A reportagem expõe como corretores, engenheiros, e até parte do aparato estatal foram cooptados para facilitar a apropriação ilegal de terras públicas, usando o Cadastro Ambiental Rural (CAR) como ferramenta para dar um verniz de legalidade à grilagem.

Esses agentes representam as forças anti-heroicas ou destruidores, que com recursos técnicos, conivência e interesses econômicos promovem a devastação e o prejuízo coletivo.

O papel fundamental de profissionais especializados, que manipulam dados e registros públicos para legitimar ocupações ilegais, destaca a complexidade do problema e a resistência contra o herói protetor.

A existência e a eficácia dessas redes criminosas representam um desafio enorme para a reconstrução do papel do herói coletivo que luta pela conservação da Amazônia e do seu povo. O restabelecimento do herói depende da denúncia, do fortalecimento institucional e da mobilização social para enfrentar tais forças antagônicas.

Do ponto de vista simbólico, essa investigação expõe o conflito entre o herói protetor da Amazônia e as forças anti-heroicas da grilagem apoiadas por estruturas estatais e econômicas. Essa luta representa o cerne da disputa pela sobrevivência do bioma e pela justiça socioambiental, reforçando a urgência da recuperação do papel heroico coletivo na governança da região.

A análise do artigo [https://www.intercept.com.br/2023/01/17/com-bolsonaro-ministerio-do-meio-ambiente-abriu-mao-de-area-na-amazonia-onde-madeireiros-derrubaram-45-mil-caminhoes-de-arvores/ ], sob a perspectiva do herói, revela um cenário de forte antagonismo entre o herói protetor da natureza e as forças destruidoras, que agem com conivência do Estado.

A extração ilegal de madeira na área da União no município de Lábrea (sul do Amazonas) atingiu a marca de 45 mil caminhões de toras, equivalentes a uma fila de 450 km, num saque organizado e quase tácito, com a conivência ou desinteresse dos órgãos ambientais. O corte seletivo de espécies valiosas e a rápida transformação da área em pastagem evidenciam uma degradação severa que ameaça a integridade ecológica da floresta e dos povos indígenas isolados.

O Ministério do Meio Ambiente sob Bolsonaro abriu mão da defesa dessas áreas estratégicas, mesmo diante de recomendações do Ministério Público Federal e evidências de irregularidades. A emissão de licenças ambientais baseada em documentos autodeclaratórios inválidos reforça uma política de facilitação do desmatamento ilegal, evidenciando omissão e irresponsabilidade na gestão pública.

Essa situação traduz a figura do “anti-herói” na política ambiental — um agente cujo legado está na destruição deliberada do patrimônio natural, minando a função heroica de proteger a vida e o meio ambiente. O abandono das áreas protegidas representa um desafio para o surgimento de heróis coletivos que possam defender, restaurar e reequilibrar os ecossistemas ameaçados.

Do ponto de vista do herói, esse episódio revela a violência simbólica e real do “anti-herói” governamental contra o patrimônio comum da Amazônia, estimulando o aprofundamento da luta heroica coletiva pela proteção da floresta e a responsabilização dos agentes destrutivos.

A análise do artigo [https://www.intercept.com.br/2023/02/08/ministerio-do-meio-ambiente-de-bolsonaro-abriu-mao-de-defender-8-milhoes-de-hectares-na-amazonia-pantanal-e-cerrado-2/ ], feita do ponto de vista do herói, revela um grave afastamento do arquétipo do herói protetor da natureza e dos bens comuns.

Durante o governo Bolsonaro, o Ministério do Meio Ambiente decidiu prescindir da criação e proteção de 167 áreas da União em regiões críticas da Amazônia, Cerrado e Pantanal, abrangendo mais de 8 milhões de hectares de florestas e terras de alto valor ecológico; incluindo áreas com estudo para unidades de conservação e terras indígenas. Essa decisão foi tomada sem consulta às equipes técnicas, ignorando pareceres científicos e técnicos que recomendavam a preservação dessas áreas.

A ação revela uma política de desproteção ambiental que concede espaço para a expansão da exploração predatória, grilagem e destruição do patrimônio natural comum. O abandono das unidades de conservação projetadas e a preferência explícita por destinação dessas terras para propriedades privadas simbolizam um “anti-herói” na administração pública, que rejeita a proteção, colocando em risco os ecossistemas mais valiosos e as comunidades tradicionais.

A decisão de abdicar dessas áreas não só acentua a crise ambiental, mas também agrava os conflitos fundiários e a vulnerabilidade dos povos indígenas e populações tradicionais. O artigo destaca ainda a resistência local que depende da reconstrução do herói coletivo para garantir direitos, justiça e sustentabilidade.

Do ponto de vista do herói, o governo Bolsonaro encarna um período de ruptura e destruição do papel simbólico do líder protetor, com decisões que favorecem o retrocesso na proteção ambiental e na justiça socioambiental. A reconstrução desse herói implica na retomada da proteção dessas áreas e no fortalecimento da governança ambiental democrática e ética.

Hillman, James [O mito da análise: três ensaios em psicologia arquetípica. Nova York: Harper Torchbooks,1978 https://archive.org/details/mythofanalysis00hill/mode/2up ] aborda uma reflexão profunda sobre a psicologia, focando na ausência da figura do pai no desenvolvimento psicológico e simbólico, em especial na construção do herói como arquétipo.

Inicia destacando um "complexo de pai ausente", que impacta tanto o desenvolvimento simbólico pessoal quanto o campo da psicologia. Essa ausência paterna gera uma dependência da mãe e uma psicologia vinculada a narrativas maternas, materialistas e genéticas, limitando a liberdade psíquica e a criatividade. O herói nasce nesse contexto ambíguo: sem um pai claro, o herói precisa se autocriar, ser um "criador heroico" que constrói seu próprio padrão existencial, criando seu mito pessoal, um ego eclético e incompleto, marcado pela ambiguidade moderna.

O papel do herói na análise é existencial: analista e paciente juntos buscam um sentido para o ser, em uma jornada compartilhada, em que o herói (analista) busca um pai simbólico que ampare seu próprio papel. A criatividade no herói é um processo de renovação cíclica profundamente ligado ao inconsciente materno, uma força regeneradora, onde a luta do herói é simulada e funda mudanças, pois não há morte plena, somente renascimento. O herói da consciência, conforme refletido na obra, está mais avançado e complexo, imerso em uma narrativa que ultrapassa a jornada edipiana clássica, buscando uma integração de eros e psique, uma união mítica entre forças complementares. O sofrimento, a iniciação e a jornada do herói na psicologia são simbólicos e feitos de transformações internas, integrando forças arquetípicas como Dionísio, Eros, Psique, mitos que refletem a psique humana e sua criatividade. Mito do herói, na psicologia profunda, não é linear e fechado, posiciona o ego como um sujeito que transita entre os polos consciente e inconsciente, carregando complexos e buscando continuamente sentido e integração.

O herói psicológico descrito no texto é uma figura simbólica complexa que surge da ausência paterna, da luta pela autocriação, da busca por um sentido existencial e da integração arquetípica de forças internas. Esse herói não é um modelo simples de triunfo, mas um ser em constante movimento, enfrentando sofrimento e renascimento, numa jornada que transcende os mitos edipianos para abraçar novas narrativas do inconsciente e da psique.

Na obra apresentada [HILLMAN, James. Archetypal Psychology. Copyright de 1983, revisado em 2004 por James Hillman. Putnam, Connecticut: Spring Publications, 2004], a ideia do herói é compreendida no contexto da psicologia arquetípica como um arquétipo fundamental que representa uma figura simbólica do percurso interior da alma. O herói não é somente um personagem mitológico ou literário, mas um padrão imaginal que emergente nas experiências humanas e na psique coletiva, refletindo as jornadas de transformação, desafio e individuação.

O herói é visto como uma representação simbólica do processo de enfrentar desafios internos e externos, passando por provas que levam ao crescimento e à mudança psíquica. Ele expressa o impulso da alma em confrontar o desconhecido e ordenar a desordem psíquica.

A psicologia arquetípica valoriza o aspecto politécnico da psique, e o herói é um entre muitos arquetípicos reais no indivíduo, coexistindo e interagindo com outras figuras arquetípicas. Isso implica que o herói não é uma entidade isolada ou unificada, mas parte de um complexo polifônico interno.

Mais do que um essencialista conceito psicológico, o herói funciona como uma metáfora imaginal e poética que auxilia o indivíduo a articular e viver sua experiência viva, evitando explicações reducionistas ou simbólicas estritas. É através da imaginação que o arquétipo do herói ganha corpo e eficácia terapêutica.

O herói reflete tanto os conflitos e possibilidades do indivíduo quanto os temas coletivos e mitológicos que permeiam a cultura. Ele oferece uma ponte para compreender não só a psique pessoal, mas os mitos e narrativas que configuram a experiência humana, em geral.

Na psicologia arquetípica, relacionar-se com o arquétipo do herói contribui para a individuação poética, onde o indivíduo se torna consciente do drama interior, reconhecendo suas forças e fraquezas, e navegando pelas complexidades da alma com coragem e imaginação.

Portanto, o herói na obra é essencialmente um arquétipo vivo e dinâmico que simboliza o poder transformador da alma em sua busca por sentido, enfrentamento do conflito e realização interior, capturado através da imaginação poética na psicologia arquetípica.

Analisar a obra de James Hillman, "Archetypal Psychology" [HILLMAN, James. Archetypal psychology: a brief account. 2. ed. Dallas, TX: Spring Publications, 1985 https://s3.us-west-1.wasabisys.com/luminist/EB/H/Hillman%20-%20Archetypal%20Psychology.pdf ], a partir do ponto de vista do herói implica considerar a psicologia arquetípica como uma jornada simbólica similar à do herói mitológico, a qual por desafios e transformações busca o autoconhecimento e a individuação.

Hillman enfatiza a multiplicidade dos arquétipos que habitam a psique, e dentre eles, o herói representa o aspecto dinâmico da busca e superação. O herói simboliza a coragem, o risco e a travessia das provas que levam à transformação. Assim, a obra pode ser compreendida como um convite para o sujeito psicológico assumir a postura do herói, enfrentando as próprias sombras, conflitos internos e arquetípicos para avançar rumo à maturidade psíquica.

Na perspectiva de Hillman, não se trata simplesmente de resolver conflitos ou curar sintomas, mas de narrar e viver a própria “história mitológica”. O herói representa o sujeito que dialoga com os mitos interiores, reconhecendo forças arquetípicas como o Puer (o jovem heróico), o Senex (o sábio), a Mãe, entre outros, como personagens da própria épica pessoal.

Diferente da visão clássica do herói triunfante que retorna ao lar vitorioso, a psicologia arquetípica de Hillman valoriza a profundidade do processo interno, onde a “vitória” é menos externa e mais uma reconciliação com os múltiplos aspectos do eu. O herói aqui é um explorador do inconsciente, que acolhe o polifônico interno, e não simplesmente um conquistador.

Ver a vida e a terapia como uma jornada do herói implica que o sofrimento e as crises sejam vistos como provações necessárias, que ativam o arquétipo correspondente e proporcionam crescimento. A obra assim ressignifica as dificuldades emocionais como parte do caminho heroico da alma, elevando a psicologia a uma dimensão poética e sagrada.

Abordando a obra a partir do ponto de vista do herói, "Archetypal Psychology" é uma cartografia da jornada interna arquetípica, que convida o sujeito a se reconhecer como protagonista de sua própria narrativa simbólica, enfrentando testes, dialogando com imagens profundas e emergindo transformado pela experiência da alma. A psicologia deixa de ser mero diagnóstico para se tornar uma verdadeira odisseia interior, na qual o herói-arquetípico transita por múltiplas figuras e desafios rumo à plenitude psíquica.

ESTÉS, Clarissa Pinkola [Women Who Run with the Wolves: Myths and Stories of the Wild Woman Archetype. New York: Ballantine Books, 1992. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Estés, Clarissa Pinkola. Nova York: Ballantine Books, 1992 https://archive.org/details/womenwhorunwithw00est/page/n7/mode/2up ] evoca o arquétipo da Mulher-Esqueleto na psicologia analítica junguiana, especialmente no contexto da jornada do herói e de processos psicológicos profundos de transformação.

A Mulher-Esqueleto representa uma força do destino, ligada à morte e à renovação, inevitável na experiência humana e relacional. O herói deve enfrentar essa figura desafiadora na sua jornada, abraçando a transformação que ela simboliza, embora isso envolva medo, engasgamento e luta interna. Essa luta é descrita como uma descida ao inconsciente, um abismo necessário para o crescimento e a criatividade, fundamentos do heroísmo que exige coragem para atravessar o desconhecido sem estar "completamente pronto". A paciência e a tenacidade para conviver e trabalhar com a figura da morte psicológica (a Mulher-Esqueleto) são destacadas, enfatizando que o herói não precisa ser fisicamente forte, mas possui um coração disposto a perecer e renascer simbolicamente repetidas vezes. A interação entre o herói (ou heroína) e a Mulher-Esqueleto não é uma batalha destrutiva, mas um processo de desembaraçar a complexidade da vida-morte-vida, permitindo a transformação, a renovação e o amadurecimento psicológico. No mito, essa jornada se relaciona com o eixo ego-self da psicologia junguiana, onde ferramentas simbólicas como facas ou fogo representam a capacidade de cortar a obscuridade, transformar a vida antiga em nova e repelir negatividade.

O processo descrito lembra mitos clássicos, como o de “A Bela Adormecida”, onde o despertar não é por um ato heroico superior, mas por um tempo certo e um ciclo que se completa. O arquétipo da Mulher-Esqueleto pode ser entendido como parte dos fundamentos femininos do inconsciente, significando aspectos profundos da psique ligada à morte, regeneração e sabedoria instintiva.

O arquétipo da Mulher-Esqueleto no contexto da psicologia do herói simboliza a inevitabilidade da morte e transformação na jornada psicológica e existencial. O herói deve ter coragem para mergulhar no abismo do inconsciente, enfrentar e integrar essa força para alcançar a renovação e o crescimento. A dança entre vida, morte e vida representa o ciclo eterno da transformação, fundamental ao desenvolvimento da psique.

Referências:

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Tradução Adail Ubirajara Sobral. 6.

ed. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 2000 (ed. orig. 1949).

JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. Tradução de Maria Tereza G. da Silva. Rio de Janeiro : HarperCollins Brasil, 2016.

Jung, Carl Gustav, 1875–1961. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de

uma esquizofrenia / C.G. Jung.  tradução de Eva Stern. Revisão técnica Jette Bonaventure. Título original: Symbole der Wandlung : Analyse des Vorspiels zu einer Schizophrenie. Petrópolis, Vozes, 2016. 

ELIADE, Mircea, 1907-1986. Mito do eterno retorno / Mircea Eliade ;  tradução José A. Ceschin. São Paulo: Mercuryo, 1992.

FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Título do original: ANATOMY OF CRITICISM Copyright © 1957, by Princeton University Press Tradução de  PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS.  São Paulo: CULTRIX, 1973.

NEUMANN, Erich. História das origens da consciência. Tradução: Margit Martincic; com a colaboração de Daniel Camarinha da Silva e Adail Ubirajara Sobral. – 2. ed. - São Paulo: Cultrix, 2022.




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