Chove muito.

 

https://scontent.fbgx1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.18169-9/19399694_950601841748669_6089229476706927119_n.jpg?_nc_cat=107&ccb=1-7&_nc_sid=7b2446&_nc_ohc=tcNF0wpXlIcQ7kNvgFXqu0S&_nc_ht=scontent.fbgx1-1.fna&oh=00_AYBC2otGQSPcEJeabmNtZA-_7tF0FJzqTQwebmrXxz6iPw&oe=671A7242 

 

“Somos da mesma matéria da qual são feitos os sonhos e nossa vida breve é cingida pelo sono” é uma frase do livro A Tempestade, de William Shakespeare. A frase aparece no Ato IV, Cena I. A Tempestade é uma peça escrita por Shakespeare em 1611. Conta a história de Próspero, um rei que naufraga em uma ilha tropical e planeja sua volta.   

[https://williamshakespearewilliam.blogspot.com/2009/01/tempestade-ato-iv-cena-i.html  ].



Noite de Tempestade Geir Campos. (Especial para o “Diário de Notícias”) Como saudade, que em nossa memória velhos rostos perdidos ressuscita (de alguns sabemos vagamente a história): entra o relâmpago pela janela, e a sala fica inteiramente cheia do seu fulgor. Mortiça, a luz da vela quase desaparece, dissolvida na grande luz apenas prometida. E é quando o olhar aflito se deslumbra - e dos quadros murais, por um momento os ancestrais emergem na penumbra e dizem coisas pela voz do vento.
[Ano 1950\Edição 08507 (1). https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=093718_03&pagfis=3903 ] 

  

 

Claudio Antunes Boucinha  

[Licenciado em História. Mestre em História do Brasil]. 

 

E o que vejo é somente escuridão e solidão. As pessoas estão ali, e estão enterrando seu cadáver. É uma mulher, entre tantas. Parece haver algum consolo em estar juntos, parece ser o melhor caminho, mas prefiro outro. 

Mais que um canto, ou uma festa, ou até mesmo os interesses envolvidos, ou a moral alfinetada, ou até mesmo as tardes memoráveis com “Os miseráveis”, o filme, depois de tanta espera, não negou o seu valor. 

A chuva torrencial está ali, como testemunha do sofrimento alheio. A chuva é o escuro que esconde cada passo que damos na vida, como cegos, tateando, sem saber, bem, qual passo dar, no seguinte instante. 

É o abismo que temos sob nossos pés, e não sabemos e nem queremos pensar sobre tal assunto. 

Meu lugar é onde estou, mas esse lugar não é meu. Eu estou nesse lugar geográfico, mas não sou este lugar. E meu sofrimento parece ser comum, mas ele está na carne, impregnado, e não tem como limpar, como um carro novo, ou uma água limpa. Dizem que se volta no tempo, olhando fotografias da mente, como se procurássemos emoções onde não existe nada. Na verdade, tal frieza esconde sentimentos dúbios, mascarados, entre aquilo que sou e o que não sou. 

Não há o que procurar no passado? Tudo é inútil, como uma vitrola que só toca uma música, de um vinil velho? Ou seria melhor um gramofone, ou sons das rochas, misteriosas, que uivam e gritam, de forma lancinante, por século afora? Como cantos de sereias, como encantadores de serpentes, como mágicos, magos, com seus chapéus ritualísticos, cheiros de poder de origem incerta, desconhecida? Que acabaram na cabeça do papai Noel e nos revolucionários franceses de 1789? O que procuramos, afinal? Como podemos achar algo que foi perdido e não sabemos nem o que é? Nem mesmo uma suposta virgindade foi perdida, pois ela não existe materialmente. E nem os anjos têm sexo. Caminhemos, dizem. Mas para onde? Em minha volta, só vejo escuridão e chuva intensa. 

Escrevo sobre o vale da morte. Em que as mansões se sucedem, qual divina comédia. Ali estão todos, todas, tudo, dessa parafernália humana e desumana. Alguém tem a chave, mas há um terror abscôndito de abrir qualquer coisa, em qualquer lugar ou qualquer tempo. Não esqueçam que Dante tem, a seu lado, além de sua própria alma, cadáveres insepultos, sombras do que eram e foram, produtos da mente do próprio Dante, mesmo que supostamente brilhantes, em suas épocas. São como casas astrais, como signos ascendentes, que governam o inconsciente de Dante. Numa espiral descendente, seguindo a ideia do que está em baixo, estaria supostamente mais próximo do material e não do espiritual, o que pode não ser verdade, mas, de forma cabalística, espelha a ideia de que a terra é o território dos últimos. 

Nessa dualidade maniqueísta, simplifico fatos que são complexos. “O maniqueísmo foi fundado por Mani, também chamado Manes ou Maniqueu, no século III na Pérsia”.   

Para os órficos, o humano nasce com um lado dionisíaco, divino, espiritual, do bem, e um lado titânico, material, corporal, do mal, incorrendo no risco do maniqueísmo da nossa existência, de professar um dualismo que aufere à carne um estatuto de pecado e à alma um estatuto divino e imaculado. Todavia, mesmo que não se queira assumir essa dicotomia, a fragmentação de ambos os corpos, “também pode representar as forças de separação e fragmentação no nível da alma individual” (apud Uždavinys 2011, 67). Orfeu, inserido nos mistérios apolíneos, converte-se à religião dionisíaca, sem renunciar Apolo (cf. Boulanger 1937, 46), e, com a presença das duas religiões em Orfeu, acontece uma terceira religião: o Orfismo: “Apolíneo em caráter […e…] é um Dionísio domesticado e vestido” (Cornford 1957, 195). O poeta contém em si os dois deuses e, no culto órfico, a fusão entre a exatidão apolínea e o êxtase dionisíaco tornam o Orfismo um modus vivendi que prima pelo equilíbrio e pela transformação do espírito (cf. Uždavinys 2011, 38). [https://www.redalyc.org/journal/653/65375281016/html/ ]. 

 

Nem o zoroastrismo, que o antecedeu, também era simplista. “O zoroastrismo é uma religião monoteísta, iraniana e uma das mais antigas do mundo, que surgiu na antiga Pérsia por volta do século VI a.C. É também conhecida como Masdeísmo ou Parsismo”. Tudo isso é assunto de leigos, de senso comum. 

Na verdade, a realidade é única e as separações são frutos do trabalho humano. Quando se fala que “O que está abaixo é como (aquilo) que está acima, e o que está acima é como (aquilo) que está abaixo, para realizar os milagres de uma coisa”. https://de.wikipedia.org/wiki/Tabula_Smaragdina . A tradução e a interpretação são variadas; mas prefiro a mais terrível para o ser humano, “porém, para Atlas, deu-lhe o castigo de sustentar para sempre nos ombros o céu. Seu nome passou a significar ‘portador’ ou ‘sofredor’” https://pt.wikipedia.org/wiki/Atlas_(mitologia) . Ou ainda: “Prometeu por sua vez, como castigo eterno, foi acorrentado a uma rocha no Cáucaso, onde seu fígado era devorado cotidianamente por uma águia, apenas para vê-lo regenerar-se durante a noite, segundo a lenda, devido à sua imortalidade. Anos mais tarde, o herói grego Héracles (ou Hércules Romano) abateria a águia e libertaria Prometeu de seus grilhões. https://pt.wikipedia.org/wiki/Prometeu . 

As pontes que procuramos, já estão ali, sempre estiveram, e sempre estarão. Não me perguntem quem garante isso. São as escadas de Jacó. Também as torres de Babel. As pirâmides de todo o planeta, em que a ciência tenta se igualar ao espírito. É também o caso das catedrais góticas. 

O homem tem demonstrado através de sua arquitetura sagrada, a necessidade das civilizações de estarem em harmonia com o cosmos. Esta necessidade, tanto física quanto espiritual, é visível por meio da análise de diversos edifícios. Esta conexão com o Divino foi buscada, por diversos povos, por meio da verticalidade de suas construções, na tentativa de alcançar o céu ou transmitir a sensação de infinito. Grande exemplo desta busca está nas edificações piramidais, do Antigo Egito, assim como os zigurates mesopotâmicos, onde seus rituais eram realizados na parte mais alta de suas edificações (PEREIRA, 2005). [Estas construções são comparadas à forma do tetraedro, considerado um sólido platônico. Estes sólidos consistem em cinco formas geométricas que, segundo Bangs (2010), são a base de todas as estruturas e são originados, cada um, das formas geométricas puras - o triângulo equilátero, o círculo e o quadrado perfeito - Os quais são: O cubo, tetraedro, octaedro, icosaedro e dodecaedro (SKINNER, 2007)]. O fato de, nas pirâmides, a base ser quadrangular, demonstra que a preocupação estava voltada para o contato com o meio Cósmico, através da verticalidade (a montanha simbólica). Mais tarde surgem os templos budistas, semelhantes às pirâmides e zigurates: os pagodes. Estes contêm significativo papel religioso para a sociedade em que estão inseridos, de modo que são colocados marcos verticais nas cumeeiras e decorações nos forros internos para que seus praticantes sejam induzidos a olharem para o céu (VENTURI, 1995). A constante busca do homem em entrar em contato com Deus o fez classificar alguns espaços naturais como sagrados, exemplo disso são as montanhas, as quais são assim consideradas por se elevarem aos céus, sendo considerado, mediadora entre o terreno e o divino, lugar este em que as divindades se manifestariam como exemplifica a passagem bíblica (ZEVI, 2000): 

“Então Moisés tirou o povo do acampamento para receber Deus. E eles se colocaram ao pé da montanha. Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé tinha descido sobre ela no fogo; a fumaça subia, como fumaça de fornalha. E a montanha toda estremecia. (...) Javé desceu no topo da montanha do Sinai e chamou Moisés lá para 

o alto. (...)”. (Bíblia, Êxodo 19, 17-18, 20. p. 92, 2001). 

Com o cristianismo, o uso da verticalidade através de representações da montanha é 

abandonado. A tentativa de entrar em contato com Deus é agora criado de outra forma. A verticalidade é, agora, utilizada nas igrejas e catedrais. No estilo gótico, por exemplo, a verticalidade de suas grandes catedrais tem por objetivo passar a ideia de aproximação com Deus e, ao mesmo tempo, recriar o que seria o "mundo celeste" (GRAU, 1989). Esta grande altura se dá por intermédio dos avanços da arquitetura e da criação dos arcos ogivais e arcobotantes, o que só é possível com a geometria, mais especificamente com o conhecido como vesica Piscis, um símbolo obtido pela intersecção de dois círculos de mesmo raio, cortando-se de maneira que o centro de cada um fique sobre a circunferência do outro (LAWLOR, 1982). Já no desconstrutivismo a verticalidade é utilizada para expressar a magnitude da obra, assim como sua imponência, uma vez que tem como principal objetivo a contradição às "regras" impostas pela arquitetura moderna. Em sua maioria, não possui um significado religioso, mas o simbolismo e a geometria continuam presentes, de modo que sua verticalidade traz ao homem a sensação de estar mais próximo de um mundo irreal (ROCHA, 2014). [https://www2.fag.edu.br/professores/solange/ORIENTA%C3%87OES%20TCC%20GRADUA%C3%87%C3%83O%20CAU/2014%20LAURA%20MACHADO/Laura%20Caroline%20Machado%20-%20ARTIGO.pdf ]. 

 

 

Na exaltação do gótico com sua simbiose entre o orgânico e o inorgânico, Bloch encontra a exuberância da vontade de ressurreição. Enquanto o Egito caminha do interior para o exterior na forma da pedra, é misterioso e sem mistério ao mesmo tempo, o gótico ou a linha gótica não é inércia, mas 

[...] possui o foco em si mesma; ela é destituída de repouso e lúgubre assim como as suas formas: os bocéis, as serpentes, as cabeças de animais, os cursos de água, um entrecruzar-se e oscilar desordenados, no qual se encontra o líquido amniótico e o calor de incubação e começa a falar o regaço de todas as dores, voluptuosidades, nascimentos e imagens orgânicas: apenas a linha gótica porta desse modo o fogo central em si mesma, no qual os seres orgânico e espiritual mais profundos são conduzidos ao mesmo tempo à maturidade” (BLOCH, S/D, p. 22).  

Estas são características pelas quais se pode diferenciar o estilo gótico do estilo grego e do estilo egípcio, tanto na fria expressão da pedra como na violenta expressão da alma em sentido transgressor do limite imposto pelo material onde se plasma a vontade da alma. A expressão no gótico tem o infinito como meta, e a inquietação do ser impõe uma transgressão no mundo estático, perfeito e harmônico do estilo grego e na via única para a morte no estilo egípcio. Diferenças estas elencadas pelo próprio Bloch: o Egito “[...] dispõe em camadas, o gótico cria, o Egito imita construtivamente o edifício do universo, o gótico produz simbolicamente o envolvimento, de encontro ao reino anguloso das almas” (BLOCH, S/D, p. 22). Bloch então sintetiza a diferença entre o egípcio e o gótico: enquanto no primeiro impera o signo formal descritivo (deskriptive Formzeichen), no segundo impera o selo formal expressivo-descritivo (expressiv-deskriptive Siegelzeichen). Dada essa diferença, ele pode afirmar o gótico como espírito de ressurreição (Geist der Auferstehung). [Cf. (BLOCH, 1964, p. 38)]. [http://www.periodicos.ufc.br/dialectus/article/download/70904/196743/261271 ] 

 

Nem mesmo em versões modernas, sofisticadas, que expressam o desenvolvimento, tanto na terra, com novas habilidades nas ciências de computação https://itforum.com.br/por-que-tim-cook-esta-preocupado-com-as-habilidades-de-codificacao/  , como no espaço sideral, expressados no filme, série, O Problema dos Três Corpos, que é uma justaposição ou amálgama, mosaico, de supostos avanços em direção as profundezas do universo conhecido, criando problemas, novos e velhos, inspirados na década de 1950, não conseguirão compreender qual ciência verdadeiramente importa, pois seus fundamentos ainda estão assentadas na revolução científica do século XVII. 

 

Cantares, Antônio Machado: 

“Tudo passa e tudo fica 

 

porém, o nosso é passar, 

 

passar fazendo caminhos 

 

caminhos sobre o mar 

 

Nunca persegui a glória 

 

nem deixar na memória 

 

dos homens minha canção 

 

eu amo os mundos sutis 

 

leves e gentis, 

 

como bolhas de sabão 

 

Gosto de vê-los pintar-se 

 

de sol e grená, voar 

 

abaixo o céu azul, tremer 

 

subitamente e quebrar-se… 

 

Nunca persegui a glória 

 

Caminhante, são tuas pegadas 

 

o caminho e nada mais; 

 

caminhante, não há caminho, 

 

se faz o caminho ao caminhar 

 

Ao caminhar se faz o caminho 

 

e ao voltar a vista atrás 

 

se vê a senda que nunca 

 

se há de voltar a pisar 

 

Caminhante não há caminho 

 

não há marcas no mar… 

 

Faz algum tempo neste lugar 

 

onde hoje os bosques se vestem de espinhos 

 

se ouviu a voz de um poeta gritar 

 

“Caminhante não há caminho, 

 

se faz o caminho ao caminhar”… 

 

Golpe a golpe, verso a verso… 

 

Morreu o poeta longe do lar 

 

cobre-lhe o pó de um país vizinho. 

 

Ao afastar-se lhe viram chorar 

 

“Caminhante não há caminho, 

 

se faz o caminho ao caminhar…” 

 

Golpe a golpe, verso a verso… 

 

Quando o pintassilgo não pode cantar. 

 

Quando o poeta é um peregrino. 

 

Quando de nada nos serve rezar. 

 

“Caminhante não há caminho, 

 

se faz o caminho ao caminhar… 

 

Golpe a golpe, verso a verso.” 

 

 

A razão, em seu sentido mais profundo, bem longe de uma suposta filosofia perene, ou de qualquer metafísica, mas como um atributo do ser, individual, intransferível, inalienável, diversa, e completamente unida a ideia de liberdade, também em seu sentido mais profundo, que, na Bíblia, compara-se ao vento, ao sopro, vencerá a loucura? 

https://www.art-prints-on-demand.com/kunst/gustave_dore/the_rain_begins_to_fall_scene.jpg


“O Velocino foi roubado por Jasão e seus companheiros, os Argonautas, com a ajuda de Medeia, filha de Eeteshttps://it.wikipedia.org/wiki/Vello_d%27oro . Talvez, o principal problema, que a maioria não entende, e não entenderá, é porque, nós, supostos argonautas, precisamos de medeias.   

Uma figura muito antiga na lenda inclui o papel crucial de Medeia no cumprimento das tarefas de Jasão, sobre as quais Hesíodo manteve silêncio. 

Já é mencionado na quarta Ode Pítia do poeta Píndaro, escrita por ocasião de um festival em 462 a.C. a vitória na competição alcançada no século I aC foi homenageada detalhadamente. 

Mesmo nesta antiga camada de tradição, Jasão aparece como um herói, mas sua bravura não é suficiente, ele não consegue alcançar seu objetivo sozinho; o sucesso é possível graças à ajuda da filha do rei, que o ama e a quem promete casamento. Sua ligação com ela é provocada por uma autoridade divina; em Píndaro é Kypris (Afrodite). 

A magia de Medeia revela-se crucial. 

A princesa da Cólquida assume o papel da donzela ajudante conhecida em inúmeras lendas, que apoia o herói em situações críticas. 

A ideia básica da saga original do Argonauta é que uma combinação de bravura heroica e poder sobre-humano é necessária para alcançar o que parece impossível. Os deuses recompensam o heroísmo de Iason dando-lhe uma esposa de ascendência divina. 

Após voltar para casa, os dois vivem como um casal feliz e desfrutam de seus filhos. 

Outro motivo do Ursage era a capacidade de Medeia de rejuvenescer através da magia. 

Diz-se que Iason se beneficiou desse rejuvenescimento. 

Em Iolkos, o velho pai de Iason, Aison, se beneficiou do feitiço de rejuvenescimento; esta versão foi contada pelo autor do Nostoi, que só sobreviveu em fragmentos. 

Mais tarde, o motivo foi modificado para que a capacidade de rejuvenescimento de Medeia fosse colocada a serviço da vingança contra Pélias. 

A eliminação do governante malvado e sacrílego poderia ter parecido legítima do ponto de vista do público da lenda grega, mas isso colocou Medeia no papel de uma feiticeira não apenas prestativa, mas também sinistra. [https://de.wikipedia.org/wiki/Medea ]. 

 

 

Como a chuva torrencial, em que os dias se sucedem e não acaba nunca. Na costa do Santa Maria, na ‘Estância Santa Cecília’, uma das mais antigas de São Gabriel, à margem do rio Santa Maria, junto ao Passo de São Borja, no distrito de Batovi, tem mais poesia no inverno e um cão. “Remember” Ivan Pedro de Martins. 

 

Chove sobre a cidade 

Novo azul sobre a cidade não tarda chegar 

O verde do verão a toda luz 

Se a cidade já é outra, assim o cantor 

O velho arranha-céu brilhou 

 

Vira o tempo e o meu peito abriga o trovão 

A tempestade do verão em mim 

O toró tomba na terra varrendo o varal 

Um céu de chumbo pisa o chão 

 

Relampejou ao longe 

É hora do tambor 

É hora de fechar janelas e entrar 

Ficar imaginando o clarão 

Que vai passar – ah! 

 

Chove agora em Porto Alegre, o céu desabou 

A pedra da estação solar trincou 

No teu seio de cidade o cheiro do chão 

De quando me sonhei aqui 

 

Relampejou ao longe… [Marcelo Delacroix/ Ronald Augusto. CD "Depois do Raio" 2006] 

 

O tempo é separado do espaço? Geralmente imaginamos assim, como uma seta, disparada pelo arco de um buda. A física não confirma a ideia de um tempo-espaço separado. A ideia de causalidade, teleologia, finalismo, alegra somente os humanos, mas não aos deuses. 

E as emoções, estão impregnadas pelo espaço-tempo? Will Eisner dizia que sim. E nosso espaço-tempo, como “chips” em nossas mentes, são produtos reais ou realidades produzidas? Podemos ler nossas mentes, literalmente, sem óculos da teoria? Em nossas procuras, procuramos exatamente o quê ou quem? 

 

O mestre Rubem Alves nos propõe a seguinte reflexão: 

“Se você amou muito um lugar, não faça a besteira de visitá-lo. Isso porque você vai pensando que encontrará o tempo daquele lugar, mas o tempo não estará mais lá. É melhor você ficar com a antiga imagem na sua cabeça…”. 

O mesmo vale para as coisas que te emocionaram ou te fizeram rir na infância. 

Eu, por exemplo, nunca assisto “Três Patetas” por essa mesma lógica. 

As piadas são as mesmas, mas eu mudei; não sou mais a criança que rolava de rir das palhaçadas que eles faziam. 

Tenho medo de que a minha incursão às piadas do passado desfaça a mística que eu nutro pela alegria simples dessa época. 

E não é sequer necessário se reportar aos programas em P&B dos anos 40; até “Os Trapalhões” não teriam hoje o mesmo impacto dos anos 80 – e talvez fossem cancelados, assim como seria o “humor de bullying” dos Três Patetas. 

Pode ser uma imagem de 1 pessoa. 

O tempo é um juiz severo, por vezes cruel, e somente os gênios vencem a barreira dos anos; estes a gente conta nos dedos das mãos. Grace Kelly seria linda ainda hoje, Marilyn Monroe não. 

[De maneira alguma, eu acredito que Marilyn Monroe seja “feia”. Aliás, quem chamasse Marilyn de feia deveria ser preso – ou internado. 

Todavia, essa, Marilyn de formas rechonchudas atualmente não seria Miss nem da escola secundária onde minha filha estudou. 

Ela está fora dos padrões de beleza atual. 

Sua beleza teria valor nos anos 50, mas hoje seria desvalorizada. 

Mulheres como Marilyn atualmente estão fazendo dieta e tratamentos caros para celulite. 

Não existe aqui um julgamento de mérito; apenas pontuo que os padrões de beleza são mutantes, e nos padrões contemporâneos ela não se encaixaria]. 

Beethoven, Bach, Vivaldi, Pixinguinha e Chico ultrapassaram décadas, enquanto a maioria dos músicos de sucesso de hoje serão esquecidos em alguns pouco anos. 

Acredito ser possível visitar os lugares que amamos outrora, mas apenas se tivermos plena consciência de que eles se mantiveram parados – num prédio, num filme, numa música, numa piada – mas nós, e o mundo que nos cerca, continuamos seguindo em frente. 

Se é verdade, como dizia Heráclito de Éfeso, que “é impossível cruzar duas vezes o mesmo rio”, também é justo dizer que não vamos nos emocionar duas vezes com o mesmo filme, lugar ou música, pois que se eles ainda são iguais, nós já não somos mais os mesmos. 

Tenho uma amiga abandonada pela mãe no parto. 

Esta mãe era muito jovem, bonita e ambiciosa, mas sua filha nasceu prematura e com graves problemas de saúde. 

Deixou a filha ainda no hospital, aos cuidados do pai, e voltou ao seu país de origem. 

Esta criança cresceu sob os cuidados do pai e da madrasta, que a adotou com poucos meses de vida. 

Sempre carregou a imagem da mãe linda e frágil que a abandonou por ser imatura demais para as responsabilidades da maternidade. 

Passados mais de 30 anos decidiu-se por conhecê-la. 

Juntou o marido e os filhos e rumou ao encontro da mãe biológica, uma senhora que morava em um continente distante e que formou outra família, já com filhos e netos. 

Infelizmente, para minha amiga, esta visita foi o momento mais destrutivo de sua vida. 

A imagem de mãe que acalentara por tantos anos foi totalmente despedaçada pela mãe real, e desse trauma ela jamais se recuperou totalmente. 

Conhecer sua mãe verdadeira, para além das idealizações, foi um choque profundo demais, talvez porque ela não estava preparada para entender que o mundo de todos havia andado, seguido o fluxo dos tempos, enquanto sua imagem materna permanecera estática por mais de três décadas. 

Se queres mesmo penetrar em seu passado, deixe todas as ilusões de fora; não espere encontrar lá algo que tenha para si agora o mesmo valor de então. [Dolorosos Retornos. Visitar o Passado. Visitar o passado é sempre ilusório. Publicado em: 15/07/2023. https://causaoperaria.org.br/2023/visitar-o-passado/ ]. 

 

 

Certa vez eu estava na Mercearia do Djalma Munhós, no alto da Sociedade XV de Novembro. 

E como sempre, encontrei por lá o saudoso amigo Ênio Lucca, pai dos também amigos Flávio, Zé e Pico. 

Ele sabia um pouco de tudo, era um intelectual. 

Se provocado, dissertava sobre qualquer tema, de futebol a política, passando por história e geografia. 

Muitos foram os bons papos batidos lá na mercearia, também com a presença do tenente reformado do Exército, Alci Dutra e eventualmente do ex-vereador Roque Oscar Hermes. Pena que se tratava de gremistas. 

Certa vez seu Ênio me falou que tinha em casa o livro “Fronteira Agreste”, que retratava situações vivenciadas no meio rural de São Gabriel envolvendo uma conhecida família. 

Apesar de ele ter me oferecido por empréstimo, o tempo acabou passando e não vi e nem li o livro. 

Passado muitos anos, e já morando em Brasília, encontrei “Fronteira Agreste” na Internet e acabei comprando, como tenho feito com outras obras que me chamaram a atenção. 

Casos de “São Gabriel na história”, de Aristóteles Vaz de Carvalho e Silva; “Aspectos Gerais de São Gabriel”, de Fortunato Pimentel; “A Batalha de Caiboaté”, de Ptolomeu Assis Brasil e a obra de Carlos Reverbel, que estou adquirindo aos poucos. 

Já tenho: “O Gaúcho”, “Diário de Cecília Assis Brasil”, “Um capitão da Guarda Nacional” e “Pedras Altas”. 

Mas pretendo comprar todos os livros do autor, se for possível. 

Até em homenagem ao meu amigo doutor João Alfredo Reverbel Bento Pereira, primo do grande escritor. 

E para conhecer melhor a obra de Ivan Pedro de Martins, também adquiri “Caminhos do Sul” e “Casas Acolheradas”, que são a continuidade de “Fronteira Agreste”, que entendo ser um livro que fala de paisagens, cenas e tipos de uma estância gaúcha da fronteira. 

Tradicionalmente ligado ao chamado “Romance de 30” pelos seus estudiosos, contudo, Ivan Pedro não seguiu uma das principais lições daquele grupo de escritores: não trabalhou ele com heróis individuais ou mesmo anti-heróis, se considerarmos o Fabiano, de “Vidas Secas”, dentre outros. 

Preferiu conjuntos humanos e sociais que traduzissem, exatamente pelo aspecto coletivizado, as modificações sociais em emergência. 

Assim sendo, “Fronteira Agreste” analisa o espaço da estância, enquanto “Caminhos do Sul” busca o espaço do corredor. 

E, enfim, “Casas Acorelhadas”, fala da cidade e de seus variados espaços representativos, o boliche popular, o bar das elites, o clube social, etc. 

Fronteira agreste, publicado em 1944, não deixa de prestar tributo à tradição de lutas da campanha, mas traz bem visíveis sinais de outro momento histórico, pois Ivan Pedro de Martins evoca neste romance os maiores conflitos entre facções rivais ocorridos em solo sul-riograndense: 

A Revolução Federalista de 1893 e a revolução de 1923 que já refletia desdobramentos dos primeiros anos da República. 

No entrecruzar das vozes daqueles que relatam o que lhes ficara na memória, registram-se as gestas desse período histórico. 

Sabemos pelo narrador que “as coxilhas estão cheias de histórias e de sangue. Ali perto, fica o Caverá, a serra, com os grotões, onde se metia Honório Lemes quando ia mal”. 

OPINIÕES SOBRE IVAN PEDRO 

O escritor Lauro Dieckmann, em seu blog “Memória do Escrevinhador”, escreveu o seguinte sobre Ivan Pedro de Martins: 

“Na verdade, ele era mineiro. 

Andou pela Campanha no fim da primeira metade do século passado. 

A exemplo de outro mineiro, Guilhermino César, encantou-se com o que viu”. 

O autor e dramaturgo, Guilherme Figueiredo, que era irmão do ex-presidente general João Baptista Figueiredo, disse que Ivan Pedro de Martins, com a esplendida obra “Fronteira Agreste”, colocou pela primeira vez na ficção do campo sulino esta coisa terrível e verdadeira: a vida que é preciso corrigir, a realidade que se deve socorrer. 

Olívio Dutra, respeitado político gaúcho, escreveu: 

“Dentre as leituras que me causaram impacto pela reflexão que provocou com a fruição prazerosa de seu universo ficcional, lembro-me de uma, muito singular, porque trata do mundo e da cultura gaúcha. E foi um livro escrito por um mineiro. Trata-se de Fronteira agreste, de Ivan Pedro de Martins. De repente, os personagens de Fronteira agreste eram parentes próximos do povo do qual eu fazia parte ali na periferia de São Luiz Gonzaga. Gente que, como meus pais, agregados num fundo-de-campo, aos poucos foram vindo para a cidade em busca de um ganho que não mais encontravam como peões nas fazendas. Seus relatos e causos passaram a ter outro significado para mim.” 

O trecho que segue é transcrito do livro “Caminhos do Sul”, edição da Livraria do Globo (1946), quando ainda era da família Bertaso, e descreve um temporal em pleno campo, coisa muito comum por estes pagos. 

“O ar estava pesado. 

Tio Virgílio pensava que o melhor era por a carga no boliche e esperar que a tempestade passasse. 

A tormenta se aproximava. 

O sol era um tição vermelho no borralho das nuvens cinzentas. 

Esfiapadas, as nuvens brancas saíam como lã de novelo das bandas do Sul e formavam uma cola de pomba no céu esbranquiçado. 

Os cachorros andavam de língua pendurada, sentados debaixo dos cinamomos, pois não aguentavam ficar deitados. 

Vai ser gorda”. 

Disse tio Virgílio. 

Os outros concordaram. 

O dia morria sufocado de eletricidade e o céu parecia inverter a abóbada em nuvens cada vez mais negras e mais próximas da terra, espremendo o ar úmido que oprimia os homens. 

Já era quase noite quando o ar parou completamente, como se esvaziasse o mundo de ruídos e um vácuo tenebroso ocupasse tudo, apertando os ouvidos e fazendo latejar as fontes. 

Os homens se olharam e Laudelino riu. O barulho da risada repercutiu pelas coxilhas silenciosas e um trovão profundo a terminou, acompanhando o chispaço que cruzou de uma nuvem a outra sobre o boliche. 

Aí vem ela”. 

E se desencadeou uma sarabanda de raios e trovões, cortando o ar em todas as direções, unindo o céu e a terra em zigue-zagues ofuscantes que carbonizavam árvores ou estatelavam vacas e ovelhas. 

A chuva começou com um granizo grosso como ovo de quero-quero, branqueando o campo com as pedras brilhantes, que saltavam ao golpear o chão, depois se despencou em cataratas, imensos cordões de água, unidos e parelhos a ponto de mais semelhar o derramar gigante do mar que o esfiapar de nuvens prenhes de umidade. 

Em poucos minutos estava o corredor transformado em regato barulhento e o pátio do boliche em lagoa que escorria pelos valos naturais em direção do “espantoso”. 

A noite que chegava se apressou em ficar negra e no escuro soava aquele chuá sem fim sobre as santa-fés do rancho do Laudelino. 

Os trastes estavam dentro do galpão, os bois no potreiro e a carreta não era a primeira tormenta que aguentava. 

Ele estava sequinho no boliche”. 

O CAMPEIRO TIO REMIGIO 

A exemplo de Blau Nunes, de João Simões Lopes Neto, também Ivan Pedro encontra e centraliza sua atenção em um antigo campeiro, “Tio Remígio”. 

Em “Casas Acolheradas”, “Tio Remígio” é o narrador e o modelo referencial tomado pelo escritor para desenvolver sua obra. “Tio Remígio”, ao contrário de Blau Nunes congelado na obra de Simões Lopes, tem retratada sua vida na velhice em “Fronteira Agreste”, embora sob certa sobrevivência tranquila, a sombra da estância. 

Depois é que foi examinado em processos anteriores ou paralelos de afastamento do centro das atenções, dando lugar a novos tipos e personagens, como ocorre em “Caminhos do Sul”, situado temporalmente antes da narrativa de “Fronteira Agreste”. 

A juventude de “Remígio”, levando-o a compartilhar dos corredores com outros personagens, até o conhecimento dos desdobramentos da decadência vivida pela gauchada em “Casas Acolheradas”. 

Observe-se que a “Tio Remígio”, como principal personagem referencial de “Fronteira Agreste”, se sucedem ou somam Maneco, peão exemplar, Geraldo, um negro capão, seu Guedes, peão marginalizado que anuncia a consciência em formação da rebeldia do gaúcho a pé e Miguelina, desejada pelos irmãos, filhos do dono da estância. 

Além de Valderedo, este, sim, retrato do antigo gaúcho épico, mas que, por isso mesmo, acaba eliminado violentamente, à traição pelo ronda, Armando, justamente após aceitar sua proletarização através do emprego em uma estância. 

O episódio se completa no capítulo seguinte, quando “Remígio” cede o principal lugar às figuras múltiplas de Chico Fonseca, que lhe arrebata a mulata “Candoca”, ao carreteiro João Cardoso, ao platino Manuel Garcia, outra figura rebelde assassinada a mando do dono da estância e ao negro “Rosica”, ladrão de gado que se acostumou a tal prática para sobreviver. 

E de tal forma, que, mesmo quando encontra abrigo e garantia de alimentação, não deixa de roubar, porque, como afirmava: “roubado é mió”. 

O painel continua com a figura do velho Ambrósio, contrabandista heroico, ao mesmo tempo em que novos tipos já se anunciam, à maneira de “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo, nas figuras do italiano Giuseppe, ou dos mascates Salim e Jamil. Mais do que tipos exóticos, anunciadores de novas etnias e novas ocupações a se fazerem presentes no chão do Rio Grande. 

Enfim, em “Casas Acolheradas”, onde “Tio Remígio” ressurge esporadicamente, aqui e ali, e onde nas observações das figuras que desenvolvem as ações principais, ganham espaço as personagens negativas de Pedro Vinhas, Vaz, coronel Pontes, Olguinha, Mariazinha, etc. 

Aparecem os ativistas sindicais urbanos, como José, Américo, Raimundo e até mesmo um estancieiro moderno, como o caso do Pituca Gomes, capaz de entender a importância da industrialização, enfrentando, assim, a partir da terra natal, os avanços das multinacionais simbolizados pelos frigoríficos. 

Ou as ideologias retrógradas, como o nazi-fascismo e o caipira integralismo. 

Sei que Ivan Pedro foi um escritor polêmico, que adquiriu uma legião de inimigos. Não vou fazer nenhum tipo de comentário favorável a respeito do que ele escreveu, nem contra. 

Até porque acho que um livro sempre retrata o pensamento do autor. 

ESTÂNCIA COM NOME FICTÍCIO 

Em “Fronteira Agreste” todos os personagens tinham nomes supostos. 

O doutor Camilo Mércio era o Coronel Tavares. 

Murilo, filho do doutor Camilo era Tonico no livro. 

E a “Estância Santa Cecília”, era “Estância Santa Eulália”. 

A “Estância Santa Cecília” é uma das mais antigas do nosso município, à margem do rio Santa Maria, junto ao Passo de São Borja, no distrito de Batovi, hoje pertencente a Família Veríssimo. 

O nome foi uma homenagem à Cecília Menna Barreto, filha de João Propicio Menna Barreto, Barão de São Gabriel. 

Pertenceu ao doutor Camilo Mércio, médico humanitário e chefe revolucionário nos anos 1930. 

Mais tarde foi vendida ao senhor Clarindo Verissimo da Fonseca. 

Hoje, metade da estância pertence a Carlos Alberto Verissimo da Fonseca. 

A outra metade, denominada “Santa Adriana”, pertence a Hebe, casada com Milton Viera da Costa. 

A antiga sede da estância foi desativada, tendo sido construída outra próxima do local. 

As duas propriedades dedicam-se à pecuária e a agricultura, utilizando moderna tecnologia. 

Sei também que em “Fronteira Agreste” Ivan Pedro abordou temas enigmáticos, que até hoje são comentados pelos mais antigos. 

É inegável que ele, mesmo não sendo natural do Rio Grande do Sul, tinha um conhecimento enorme de nossas coisas. 

Vejam só a profundidade e beleza deste trecho do livro: 

“Santa Eulália dorme. 

O gado espalhado pelo campo não faz ruído. 

À meia-noite, dizem os gaúchos, as reses se levantam, mugem, deitam do outro lado e dormem esperando a manhã. 

Já os cavalos são diferentes; os garanhões pastoreiam suas manadas e, no retouço noturno, trocam coices, mordidas e relinchos surdos, ou gemidos, devido aos golpes. 

As éguas não se entregam de primeira mão. 

As ovelhas são silenciosas e o rebanho se move no campo como uma espessa nuvem branca, arrastando-se no chão; só se ouvem balidos, se um estranho aparece. 

A noite nas coxilhas e banhados é dum silêncio profundo, e o alerta estridente dos quero-queros ou o sinal de alarme, grave, dos ta-hans, se perde no vazio da noite como o barulho de pedra caindo num poço: sem ressonâncias. 

Só o minuano assobia raivoso, levantando a geada que cai e levando-a pelos ares como uma bofetada de gelo que racha os beiços, dói nos olhos e amarela os brotos novos das plantas. 

Se não fosse o vento, os campos iriam amanhecer cobertos de uma geada de renguear cusco e o frio agora penetra por todos os lados como um castigo”. 

QUESTÕES SOCIAIS 

“Fronteira Agreste” mexe com questões sociais envolvendo os peões campeiros, que tinham salário fixo, normalmente vivendo nos galpões das estâncias, mantendo certa independência frente ao patrão. 

Os mesmos tinham mobilidade e mudavam facilmente de emprego, por divergências, querendo acompanhar a tropeada, “embora submetidos ao comando dos estancieiros que os recrutavam para as batalhas em conflitos civis ou guerras externas”. 

A morada desses peões em galpões é retratada por Ivan Pedro Martins, quando coloca que o galpão do fogo não é tão silencioso. 

Ali dormem os peões, aproveitando o calor da roda. É um rancho de torrão com paredes de uns dois metros de altura, coberto de santa-fé em quincha de escada. 

“O vento entra por todos os lados fazendo tinir os arames e latas encontrados no caminho. 

Aquilo é a casa dos peões, se se pode chamar de casa um rancho sem portas onde moram o fogo, a fumaça, o vento e a poeira. 

No canto escuro, onde não há brechas, está no chão o aro de ferro de uma velha roda de carreta – é a roda do fogo; dentro dela uma fogueirinha de tocos pequenos é o fogo, e, pendurada em um arame retorcido que pende de um caibro, fica a chaleira de mate. 

Não há mais fogo nem se vê a chaleira. 

No meio do galpão fica um poste que serve de escora à cumeeira e ao caibro onde se penduram a lata d’água e os arreios. 

Encostadas à parede fechada, atrás da roda do fogo, ficam as camas da peonada. 

São de dois tipos; ou quatro estacas de forquilha, sustentando tábuas de esquilar, ou os arreios no chão mesmo. 

A arrumação, em cima das tábuas ou no chão, é a mesma”. 

QUEM ERA IVAN PEDRO 

Ivan Pedro de Martins foi presidente nacional da juventude da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. 

Após a Insurreição Comunista de novembro, tornou-se clandestino, sendo abrigado em uma fazenda de um amigo de seu pai, no interior do Rio Grande do Sul, que mais tarde se tornou seu sogro. 

Dali surgiu a inspiração de seu romance, apresentando a estrutura socialmente injusta de uma fazenda de pecuária extensiva na região Oeste do Rio Grande do Sul. 

O livro acabou sendo julgado ofensivo à moral e aos bons costumes da época, pelo diretor do Departamento Estadual de Imprensa, o artista-plástico Ângelo Guido, que expediu ordens para que as edições de “Fronteira Agreste” fossem apreendidas e proibida sua venda. 

Em meio à discussão travada nos jornais entre os partidários e os contrários à censura, a intelectual Lila Ripoll, poeta de Quarai, se posicionou contra a apreensão da obra do escritor e militante comunista Ivan Pedro de Martins, que no entender dela não passava de um romance social sobre a vida na campanha gaúcha. 

Além de “Fronteira Agreste”, “Caminhos do Sul” e “Casas Acolheradas”, Ivan Pedro ainda escreveu “Do campo e da cidade”, “A flecha e o alvo – A Intentona de 1935”, “Um amor depois do outro”, “Trilogia da campanha – O Rio Grande do Sul invisível”, “O amanhã e hoje”, “Introdução a economia brasileira”, “Bahia” e “Interno”. 

MISTÉRIOS DE UM CASAMENTO 

O casamento de Ivan Pedro com a filha do doutor Camilo Mércio não se sabe como começou e muito menos como acabou. 

Depois que saiu do Sul, Ivan Pedro foi casado com a jornalista paulista e escritora Elsie Lessa, falecida aos 86 anos em 17 de maio de 2000, em “Cascaes”, uma vila litorânea de Portugal. 

Ela era neta do escritor e gramático Júlio Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras. 

Elsie Lessa escreveu e publicou, sem interrupção, no jornal “O Globo”, de 1952 a 2000. 

Nenhum outro escritor teve um espaço por tanto tempo nas páginas do jornal. 

Na juventude, embora natural de São Paulo, foi considerada uma das duas mais belas mulheres do Rio de Janeiro. A outra era Adalgisa Nery. 

Se não observarmos outras questões, realmente “Fronteira Agreste” poderia ser visto assim, como um livro retratando o dia-a-dia de uma propriedade rural no Sul. 

Poucos escritores, talvez só Alcides Maia, Simões Lopes, Érico Verissimo, Carlos Reverbel, Pedro Wayne, Aureliano de Figueiredo Pinto e Barbosa Lessa, puderam descrever tão bem o que era, na verdade, o Rio Grande do Sul rural. Sem enveredar, é claro, por possíveis distorções do autor as pessoas retratadas em sua obra. 

Li o livro com atenção e sei que ele envolve pessoas de famílias que residem ainda hoje em São Gabriel. 

Por razões óbvias não cito nomes. 

Fora isso existem trechos lindos como este: 

“Na estância toda só se ouve o assobio do Minuano, que chia entre as folhas dos eucaliptos, torcendo-lhes os galhos, quebrando ramos secos e seguindo sua rota triste, contando, por onde passa, as histórias tenebrosas das geleiras dos Andes e as correrias pelos pampas do Sul. 

A lua rola no alto engolindo as estrelas, parece que vai tapando os buracos na cuia velha do céu. Algum ta-han desperto por barulho desconhecido largou seu chamado sério de atenção e os quero-queros bochincheiros desandaram no berreiro nervoso de seus gritos. 

Depois tudo volta à calma, até a cavalhada parece adormecida, e fica cantando no silêncio da noite o assobio raivoso do Minuano que leva a bofetada de gelo da geada por cima das árvores e dos homens. É o modo de respirar dessas noites nas coxilhas. 

E segue. Santa Eulália é grande, tem galpão de material com a garagem para o auto, a aranha e a carroça, varanda de esquila, quarto de guardar milho e aveia, quarto de hóspedes e os quartos onde dormem o chofer, o negro velho “Tio Remígio” e “Manequinho”, o cozinheiro. 

“Seu Duca”, sota da estância, dorme com Geraldo, o peão caseiro, no quarto que dá para a varanda da esquila e onde se guarda a carroça. Entre os dois galpões fica o aramado que cerca as casas e a borboleta de passagem. 

Entre a casa grande e os galpões, deixando um pátio grande no meio, é a casa do capataz, que consta de um quarto assoalhado e uma sala de terra batida; do outro lado estão a despensa e a cozinha da peonada. Atrás, o forno do pão e o galinheiro, mais adiante, os chiqueiros vazios”. 

A OPINIÃO DO HISTORIADOR 

Mais uma vez me vali do amigo e historiador Osório Santana Figueiredo, que tem uma visão sólida a respeito do livro “Fronteira Agreste” e de seu autor, Ivan Pedro de Martins. 

Ele confirma que Ivan já morreu. 

Conta que se tratava de um intelectual comunista. 

Perseguido pela polícia, refugiou-se na estância Santa Cecília, do seu sogro, doutor Camilo Mércio, em Batovi. 

Embora a estância ficasse nos mesmos pagos do historiador, ele não o conheceu pessoalmente. 

Na concepção de Osório o livro “Fronteira Agreste” é uma obra de injustiça. 

Os seus personagens pobres, muitos que ajudaram Ivan a se esconder nos matos, foram covardemente aleivados e arrasados por ele. 

Ainda existe na cidade gente descendente desses injustiçados. 

Em consequência teve de fugir para Porto Alegre e depois para a França, porque havia muitas pessoas dispostas a matá-lo por ser difamador das criaturas humildes. 

Osório conviveu com esse povo, e quando leu o livro ficou com pena dessas pessoas e muita raiva do escritor. 

Não podia compreender como que uma criatura poderia ter sido tão má. 

Desde essa ocasião, por ver tamanha injustiça, o nosso historiador pegou uma aversão pelo comunismo. 

O sogro e os cunhados de Ivan Pedro aparecem no livro com nomes supostos e as criaturas pobres que ali viviam, eram identificadas por seus próprios nomes. 

Sabe-se que um dos protetores de Ivan, na época, foi o saudoso amigo, militar reformado e vereador, Lázaro Xarão, que sofreu na carne a ingratidão. 

Ivan publicou uma notícia falsa envolvendo o pai de seu Lázaro, que é inútil repetir. Em consequência, o Lázaro buscou retratação, mas o escritor já havia fugido para longe de São Gabriel. [Nilo Dias. FRONTEIRA AGRESTE: UM LIVRO POLÊMICO; 10/06/2017. https://n1noticia.wordpress.com/2017/06/10/fronteira-agreste-um-livro-polemico/ . Pesquisa: Nilo Dias. Matéria publicada no jornal “O Fato”, de São Gabriel-RS, edição de 9 de Junho de 2017. https://vivasaogabriel.blogspot.com/2017/06/certa-vez-euestava-na-mercearia-do.html . “Morreu neste domingo (9) aos 79 anos, o jornalista gabrielense (por adoção, porque nasceu em Dom Pedrito) Nilo Dias Tavares, que residia há anos em Brasília. Nilo foi o autor de uma das principais obras sobre o futebol gabrielense, "100 anos de futebol em São Gabriel", sobre a história do esporte na Terra dos Marechais e desenvolveu vários trabalhos na imprensa local, estadual e nacional. Não foi informada a causa da morte até o momento. Nascido em 3 de abril de 1941, era pesquisador e jornalista aposentado. Trabalhou nas empresas Caldas Júnior e RBS, de Porto Alegre e em diversas rádios, jornais, revistas e televisão. Foi colunista de jornais como o Jornal da Cidade e O Fato, mais recente, além de ser correspondente de A Razão e ter seu jornal, o Tribuna do Povo. Também foi um dos fundadores da Rádio Batovi. Desde 1999 morava em Brasília, onde trabalhou nas assessorias de imprensa do Ministério de Minas e Energia, Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) e Confederação Nacional de Municípios (CNM). 

Além disso, Nilo Dias era bastante ativo na internet, onde tinha três blogs - Nilo Dias Repórter https://nilodiasreporter.blogspot.com/ , Relíquias do Futebol https://reliquiasdofutebol.blogspot.com/2012_03_04_archive.html  e Viva São Gabriel https://vivasaogabriel.blogspot.com/2017/06/certa-vez-euestava-na-mercearia-do.html , com artigos de opinião, histórias do futebol e de São Gabriel, que mesmo distante nunca deixou de amar. Era casado com a jornalista Teresinha Motta e pai de sete filhos: Carlos César, Sandra, Janice, Nilo Sérgio, Leandra, Fabiana e Leonardo. 

Seu último livro foi "Xavantes de Ouro", sobre o Brasil de Pelotas. Era conhecido por ter uma opinião forte também, onde defendia suas opiniões fervorosamente. Ligado aos ideais socialistas, foi um dos principais entusiastas dos Governos do PT. No esporte, era apaixonado pelo Internacional e o Brasil de Pelotas. 

Segundo informações da família nas redes sociais, o velório será na terça, a partir das 8h da manhã, na capela principal do cemitério de Sobradinho (DF). À família, nossos sentimentos. 

https://www.caderno7.com/2020/02/morre-o-jornalista-nilo-dias.html . “Pesquisador e jornalista aposentado. Faço trabalhos de degravações de eventos para órgãos públicos e privados. Sou gaúcho de Dom Pedrito. Trabalhei nas empresas Caldas Júnior e RBS, de Porto Alegre e em diversas rádios, jornais, revistas e televisão. Desde 1999 moro em Brasília, onde trabalhei nas assessorias de imprensa do Ministério de Minas e Energia, Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica (GCE) e Confederação Nacional de Municípios (CNM). Sou casado com a jornalista Teresinha Motta, do Ministério do Planejamento e pai de sete filhos: Carlos César, Sandra, Janice, Nilo Sérgio, Leandra, Fabiana e Leonardo. https://nilodiasreporter.blogspot.com/ . 

 

 

Fique a pensar, o que seria o significado etimológico de “aleivados”? Procurando, encontrei essa preciosidade de Apollinário Porto Alegre, anti-escravista, que fala da “leiva dos sepulcros”, que nada tinha com o que pretendia, mas alegrava o coração e a bandeira, por ler as palavras, tão bem escritas. Embora a “dor moral” e sua eternidade, sirva-nos em plenitude. 

 

“Tendes, leitor, conhecimento do que seja a combustão espontânea, sequer d'outiva? Pois a dor que se abraça a uma entidade por larga dura não lhe é somenos, quiça mais cruciante, mais cerval, mais satânica e inconcebível; porém falamos da dor moral, para a qual não há panaceia, nem refrigério, a não ser a leiva dos sepulcros. A eternidade! A eternidade só lhe basta! Porque só ela pode encher o abismo de desespero e angustia que então se rasga, se amplia, se aprofunda sem termo na alma do desgraçado!”.   

OS PALMARES.  ROMANCE HISTÓRICO POR APOLLINÁRIO PORTO ALEGRE. (CONTINUAÇÃO) Capítulo III. 

 

 

A palavra leiva tem origem no latim vulgar glebea. 

Leiva tem vários significados: 

Terra apropriada para cultivo 

Torrão retirado com a enxada 

Torrão de terra gramada, em forma de paralelepípedo, que se transplanta para formar relvados 

Sulco aberto por arado 

Elevação ou manta de terra, entre dois sulcos 

Aduela, em Portugal: Beira 

A palavra gleba tem vários significados: 

Terreno próprio para cultivar 

Qualquer torrão ou porção de terra 

Ganga, porção de terra que encerra algum metal ou mineral 

Herdade, terreno, feudo a que os servos estavam adscritos. 

 

 

Etimologia: aleivosia. Toma lá. 

A palavra «aleivosia», tão da predileção de escritores oitocentistas, provém do árabe hispânico al’áyb, e este do árabe clássico áyb, que significa «defeito, pecha ou nota de infâmia». Vou socorrer-me de Eça de Queirós, na magnífica carta a Camilo Castelo Branco (que nunca lhe chegou a enviar), para explicar melhor o seu significado: 

«Aleivosia é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único dicionário que me ampara nesta dura labutação do estilo, significa — “maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.” Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.ª quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.ª Ora aqui V. Ex.ª se ilude singularmente.» 

Publicada por Helder Guégués à(s) 21:36. [https://letratura.blogspot.com/2006/05/etimologia-aleivosia.html ]. 

 

 

Do Gótico AT-LEWEIS, “traidor”. [https://origemdapalavra.com.br/palavras/aleivosia/ ]. 

 

 

F. Termos afetivos. Gamillscheg define esta categoria da seguinte maneira: 

“Quando os visigodos se expressavam na língua adotada, não conseguiam satisfazer-se, substituindo as suas expressões saturadas de elevado valor emocional pelas palavras correspondentes da língua estrangeira. O latim era sentido como uma linguagem de conceitos, que poderia ser suficiente para satisfazer suas necessidades intelectuais, mas não emocionais. " [Gamillscheg, p. 247] 

Assim, para os visigodos, o latim TRADITIONE e PERFIDIA representavam apenas o conceito de 'traição', e sentiu-se a necessidade de outro termo para denotar a reprovação do falante. 

Tal termo foi fornecido pelo gótico *at-leweis, do qual derivam os espanhóis a/eve, alevoso e alevosia. [Leo Spitzer deriva o espanhol a/véspera do árabe aib 'infâmia' + o artigo definido a/("Ancien espagnol 'a/véspera'," Modern Language Notes, 61 [1946], 423); também Corominas, pág. 39] 

Outros termos afetivos incluem o espanhol gaain <gótico *gaainon; espanhol rapar <gótico *rapon; Broto espanhol <gótico *bruton; e o espanhol agasajar 'receber hospitaleiramente', que em última análise deriva do gótico *gasalja 'companheiro'. 

A forma verbal *ad-gasaliare, o étimo hipotético do verbo espanhol, parece ser um calque do latim ADCOMPANIARE. 

Espanhol rico < gótico reiks 'poderoso' e espanhol ufania, ufanarse parecem derivar do gótico ufjo 'excesso' ou de um * ufains relacionado. 

O verbo guaizir, usado na Extremadura para descrever o guincho 

de porcos, derivado de um *wainjon gótico. 

Algumas destas palavras só podem ser encontradas na Península Ibérica. 

Outros têm contrapartes em Provençal e, portanto, provavelmente se espalhou pelos Pirenéus até a Península quando os visigodos estavam na Aquitânia. 

Palavras de origem gótica comuns ao italiano e ao espanhol datam provavelmente da época em que os ostrogodos estavam na Itália e os visigodos na Espanha. 

A importância destes empréstimos será discutida mais adiante. [https://www.tandfonline.com/doi/pdf/10.1080/00437956.1979.11435671 ] 

 

 

Palavras afetivas que indicam tons de apreciação também são proeminentes no elemento germânico do espanhol e suas línguas irmãs Sp Ptg bramar ‘chorar’, Sp orgullo, Ptg orgulho, Cat orgull ‘orgulho’ derivam do franco *org6h, OSp fonta (Cid) ‘vergonha, desonra’ representa por /- a aspirada inicial francesa de honte Franco haumtha, além do Lat traditione Sp traicion ‘traição (como tal)’ sentiu-se a necessidade de uma palavra que conotasse sua reprovação, *at-leweins, Ptg aleive, *at-leweis, Sp aleve ‘traiçoeiro’ (de onde alevoso, alevosia) Da mesma forma, a palavra Sp Ptg nco , Cat nc ‘rico’ pertence à ordem das ideias cavalheirescas e foi emprestada por Prov nc Na linha do Cid "cre<;iendo ua en nqueza myo (]hd el de Biuar ‘meu Cid estava ficando mais rico’", o contexto não se refere apenas ao seu butim, mas também aos seus seguidores, e no Conde Lucanor de Don Juan Manuel a riqueza é considerada como o meio de recompensar e manter unido um corpo de adeptos, e assim de resistir à agressão ou tomar a ofensiva contra os rivais. Palavras de cor estão sujeitas as mudanças conforme o falante busca expressar os tons com mais precisão. Sp bianco Ptg branco ‘branco’, bruno (de It bruno, e este de Fr brun), blondo, Cat blau ‘azul’, são desta ordem.[https://ia804707.us.archive.org/31/items/in.ernet.dli.2015.46310/2015.46310.Spanish-Language-Together-With-Portuguese-Catalan-And-Basque_djvu.txt . https://archive.org/stream/in.ernet.dli.2015.46310/2015.46310.Spanish-Language-Together-With-Portuguese-Catalan-And-Basque_djvu.txt . https://ia904707.us.archive.org/31/items/in.ernet.dli.2015.46310/2015.46310.Spanish-Language-Together-With-Portuguese-Catalan-And-Basque.pdf ]. 

 

 

Como se observa, as palavras dizem, e conotam. As palavras, com sangue, dizem mais.  

Se, por um lado, há todo um esforço nietzschiano de combate às diversas técnicas de memória para a promoção de um caminho de elevação cultural, por outro lado, o próprio filósofo se engaja em defendê-las, mediante a ênfase aos diferentes expedientes estilísticos que se depreendem da escrita.  

Neste sentido, como a própria escrita acaba sendo substitutiva da memória, ela mesma acaba realizando o próprio papel da memória ao, pela estilística, não fazer esquecer.  

Trata-se de uma escrita que se realiza com sangue, e o sangue marca de maneira indelével a informação que se quer à ferro e fogo. 

Procederemos a tratar estas duas vias concernentes à mnemotécnica. Principiamos com uma reflexão inicial intitulada:  

“A escrita dentro da escrita, culpa e sedução”, em que refletimos sobre o conteúdo interno da escrita, o qual seduz-nos e suscita a lembrança de situações que nos levam à premente necessidade de nos sentirmos culpados.  

Seguimos nosso itinerário com o segundo capítulo, intitulado:  

“O sofrimento, o sangue, o medo... escritas que não se apagam”, refletimos sobre as diversas técnicas de memória que se utilizaram de expedientes que provocam medo e horror, como garantias de jamais esquecer.  

E, por fim, trazemos um terceiro capítulo, intitulado:  

“A memória escrita com a leveza e a flexibilidade da dança”, a fim de refletirmos sobre como a memória foi marcada não apenas com golpes de violência, mas com suavidade e leveza, típicas da flexibilidade da dança, mostrando assim que a mnemotécnica é em Nietzsche não apenas um obstáculo a ser ultrapassado, mas também vivido plenamente. 

(...)  

3. O sofrimento, o sangue, o medo... escritas que não se apagam 

A escrita a que Nietzsche se refere é feita não de tinta, mas de sangue. 

Pois o sangue marca, torna a sua memória indelével.  

Tal tem sido, de acordo com a leitura de Nietzsche, a tática de memorização cristã, ao propor o sangue não dos atletas, mas dos mártires, o ponto alto dos espetáculos nas antigas arenas.  

Desse modo, não eram mais os atletas, em suas várias modalidades desportivas que recebiam os troféus, e sim os mártires, ao derramarem voluntariamente o seu sangue.  

A escrita destes mártires passa a marcar profundamente a memória de todos aqueles que assistiram a estes espetáculos.  

E, ao marcar sua memória, ao mesmo tempo, provocava uma adesão a eles, ao seu projeto de vida.  

Em uma longa citação de uma passagem do De spetáculis de Tertuliano Cap. XXX feita por Nietzsche no aforismo 15 da Primeira dissertação de Para a genealogia da moral.  

O sangue dos mártires lá mencionado traz a memória de Cristo, mas também o seu retorno triunfante.  

Através do sangue de cada um dos mártires, Cristo está neles presente para eternizar a sua memória, a memória de um condenado injustamente à morte.  

Em nome dessa memória, Tertuliano apresenta o espetáculo de vingança pelos malefícios cometidos.  

Consiste num espetáculo de chamas intermináveis que não se apagam. Portanto, em tormento eterno, sem tréguas.  

As imagens do fogo, dos tormentos, dos gritos, da desgraça, do carro flamejante, acentuam a carga da memória que não se pode esquecer. Toda essa imagem brutal que foi recomendada à memória dos cristãos da mesma forma o foi pelo jugo imposto pelos líderes e nações opressoras aos subjugados e oprimidos, como os impérios assírio, babilônico e romano. 

(...) 

Ao apresentar as suas críticas às diversas técnicas de memorização, Nietzsche, por um lado, se mostra não apenas um crítico delas, mas também, por outro, um promotor delas.  

Mas em que medida Nietzsche estaria promovendo as técnicas da memória, quando estas são, em grande medida, responsáveis pela propagação da moral e seus diferentes mecanismos?  

A pergunta que se deveria fazer é a de como a preservação da memória poderia resultar em uma carga de boa consciência?  

Ou seja, em que medida trazer à consciência eventos marcantes não interferem em nossa capacidade de agir?  

Nietzsche se mostra, como já mencionado acima, como aquele que é devotado a escrever com sangue, como ele mesmo se expressa “De tudo escrito, amo apenas o que se escreve com o próprio sangue. Escreve com sangue e verás que sangue é espírito” (Cf. NIETZSCHE, 1999, p. 48).  

O sangue é algo que marca de maneira indelével a memória, de modo que já não é apenas uma escrita, mas espírito.  

Portanto é algo que permanece, está para além da enfermidade, de toda a pena 

Esta técnica de memória que Nietzsche parece defender se coloca numa posição diametralmente oposta àquela dos que compreendem a escrita como um mecanismo de esquecimento.  

Mais adiante, neste mesmo aforismo, Nietzsche diz que “Quem escreve em sangue e em máximas não quer ser lido, quer aprendido de cor” (Cf. NIETZSCHE, 1999, p. 48).  

O sangue não é apenas aquilo que se vê, se admira, mas aquilo que se guarda, se retém.  

Ora, se Nietzsche apresenta, mediante a simbologia do sangue uma escrita que é aprendida de cor, é porque via a necessidade de não deixar com que fatos caíssem sem mais no esquecimento, mas que os memorizassem.  

Neste sentido, Nietzsche já não pode ser simplesmente considerado um propagador da arte do esquecimento, mas, pelo contrário, um propagador da arte da memória.  

Mas que memória Nietzsche estaria defendendo como fundamental a ser guardada?  

Ou talvez melhor, e que circunstâncias Nietzsche compreende como importante para se conservar a memória? [FEILER, A. F.. Da crítica à defesa da mnemotécnica: Nietzsche e a escrita. Revista de Filosofia Aurora, v. 35, p. e202325788, 2023. https://www.scielo.br/j/rfilos/a/T58fBjDpVCtJ6KCQWXBgg9J/# ]. 

 

 

Aleivados”, é mais que uma palavra, expressa uma emoção, um castigo moral, uma repreensão, eterna, uma punição retroativa, passível de ser vingada com a honra. Lembra o medievo, em suas formas modernas, no Uruguai e na fronteira do Rio Grande. 

 

Nos 16 anos que morei em São Gabriel aprendi a admirar o grande amigo, doutor Dagoberto Focaccia, o mais antigo radialista da cidade, o decano, como dizem. Talvez muitos não saibam que ele não é filho de São Gabriel, embora diga que é a terra que mora no seu coração. 

Eu sou um fã de carteirinha dele, para mim, um gênio da radiofonia. 

É o homem dos sete instrumentos, também: é locutor comercial, noticiarista, narrador de futebol, entrevistador, apresentador de programas musicais, produtor e narrador de externas. 

E o que tiver pela frente. 

São quase 70 anos de carreira e uma enorme bagagem de conhecimentos. 

E pasmem, Dagoberto já foi até dono de bar e restaurante em São Gabriel. 

E mexe com o ramo imobiliário, com a sua “Galeria Rosinha”, bem ao lado de sua casa. 

Devo a ele a gentileza de um dia ter colocado o local a disposição do G.E. Gabrielense, quando de seu retorno ao futebol profissional. 

Ali os atletas de fora moraram, por alguns meses, sem que nada fosse cobrado. 

Dagô”, como é carinhosamente chamado pelos amigos, nasceu em Pelotas, no dia 7 de maio de 1936. 

Filho do casal Matheus e Rosinha Focaccia, que se conheceram e casaram na “Princesa do Sul”, onde moravam. 

Depois, em São Gabriel, para onde se mudaram, Matheus foi proprietário do Engenho Gabrielense, que marcou época na cidade. 

Eu consultei o amigo Osório Santana Figueiredo, a respeito do Engenho Gabrielense, e ele gentilmente me mandou a seguinte resposta: 

Meu caro Nilo. 

Lembro de três engenhos de grande porte de descascar arroz: o Santo Antônio, o velho. 

Tinha muita pena de um homem velho que bombeava à mão a água para sustentar o locomóvel. 

Era à manivela e protegia os joelhos com uns sacos de estopas sempre molhados. 

Pobre velho. 

A água era de um açude que ficava, onde, hoje é o pátio dos extintos engenhos. 

Ao lado tinha outro que chamavam de engenho novo. 

Mais tarde passou todo aquele complexo a chamar-se Foccacia e Cia Ltda, dirigido pelo seu Matheus Foccácia, pai do Dagoberto. 

No outro lado dos trilhos ao chegar à cidade, havia o Engenho São Sebastião, todo de zinco. 

Era tão lindo que parecia um monumento. 

Sem dúvida uma beleza de construção. 

Em dezembro de 1938 houve um incêndio à noite. 

Diziam que seu proprietário mandara botar fogo para receber o seguro. 

Era comum na época em São Gabriel. 

Essa febre de incendiarem as firmas levou o nosso Ney Faria por nas “PIPOCAS”: “Em Lavras do Sul, certa manhã, chamou a atenção da população um balde cheio de água em chamas no meio da rua. 

Logo atenderam todos, mas ao chegarem lá notaram que o balde era de São Gabriel, aí retiraram-se sem darem a menor importância”. 

Esse local é conhecido até hoje como o “Engenho queimado”. Teve também outros engenhos de menor importância, mas não lembro. Abraços. Osório”. 

A mãe de Dagoberto pertencia a tradicional família Rusomano, de Pelotas, a qual teve no grande jurista Mozart Victor Russomano, falecido em Pelotas no dia 17 de outubro de 2010, aos 88 anos, talvez o seu principal nome. 

Russomano era doutor em Direito do Trabalho pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, título que obteve em 1962, e também foi ministro e presidente do Tribunal Superior do Trabalho. 

No ano de 1946 editou “A Sinfonia dos Pampas” (Echenique & Cia – Pelotas), obra essa um poema de 10 páginas narrando em prosa o cotidiano do povo gaúcho. Esta obra foi um ensaio literário herdado de seu pai Victor Russomano. 

Em 21 de junho de 2013, o Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região inaugurou oficialmente as novas instalações do Fórum Trabalhista de Manaus, o qual, em homenagem, leva o nome de Mozart Victor Russomano. 

Dagoberto começou a carreira de radialista em 1948, na Agência Gaúcha de Publicidade (AGP), que foi fundada em São Gabriel, por iniciativa dos senhores Ernani Astarita Duarte e Moacyr Neves de Almeida. De lá “Dagô” foi para a Rádio São Gabriel. 

A primeira transmissão de futebol na emissora aconteceu em 26 de novembro de 1951, no jogo G.E. Minuano 0 X 4 Riograndense, de Santa Maria, na inauguração do Estádio da Caridade. 

O jogo foi narrado por Rubem Pinto, que era o gerente da emissora, tendo Conceição Ávila como comentarista e Dagoberto Focaccia no plantão. 

Naquele tempo ainda não existia a figura do repórter de campo. 

O fotógrafo e amigo José Carlos Conceição, que encontrei em uma das minhas idas a São Gabriel “rezando” na “igreja” do Marciano Bastos, frente a Prefeitura, contou que uma das primeiras transmissões de futebol acontecidas na cidade, foi de um jogo no campo da 13ª Companhia de Transmissões, hoje Comunicações. 

Não lembra quem jogou, apenas que o narrador foi o Osvaldo Nobre, com reportagens de Dagoberto Focaccia. 

O saudoso Zenon Figueiró Martins era o gerente da Rádio São Gabriel. Na técnica estava o também saudoso Gilberto Pires Rodrigues. 

A transmissão foi feita com o uso de uma estação-rádio do quartel, modelo RAD 300, que mandava o som de lá para a rádio em frequência alta. 

 O capitão Sena, que na época era rádio-amador, disse que ouviu o jogo no Rio de Janeiro, onde se encontrava. 

O amigo Conceição também foi correspondente da Companhia jornalística Caldas Júnior, em São Gabriel, por muitos anos. 

Em 1960 Dagoberto formou-se em Direito, pela histórica Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas, tendo sido o orador da turma. 

No período em que esteve na “Princesa do Sul”, fez parte da equipe de locutores esportivos da Rádio Cultura, comandada por Petrucci Filho. 

E teve a oportunidade de conhecer Paulo Gilberto Corrêa, o melhor narrador de futebol que a Zona Sul do Estado conheceu em toda a sua história. 

Dagoberto era da Rádio Cultura e Paulo Corrêa, da Pelotense, a mais antiga emissora gaúcha e terceira fundada no Brasil. 

Paulo nos deixou em 2014. 

Eu também tive a honra de conhecer Paulo Corrêa. 

Ao início dos anos 60 ele foi para Rio Grande. 

E anos depois, eu também. 

Em meu blog http://www.nilodiasreporter.blogspot.com  escrevi um artigo sobre o radialista, que está à.+..+ disposição de todos. 

Acho que vale a pena conhecer alguns detalhes da vida desse grande profissional. 

Dagoberto no retorno a São Gabriel voltou também à Rádio São Gabriel, onde durante muitos anos foi um dos principais locutores, tendo no programa “Show da Noite”, seu carro-chefe. 

Também narrava futebol e apresentava programas carnavalescos. Foi o criador de vários bordões que ficaram famosos. 

Eu era ouvinte assíduo do “Show da Noite”. 

Dagoberto entrevistava qualquer pessoa da cidade, não importando sua condição social, se era pobre ou rico, branco ou preto. 

Lembro de uma vez em que ele entrevistou o famoso “Cavaco”, e fez uma pergunta quase inacreditável: “Você lembra quando foi a primeira vez”. 

Para quem conheceu o personagem não é necessária qualquer explicação. 

Sem a menor dúvida Dagoberto é até hoje o principal nome da radiofonia gabrielense. 

Foi ele quem deu ao saudoso Domingos Rivas, o fundador da S.E.R. São Gabriel o título honorífico de “Marechal do Futebol”. 

Folclórico, criador de frases que certamente vão ficar para a posteridade, sempre a procura de ingredientes novos para enriquecer suas transmissões esportivas. Conhecia os familiares de quase todos os jogadores de futebol da cidade. 

Dono da audiência, mandava abraços e recados para seus fiéis ouvintes. 

Certa vez ele inovou nas transmissões do campeonato de Futsal da cidade. 

A cada gol acontecido, ele chamava o seu repórter de quadra, o amigo Mareque Junior e dizia: “Grita Mareque, grita”. O Mareque, com sua voz possante e agradável, enchia o “Chiapettão” com um sonoro grito de gol. 

Lembro de um jogo no Silvio de Faria Corrêa, entre S.E.R. São Gabriel e parece que contra o Cruzeiro, de Santiago, mas não tenho bem certeza. 

O importante foi o que aconteceu. 

O repórter de campo, que vou preferir não revelar o nome, de repente informou ao Dagoberto que havia entrado um cachorro dentro do campo de jogo. 

E o nosso querido narrador não teve dúvidas em perguntar, só para confundir o repórter: “Em lugar de quem”. 

Seguiu-se um silêncio ensurdecedor. 

Eu tive a satisfação de também ter atuado na tradicional Rádio São Gabriel. 

Cheguei a fazer parte da equipe de esportes como comentarista, e participei de transmissões de carnavais, eleições e outros eventos. 

E nos sábados a tarde apresentei o programa “Nativismo”, com músicas de festivais. 

Algumas vezes comentei jogos da S.E.R. São Gabriel, tendo o Dagoberto como narrador. 

Foram experiências que jamais esquecerei, pois constatei de perto que o “homem” realmente não tem competidor. 

Foi Presidente do Gráfico F.C., da Associação São Gabriel de Futebol e dos Conselhos Deliberativos da S.E.R. São Gabriel e G.E. Gabrielense. 

Em 1975 concorreu a presidência da Federação Gaúcha de Futebol, enfrentando nada mais, nada menos do que o poderoso Rubens Freire Hoffmeister. 

Dagoberto sempre teve intensa participação na sociedade local, e seu nome esteve ligado as principais entidades sociais e esportivas da cidade. 

Foi presidente do Lions Clube São Gabriel por três vezes, inclusive no ano do Cinquentenário. Dirigiu o Clube Comercial, em seus momentos de maior grandeza e foi diretor social do saudoso presidente Helvécio Prates. 

Desde 1982 Dagoberto é sócio e locutor da Rádio Batovi, apresentando diariamente ao meio-dia o programa de avisos “Chasque da Amizade”, com uma grande legião de ouvintes espalhados por todo interior do município. 

Eu sempre que visito São Gabriel vou ao bar e mercearia do amigo Djalma Munhos, no alto da XV de Novembro, e enquanto tomo umas e outras cevas geladas, escuto por lá o “Chasque da Amizade”. 

O Dagoberto sempre tem uma história divertida para contar, o que torna agradável de ouvir um programa que teoricamente tinha tudo para ser chato. 

Em meio aos recados para o interior do município, convites para festas e quase intermináveis “reclames”, sempre os comentários do apresentador feitos de forma inteligente, o que dá ao programa um equilíbrio indispensável. De lambuja toca até hinos de times do futebol. 

E foi lá que ouvi a historinha que segue, em meio a um festival de avisos: 

Muitos gabrielenses quando viajavam a Porto Alegre, costumavam hospedar-se num hotelzinho pertencente a um comerciante de nome Vando, que havia morado em São Gabriel. 

Certa ocasião, um senhor de muito prestígio em nossa cidade foi a capital e hospedou-se no dito hotel. 

Passado quase uma semana o hóspede não foi mais visto pelo proprietário. Preocupado com a possibilidade de que houvesse acontecido alguma coisa de ruim com ele, Vando abriu a porta do quarto com a chave reserva e para sua surpresa encontrou um bilhete em cima da cama com estes dizeres: “Depois eu te explico melhor”. 

Genial. 

Lembro que o Dagoberto falava de um tal “Bar Balu”, do saudoso Carlitos da Silva Leite, que ficava nos fundos do Colégio XV de Novembro e onde havia uma mesa de bilhar. 

Contam que juntava gente só para ver as inesquecíveis batalhas entre os saudosos Margus Condessa, o “Bula” e um tal de “Passarinho” (não era o saudoso Heron Marques Rodrigues), eméritos jogadores. 

Conheci o Carlos da Silva Leite, mas não cheguei a ouvir seu programa radiofônico. 

O “Bula”, também conheci, morava bem pertinho da Sanga do Cangica e era assíduo frequentador do “Bar do Tio”, que ficava bem em frente a sua casa. 

Dagô” também lembrou do tempo em que o ônibus circular pertencia a uma empresa chamada “Jardim da Serra”, que tinha apenas dois veículos, um dirigido pelo seu Rubem e outro pelo seu Hélio. 

E se viajava para Santa Maria pelo ônibus da empresa “Barin”, cujo motorista era o Eni. 

Mas o que eu mais gostei foi a lembrança das missas dominicais na Igreja Matriz, nos tempos do saudoso monsenhor Henrique Rech. 

O Dagoberto contou que o religioso já estava bem velhinho e meio surdo, e quando alguém ia se confessar tinha que gritar os pecados para ele ouvir e dar a penitência. 

E todas as pessoas que estavam na Igreja ouviam. 

Dizem as más línguas que tinha gente que ia ao templo só para ouvir os pecados dos outros e depois sair a espalhar pela cidade. 

Eu e o Dagoberto éramos amigos e clientes do saudoso João Carlos Batista, o popular “Babão”, um dos mais antigos barbeiros de nossa cidade. 

Em uma das minhas visitas a São Gabriel fui visitá-lo na barbearia junto ao prédio da antiga Proletária, quando tivemos a oportunidade de conversar sobre futebol e política, dois de seus assuntos favoritos. 

Ele recém havia chegado de Porto Alegre, onde esteve hospitalizado, e mostrava-se otimista quanto a recuperação da saúde. Infelizmente, tudo correu de maneira diferente. 

Casualmente, também o Dagoberto foi visitá-lo quase no mesmo momento. 

E o papo se prolongou agradavelmente por um razoável tempo. 

Eu conheci muito bem o “Babão”, pois nos tempos em que o velho prédio da Proletária serviu de concentração e moradia para os jogadores do G.E. Gabrielense, por bondade do saudoso Jorge Arraché, firmamos uma sólida amizade. 

Sou testemunha de que ele era dono de um coração de ouro. 

Quem chegava em sua barbearia em busca de ajuda, com certeza não saia de mãos vazias. 

Pouca gente sabe, mas era ele quem garantia um teto e muitas vezes alimentação para o “Boca”, essa figura popular e querida, conhecida de todos nós. 

Mesmo após a morte de “Babão”, sua família cuida dele, dando-lhe morada e alimentação. 

Outros dois amigos comuns, João Nunes, o “Muquica”, figura popularíssima na cidade e Homero Moura, ex-funcionário da Prefeitura. Os dois se foram deixando muita saudade. 

Uma curiosidade: eu fiquei sabendo no mesmo dia da morte do Homero, por gentileza do amigo Paulo Bolívar Nascimento que me enviou um recado pelo Orkut. 

E o Dagoberto soube por uma coluna que eu mantinha em um jornal na cidade. 

O Homero eu via seguidamente na Mercearia do Djalma. 

E o Muquica eu costumava visitar na sua sapataria. O Dagoberto dedicou um bom espaço em sua coluna “As 10 mais”, sobre a partida dos dois. 

Sei que o “Dagô” vai ficar feliz, ao saber que a Maria Betânia Ferreira, a “Mulata do Ataíde” lhe mandou um abraço carinhoso. 

Ela leu no meu blog “Viva São Gabriel”, um artigo que escrevi sobre o Dagoberto, com foto e tudo. 

E mandou dizer que o doutor Dagoberto Focaccia, queridíssima pessoa da sua história foi um grande amigo de seu pai, Ataíde Ferreira, diretor da emissora e meu conterrâneo de Dom Pedrito. 

E completou: 

“Foi exatamente como nesta foto que ele ficou e continua na minha memória. Se ele ler este comentário, aqui fica um abraço apertado da Maria Betânia, a “Mulata” do Ataíde, agora vivendo na França, e que ainda hoje falou no Dagoberto com o Renato Rosa pela Internet”. 

Uma das histórias mais assombrosas que se conhece em São Gabriel, é a do assassinato da prostituta uruguaia Maria Isabel Hornos, a “Guapa”, segundo se sabe, a mando de uma mulher ciumenta, pertencente a mais alta sociedade da cidade, naqueles tempos de antanho. 

Divergência sobre o crime só há uma. 

O historiador Osório Santana Figueiredo, afirma que o assassino atirou em Maria Isabel escondido atrás de cortinas, e o advogado e pesquisador Dagoberto Focaccia, fervoroso devoto, diz que os disparos vieram da rua. 

O doutor “Dagô” costuma ir ao cemitério local para colocar velas no túmulo de “Guapa”. 

E conta que as pessoas costumam pedir a ela que o amor não acabe, seja eterno. 

Passado quase um século de sua morte, “Guapa” é unanimidade em São Gabriel. 

Há absoluto respeito por ela. 

Em seu túmulo, no Cemitério Municipal, e na capela ali construída, estão dezenas de placas de agradecimento por graças e curas, além de incontáveis oferendas: anéis e pulseiras, batom, peças de vestuário, vestidos de noiva que são muitas vezes furtados porque as portas permanecem abertas. 

Dagoberto esteve sempre presente nos momentos mais marcantes da vida da cidade. Quando foi entregue ao Museu Nossa Senhora do Rosário, a antiga “Igreja do Galo”, uma réplica em fibra de vidro do “Galo Missioneiro”, desaparecido, anos atrás, lá estava ele, como um dos principais responsáveis pelo momento histórico. 

O médico Manoel Francisco Macedo, entusiasta da cultura local, patrocinou a construção do “Galo”, que foi uma iniciativa do Movimento Cultural de Resgate, criado pelos irmãos Gustavo e Amilcar Varella, contando com a colaboração da ativista cultural Maria Angélica Rey Buere, da advogada Liane Chaves e de Everson Dornelles, Rodrigo João Ramalho, Erico Dornelles, Jussara de Bem Barbosa, Alceu Varella, o jornalista Marcelo Ribeiro, entre outros. 

O radialista Dagoberto Focaccia foi sempre um dos maiores divulgadores da história do “Galo”, sendo que por várias vezes, falou sobre sua busca e onde poderia estar. Na condição de pesquisador, explicou que o “Galo” foi trazido da Europa por volta do início do Século XVI, e levado às reduções jesuíticas nas Missões. 

E foi trazido de lá em 1805, pelo Marechal João de Deus Menna Barreto, e roubado no dia 11 de setembro de 1985 do alto da nave da Igreja, que seria demolida parcialmente logo após. 

Em 2009 o tradicional “Bloco da Geni”, a mais popular entidade carnavalesca da cidade, prestou uma justa homenagem ao grande radialista, com o samba-enredo de autoria de Marcel da Cohab, Markinhus Muleke e Brenner: “Dagoberto Focaccia, o bam-bam-bam da comunicação. Tá certo, então!” 

 

Sacode minha cidade que é só felicidade/ 

A multidão está feliz/ 

É Dagô, (Dagô) é Dagoberto/ 

No carnaval da Geni/ 

Imperatriz (refrão)/ 

Cheia de alegria/ 

Geni chegou pra cantar mestre Dagô/ 

“No ping, no pong, no pong, no ping”/ 

A emoção/ 

O carnaval sua paixão/ 

A Zona Norte o consagrou um campeão/ 

No rádio é capacidade e competência/ 

O “bambambam” é referência/ 

Uma história de respeito e valor/ 

Alô cidade, interior! 

/O “Chasque da Amizade”/ 

No “Show da Noite”, uma lembrança, uma saudade/ 

Sucesso, interatividade/ 

À família dedicação e muito amor/ 

O comentário irreverente das coisas da nossa gente/ 

Eu na área, eu / 

Tá certo então/ 

É Dagoberto Foccacia a voz do cidadão/ 

É um colosso, é fenomenal/ 

É Dagoberto em “Ritmo de Carnaval” (bis)/ 

Um homem querido e respeitado/ 

Jornalista e advogado/ 

Na roda de amigos o mais exaltado/ 

Adorado em todo lugar/ 

“Aqui, ali, acolá”/ 

No futebol grito de gol pode vibrar/ 

Na Terra dos Marechais entre os dez tu és o mais/ 

O povo gabrielense ama você!!! 

 

Em outro samba enredo, “A era das comunicações. De lá pra cá tudo mudou, daqui pra lá, como será que vai ficar?”, de Jukinha do Império e Marcel da Cohab, para a “Escola de Samba Império da Zona Norte”, Dagoberto também foi lembrado nesse verso: 

 

De lá pra cá tudo mudou/ 

Daqui pra lá como será que vai ficar (como será?)/ 

Dagô”, da gosto de ver/ 

Nossas imagens refletidas na tevê (bis)!!! 

 

Em 2010 Dagoberto foi homenageado pela Liga de Futsal. 

O campeão municipal da Série B recebeu a “Taça Doutor Dagoberto Focaccia” das mãos do próprio homenageado. 

Em 2011, Dagoberto foi um dos homenageados pelo tradicionalista Evaristo de Oliveira, quando das comemorações dos 27 anos de seu programa “Rodeio na Querência”, apresentado por ele e sua filha Elizandre Obaldia na Rádio São Gabriel. 

Ainda em 2011, depois que lancei o livro “100 anos de futebol em São Gabriel”, com satisfação li o que o doutor Dagoberto escreveu em sua coluna, “As 10 mais de Dagoberto Focaccia”, a mais lida entre todos os jornais da cidade: 

“Colosso. Sim, colossal, maravilhoso e espetacular o livro “100 Anos do Futebol em São Gabriel”, de autoria do escritor e jornalista NILO DIAS”. 

Em 2013, o doutor “Dagô”, por sua atuação como produtor rural, foi um dos homenageados pelo Sindicato Rural de São Gabriel, por ocasião de sua 79ª Exposição Feira. 

Ainda em 2103, Dagoberto deu um grande susto aos seus familiares e amigo. 

Foi durante a entrega do “Troféu Arcanjo”. 

No momento em que o secretário de Transportes, Lizandro Cavalheiro, se dirigia para receber o seu troféu, “Dagô”, que também seria homenageado, sentiu-se mal devido à pressão alta, tendo uma convulsão no local, o que assustou a todos. Lizandro, inclusive, optou por não receber mais o troféu naquela noite, devido ao abalo. 

A organização retomou o evento, após diversas reuniões com os homenageados e, depois da confirmação do médico Giancarlo Bina, de que “Dagô” estava na CTI e não corria risco de vida, porém, só foi feita a entrega da premiação sem a leitura dos currículos do restante dos homenageados. 

Em 2015, a senhora Anna Maria Focaccia, esposa de Dagoberto, recebeu o “Troféu Dona Quimquim”, entregue durante o “Baile da 81ª Exposição Feira de São Gabriel”, por sua colaboração com o agronegócio e também com a comunidade gabrielense. 

Ela é presidente da Liga Feminina de Combate ao Câncer. 

Dagoberto e Ana Maria tem três filhos, o produtor rural André, a professora Anna Martha e a jornalista Ana Rita. 

No dia 7 de maio, Dagoberto completou 80 anos, coisa que Deus reservou para muito poucos. 

Dagô” é um deles, pois fez sempre da vida um aprendizado que se renova a cada ano. Nunca fez mal a ninguém, muito pelo contrário, é uma daquelas pessoas que a gente costuma dizer que é do bem. 

Dagoberto, acompanhado de toda a família, foi comemorar os 80 anos em Rivera, Uruguai. 

Foi um final de semana feliz, de muita alegria. 

Mas ao retorno a São Gabriel, um susto enorme. 

O que já acontecera em 2013, se repetiu. 

Teve um mal súbito, e foi imediatamente encaminhado a Santa Casa. 

E na quarta-feira, 11, foi levado para Porto Alegre, onde passou por uma bateria de exames. 

Os familiares sabem que de agora em diante terão cuidados redobrados com o nosso “rei do rádio”. 

Mas tudo vai dar certo. 

Nada melhor que terminar esta homenagem ao nosso querido doutor Dagoberto Frederico Russomano Focaccia, com uma declaração de respeito, de admiração, de reconhecimento e de amor de sua filha Ana Rita: 

Nilo, não esquece de colocar aquela foto dele menino com a mala (1938), letrinha da mãe dele, chegando em São Gabriel. 

É muito simbólica, e tem um significado todo especial para ele, para nós, a família? Nem preciso te dizer. 

Benza a Deus, eu sou filha dele. Pois o amo muito. Desde já quero te agradecer por tudo, pois homenagear quem ainda faz história, tem imenso valor. 

Homenagem em vida. Feita por um amigo dele. Isso não tem preço. Tem VALOR. E eterna gratidão 

Eu fico só imaginando o título que vais dar a história de quem faz história. 

Meu pai, meu amor, minha vida. 

Meu querido, meu velho, meu amigo, sempre canto para ele (em silêncio), para ele não se emocionar, mas eu canto e choro em silêncio de amor e de orgulho. 

Meu pai, meu amante da vida e do que a vida dá. 

Eu sou louca por ele, amigo. 

Eu amo ter um pai como ele, que conhece da vida, as alegrias, as dores, a “noite” que ele sempre amou e sempre tratou com respeito e carinho, as “farras”, as pessoas. 

E, por conhecedor da noite e ativo participante, sempre se fez e se tornou amigo de todos e de todas. 

Um sábio. 

E um exemplo para mim que sempre soube de tudo, pois me ensinou, nas entrelinhas, o que significa respeito e consideração. (Eu? Acho que aprendi amigo)”. [23/05/2016; ESPECIAL: A HISTÓRIA DE QUEM FAZ A HISTÓRIA. https://n1noticia.wordpress.com/2016/05/23/especial-a-historia-de-quem-faz-a-historia/ ] 

 

Feito o esclarecimento, do texto e do autor e das palavras, sem as criticar, pois não se trata de um julgamento do peso de tudo isso na balança de Osíris, e, também, porque tiraria um pouco do brilho do que foi dito, pois o pó ainda habitará aquele armário, por mais que se limpe tudo, mesmo que se passe o pano mais limpo, e tudo que se disse não pode ser como passar pano para o que foi argumentado, reservo meus pensamentos para mim, das pesquisas que foram, em que um romance desvela o passado, mas não diz tudo, e muita coisa ainda há de ser dita. 

 

 

 

 

 

 

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