A Arte e a Biopolítica

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A Arte e a Biopolítica


Claudio Antunes Boucinha1


Muita gente ficou surpreendida com o comportamento político de muitos de seus amados artistas, decepcionada ao receber a informação. A lista é grande e incompleta. Não se trata de uma lista de execuções. Essa lista não tem nome. São nomes públicos, não se trata de execrar ninguém 2. Não é do interesse torturar pessoas. Não se trata de difamação. Nem de má-fé. Muito menos ignorância. É apenas uma reflexão sobre arte e politica. Não se trata de defender uma arte engajada ou realismo socialista. Os debates sobre a arte pela arte, já foram feitos. Ninguém quer cobrar posições. Mas o fato é que a arte, depois de feita, não pertence mais ao artista, por mais que ele tenha assinado e tenha o ego do tamanho de um bonde. A percepção da arte, ultrapassa o artista enquanto ser. Mas o artista, enquanto corpo, pessoa, personalidade, máscara, esse sim, participa da política, como qualquer ser humano, quer ele queira ou não. É o estar no mundo. Se fosse analisar a vida de um artista, com uma lupa ou microscópio, escaninhar o corpo, em cada compartimento, cada fragmento, a anatomia, de cada um, certamente que não sobraria muita coisa. Por isso que nossos ídolos, são ídolos. Símbolos de uma natureza perdida, de uma terra nunca descoberta, de um recanto que oscila entre a arcádia e o eldorado. É pura utopia. É o lugar da perfeição. Quando o ídolo se desmancha, e vira santo do pau oco, leva um tempo até a gente se acostumar. Na verdade, o ídolo navega em mares cheios de infantilidades. Deve-se brigar com nossos ídolos? Acredito que ídolos, assim como tabus, nasceram para ser revelados, desmascarados, desnudados, destruídos, de maneira iconoclasta. Não se trata de dar uma forma rasa ao discurso. Mas é preciso que, em cada nova análise, algo, desse ídolo, sobreviva, para que fique mais forte aquilo que realmente importa. Alguns ídolos, não sobrevivem a meio minuto de conversa ou de um gesto de falta de educação. São tantos os artistas questionados, por isso ou por aquilo. Mas a arte, aquilo que emociona e nos faz mais humanos, independe da política. Embora a política também seja importante. Muitas falas precisam ser atenuadas, minimizadas, contextualizadas e não levadas ao pé da letra. Carreiras foram destruídas, por palavras mal contadas. Uma vírgula, e basta. O distanciamento do artista de seu público, pode levar a muitos desenganos. Como forjar um ídolo? Como e a ascensão de uma estrela? O bas-fond proporcionou, forneceu, foi uma mina de estrelas; Isso importa? O Palais Royal, High Society, o Jet Set, crème de la crème, a elite, também viu nascer joias da cultura. Isso importa?
Talvez esse seja um grande momento para se avaliar o que sobra de nossos sonhos, de nossos desatinos, de nossas loucuras, em acreditar que uma pessoa possa salvar nossa alma. E o que sobrar, nessa balança de Osíris, talvez não pertença a nós, a ninguém.
Segue a lista. Desculpe, se alguém não gostar. Na biopolítica, agradar a todos é o que menos importa.

Nana Caymmi3, Toquinho4, Almir Sater5, Sergio Reis6, Renato Teixeira7, Roger[Roger Rocha Moreira], do Ultraje a Rigor8, Fagner9. Lobão10, Zé Ramalho11, Roberto Carlos12, Baby do Brasil13, apoiaram Bolsonaro, de extrema-direita.

Marcelo Falcão, ex-Rappa14, Djavan15, Seu Jorge16, Lenine17, Afonso Romano de Sant’Anna e Ivan Lins18, Ruth Rocha19, Fafá de Belém20, ficaram no meio do caminho, na compreensão do estudo.

Alcione21, Falcão22 23, Elba Ramalho24, Milton Nascimento25, Morais Moreira26, Gal Costa27, Zeca Balero28, Sandra de Sá,29 Caetano Veloso e Paulo Coelho30, orbitaram na esquerda. Sem falar em Chico Buarque e outros que permaneceram fiéis aos seus históricos de vida, entre outros.


"O grande imbróglio linguístico do momento é a velha extrema-direita falar em nova política no momento que se apropria do governo através de um conluio de fraudes que parece remontar à monarquia. Os filhos do Lula, vítimas de tantas fakenews, que nunca passaram perto do Palácio do Planalto, foram materializados em vilania e aparelhamento de poder pelos filhos do Bozonaro: 01, 02, 03. O escritório do crime da Favela do Rio das Pedras ocupou a antessala da presidência da República, para os que diziam não terem bandido de estimação e foram agraciados com uma quadrilha inteira de milicianos, matadores de aluguel, contrabandistas de armas. Para os que passaram anos e anos espalhando boatos de negócios mirabolantes nunca comprovados da família Lula, a realidade mandou séries e séries de depósitos, saques e funcionários fantasmas, o laranjal do Queiroz. Queiroz, o homem cujo maior feito foi desmistificar a cruzada moralista contra a corrupção da Lava Jato e do Ministério Público. Queiroz, o bandido de estimação do Ministério Público, o bandido intocável do Ministério Público, o MP que queria morder uns bilhões de dólares da Petrobrás para uma fundação em que eles administrariam essa fortuna, com fins educacionais evidentemente, a Universidade de transgressões da Lava jato. Absurdos não faltam nessa balbúrdia institucional em que o judiciário brasileiro transformou a velha e derrubada República. A nova política é tão nova quanto o mofo dos paletós dos funcionários fantasmas dos gabinetes da família Bolsonaro; a vendedora de açaí, a mãe do miliciano, o irmão do presidente, o motorista dessa carruagem monarquista. Não existe nova política de extrema-direita. A extrema direita é uma carruagem encalhada na história. Mas, em contrapartida, a nova esquerda existe. A nova esquerda vem se materializando na história de maneira mais prática que teórica. A herança marxista restringiu-se à críticas pontuais sobre as fórmulas de exploração do capitalismo, mas ninguém fala mais em ditadura do proletariado. A democracia parece incorporada ao socialismo contemporâneo, pautas diversas foram incorporadas a essa nova esquerda mais arejada, mais feminista, mais à vanguarda do que os velhos partidos comunistas. Os tempos mudaram. Apesar de todo esse movimento político pelo retrocesso do conservadorismo de origem fascista no mundo, a esquerda segue adiante com a certeza que a história não volta atrás. No Brasil, isso se deu, também. É nítida a mudança de pensamento e postura dos socialistas não apenas em relação ao regime democrático, mas também a questões comportamentais como o feminismo, o racismo, as questões de gênero, a política de drogas e demais assuntos. Quem parece ter ficado meio boiando nessa história foi a gloriosa música popular brasileira, tão atuante durante o período da ditadura. Essa que, sem dúvida, foi a principal voz de resistência sob aquele regime de censura absoluta. Essa MPB que era, ao mesmo tempo, o grito de guerra e o consolo dos perseguidos pela violência do regime militar, parece ter se desconectado da intrincada e manipulada realidade política dos fatos, golpes e manobras que derrubaram a democracia brasileira em 2016. Nossa MPB parece ter ficado como Carolina, sem ver o tempo do golpe passar na janela, com exceção do eterno militante Chico Buarque e do despertar de Gil e Caetano no segundo tempo da prorrogação das eleições de 2018, as demais vozes como Milton Nascimento e o Clube da Esquina, Ivan Lins, Djavan, João Bosco, Carlos Lira, passaram meio ao largo do que acontecia, meio distraídos como Carolina. Outras cantoras que venderam muitos discos para a esquerda nas décadas de setenta e oitenta passaram a estar mais à direita devido à opinião publicada pelo monobloco da mídia oficial. Lenine, Fagner, Zé Ramalho, o Lobo bobo, enfim, a MPB de maneira geral, com a exceção de um Alceu ali, um Chico Cesar aqui, um Chico Buarque e um Sergio Ricardo acolá, de maneira geral, a MPB, pouco ou quase nada, se manifestou contra o golpe que surrupiou mais uma vez a jovem democracia brasileira. Assistiram calados à gloriosa ser derrubada, após tantos anos de luta para recuperá-la. Assistiram inertes, passivos, pretensamente isentos, à velha direita sair do armário e assaltá-la mais uma vez. Talvez por falta de real informação, pouca base intelectual, talvez por viver muito “emsimesmada” na própria glória, no pantheon das divindades da fama, supostamente acima das mediocridades da política. Talvez mais informados por uma emissora de TV e uma mídia hegemônica do que pela intelectualidade ativa do País. Foram manipulados e levados a absorver as narrativas que vão de Joaquim Barbosa a Sergio Moro e a farsa da Lava Jato, ou as fortunas e crimes da família Lula nunca encontrados em lugar nenhum. O fato é que essa gente perdeu o bonde da história, se desconectou, boiou. Passou num carro alegre cheio de um povo contente, atropelando indiferente ao largo do mais sórdido golpe que a extrema-direita impingiu à nossa democracia, essa que viveu seu apogeu nos governos progressistas. A MPB assistiu a tudo isso sem dar um pio, sem cantar uma nota. Ninguém, nenhum desses ídolos falou nada, fez nada para conter esse golpe que, agora, revela toda a monstruosidade e crueldade que traz em si. Não estou com isso querendo tirar o valor de ninguém. É claro que amo esses ídolos como todo mundo, suas músicas, sua gloriosa contribuição para a cultura brasileira. Mas, justiça seja feita, essa gente não fez nada. Parecem viver numa realidade paralela. Voltamos 40 anos na história e essa gente nem aí. Voltamos a ver militares no governo e essa gente nem aí. Voltamos a ser reprimidos e caçados nas ruas e universidades do país e essa gente nem aí. O mesmo não se pode dizer da “Renca, coletivo de Resistência”, um grupo de compositores que se formou em São Paulo. Um time de craques, facilmente comparável à geração de sessenta, que não tem medo de tomar posição, assumi-la publicamente e levar a sua música às últimas consequências junto às suas posições políticas. Compusemos músicas pontuais para todos os acontecimentos políticos da história recente do País, temos material para vários CDs, um vasto repertório de canções fantásticas e vigorosas que conclamam a classe toda a sair da roda de bajulações e entrarem na luta porque o momento é grave e muito perigoso, tudo está em risco. Fazem parte do “Renca, coletivo de Resistência”: - “Carolina” saia dessa janela. E você, esquerda, saia da década de sessenta, renove o repertório, prestigie quem está atuando com a responsabilidade e comprometimento que o momento merece. O cara que queria fazer a hora está cantando num clube militar. A moça que cantava o hino está batendo palmas para Sérgio Moro. A nova voz do Nordeste não se vê representada por essa esquerda que está aí, ou seja, vocês. E nós aqui cantando para as moscas, enquanto vocês dão milho aos velhos pombos e canários que parecem estar mais pra lá do que pra cá". 31

1Licenciado em História(UFSM). Mestre em História do Brasil(PUCRS).
31 Teju Franco. "A Nova Esquerda e o Velho Repertório". O grande imbróglio linguístico do momento é a velha extrema-direita falar em nova política no momento que se apropria do governo através de um conluio de fraudes que parece remontar à monarquia. Músico e compositor; 21 de junho de 2019, 08:28 h. https://www.brasil247.com/blog/a-nova-esquerda-e-o-velho-repertorio

Comentários

  1. Grande amigo Boucinha. Excelente texto. Parabéns!

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  2. Bela contribuição, um excelente texto, parabéns!

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  3. Caro amigo, o teu escrito nos leva a muitas reflexões dentre os quais o sentimento de cansaço que na altura dos meus 53 anos me atinge. A energia que me levantava a ir as ruas e assumir o palco protagonizando ideias, esperava ver renovada, nos olhos dessa gurizada que vem depois de nós... mas não vejo essa força, não como a que tínhamos pra mudar a história. Se assim como eu, algumas das personalidades que citaste estão se sentindo cansadas... teremos que reerguer forças, não sei bem mais de onde, para lutar contra esse absurdo que o Brasil está em conflito. Parece-me que a cada passo que damos, essa corja de canalhas avança uns 1000. Esse sentimento de impotência frente a luta contra o sistema de fakes que o escritório do ódio produz todos os dias vai nos cansando ainda mais.

    Não sei se estamos calados ou se na verdade estamos sendo calados pela tecnologia.

    Obrigado pela tua lucidez!

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    1. Obrigado por ler o texto. Foi muito gentil de sua parte, escrever no blog. Agradeço, mesmo. De fato, a questão do cansaço e de como lidar com a internet, são muito importantes. Não há fórmulas. O que faço é estudar. Tinha deixado de estudar uma série de problemas, porque antevia o futuro da democracia. Depois dos últimos acontecimentos, voltei aos estudos que havia abandonado. Não sei se é um bom conselho. Mas foi o que aconteceu comigo. Estou me atualizando. Um grande abraço.

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  4. Esse artigo é uma delícia de ler quando se para pra investigar os inúmeros links citados pelo autor... hoje li mais uns 10... Hehehe!
    Muito bom, Cláudio! Obrigado!

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    1. Sinta-se à vontade. É muito interessante, mesmo. O artista sob outro olhar. Embora alguns falem pouco, mas o suficiente para compreender o pensamento. Pelo menos, essa é a ideia. Muito obrigado. Um abraço.

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