O que está em Jogo na Atual Conjuntura Ou A Geração que Deseja Reviver o Passado



Claudio Antunes Boucinha1

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/52/Belchior_no_4%C2%BA_Festival_Universit%C3%A1rio%2C_1971.tif/lossy-page1-200px-Belchior_no_4%C2%BA_Festival_Universit%C3%A1rio%2C_1971.tif.jpg

"Como Nossos Pais
Antônio Carlos Belchior

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Por isso cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Como uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sinto tudo na ferida viva
Do meu coração

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém

Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem

Hoje eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Tá em casa
Guardado por Deus
Contando o vil metal

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais”2

https://f.i.uol.com.br/fotografia/2019/01/13/15474194635c3bbf47b7861_1547419463_3x2_md.jpg


"Com mais de 30
Marcos Valle / Paulo Sérgio Valle

Não confie em ninguém com mais de trinta anos
Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros
O professor tem mais de trinta conselhos
Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta
Oh mais de trinta
Não confie em ninguém com mais de trinta ternos
Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos
O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida
A sua vida
Eu meço a vida nas coisas que eu faço
E nas coisas que eu sonho e não faço
Eu me desloco no tempo e no espaço
Passo a passo, faço mais um traço Faço mais um passo, traço a traço
Sou prisioneiro do ar poluído
O artigo trinta eu conheço de ouvido
Eu me desloco no tempo e no espaço
Na fumaça um mundo novo faço Faço um novo mundo na fumaça
Não confie em ninguém…"3



Introdução

Por quais motivos o candidato fascista ganhou as eleições e quais são os seus propósitos como governante? Os analistas políticos ainda oscilam em afirmar o caráter fascista do governo. Uns, imaginam um novo Jânio Quadros, não sem razão: o Jânio de Lula4. Outros, inventam um boneco, um Pinóquio manipulado, marionete de banqueiros. Os psiquiatras, analisam a psicopatia evidente, pelo seu alto grau de alusão a partes, do corpo humano, ligadas a sexualidade; bem como a altíssima demonstração de armas. Mas talvez a resposta seja bem outra e bem mais fácil. Trata-se de um enfrentamento entre gerações, pela memória dos anos 1970. A geração de 1980 criou a nova Constituição, que enterrou a herança do regime militar, mas não fez os enfrentamentos necessários. A herança da ditadura militar não foi julgada. Preferiu-se o caminho da conciliação. Daí resultando uma aura de otimismo em torno dos anos 70. Era época do “Milagre Econômico” e a classe média entrava em “catarse”, com o processo de urbanização e compra de todo o tipo de “geringonças” tecnológicas, tidas como modernas, de acordo com o padrão norte-americano. A televisão brasileira 5, enchia os olhos de todos. Era a vez da “Transamazônica”, das obras “faraônicas”. O dinheiro norte-americano chegando aos borbotões. Essa mesma geração 70, não compreendeu, até hoje, que o Brasil mudou. Não compreendeu que não era somente a classe média que tinha direito ao paraíso. Foi por isso que o PT nasceu, em meio aos tanques e metralhadoras que invadiam os bairros dos trabalhadores, em São Paulo. Parte da classe média, mas não toda, foi incapaz de pensar a inclusão de amplos setores da população brasileira. Queria ter o direito que tinha, secularmente, a classe alta, de ter empregada doméstica. A classe média queria ser “sinhô e sinhá”. Nunca imaginaria que essa mesma empregada doméstica não queria mais esse título e nem esse poder. A empregada doméstica também queria ser “doutor, doutora”. É esse anseio de libertação, do povo negro e do povo índio, que o PT nasceu. E nesse momento que o Brasil vive, existem dois projetos: um, que volta ao passado, escravocrata e arrogante, de supremacia racial 6. E o outro projeto, que busca a inclusão de todos na sociedade. Mostrar o que foi os anos 70, é essencial, nesse momento.

“Você classificaria de neofascista esse governo? Há quem não admita que é um fascismo. Seria um fascismo tropical?

De fato, eles não estão lendo a literatura fascista e se apropriando de suas ideias. Os historiadores têm sempre um cuidado extremo com o uso de categorias políticas, preferem ver o uso de tradições políticas que estão se misturando para criar novos fenômenos. Não gostam de reutilizar as mesmas palavras e categorias. Mas essa dimensão de mobilização de multidões em torno de um homem forte com uma agenda ultraconservadora, a criação de milícias, da força militarizada, exaltação da virilidade, da força, da violência é uma invenção do pré-fascismo, um momento em que a direita ocidental se reinventou para virar uma força de massa. Isso obviamente atravessa todo o século XX e sobreviveu em certos países no século XXI. Mas tem muitas outras dimensões no 'bolsonarismo' até porque de todas os governos de extrema-direita atualmente pipocando no Ocidente, Bolsonaro foi quem mais abraçou a revolução neoliberal dos últimos 40 anos. Não é o caso de todo mundo. Em alguns países, a extrema-direita é absolutamente radical nas questões sociais, morais, em relação à imigração, etc, mas tem uma relação ambígua com o neoliberalismo, com a soberania econômica. Bolsonaro não tem. Ele é um herdeiro de uma tradição fascista. Mas ele vai precisar de outro nome frente a História”.7

Alison Flood (2019) é a repórter de livros do The Guardian e ex-editora de notícias da Bookseller8. Flood (2019) cita uma informação de Marc Burrows, sobre Terry Pratchett.
.
Em 1995, a internet era um mundo de conexões dial-up e grupos de notícias da Usenet, mas, de acordo com seu biógrafo, Terry Pratchett já havia 'previsto com precisão como a internet iria propagar e legitimar notícias falsas'. Marc Burrows estava vasculhando velhos recortes sobre o falecido autor de Discworld para sua próxima biografia, quando se deparou com uma entrevista que Pratchett fizera com o fundador da Microsoft, Bill Gates, em julho de 1995, para GQ. 'Digamos que eu me chame de Instituto de algo-por-outro e decido promover um tratado espúrio dizendo que os judeus foram inteiramente responsáveis ​​pela segunda guerra mundial e o Holocausto não aconteceu', disse Pratchett, quase 25 anos atrás. 'E isso é divulgado na internet e está disponível nos mesmos termos de qualquer pesquisa histórica que tenha passado por revisão por pares e assim por diante. Há uma espécie de paridade de estima de informação na rede. Está tudo lá: não há como descobrir se essas coisas têm alguma base ou se alguém acabou de inventar'”.9

Pode ser que Terry Pratchett, em 1995, teve uma visão sobre o tema da internet e a veracidade. E que essa informação tenha muito a ver com o que se passa na atualidade. Agora, é preciso aprofundar o assunto. Qual o segmento social que está mais predisposto a uma notícia falsa? Não há como afirmar que todas as pessoas que estão em rede, participam da mesma maneira, da mesma forma. Ou seja, é preciso fazer uma pesquisa científica para que se observe como a notícia falsa funciona efetivamente na internet. Não se pode inviabilizar a internet por causa de suas supostas debilidades. Quais os grupos sociais que estão mais vulneráveis a uma notícia falsa? Por outro lado, é real a ideia de que existe uma paridade entre notícia falsa e pesquisa científica? Os estudos encontrados sugerem que os idosos têm um fascínio imenso em espalhar notícias falsas, bem ao contrário dos jovens.

Um estudo apontou que pessoas com mais de 65 anos são mais propensas a divulgar na internet notícias falsas, também chamadas de "fake news".

O artigo - assinado por Andrew Guess, da Universidade Princeton, e Jonathan Nagler e Joshua Tucker, da Universidade de Nova York (NYU), ambas nos EUA - foi publicado pela revista científica Science Advances na última quarta-feira (9). Nele, os autores analisaram as publicações de um grupo de usuários do Facebook durante a campanha presidencial americana, em 2016. A pesquisa concluiu que, de forma geral, o 'compartilhamento de artigos de sites de notícias falsas foi uma atividade rara'. 'A ampla maioria dos usuários do Facebook no nosso banco de dados (91,5%) não divulgou nenhum artigo de portais de notícias falsas em 2016', dizem os autores. Mas o estudo identificou que os usuários na faixa etária mais velha, acima dos 65 anos, compartilharam sete vezes mais artigos de portais de notícias falsas do que o grupo etário mais jovem (18 a 29 anos). (…) Alguns analistas afirmaram que esses conteúdos tiveram um impacto que pode ter afetado o resultado eleitoral nos EUA em 2016. Os autores do artigo dizem, porém, que estudos indicam que esses argumentos "são exagerados". A pesquisa afirma ainda que as pessoas que compartilhavam mais notícias eram em geral menos propensas a divulgar conteúdos falsos. "Esses dados são consistentes com a hipótese de que pessoas que compartilham muitos links têm mais familiaridade com o que elas estão vendo e são mais aptas a distinguir notícias falsas de notícias reais", diz o estudo. Os autores apontam, porém, que não foi possível descobrir se os participantes sabiam que estavam divulgando notícias falsas. Os pesquisadores dizem também que os achados indicam que questões demográficas devem ser mais enfocadas em pesquisas sobre o comportamento político, conforme a população americana envelhece e a tecnologia muda com grande velocidade”.10


Aparentemente, os jovens são os mais afetados por fake news.

“A Microsoft divulgou ontem, dia 5, Dia da Internet Segura, uma pesquisa com dados sobre os riscos que existem online e como os brasileiros são afetados por isso. A pesquisa foi encomendada pela Microsoft e realizada pela Telecommunications Research Group em 22 países. Para começar, os jovens são os mais vulneráveis a golpes na internet. Os Millennials (pessoas de 18 a 34 anos) atingiram as maiores taxas de risco e consequências, com um Índice de Cidadania Digital da Microsoft (ICD) de 73%”.11

Ou ainda, afirmar que “as crianças estão bem. O vovô é o problema”12? Ou seria melhor afirmar que “Idosos, entre 50 e 65 anos, são as pessoas mais propensas a divulgar Fake News”13? Na verdade, a pesquisa fala em pessoas de mais de 65 anos de idade14. Ou seja, pessoas nascidas antes de 1954, que estariam com 65 anos, no mínimo, como um dos limites, considerando o ano de 2019. Uma pessoa nascida em 1933, teria atualmente, oitenta e seis anos. Uma outra, nascida em 1949, teria setenta anos.

“Antigamente, as gerações eram classificadas a cada 25 anos. Hoje em dia, no entanto, as coisas mudam cada vez mais rápido. Desse modo, especialistas afirmam que novas gerações, com características e comportamentos distintos, estão surgindo a cada 10 anos. E diante de tantos avanços tecnológicos, não sabemos nem como essas transições se darão daqui a alguns anos”.15


No caso, está-se considerando gerações antigas, nascidas antes dos anos 1960. Visto que, considerando como válidas as características dos que nasceram depois da década de 1960, estás não estariam no foco da questão:

A geração X. Essa é a geração que inclui as pessoas que nasceram do início de 1960 até o início dos anos 1980. Trata-se de uma geração que é marcada pelo questionamento, que foi transgressora e defendeu seus próprios direitos. É a geração responsável pela competição entre produtos e marcas diferentes. São pessoas que se esqueceram dos problemas que lhes foram empregados e se preocuparam em fazer carreira no mercado. Viram surgir a internet, o computador, o e-mail, o celular, entre outras inovações. Algumas outras características da geração X são: busca pela liberdade, preocupação com as gerações futuras, busca pelos direitos, maturidade, escolha de produtos pela qualidade e a busca pela individualidade, mas sem abandonar a convivência em grupo”.16

As gerações posteriores ao ano de 1960, estariam fora do estudo, conquanto tivessem em torno de cinquenta e nove anos. Considerando o ano de 1954, mais vinte e cinco anos, ter-se-ia a geração dos finais dos anos 70, 1979, no seu momento de consciência do mundo, supostamente, como um dos limites. Os nascidos em 1939, teriam oitenta anos, na atualidade 17; mais vinte e cinco anos, depois de nascidos, ter-se-ia o ano de 1964. Dessa maneira, ter-se-ia um período de 1964 a 1979, que, no caso do Brasil, corresponderia ao regime militar. Portanto, pode-se concluir, entre outras, que a geração que hoje está combatendo a Constituição de 1988, e que apoia o fascismo, é a que apoiou a ditadura militar no país.

A presença da geração de mais idade na Internet pode ser comprovada pela pesquisa.

Envelhecimento e as perspectivas de inclusão digital. A partir da concepção de envelhecimento saudável e ativo e das análises sobre dados da tecnologia digital e do celular, focados nas faixas etárias de 45 a 59 anos e 60 anos ou mais, podemos extrair algumas considerações finais. O acesso ao computador e à internet por essa população ainda é pequeno; porém, quando ocorre, a frequência e o uso são quase tão altos quanto às outras faixas etárias. Para a faixa de 60 anos ou mais, as habilidades para uso dos vários recursos do computador e da internet são limitadas a algumas poucas funções. Da mesma maneira, o acesso ao celular é pequeno e há uma subutilização dos recursos que ele fornece e que podem ser úteis aos indivíduos com 60 anos ou mais. O envelhecimento interfere no desempenho de determinadas habilidades cognitivas. Estudos mostram que os idosos com alta escolaridade apresentam melhor desempenho em provas de memória ligadas à linguagem do que os que têm escolaridade baixa (Souza et al., 201018). Em pesquisas (Kachar, 2006; 200919) sobre a interação da terceira idade com a informática, dentro de estruturas de ensino e aprendizagem adequadas e específicas ao perfil do aluno, mostram-se as possibilidades de desenvolvimento de habilidades para uso do computador. E são apontadas contribuições significativas associadas aos aspectos social e cognitivo, no envelhecimento. Além da questão da inclusão digital, que promove a inclusão social (Kachar, 2009), podemos atuar na perspectiva da prevenção, na medida em que podem ser estimuladas funções cognitivas em situações específicas de ensino e aprendizagem com pessoas de 45 anos ou mais. A partir do desenvolvimento das habilidades para uso das tecnologias, é possível transferir para outras situações semelhantes [Uma aluna da terceira idade afirmou (em comunicação pessoal) que depois das aulas de informática havia adquirido maior confiança e facilidade para lidar com os caixas eletrônicos]como consultar caixas eletrônicos e afins. Os cursos de inclusão digital necessitam estar configurados de acordo com o perfil da população, com atendimento específico e com turmas pequenas e de mesma faixa etária, para promover o acesso e a capacitação do uso destes recursos tecnológicos. Outra perspectiva é constituir espaços de alfabetização e letramento digital no currículo dos programas voltados para indivíduos de 45 anos ou mais, como as universidades abertas à maturidade. As escolas já incorporaram os recursos informáticos do computador, celular e games às estratégias didáticas, constituindo novas conformações nos contextos educacionais para abrigar os artefatos que já se encontram nos espaços familiares, comerciais e de lazer. É necessário que programas que atendem adultos mais velhos, também reinventem novos espaços conectados com as tecnologias da informação e comunicação. É recomendável incorporar às programações curriculares, estratégias pedagógicas com informática, propostas com games e atividades de imersão em ambiente virtual. Devem ser respeitadas as condições de entendimento e interesse do público, com vistas à inclusão no contexto das evoluções tecnológicas, numa aproximação gradativa e progressiva com o universo digital que se dissemina em todos os setores da sociedade. Incluindo essa população na dinâmica de transformação tecnológica, aumentando o grau de autonomia, constituindo novos projetos de vida na direção do exercício da cidadania e do bem estar na maturidade”. 20

“Nos países desenvolvidos, o tempo cronológico desempenha um papel fundamental, é a idade de 65 anos, que determina o direito à aposentadoria. (...) Entretanto, a OMS com base na qualidade de vida ofertada, considera idoso nos países desenvolvidos as pessoas com 65 anos ou mais e nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, os cidadãos a partir de 60 anos de idade (CAMARANO, 2004:421). (…) A região sudeste manteve a estrutura etária mais envelhecida de todas; A região sul foi a segunda em termos de quantidade de idosos em relação ao total da população. As duas regiões tinham em 2010 um contingente de idosos com 65 anos ou mais de 8,1% e quanto a população de crianças menores de 5 anos era de 6,5% no Sudeste e 6,4% no Sul. (…) O mesmo autor, Frédéric Serriére (200322), verificou que em 2003, 2/3 dos Babyboomers americanos, de 50 a 64 anos, já usavam a internet. Esta quantidade baixava muito quando se incluía aqueles a partir de 65 anos. (…) De 1991 a 2000 verificou-se um considerável aumento de sete pontos percentuais da população idosa recebendo mais de cinco salários mínimo. A principal fonte de rendimento dos idosos de 60 anos ou mais foi a aposentadoria ou a pensão, equivalendo a 66,2%, e chegando a 74,7% no caso do grupo de 65 anos ou mais (IBGE, 2000: 2823). (…) Os idosos em domicílios unipessoais são mais frequentes nos estados da Região Sul e da Sudeste. Estas mesmas regiões apresentaram uma evolução semelhante da estrutura etária, se mantendo como as duas regiões mais envelhecidas do país. As duas regiões tinham em 2010 um contingente de idosos com 65 anos ou mais de 8,1% (IBGE, 2011:56). (…) Ziegler (201424) entrevistou Mirian Goldenberg a respeito de sua pesquisa junto aos idosos, em especial sobre seu livro “A Bela Velhice”, publicado em 201325. A seguir alguns trechos reveladores de diferentes reportagens em jornais online que vêm apresentando mudanças na vida e no interesse dos idosos que indicam o comportamento do “Novo Idoso”. (…) A quantidade de idosos que usam redes sociais disparou. De acordo com o estudo “Internet Life”, realizado pelo “Pew Institute” com mais de 2,2 mil pessoas – com 18 anos ou mais –, por telefone, entre abril e maio de 2013, a porcentagem de pessoas com mais de 65 anos que navega por sites como Facebook e Twitter cresceu 43 vezes. Em 2006, em outra edição do mesmo estudo, dentre as pessoas com a faixa etária em questão, apenas 1% acessava redes sociais, contra 43% da pesquisa feita este ano – em comparação com 2009, esse número triplicou (CROFFI, 201326). (…) A pesquisa de KURNIAWAN et al (2006: 99127) obteve resultados na Inglaterra que apontam para um gradativo aumento do uso de celulares de acordo com a diminuição da faixa etária; no ano de 2003, quase 90% da população entre 15 e 34 anos detinham um celular, 70% entre 35 e 64 anos, 53% de 65 a 74 anos e 24% de 75 anos ou mais são proprietários de um aparelho de celular. (…) De acordo com uma pesquisa da Pew (2006 apud PAK & MCLAUGHLIN, 2011:0228) 41% dos usuários da internet tinham mais de 65 anos de idade. Serviços de banco online são muito populares e dos usuários da internet, 43% faziam uso desses serviços. No entanto, apenas 27% dos usuários de 65 anos ou mais faziam uso regular dos serviços de banco online. (…) Adultos acima de 65 anos querem usar a tecnologia e obter as vantagens que um mundo tecnológico é capaz de oferecer. Em torno da metade dos adultos entre 65 e 74 anos são assinantes de telefones celulares e um terço daqueles acima de 75 anos pagam pelo serviço. O Centro do Futuro Digital (Center for the Digital Future) descobriu em 2009 que 40% das pessoas acima de 65 anos nos Estados Unidos são usuárias da internet. (…) Segundo os resultados da pesquisa Internet Life, realizada pelo Pew Institute entre abril e maio de 2013, a porcentagem de pessoas com mais de 65 anos que navega por sites como Facebook e Twitter cresceu 43 vezes, desde 2006, a última edição desta pesquisa (CROFI, 2013). (…)”.29

Craig Silverman(2019) vê os idosos como fragilizados, passivos, vítimas da política. A visão conservadora do mundo, é a tônica entre os idosos americanos.

"FORT WASHINGTON, Maryland - É final da manhã e cerca de 25 idosos estão aprendendo a falar com Siri. Eles pegam seus iPads e apertam o botão home, e pings ecoam pela sala enquanto Siri pergunta o que ela pode fazer para ajudar.
"Siri, qual é o café mais próximo?", Pergunta uma mulher.
"Desculpe, estou tendo problemas com a conexão, por favor, tente novamente?" Siri diz.
Um punhado de funcionários da AARP, a organização nacional sem fins lucrativos voltada para os americanos de 50 anos ou mais, fica atrás dos participantes e entra para ajudar. Eles estão em Fort Washington, Maryland, para oferecer quatro oficinas gratuitas sobre como usar um iPad. Os participantes aprendem como ativá-lo, o que é um aplicativo, como enviar texto e como virar a câmera para tirar uma selfie, entre outras atividades.
Janae Wheeler, gerente de comunidade da AARP, dá esses workshops desde 2016 e aperfeiçoou sua entrega. Ela sugere que as pessoas abram um aplicativo pressionando seu ícone "da mesma forma que você tocaria o nariz de um bebê". Durante a seção sobre mensagens de texto, ela lembra ao grupo para não "escrever um livro em sua mensagem de texto" e avisa que LOL "usou significa " muito amor ", mas não mais.
"Temos uma meta importante de colmatar o fosso digital", disse Wheeler ao grupo no início do dia. "Estar em sintonia com a tecnologia permite que você realmente se conecte com todas as coisas e pessoas que você gosta."
É uma mensagem reconfortante, mas a realidade é mais urgente. Embora muitos norte-americanos mais velhos, como o resto de nós, tenham adotado as ferramentas e brinquedos da indústria de tecnologia, um corpo crescente de pesquisas mostra que eles têm caído desproporcionalmente aos perigos da desinformação na Internet e correm o risco de ficar polarizados com seus hábitos online . Embora isso seja muito importante para eles, também é um enorme desafio para a sociedade, dado o papel desproporcional que as gerações mais velhas desempenham na vida civil e as mudanças demográficas que estão aumentando seu poder e influência .
Pessoas com 65 anos ou mais irão em breve formar o maior grupo etário único nos Estados Unidos, e permanecerão assim por décadas, de acordo com o Censo dos EUA . Essa enorme mudança demográfica está ocorrendo quando essa faixa etária está se movendo on-line e para o Facebook em massa, lutando profundamente com a alfabetização digital e sendo alvo de uma ampla gama de mal-intencionados on-line que tentam fornecer notícias falsas, infectar seus dispositivos com malware e roubar seu dinheiro em golpes. No entanto, os idosos estão sendo deixados de fora do que se tornou uma época de ouro para os esforços de alfabetização digital.
Desde a eleição de 2016, o financiamento para programas de alfabetização digital disparou. A Apple acaba de anunciar uma grande doação para o News Literacy Project e duas iniciativas relacionadas, e parceiros do Facebook com organizações semelhantes. Mas eles se concentram principalmente na demografia mais jovem, mesmo quando a próxima eleição presidencial se aproxima.
Isso significa que as pessoas que mais sofrem com a informação digital e a tecnologia correm o risco de se defender sozinhas em um ambiente em que estão sendo alvo e exploradas precisamente por causa de suas vulnerabilidades
As pessoas mais velhas também são mais propensas a votar e a serem politicamente ativas de outras maneiras, como fazer contribuições políticas. Eles são mais ricos e, portanto, exercem um tremendo poder econômico e toda a influência que o acompanha. Com mais e mais pessoas idosas entrando na Internet, e as futuras mais de 65 gerações já presentes, o comportamento on-line das pessoas mais velhas, bem como seu poder crescente, é extremamente importante - ainda que muitas vezes ignorado.
Quatro estudos recentes descobriram que os americanos mais velhos são mais propensos a consumir e compartilhar notícias online falsas do que aqueles em outras faixas etárias, mesmo quando controlando fatores como o partidarismo. Outra pesquisa descobriu que os americanos mais velhos têm uma compreensão pobre ou imprecisa de como os algoritmos de desempenhar um papel na escolha de qual informação é mostrada a eles na mídia social, são piores do que as pessoas mais jovens a diferenciação entre notícias e opinião relatado, e são menos propensos a registrar a marca de um site de notícias do qual eles consomem informações. Esses hábitos de consumo digital e de notícias se cruzam com características-chave dos americanos mais velhos, como a probabilidade de morar em áreas rurais e isoladas e, talvez em parte, como resultado de um alto grau de solidão. Uma pesquisa conduzida pela AARP de americanos descobriu que 36% das pessoas com idades entre 60 e 69 anos estavam solitárias, enquanto 24% das pessoas com 70 anos ou mais se registraram como solitárias. (A pesquisa se concentrou em adultos com mais de 45 anos). Como resultado, agora é essencial entender melhor os efeitos das mídias sociais, a solidão e a falta de alfabetização digital em pessoas idosas, de acordo com Vijeth Iyengar, um psicólogo especializado em envelhecimento do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA e Dipayan. Ghosh, um membro da Harvard Kennedy School. “Com evidências recentes de que os adultos mais velhos têm mais probabilidade de disseminar notícias falsas em comparação com seus colegas mais jovens, juntamente com o crescimento projetado para esse segmento populacional nas próximas décadas, é crucial avançar nossa compreensão dos fatores que afetam as formas que os adultos mais velhos se envolvem com essas plataformas e como, por sua vez, essas plataformas estão afetando como elas funcionam na sociedade ”, escreveram em um artigo recente da Scientific American . Kevin Munger, um cientista político que estuda os hábitos online dos americanos mais velhos e seu efeito na política, pintou uma imagem gritante da realidade para muitos americanos mais velhos e sua relação com a internet. "Eles estão sozinhos, relativamente ricos, alienados e presos em lugares onde não conhecem ninguém e se sentem zangados", disse ele. "E eles têm acesso à internet." O presente e o futuro do que a internet e as mídias sociais parecem com uma enorme população de idosos extremamente on-line é desconhecida. Mas o que é claro é que os americanos mais velhos se tornarão ainda mais uma força on-line a ser considerada - e ninguém está realmente certo de como isso será, ou como se preparar para isso. Munger disse que a cultura e o conteúdo da internet têm sido historicamente determinados por uma equação que se aproxima das pessoas que têm acesso multiplicadas por aquelas que têm mais tempo para gastar com isso. "Na próxima década, vai se tornar muito mais velho", disse ele.
Culpe os boomers.
“As pessoas mais velhas são a geração esquecida - é por isso que é importante para nós aprendermos coisas assim”, diz Joshua Rascoe, 70 anos, após o primeiro workshop da AARP terminar. Rascoe diz que se aposentou, mas passa o tempo trabalhando com crianças para ensinar-lhes como começar um pequeno negócio cortando gramados, a fim de economizar dinheiro e progredir. Ele usou o Facebook para um negócio anterior, mas disse que está preocupado com as mídias sociais. "Eu sei como Facebook e eu sei como ir para o Instagram", diz ele. Mas ele precisa aprender mais porque, a impressão dele é que “cerca de 80% dele é falso”. Rascoe não sabe ao certo como navegar por ele. Conforme o dia passa, há muitos momentos aha na sala. Um primeiro selfie. A primeira vez que texting uma foto. No final, os participantes estão prontos para entrar online e experimentar coisas. E é quando eles se tornam alvos, particularmente no Facebook, que tem visto um crescimento maciço no número de americanos mais velhos que entram na plataforma desde 2011, de acordo com dados da Gallup . Se há um otário para notícias falsas no Facebook, é fácil encontrá-las e alimentá-las mais. Jestin Coler, que dirigiu uma rede de sites que publicaram material completamente falso sobre ciência, política e outros tópicos, disse ao BuzzFeed News que os baby boomers eram um grupo demográfico chave para seus sites porque “são mais propensos a compartilhar e consumir notícias falsas on-line. , particularmente no Facebook. ” "Fizemos alvos para grupos de idade mais avançada ao veicular anúncios, e tenho certeza de que você encontrará o mesmo com editores hiperpartidários", disse ele. A experiência em primeira mão de Coler é confirmada por estudo após estudo, e não apenas quando se trata do Facebook. Pesquisa publicada em janeiro descobriu que “em média, usuários com mais de 65 anos [no Facebook] compartilhavam quase sete vezes mais artigos de domínios de notícias falsas do que o grupo etário mais jovem”. Descobertas semelhantes vieram de estudos que analisaram a disseminação de informações falsas no Twitter e na navegação na web em geral em torno da eleição de 2016. “Pessoas com mais de 60 anos ou 65 anos parecem ser especialmente propensas a consumir e compartilhar notícias falsas e desinformações online de maneira mais geral”, disse Brendan Nyhan, professor de ciência política da Universidade de Michigan e co-autor de um dos estudos, ao BuzzFeed News. Como observou Coler, os boomers também são grandes consumidores de conteúdo de páginas políticas hiperpartidárias do Facebook , que impulsionam um grande engajamento na plataforma ao estimular a paixão partidária por meio de memes e artigos. Nicole Hickman James passou anos trabalhando para uma editora que administrava tanto páginas de Facebook hiperpartidárias liberais quanto conservadoras e sites associados. Ela diz que com o tempo ela adaptou seus artigos para leitores mais velhos porque eles eram o público mais envolvido. “Como um post popular sempre foi 'X celebrity bate Trump'. Se essa celebridade fosse Jennifer Lawrence, eu não faria isso porque, na maior parte, os boomers ou não a conhecem ou não a amam ”, disse ela ao BuzzFeed News por meio de uma mensagem direta no Twitter. “Mas se Barbra Streisand disser algo que sempre fará bem. Eu meio que penso no que meus pais / avós estariam interessados. ” James disse que muitas das pessoas que regularmente comentavam sobre suas histórias no Facebook ou estendiam a mão para ela eram mais velhas. Quando ela ocasionalmente entrava para ajudar a administrar as hiperpartidárias páginas conservadoras de seu empregador no Facebook, ela via a mesma coisa. “Os comentaristas eram os mesmos, apenas do outro lado do corredor. Mais velho, muito partidário, etc. E o engajamento conservador sempre foi muito maior ”, disse ela em uma mensagem direta no Twitter. Assim como os sites de notícias falsas da Coler, esses editores criam anúncios e os direcionam para pessoas com mais de 50 ou 60 anos. Mas, mesmo que não estejam tentando alcançar pessoas mais velhas, eles ainda podem encontrar anúncios atraindo usuários mais ansiosos do Facebook. A Turning Point USA, um grupo conservador sem fins lucrativos focado em estudantes universitários, até recentemente recebia a grande maioria do engajamento de seus anúncios de pessoas mais velhas no Facebook. O ativista progressista Jordan Uhl destacou isso em fevereiro quando ele twittou uma série de capturas de tela mostrando os dados demográficos dos anúncios da Turning Point. O arquivo de anúncios do Facebook mostra que, após os tweets virais de Uhl, os anúncios da Turning Point mudaram e começaram a atingir os jovens, como seria de esperar de um grupo focado no aluno. O Turning Point não respondeu a um pedido de comentário, mas parece que a organização inicialmente usou critérios diferentes da idade para segmentar seus anúncios - e os boomers acabaram sendo os mais demográficos. Esse também é o caso de Ami Horowitz, um cineasta conservador que produz pequenos segmentos de vídeo para a Fox News e frequentemente aparece como convidado. Ele tem veiculado várias versões de um anúncio pedindo às pessoas para "GOSTAR se você concordar" que os EUA precisam impedir a imigração ilegal. As versões visualizadas pelo BuzzFeed News no arquivo de anúncios do Facebook atingiam principalmente pessoas com mais de 55 anos, sendo que as pessoas com mais de 65 anos eram a maior parte do público. "Eu não viso idades", disse Horowitz ao BuzzFeed News em uma mensagem no Facebook. Isso significa que seus anúncios naturalmente atraíram os usuários mais antigos do Facebook. (Não está claro quais critérios de segmentação além da idade que Horowitz usou para seus anúncios, já que ele não respondeu às perguntas de acompanhamento. O Facebook não quis comentar sobre essa matéria.) Qualquer pessoa que clicar nesse botão "Curtir" automaticamente se tornará fã da página de Horowitz e possivelmente começará a ver seu conteúdo aparecer em seu Feed de notícias. Alguém que é alvo e clica em muitos anúncios como estes pode acabar com um perfil no Facebook como Betty Manlove's. Ela é uma avó e bisavó destaque em uma série PBS sobre “notícias de lixo.” Manlove tem gostado de mais de 1.400 páginas no Facebook, muitas das quais são conservadoras ou religiosas hiperpartidárias. Ela reconheceu que seu uso do Facebook tornou-se insalubre em alguns aspectos. Manlove conseguiu parar de fumar, mas confessou: “Meu outro vício é o Facebook. Eu perdi horas no Facebook e deveria estar fazendo outras coisas. ” Pelo menos três das páginas que ela gostava eram dirigidas pelos trolls russos da Agência de Pesquisa pela Internet, e pelo menos uma é uma falsa página conservadora dirigida por um troll liberal autodeclarado que visa conservadores com histórias e memes falsos. Cameron Hickey, seu neto, foi produtor da série da PBS e notou o gosto de sua avó e os hábitos de compartilhamento ao analisar as páginas hiperpartidárias do Facebook para o programa. Ao discutir seu uso do Facebook com o BuzzFeed News, ele mencionou que ela recentemente compartilhou um meme da falsa página conservadora, mesmo que ele tenha tentado ajudá-la a navegar melhor pelo Facebook. "Apesar de discutir especificamente essas questões com minha avó, ela não parou de gostar e compartilhar coisas na plataforma, e talvez isso seja nossa culpa - não passar mais tempo com ela", disse ele, acrescentando que "eu amo minha avó". Essa sensação de frustração misturada com amor e um pouco de culpa é familiar para muitas pessoas. Mas também há uma crescente tensão de ressentimento e raiva sendo expressa publicamente (muitas vezes no Twitter por pessoas da mídia) para os boomers e o Facebook, e o que os dois juntos fizeram. "Meu entendimento atual do Facebook é que é o lugar onde todos saem da necessidade de notícias dos poucos grupos que seguem, e um punhado de boomers na maior parte vai se tornar um grande disparate", twittou Christopher Mims, um colunista de tecnologia para jornal de Wall Street. "A evolução do Facebook da coisa moderna que os Obamaitas usaram para direcionar jovens otários para a coisa assustadora que os russos usavam para atacar velhos idiotas era fascinante para viver", twittou Sonny Bunch, editor executivo do Washington Free Beacon. Esses sentimentos são provavelmente um subproduto do fato de que nosso atual ambiente caótico de informações está criando um abismo histórico nos hábitos de mídia entre as gerações . Pessoas de 25 anos ou menos são usuários pesados ​​de plataformas como Snapchat e Instagram e mal assistem a qualquer TV tradicional. Os americanos mais velhos são mais propensos a usar o Facebook e assistir TV tradicional . Pessoas de todas as idades nos EUA estão no Facebook, mas os mais jovens usam muito menos, e muitas vezes citam o fato de que seus pais e avós estão lá como um motivo para ficar longe. Mas, mesmo com uma quantidade crescente de dados mostrando o quanto os americanos mais velhos lutam com a alfabetização digital, é injusto apontar o dedo em um grupo etário como a causa da má-informação na internet, de acordo com Andy Guess, professor assistente de assuntos de política e público na Universidade de Princeton, e co-autor de um estudo recente sobre o consumo de notícias falsas. “É muito fácil se agarrar a uma explicação como essa. E se parece realmente ressoar com suas experiências, é quando você deveria parar e pensar: O que estou perdendo? " ele disse. O ressentimento geracional também isola ainda mais os boomers, o que agrava o problema. "Parece que vejo muita solidão", disse James sobre os comentários com os quais ela interagiu em páginas de Facebook hiperpartidárias conservadoras e liberais. Sentimentos de isolamento e solidão são fatores importantes no comportamento online de idosos. Em seu artigo na Scientific American, Ghosh e Iyengar citaram pesquisas que descobriram que a solidão pode afetar as funções cognitivas e a saúde física e mental, e pode resultar em um declínio na capacidade de se auto- regular." Essa constelação de comportamentos, que em geral busca evitar conflitos e minimizar o desapontamento, pode tornar essas pessoas propensas a gravitar em direção a fontes de informação que espelham sua visão de mundo, mantendo, assim, um senso de identidade", escrevem eles. Isso se traduz em hábitos on-line que podem fazer com que pessoas mais velhas construam inconscientemente bolhas de filtro à medida que buscam contato e reforço para sua visão de mundo. Também pode torná-los mais vulneráveis ​​a fraudes e fraudes, que se tornaram uma epidemia. No início de março, o Departamento de Justiça anunciou “a maior varredura coordenada de casos de fraudes de idosos na história”, resultando em acusações contra mais de 260 pessoas “de todo o mundo que vitimaram mais de dois milhões de americanos, a maioria idosos”. "Crimes contra os idosos visam algumas das pessoas mais vulneráveis ​​da nossa sociedade", disse o Procurador Geral Bill Barr. Steve Baker trabalhou para a Federal Trade Commission por mais de 30 anos, especializando-se em investigar fraudes e fraudes. Ele disse ao BuzzFeed News que a fraude na loteria jamaicana , que envolve contar a alguém que ganhou um prêmio em dinheiro e depois pedir a eles que paguem uma taxa para coletá-lo, visa especificamente pessoas mais velhas. "Com a fraude jamaicana, sabemos que eles não estão apenas recebendo toneladas de pessoas idosas, mas estão procurando pessoas mais velhas para atingir", disse ele. Baker, que agora dirige um site e um boletim informativo sobre fraudes dirigidas a consumidores mais velhos, também disse que é comum que adultos mais velhos que foram enganados não saibam que foram roubados, o que facilita ainda mais os criminosos. O anúncio do Departamento de Justiça observou que recentemente ajudou a organizar a primeira Cúpula Rural e Tribal de Justiça em Iowa para ajudar a combater o abuso de idosos e a exploração econômica nessas comunidades. Os americanos mais velhos são mais propensos a viver em comunidades rurais e isso pode trazer uma sensação de isolamento que faz com que a internet pareça a melhor maneira, ou talvez única, de se conectar com os outros. Há também outra questão delicada em relação aos idosos e suas interações com a informação e tecnologia digital. É algo que ninguém quer falar diretamente, muito menos com seus parentes, mas é uma realidade do envelhecimento: o declínio cognitivo. Somos todos suscetíveis a isso e podem surgir subitamente ou se arrastar por anos. Mas, uma vez que isso aconteça, pode afetar drasticamente a forma como você interage com o mundo. Munger disse que há um "fenômeno que ainda é um tanto raro, mas será cada vez mais comum entre os jovens de 90 anos no Facebook com capacidade cognitiva limitada". "É triste e potencialmente muito perigoso", disse ele.
Envelhecimento fora da internet.
Mesmo os boomers que têm experiência com computadores e tecnologia se sentem um pouco deixados para trás. No workshop da AARP, Charles Robinson, 75 anos, estava com sua bengala orgulhosamente usando um chapéu dos Veteranos das Guerras Estrangeiras. Ele tirou seu iPhone do bolso e disse que faz tudo, desde pagar contas até e-mails. Enquanto falava com um repórter, chegou uma mensagem de texto a esse neto perguntando se Robinson havia conseguido que seu computador de casa voltasse a funcionar. Ele não tinha, e as instruções enviadas por seu neto não ajudaram. “Não me sinto muito confiante em fazer o que ele quer que eu faça. É por isso que eu liguei para ele ”, disse Robinson. “Ele diz que isso parece um problema muito simples. Parece simples para ele, você sabe, tudo bem. Ele e sua esposa, Jan (que deu a ela a idade de 70 anos), são aposentados e passaram os últimos anos viajando. Eles têm diplomas universitários e permanecem engajados no mundo ao seu redor. Mas usar a tecnologia é mais uma luta para eles do que costumava ser. "Nós dois trabalhamos no governo e fomos para a faculdade, mas a tecnologia ainda está se movendo, não importa quantos graus você tenha, então temos que continuar com isso de alguma forma", disse ela, observando que estava feliz por ter aprendido como para cortar uma foto. “Anos atrás, quando os computadores foram lançados, nós éramos mais experientes”. Naturalmente, aqueles que atualmente têm mais de 65 anos não cresceram usando a internet ou passaram uma grande parte de suas vidas com isso. Mas será diferente para as pessoas que completarem 65 anos em outros 20 anos, certo? Provavelmente não, diz Munger. “A taxa de mudança na internet vai aumentar, e a medida em que temos pessoas de vinte e poucos anos que já se sentem alienadas de pessoas adolescentes que experimentam a internet de forma diferente só vai se tornar mais séria a menos que a internet ele pára de mudar tão rapidamente ”, disse ele. Um ávido Facebooker em seus quarenta anos já pode estar intrigado com o TikTok, por exemplo. E assim é possível que os adultos mais experientes da Internet se tornem idosos em dificuldades no amanhã. Isso significa que a questão de como ajudar os idosos a se adaptar à Internet e ao novo ambiente digital não é apenas para apoiar os idosos de hoje. As soluções precisam antecipar e atender às necessidades de alfabetização digital das 65 vantagens do futuro. Isso é difícil, dado que, a partir de hoje, as pessoas mais velhas são deixadas de fora do boom da alfabetização digital e, muitas vezes, lutam para conseguir que os membros da família as ajudem. Munger diz que uma resposta que poderíamos ver para uma população da Internet cada vez mais idosa seria "as empresas de tecnologia e outras elites estabelecidas adotarem uma abordagem paternalista". “Temos uma internet para crianças, então a solução pode ser uma internet à prova de seniores. Mas o ponto é que isso não funcionará porque os veteranos votam muito e não querem saber o que fazer ”, diz ele. Eles também podem não estar interessados ​​em aulas de alfabetização digital se não estiverem enquadradas adequadamente. Coler, o ex-editor de notícias falsas, disse que um centro sênior em sua cidade na Califórnia recentemente tentou realizar um workshop de "Dicas para detectar notícias falsas". Foi cancelado devido a falta de interesse. "Eu acho que nomear a turma 'Dicas para detectar notícias falsas' foi mal planejado - todo mundo acha que ELES podem identificar notícias falsas, mas não outras", disse ele em uma mensagem direta no Twitter. Munger diz que o ponto de partida é reconhecer que as pessoas mais velhas estão justificadas em sentir que não estão recebendo apoio e compreensão adequados, e em cumpri-las em seus próprios termos. Isso poderia significar mais ofertas como as oficinas da AARP em uma ampla variedade de áreas, mas também mais pesquisas para entender como o envelhecimento, as mídias sociais, a tecnologia e a sociedade se cruzam. “Eu realmente não culpo as pessoas mais velhas. Eles têm algumas queixas legítimas, e vamos ter que descobrir como melhor integrá-los no futuro ”, disse Munger. 30


Para alguns, o debate central que ocorre, na atualidade, é o que fez o PT em sua governança, e a oposição do PSDB, DEM e aliados. Em síntese, o que estaria em jogo é o que o PT fez. Os relatos do que foi feito na economia, com o Estado, a assistência social, estariam em debate sobre sua validade. A questão do Estado mínimo versus o Estado de bem-estar social, seria o centro do debate. No entanto, outros debates se sobrepõem. São os ideológicos, de seita, de organizações subversivas, secretas, clandestinas, de extrema-direita, que, aliadas com o fundamentalismo, imaginam um confronte entre comunismo contra o capitalismo à moda dos anos da Cortina de Ferro31, como se o mundo não tivesse mudado, inclusive a compreensão do que ocorreu, efetivamente, com o “socialismo real”. Ou seja, como se o mundo estivesse numa geladeira, petrificado, em criogenia, desde o fim da segunda guerra mundial.

Experiência chinesa e análise da URSS.
Na China, Bettelheim sente que está testemunhando esse processo de transformação. Em particular, ele argumenta que a Revolução Cultural - uma revolução na superestrutura política, ideológica e cultural - mudou a organização industrial, acompanhando-a com uma participação geral dos trabalhadores em todas as decisões e superando a divisão do trabalho manual. e intelectual. Durante esses anos, a China é o modelo de referência da "escola radical de economia" neo-marxista, representada por Bettelheim, Paul M. Sweezy, Andrew Frank Gunder, Samir Amin e outros que, opondo-se teorias de "modernização", dizem na periferia do sistema capitalista mundial em 'subdesenvolvidos' 'o desenvolvimento dos países' só é possível sob a condição de que estes países estão relatórios de mercado desiguais e desequilibradas dominado pelos países imperialistas, para escolher um caminho diferente e autônomo: o desenvolvimento de uma produção sem fins lucrativos ou para um acúmulo de riqueza abstrata, mas para as necessidades do povo.

Sob o signo desse acesso "maoïsant" Bettelheim começa seu volumoso livro sobre a história da União Soviética, a luta de classes na URSS (1974-1982), onde ele discute as razões das deformações do socialismo soviético , segundo Bettelheim, é apenas um "capitalismo de estado". Bettelheim mostra que, após a Revolução Russa, os bolcheviques não conseguiram estabilizar a aliança de longo prazo entre trabalhadores e camponeses. Durante a década de 1920, esta aliança foi substituída por uma aliança de elites da classe trabalhadora e inteligência técnica contra os camponeses, levando à coletivização forçada da agricultura em 1928. A ideologia "economista" (o "primata das forças produtivas" "), nascido em social-democracia e alimentou os interesses da" aristocracia operária "e intelectuais progressistas, ressuscita dentro do Partido bolchevique, funcionando como uma legitimação das novas elites tecnocráticas que estabelecem as mesmas hierarquias, divisões de trabalho e diferenciações sociais como capitalismo. No entanto, a ilusão "legal" de que a propriedade estatal é definida como "socialista" esconde a exploração real. Finalmente, Bettelheim questionou a natureza socialista da Revolução de Outubro, interpretando-a como a tomada de uma corrente radical da intelligentsia russa que "confiscou" a revolução popular.

Declínio do meio marxista.
Quando, em 1978, a República Popular da China sob a liderança de Deng Xiaoping terminou a estratégia "maoísta" de desenvolvimento autárquico e guiada pela primazia da política, para reafirmar a primazia da economia e do mercado de ajuste mundo, o paradigma dos teóricos do desenvolvimento autônomo perdeu sua força de convicção. Ao mesmo tempo, a influência do marxismo diminuiu, especialmente na França, onde marxistas críticos como Bettelheim perderam sua visibilidade, junto com a ortodoxia arque-comunista. Ele, que nunca abandonou o pensamento de Marx, perdeu sua autoridade. Em 1982, ele publicou os dois volumes da terceira parte da luta de classes na URSS, dedicada ao stalinismo "dominado" e "dominante", mas o ambiente marxista em que Bettelheim havia sido enraizado anteriormente havia se dissolvido. Hoje a Índia é o único país em que Bettelheim ainda é objeto de discussão [ref. necessária].

herança

Embora seu nome e obra estejam perdidos em obras contemporâneas, Charles Bettelheim deixou sua marca. Seu pensamento marxista heterodoxo contribuiu para o questionamento do "progressivismo" e do "produtivismo" da esquerda clássica, dando origem a um pensamento "alternativo" que não mais desloca a idéia de emancipação social do crescimento industrial. como um fim em si mesmo, mas aspira à inserção do desenvolvimento produtivo em um contexto de relações sociais conscientes (basicamente, é apenas a idéia original de Marx: romper a submissão da ação social ao processo de produção em favor de sua submissão consciente à produção de necessidades sociais). Assim, Bettelheim era um intermediário entre o pensamento "vermelho" e "verde", entre o socialismo e a ecologia. Em termos de teoria econômica, suas análises, ao distinguir diferentes formas de capitalismo, influenciaram a Escola de Regulação. Finalmente, ele liderou o trabalho de pesquisa de muitos estudantes de economia, incluindo a tese de pós-graduação do economista heterodoxo Jacques Sapir, diretor de estudos da EHESS, e especialista na economia pós-soviética, que é um de seus herdeiros desde a década de 1970”.32


Essas pautas de supremacia racial, estão aliadas, secundariamente, as outras, que desejam herdar o que restou do nazismo, hoje resgatadas por ordens de cunho maçônico (René Guénon33), supostamente fundamentadas numa herança esotérica, incluídas aqui a ideia da Terra plana34, do combate as mudanças conciliares da igreja católica, pós-Reforma, defendendo um catolicismo de antes da revolução francesa; bem como um combate a uma suposta “ideologia”, usando a terminologia marxista de forma inapropriada e oportunista35, (visto que foi Marx um dos principais estudiosos do tema ideologia36) a chamada “ideologia” de gênero37; uso de fetos humanos em refrigerantes38, e assim por diante.



Para Maud chirio, o que está em jogo na atual conjuntura é uma disputa sobre a memória da época do regime militar.

"A ascensão de políticos conservadores e ligados à direita é um fenômeno internacional. A eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, ou o crescimento de partidos de extrema-direita em países da Europa, como França, Escandinávia e Suíça, são exemplos de um movimento que ocorre de maneira global e que influenciaram, embora com características particulares, as eleições brasileiras de 2018, com o maior número de eleitos ligados a essa ideologia.

A historiadora francesa Maud Chirio, professora da Universidade de Marne-la-Vallée na França, em entrevista ao O POVO, explica a conexão existente entre o crescimento da direita no atual cenário político do Brasil e o processo de redemocratização pelo qual a sociedade brasileira passou após 21 anos de ditadura militar. Segundo Chirio, essa transição não se completou, devido à ausência de construção de um discurso memorial forte.

Doutora em história contemporânea pela Universidade Paris I — Sorbonne, a pesquisadora iniciou as pesquisas no Brasil no início dos anos 2000, quando ainda era estudante de mestrado também na Universidade de Paris. A curiosidade acabou se voltando para o período da ditadura brasileira, período pouco conhecido em seu país de origem, na época. O doutorado acabou voltando-se para a mesma área, quando estudou a pluralidade existente dentro do movimento que estruturou o regime militar brasileiro, caracterizado pela própria pesquisadora como um período ambíguo na história brasileira. Nos últimos 18 anos, as visitas anuais ao Brasil prosseguiram assim como a pesquisa sobre o movimento direitista no país.
O POVO - Como surgiu o interesse da senhora em estudar a direita brasileira? Por que especificamente a ditadura e como a ditadura brasileira se diferencia de outras?
Maud Chirio - Quando eu cheguei no Brasil, há 18 anos, era uma jovem estudante entrando no mestrado e descobri quase a existência da ditadura brasileira, que é um regime muito pouco conhecido na Europa. As ditaduras de segurança nacional, como são chamadas na Europa, mais famosas são as ditaduras chilena e argentina, mas houve pouca pesquisa e pouca repercussão pública da ditadura brasileira. Isso despertou o meu interesse porque era um assunto novo, totalmente inédito no meu país e também novo no Brasil, porque eram anos 2000 e naquela época não tinha muitas pesquisas sobre a ditadura brasileira. O momento de renascimento de pesquisas sobre ditadura brasileira foi 2004, com os quarenta anos do golpe. O interesse veio por desconhecimento e pelo fato dessa ditadura ter sido um pouco esquecida pela história. A primeira questão para mim foi entender porque tinha sido tão esquecida. Minha primeira entrada no período (foi para) entender o esquecimento. Eu percebi que essa era uma questão crucial para entender não só a ditadura, mas também a transição democrática, a falta de um processo judicial, de justiça tradicional, que aconteceu em todos os outros países, em particular revogando a Lei de Anistia. Todos os outros países revogaram a Lei de Anistia e tentaram implementar processos judiciais. (...) O esquecimento foi uma entrada importante para mim e continua sendo um elemento fundamental para entender o regime e a transição (para a democracia). Sobre o fato de pesquisar a extrema direita, a impressão que eu tinha era que as pesquisas sobre o poder militar pensavam as Forças Armadas, o poder e o Estado como grandes caixas, onde não se entrava. Não havia, na época em particular, a percepção da diversidade interna. Então, eu fiquei curiosa porque, no momento em que a esquerda era pensada em toda a sua diversidade - a esquerda que tinha uma linha pacífica, a esquerda armada, as diversas linhas teóricas da esquerda, os diversos aspectos culturais e políticos -, a direita era muito menos estudada e não era pensada na sua diversidade. Foi a minha primeira entrada neste tema que era também de entender a variedade do poder e das forças conservadoras que implementaram o poder militar.
OP - Esse esquecimento seria então a principal característica do depois da ditadura, do processo de redemocratização?
Maud Chirio - Característica da própria ditadura não é o esquecimento. A ditadura brasileira tem características próprias que são de uma ditadura que cultivou a ambiguidade com o sistema republicano, democrático, mantendo um certo número de instituições, algumas formais outras em funcionamento. Outra característica dessa ditadura foi de ter uma estrutura ideológica muito forte, mais de ter sido criada cedo em comparação com outros regimes de países vizinhos. Por ter sido criado cedo, esse regime antecedeu boa parte dos movimentos de esquerda armada, no contexto da Guerra Fria, e por isso teve pouco inimigo interno a combater (e), por isso, teve uma letalidade menos importante do que, por exemplo, na Argentina e no Chile. Não era uma característica intrínseca dos militares ou da direita brasileira, mas creio que muito mais uma consequência da cronologia e do fato que havia já um estado militar repressor muito forte que conseguiu reprimir muito rapidamente uma oposição que era muito pequena. A ditadura (brasileira) matou menos gente. Torturou muita gente, prendeu muita gente, oprimiu muita gente, censurou muita gente, mas matou menos gente do que, por exemplo, a Argentina. E isso é um elemento que favoreceu um processo de transição incompleto, porque havia poucas famílias ou parentes suscetíveis de se mobilizar para exigir os corpos, exigir um relato sobre os desaparecimentos, exigir reparação. A sociedade no seu conjunto conseguiu mais rapidamente olhar para outros temas, pensando que isso era uma coisa positiva, olhar para o futuro, pensar na Constituição, pensar na reconstrução da nova sociedade. Isso era um sinal de otimismo de um povo e (que acreditava) que olhar para o passado, contar o que tinha acontecido, contar como o Estado brasileiro desviou do estado de direito não era necessário para reconstruir uma sociedade democrática. As características da ditadura não eram de moderação, mas foram de menor letalidade (o que) produziu, em parte, essa transição que foi incompleta. (Há) outros elementos que explicam essa transição incompleta, em particular a capacidade das elites brasileiras de se adaptar e de se reassociar a outros campos, outros partidos. Muitas das elites políticas da ditadura conseguiram conexões com outros partidos e outros poderes durante a República. Isso dificultou ter uma depuração real, um estabelecimento do que tinha acontecido, de quem precisava estar punido, de quem não podia mais exercer poder, tudo isso não aconteceu. Em paralelo com o fato de que houve uma pedagogia pública pequena e tardia. O fato de ter um discurso público sobre a ditadura foi uma coisa do século 21, só aconteceu no âmbito da Comissão de Anistia, com as caravanas da Anistia, e não tocou o público, assim como a Comissão Nacional da Verdade não tocou o público geral, ou seja, houve uma dificuldade, até um momento recente, em afirmar que havia acontecido certos fatos, (fatos esses) que eram condenados e que é legítimo promover (publicizar isso) para o âmbito público. O que a gente tá percebendo hoje, (em) uma grande proporção da população, é uma reabilitação da memória positiva sobre a ditadura (que) é uma consequência direta dessa fraqueza na afirmação de um discurso coletivo sobre o que tinha acontecido, o que é uma coisa impensável na Argentina. A direita, o conservadorismo argentino, pode ser muito radical sobre muitos pontos, mas o fato de considerar que o período da ditadura foi um período positivo, que a tortura, que a exterminação política foram elementos positivos é uma coisa que é totalmente impensável na Argentina, por enquanto.
OP - Como a transição considerada incompleta e a falta desse discurso sobre a ditadura pode ser relacionada com a ascensão de políticos não só identificados com a direita e a extrema-direita, mas que exaltam a ditadura?
Maud Chirio - O fato de não ter tido processo, de não ter tido uma política de estado memorial e judicial forte em relação a esse passado, permitiu que grupos estejam promovendo uma memória positiva (da ditadura). Grupos promovendo memória positiva da ditadura sempre existiram, eles nunca desapareceram. Eles começaram no momento da queda da ditadura, em 1985. (Por exemplo) No momento da volta dos civis ao poder, houve a publicação, talvez a mais importante, de denúncias dos crimes da ditadura que foi a grande pesquisa e reunião de arquivos e o livro "Brasil Nunca Mais". Imediatamente, houve uma resposta de setores ultraconservadores e militares, que foi um livro, de um autor chamado Marco Pollo Giordani, chamado "Brasil Sempre", que era uma resposta direta. Ou seja, a guerra da memória nunca parou. Nos últimos 30 anos, nunca parou e sempre houve grupos, principalmente ancorados nos militares da reserva e no Clube Militar, que é uma associação de lazer e de conversa de militares da reserva, (que) nunca pararam de ter um discurso que equiparava as violências da oposição e do poder, que consideravam que não havia um desequilíbrio, que não havia um estado opressor, mas que havia uma guerra civil e que as violências da esquerda eram tão graves e tão condenáveis quanto a violência do Estado. Um discurso que também existiu nos países vizinhos do Cone Sul, mas neles esse discurso foi combatido com mais força pelas autoridades civis da República. O que não foi verdade no Brasil. O que a gente tá vendo agora é que um discurso que era extremamente reduzido, extremamente situado socialmente cinco, seis anos atrás, virou um discurso comum. Em 2012, houve uma grande mobilização de militares da reserva e da ativa contra a possibilidade evocada por uma secretária de Estado do governo de Dilma Rousseff de revogar a Lei de Anistia. Depois desse discurso houve uma grande mobilização, mas era uma mobilização de algumas centenas de pessoas, que não ecoava muito na sociedade.
OP - O que mudou, desde então?
Maud Chiori - A pergunta é como esse discurso conseguiu contaminar milhões de pessoas, de eleitores, de políticos?Eu creio que esse fenômeno de expansão memorial na população tem duas raízes. A primeira raiz eu já expliquei é um memorial fraco na sociedade porque nunca houve uma operação durável, forte, sistemática de memória e verdade sobre esse momento, apesar da Comissão de Anistia, apesar da Comissão da Verdade, que fizeram muita coisa, mas que não tiveram impacto social grande. O segundo elemento é a capacidade de impacto na psicologia das populações da nova direita americana - que não é só brasileira, que existe também nos Estados Unidos, em parte da Europa e em parte da América Latina -, que tem uma estratégia de conquista das mentes e de inversão dos valores e tem como argumento que o comunismo ainda existe em todos os países, que os direitos humanos são uma categoria negativa. Muitos elementos que são comuns e que combinam com uma memória positiva da ditadura. Ou seja, a memória positiva da ditadura é a versão brasileira de um ultra reacionarismo global, que tem objetivos claros de reduzir os direitos das minorias e reduzir o papel social do Estado. Muitos objetivos que são financiados de uma maneira muito clara por grandes interesses que existem em diversos continentes e tem por objetivo mudar radicalmente a maneira de governar essa sociedade, de mudar a relação com o ultraliberalismo e de mudar a relação com a tolerância a diversidade e pluralidade política, da diversidade étnica, de maneiras de viver.
OP - Então há uma responsabilidade dos governos pós-redemocratização de não terem ido a fundo nessa memória?
Maud Chirio - Sim, eu acho que em parte. Não era uma tarefa fácil, porque havia uma permanência da classe política, dos interesses econômicos, das oligarquias tão fortes no Brasil e das Forças Armadas, que tinha mantido um papel de tutela do poder civil durante muito tempo. Então, havia enormes resistências à possibilidade de um trabalho memorial mais a fundo, mas também existiu a crença de que isso não era totalmente necessário, que uma Comissão da Verdade não era uma necessidade para reconstruir uma democracia, porque não havia centenas de milhares de mortos como na América Central ou dezenas de milhares de mortos como na Argentina. Pelo fato da violência ter sido diferente e menos letal, isso não (iria) permitir a volta ao passado. O que a gente está percebendo e confirmando agora é que a ditadura brasileira foi uma ditadura a partir do momento que um Estado pode considerar que a integridade física de um cidadão não é uma necessidade absoluta, que o exercício da Justiça não é uma necessidade absoluta, já não estamos mais em um regime democrático ou republicano e que a existência de tal ‘parênteses’ na história de um país exige verdade, exige uma pedagogia pública. Porque senão volta. Muitos (de nós) historiadores estamos falando isso há muito tempo, pensávamos que a Comissão da Verdade seria esse momento de trabalho de memória. Foi em parte, mas aconteceu tarde, aconteceu num momento já de muita polarização e crise e foi muito desgastada pelo contexto em que aconteceu e não teve o impacto e o efeito esperado. Parece agora que estamos em um país que não teve uma Comissão da Verdade, que não teve o trabalho fundamental que uma Comissão da Verdade deve fazer, pode fazer.
OP - A pesquisa de doutorado da senhora é muito focada nas Forças Armadas (no período da ditadura brasileira). Nas eleições de 2018 tivemos uma grande quantidade de militares sendo eleitos para cargos tanto no Executivo como no Legislativo. O que isso diz sobre a força desse segmento dentro da política brasileira?
Maud Chirio - A primeira informação importante, quando se olha a história da República brasileira de 1889 até hoje, é que a presença militar direta e indireta foi constante. A Nova República (período da República brasileira iniciado com a redemocratização em 1988 e que se estende até hoje) foi uma exceção. Foram 30 anos de exceção. O resto do tempo havia ou militares no poder ou militares extremamente associados ao poder ou presidentes eleitos que eram militares. Ou seja, houve pouquíssimos regimes realmente civis antes da Nova República. A volta dos militares à política não é uma aberração na história do Brasil, é a volta à norma. Isso é muito significativo sobre a cultura política brasileira, que mantém uma descrença na política, na prática política, que continua cultivando a ideia de que não é a classe política ou certos políticos que são incompetentes ou corruptos, mas a prática política no contexto democrático que é ruim em si. Isso é um imaginário que atravessa o século XX e o século XXI. Nesse imaginário existe a ideia de que pessoas que estão fora do sistema - em particular militares, mas agora estamos vendo a figura dos juízes, do Judiciário -, que não tem como objetivo ficar atrás de votos para serem eleitos, seriam mais puros, melhores, capazes de promover o bem da nação. E esse é um imaginário que nunca desapareceu da cultura política brasileira, em particular da cultura das burguesias, das elites. É o que está acontecendo agora. Os militares estão voltando à política, não chegando, mas voltando depois de um tempo muito curto de afastamento, porque existe um momento de crise democrática no Brasil.
OP -Por quê?
Maud Chirio - Houve elementos reais e elementos construídos por uma propaganda muito bem articulada de que todo mundo é corrupto e que é necessária a volta dos militares no poder. Apesar do fato desse elemento ser uma constante, temos que a volta (ou) chegada dos militares no poder nunca diminuiu os níveis de corrupção nem melhorou a eficácia de governos. Eles geralmente governam de uma maneira muito mais conservadora, muito mais reacionária, mas os níveis de corrupção durante a ditadura, agora sabemos de maneira muito clara com a abertura de arquivos, foram muito altos, porque não havia imprensa livre e não havia uma justiça suscetível de denunciar qualquer roubo, qualquer desvio de dinheiro. A volta de militares para a política é uma consequência da crise democrática e de uma cultura que guardou uma descrença na política civil e isso é uma coisa que fragiliza muito a democracia no Brasil. Por fim, existe um crescimento muito forte da extrema direita no Brasil e os militares são uma instituição mais conservadora do que outras instituições e havia um pessoal disponível para ocupar parte do espaço político com um discurso muito direitista. Os eleitores manifestaram o desejo de votar a favor de militares e de pessoas que defendiam ideias de extrema direita e esses dois fenômenos favoreceram a entrada de militares na política.
OP - Em comentários recentes, a senhora afirmou que a Nova República brasileira acabou com a eleição de Jair Bolsonaro. Isso estaria relacionado à crise democrática? De fato se encerrou esse período de Nova República?
Maud Chirio - Não sabemos o que de fato vai estar implementado. A posse não aconteceu ainda e vamos ver o que vai acontecer. Mas creio que a Nova República se baseia não só numa Constituição, mas em valores coletivos, que foram valores discutidos coletivamente no período de preparação da Constituição, que são valores de respeito à diversidade, de respeito a uma nação multicultural, de uma nação multiétnica, da construção de um estado social, de um Estado que promove a conquista de direitos para todos os cidadãos. Pensando nesses valores que foram debatidos e foram resultado de uma longa construção social, que não foi resultado só da transição democrática, mas de décadas de luta do movimento negro, do movimento feminista, de luta dos trabalhadores para seus direitos sociais e a Nova República foi pensada como consequência e consagração dessas lutas. Pensando a Nova República dessa maneira, o fato de uma equipe política, que é o caso do presidente eleito, contradizer quase todos os pontos desses valores fundadores da República, a coloca em risco mortal. A oposição de valores é absoluta, não existe quase nenhum valor básico da Constituição que seja considerado valor básico pelo novo poder que chegou. Não por acaso é saudoso da ditadura. Uma pergunta que os leitores podem ter é como um governo saudoso de um regime ditatorial pode respeitar uma República que foi fundada justamente contra esse regime ditatorial. Isso é uma contradição nos termos. Corresponde a visões do mundo, da sociedade, da política diferentes. Se a República vai sobreviver ao mandato que começa em 2019 vai depender do poder para implementar a sua política. Se o presidente eleito conseguir implementar a sua política, acredito sim que a Nova República vai parar. Podemos querer ou esperar que essa interrupção seja temporária, que seja um parênteses e que a República esteja reconstruída depois. Mas não será mais uma República que respeita os valores da Constituição.
OP - A possibilidade de Jair Bolsonaro ser eleito sempre foi considerada, por alguns segmentos, como algo distante, um fenômeno muito parecido com a eleição de Donald Trump (nos Estados Unidos). Foi uma leitura errônea ou existe algo que justifique essas figuras, que nem sempre eram levadas a sério, terem conseguido se eleger a presidência de seus respectivos países?
Maud Chirio - Eu acho que é um pouco das duas coisas. Existe uma desconexão de certas parcelas da sociedade que fazem com que muitos cidadãos não (se) comuniquem uns com os outros. As redes sociais aumentaram isso, o efeito bolha, o efeito de estar no mundo social e conversar com pessoas que concordam com a gente e perceber menos que existe um outro mundo social. É uma coisa que não é só brasileira, é mundial ou, pelo menos, ocidental. E isso tem como consequência a dificuldade de pensar que outras pessoas estão pensando de maneira radicalmente diferente de nós. Isso vale das duas maneiras: as pessoas que votaram em Bolsonaro, em maioria, não entendem a reação de quem não votou a favor do Bolsonaro. Não é que só rejeita, não entende, porque as pessoas não (se) comunicam. Eu acho que é uma coisa que leva a pensar sobre a fragilização do espaço público e da opinião pública em um mundo estruturado pelas redes sociais. Antigamente, quando a fonte única de informação era um jornal, era público, todo mundo podia ler, parte não comprava, mas tinha uma visibilidade pública. Agora, grande parte da opinião pública está se construindo de maneira semi-privada, pelo Whatsapp, pelo Facebook, e isso divide a sociedade, polariza a sociedade. Isso explica porque muita gente não imaginava que seria possível o Trump ou o Bolsonaro estar eleito, enquanto os outros pensavam que a vitória era certa. (Por exemplo) Muitos aliados do Bolsonaro falavam que ele ganharia no primeiro turno, meses antes da eleição. Isso é o primeiro elemento. O segundo elemento é o fato (que) essa divisão e essa estrutura semi-privada da construção da opinião pública foi utilizada de maneira muito esperta por pessoas que tinham a estratégia de levar essas pessoas da extrema direita para o poder. Isso é uma coisa muito bem estabelecida nos Estados Unidos, houve muitas investigações da imprensa e trabalhos científicos sobre isso. Houve interesses financeiros muito poderosos que tiveram uma estratégia de coleta de dados de dezenas de milhões de cidadãos para alvejar pessoas e convencer cada uma delas a partir de redes sociais, para que essa pessoa acredite, segundo o perfil dela, (que é) um elemento que ligaria ela a determinado candidato. Isso foi uma operação muito bem orquestrada, muito bem articulada nos Estados Unidos, permitiu que três estados que sempre votaram pelos democratas votassem a favor do Trump. Isso foi uma operação conhecida (...) e que tocou 87 milhões de americanos. E aconteceu a mesma coisa no Brasil. Coletaram dados pessoais e enviaram, não pelo Facebook, mas pelo Whatsapp, propaganda especificamente definida para convencer cada uma dessas pessoas. Isso teve um efeito de lavagem cerebral rápido e escondido do resto da opinião pública, porque não tínhamos acesso a essa circulação de notícias ou de falsas notícias. Isso explica porque foi tão imprevisível e tão difícil de entender, porque era uma conspiração. A gente pode utilizar certas palavras fortes que correspondem a uma operação de propaganda clandestina, isso foi a apropriação de propaganda clandestina, em parte ilegal. Se você não recebeu nenhuma dessas mensagens, é porque você não foi considerado passível de convencer, por isso você não foi tocado por essa propaganda. Quem não tava na bolha, não tinha acesso a esse tipo de discurso. Isso criou não só a chegada ao poder de uma pessoa radicalmente diferente de um consenso moral de cinco ou quatro anos atrás e também uma polarização dramática da sociedade. Por exemplo, eu acredito que quando a gente tiver dados sobre como foi organizada a campanha pelo Whatsapp, a gente vai descobrir que o Nordeste não foi considerado um alvo possível, que o Nordeste tinha uma ligação muito forte com o PT e que não era possível converter o Nordeste e que daria muito trabalho. Então, essas mensagens nem chegaram ao Nordeste. Isso explica uma coisa tão inacreditável quando se olha o mapa do Brasil que é a diferença política do voto do Nordeste e do resto do país. Eu não acredito que seja só cultura regional, eu acho que é resultado de uma estratégia de manipulação das massas, que foi muito bem sucedida e que fabricou essa eleição.39


"A ideia de que a ditadura foi um período positivo para o Brasil ou mesmo da revisão da expressão "golpe militar" para "revolução" ou "movimento" vem sendo propagada por políticos conservadores nos últimos anos. Desde a época em que era deputado, Jair Bolsonaro nunca escondeu sua admiração pelos militares. Agora, na presidência, o pesselista nega a existência de um regime ditatorial que durou 21 anos no país e impôs que o aniversário de 55 anos da intervenção de 31 de Março de 1964 seja comemorado, uma iniciativa vista com repúdio por historiadoras francesas especialistas em Brasil entrevistadas pela RFI. Para Maud Chirio, professora da Universidade de Paris-Est Marne-La-Vallée, o discurso em favor da ditadura militar não é um fenômeno recente, sempre existiu entre os setores mais conservadores da sociedade brasileira, mas se acentuou com a chegada de Bolsonaro ao poder. O pesselista chegou a afirmar, em 2016, que "o erro da ditadura foi torturar e não matar" e diversas vezes prestou homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, único brasileiro declarado como torturador pela Justiça, mas morreu antes de ser condenado. A romantização do período também é realizada por outros membros do governo de extrema direita. Como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que afirmou na quarta-feira (27) que a intervenção militar de 1964 não foi "um golpe", mas "um movimento necessário para que o país não virasse uma ditadura". Ou o vice-presidente Hamilton Mourão que defendeu "uma revisão histórica" do período. "A mudança que estamos vendo hoje é a imposição desta memória positiva, que até então era uma memória minoritária, que só era dominante em certos setores das Forças Armadas e setores civis muito conservadores, mas passou a ser a memória oficial, a da presidência da República", observa Chirio, especialista em História Contemporânea brasileira. Na quarta-feira, em entrevista à TV Bandeirantes, ao tentar justificar a decisão de ordenar a comemoração do aniversário de 55 anos do Golpe Militar de 1964 pelas Forças Armadas, Bolsonaro afirmou: "não houve ditadura", deixando clara sua posição sobre como vê o período governado por militares durante 21 anos no Brasil. Na época, cerca de 20 mil opositores foram torturados e 434 pessoas foram assassinadas ou desapareceram.
Satisfação de setores militares.
Chirio avalia que a postura do presidente brasileiro sobre a questão tem o objetivo de agradar alguns setores militares. Mas, ressalta: "Bolsonaro sempre foi um defensor da ditadura e da repressão violenta deste período. A aclamação do coronel Ustra e de seu discurso é prova disso. Há trinta anos Bolsonaro é uma voz que insiste na necessidade da repressão e na ideia de que a ditadura militar brasileira não foi grave", ressalta. Para a historiadora, há ainda uma segunda razão para o presidente determinar a volta das comemorações do 31 de Março pelas Forças Armadas, retirada do calendário oficial do Exército em 2011 pela ex-presidente Dilma Rousseff. "É um primeiro passo para a imposição desse novo discurso oficial em relação à ditadura. Os meios militares são só o primeiro espaço. Eu temo que, em seguida, as universidades e as escolas sejam invadidas por essa narrativa que não só é moralmente condenável, mas que também se apoiam em resultados que são cientificamente falsos", afirma. Chirio se refere à falsa ideia disseminada por defensores da ditadura de que o Golpe de 1964 foi "uma revolução" ou "um movimento" apoiado pela opinião pública. "Houve setores da burguesia e da classe média que apoiaram, mas eles eram minoritários em uma sociedade que era praticamente constituída de classes populares. Pesquisas de opinião que já existiam na época indicam que o golpe não era um desejo da população que, majoritariamente, apoiava as reformas de base do presidente João Goulart e o governo dele", diz.
Crimes da ditadura como "façanhas ou proezas".
Segundo a historiadora Armelle Enders, professora da Universidade Paris 8 e pesquisadora do Instituto de História do Tempo Presente, mais perigoso do que relevar a gravidade do período militar é "enaltecer os crimes da ditadura como se fossem façanhas ou proezas". A especialista em História Contemporânea do Brasil lembra, por exemplo, o último discurso de Bolsonaro antes do segundo turno das eleições, em 21 de outubro de 2018. Em tom de vitória, o pesselista prometeu, se fosse eleito, que enviaria seus opositores e os militantes da esquerda para "a ponta da praia". A expressão é utilizada por militares para designar locais clandestinos onde torturas e assassinatos eram realizados durante a ditadura. Muito mais que a falta de decoro do presidente, Enders acredita que a negação ou romantização da ditadura faz parte de um projeto político dele. "O clã Bolsonaro está apostando nessa radicalização há tempos, pensando que já há uma base popular que surgiu com a Lava-Jato contra os políticos e a política em geral", diz. Para a professora, a falta de reação das instituições contra o discurso radical de Bolsonaro, desde a época em que era deputado, abriu espaço para que seu projeto de poder pudesse ser instalado sem maiores dificuldades. "Não houve uma frente republicana para barrar o que vai de encontro com a democracia no Brasil", observa. O fenômeno mostra que "a sociedade brasileira ainda não tem anticorpos democráticos", afirma.
Ongs e sociedade protestam.
Desde que Bolsonaro ordenou a comemoração do Golpe de 1964 pelas Forças Armadas, Ongs defensoras dos direitos humanos se manifestam contra a iniciativa. Na quarta-feira, a Human Rights Watch emitiu um comunicado condenando a decisão do presidente. "É isso que Bolsonaro está celebrando: 4.841 representantes destituídos do cargo, aproximadamente 20 mil pessoas torturadas, pelo menos 434 pessoas mortas ou desaparecidas", afirma a ONG. Um grupo formado por vítimas da ditadura e familiares de pessoas que foram mortas no período protocolaram na quarta-feira um Mandado de Segurança e uma Ação Popular contra a decisão de Bolsonaro. "Sob nenhuma legislação nacional ou internacional é lícito ou aceitável que se festeje o marco inicial de um regime caracterizado pela repressão e eliminação de opositores políticos, pela tortura, pelos desaparecimentos forçados e pela morte perpetrada por agentes do Estado", diz uma nota de repúdio assinada por diversas personalidades, entre eles, familiares do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado no DOI-CODI de São Paulo, em outubro de 1975".40


Bruno Latour (2019) afirma que o centro da questão é uma disputa territorial, considerando, por exemplo, a questão dos refugiados. Mas não é só uma questão territorial, também tem a validade da informação, em fim, a civilização.


“PERGUNTA. O senhor contou que uma vez, sobrevoando a baía de Baffin numa viagem ao Canadá, viveu um momento revelador ao ver como o gelo retrocedia. O que aconteceu?

RESPOSTA. Olhando pela janela, percebi que a placa de gelo, por sua forma, resumia o problema que vivemos. Ao estar no avião eu já não assistia a um espetáculo, mas o estava modificando, pois o CO2 que a aeronave emite influi na placa de gelo. Antes, esse espetáculo – o da placa de gelo vista do avião – teria tido um caráter sublime. Agora é complicado senti-lo assim. Se te dizem que você é responsável pelo que vê, o sentimento é diferente, é uma forma de angústia.

P. Essa é a vertigem da qual fala no livro?

R. Antes, a angústia que a natureza nos causava vinha do fato de que éramos pequenos demais, e a natureza era imensa. Agora temos o mesmo tamanho, influímos em como a Terra se comporta. E é desorientador, por exemplo, para os jovens que se manifestam [contra a mudança climática]. Da extrema esquerda à extrema direita, todas as posições políticas estão marcadas pela angústia.

P. No caso dos coletes amarelos ou dos eleitores de Trump, a angústia é mais econômica que ambiental, não?

R. É como se o solo do país onde estou já não me fosse favorável. Não é ecológica no sentido da natureza, mas é do território. O problema é esse sentimento de perder o mundo. Já existia antes, mas eram os artistas, os poetas, que o sentiam. Agora é um sentimento coletivo.

P. Segundo o senhor, uma elite, ante essa situação, diz: “Vamos embora”. Abandona o barco.

R. Comparemos isso com as reações fascistas dos anos trinta. Há semelhanças, uma espécie de retirada nacional, étnica. Mas naquela época eram projetos de desenvolvimento.

P. Desenvolvimento em que sentido?

R. Era uma loucura, mas era um projeto de civilização. Agora estamos diante de um projeto para desfazer os vínculos, abandonar as construções. A reação mais extraordinária de Donald Trump consiste em dizer: “Nós não temos problemas de mudança climática; é algo que ocorre na casa de vocês, não na nossa.” Ele considera que o continente americano não está sujeito aos mesmos problemas climáticos que a Europa ou a China. Isso é uma novidade.

P. Mas Trump é uma exceção, não? O Acordo de Paris para combater a mudança climática foi firmado pelos Governos do mundo todo, o que poderíamos chamar de elites.

R. Essa ideia de abandonar as obrigações é compartilhada agora também pelo Brasil, e consiste em dizer: “Vamos embora.” Essa é a versão Trump, mas existe outra variante high tech que diz: “Nós também vamos, mas rumo a um futuro tecnófilo extremo.” É o projeto californiano, pós-humano, Marte, a inteligência artificial, os robôs. O interessante é que agora existem pessoas que vivem em planetas diferentes.

P. E outras, diz o senhor, que fogem para o âmbito local.

R. Sim, a reação dos que se sentem abandonados pelos que vão embora para Marte é regressar ao Estado-nação como o imaginam, um Estado-nação imaginado, uma ficção. O exemplo é o Brexit. Ao contrário dos fascismos, não há um retorno a uma conquista territorial, e sim a um Estado-nação vazio de todo sentido prático. Então alguns vão para Marte, outros regressam ao planeta nacional, que também é abstrato, e no meio estamos os infelizes que pensamos que, em um momento ou outro, será preciso aterrissar: reconciliar a economia, o direito, a identidade com o mundo real do qual dependemos.

P. Aonde regressar exatamente?

R. Ao [plano] terrestre. Pode parecer estranho: por que aterrissar se já estamos na Terra? Mas os europeus, os ocidentais, temos vivido numa Terra muito utópica. Imaginávamos que ela se desenvolveria ad infinitum, sem limites. Mas o sonho de que o planeta se modernizaria indefinidamente nunca foi verificado, não tinha fundamento material. Desde o século XIX, com o carvão e o petróleo, a economia havia se tornado infinita. E há uma angústia geral por esse desajuste.

P. Diante disso, pode haver uma ideia compartilhada da verdade?

As pessoas se queixam das fake news e da pós-verdade, mas isso não significa que sejamos menos capazes de raciocinar. Para conseguir manter um respeito pelos meios de comunicação, a ciência, as instituições, a autoridade, deve haver um mundo compartilhado. É um tema que estudei no passado. Para que os fatos científicos sejam aceitos, é preciso um mundo de instituições respeitadas. Por exemplo, sobre as vacinas se diz: 'Estas pessoas ficaram loucas, estão contra as vacinas.” Mas não é um problema cognitivo, de informação. Os que são contra não serão convencidos com um novo artigo na revista The Lancet. Essas pessoas dizem: “É este mundo contra este outro mundo, e tudo o que se diz no mundo de vocês é falso'.

P. Os fatos não existem independentemente desses mundos?

R. É preciso sustentar os fatos, não vivem sozinhos. Um fato é só um cordeiro frente aos lobos.

P. Quem são os lobos?

R. Os que devoram os fatos. Um fato deve estar instalado numa paisagem, sustentado pelos costumes de pensamento. São necessários instrumentos e instituições. As vacinas são o exemplo de um fato que precisa de uma vida pública. Se eu sair pela rua com uma seringa tentando vacinar as pessoas, serei considerado um criminoso. Se a vida pública é deteriorada por pessoas que consideram que – não importa o que você disser – este não é o mundo delas, os fatos não servem para nada.

P. Mas nesse caso há um fato: as vacinas são úteis, não importa se os outros acreditam ou não.

R. No meu mundo e no dos leitores do EL PAÍS, sim. Mas nem todo mundo lê o seu jornal, nem tem um doutorado, nem confia nas instituições médicas, nem vive num país onde o Ministério da Saúde apoia as vacinas. É preciso muita coisa para sustentar os fatos.

P. Os dois mundos valem o mesmo?

R. Não, mas estão em guerra. É um problema geopolítico. Antes, eram problemas de valores ou ideologia, mas num tabuleiro estável. Agora, não. O mapa está em discussão. “Na América não há problema climático, isso é falso”, diz Trump.

P. Qual é a solução?

R. Se aterrissarmos no terrestre, poderíamos começar a definir um mundo comum. Então já não poderíamos nos permitir dizer que não há mudança climática, que os problemas de saúde não nos dizem respeito, que a reprodução das abelhas não é nosso problema. Voltaríamos a discutir entre civilizados.41


1Mestre em História do Brasil.
7"A separação dos poderes acabou". Para historiadora Maud Chirio, especialista dos militares e da ditadura, o Brasil tem uma história republicana caótica e militarizada. Por Leneide Duarte-Plon 14/07/2019 12:24. https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/-A-separacao-dos-poderes-acabou-/4/44657 .
9 In 1995, the Internet was a world of dial-up connections and Usenet newsgroups, but according to his biographer, Terry Pratchett had already ‘accurately predicted how the Internet would propagate and legitimize fake news’. Marc Burrows was digging through old cuttings about the late Discworld author for his forthcoming biography when he came across an interview Pratchett had done with Microsoft founder Bill Gates in July 1995, for GQ. ‘Let’s say I call myself the Institute for Something-or-other and I decide to promote a spurious treatise saying the Jews were entirely responsible for the second world war and the Holocaust didn’t happen’, said Pratchett, almost 25 years ago. ‘And it goes out there on the Internet and is available on the same terms as any piece of historical research which has undergone peer review and so on. There’s a kind of parity of esteem of information on the net. It’s all there: there’s no way of finding out whether this stuff has any bottom to it or whether someone has just made it up’”. Alison Flood. Qui 30 de maio de 2019 16.28 BST Última modificação em Sex 31 maio 2019 09.16 BST. https://www.theguardian.com/books/2019/may/30/terry-pratchett-predicted-rise-of-fake-news-in-1995-says-biographer?CMP=share_btn_fb&fbclid=IwAR315Mh2sG4GytikQIY3EcT3U366GR_FjjfHlLprqlXaBBYPZB3NZh4pMkU
11Brasileiros são os que mais se deparam com fake news, segundo pesquisa da Microsoft. No geral, os Millennials atingiram as maiores taxas de risco e consequências online. Saori Almeida 06/02/2019 às 11:36:00. https://mundoconectado.com.br/noticias/v/8254/brasileiros-sao-os-que-mais-se-deparam-com-fake-news-segundo-pesquisa-da-microsoft .
15Características da geração Z e as suas influências em sala de aula . https://escoladainteligencia.com.br/caracteristicas-da-geracao-z-e-as-suas-influencias-em-sala-de-aula/ .
16Características da geração Z e as suas influências em sala de aula . https://escoladainteligencia.com.br/caracteristicas-da-geracao-z-e-as-suas-influencias-em-sala-de-aula/ .
17“Um dos 73,9 mil homens gaúchos com 80 anos ou mais (dado da Fundação de Economia e Estatística, a FEE), Reginald Delmar Hintz Felker nasceu em 1932, em Cruz Alta, com sangue alemão e polonês nas veias. Diminuiu as atividade ano passado, agora atende três dias por semana. Mas, às vezes, entra pela madrugada frente ao computador, elaborando petições e recursos”. Diego Vara / Agencia RBS. Conheça histórias de quem já passou dos 80 anos e segue trabalhando. Eles e elas esbanjam entusiasmo e adoram a profissão que construíram ao longo da vida; 15/06/2014 – 07h01min. Atualizada em 15/06/2014 — 07h01min https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/vida/noticia/2014/06/Conheca-historias-de-quem-ja-passou-dos-80-anos-e-segue-trabalhando-4527155.html .
18Souza, V.L.de et al. (2010, abril). Perfil das habilidades cognitivas no envelhecimento normal. Rev. CEFAC, 12(2). São Paulo. Recuperado em 10 set., 2010 em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-18462010000200003&lng=en&nrm=iso .
19Kachar, V. (2009). Inclusão Digital e Terceira Idade. In: Novas necessidades de Aprendizagem. Barroso, Á.E.S. (Coordenação geral). São Paulo: Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social/ Fundação Padre Anchieta.
Kachar, V. (2006). A terceira idade e a exploração do espaço virtual da internet. In: Envelhecimento e Velhice: um guia para a vida. Côrte, B.; Mercadante, E.F. & Arcuri, I.G. (Orgs.). São Paulo: Vetor.
_________. (2003). Terceira Idade e Informática: aprender revelando potencialidades. São Paulo: Cortez.
20Envelhecimento e perspectivas de inclusão digital. Vitória Kachar. Revista Kairós Gerontologia, 13(2), INSS 2176-901X, São Paulo, novembro/2010: 131-147. https://revistas.pucsp.br/index.php/kairos/article/viewFile/5371/3851
21CAMARANO, Ana Amélia (Org.) Os novos idosos brasileiros muito além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 2004 .
22SERRIÉRE, Frédéric. Les baby-boomers : la génération qui va tout changer. Artigo publicado no siteLeMarchedesSeniors.com, em dezembro de 2003. Disponível em: http://www.tourmag.com/Les-baby-boomers%C2%A0-lageneration-qui-va-tout-changer_a1296.html . Acesso em 11 de janeiro de 2013.
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SERRIÉRE, Frédéric. Vieillissement de lapopulation : versplus ou moins de consommation? Artigo publicado no site thematuremarket.com em junho de 2006 Disponível em: http://www.thematuremarket.com/baby_boomers/vieillissementpopulation-consommation.pdf . Acesso em 11 de janeiro de 2013 .
23IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) Pesquisa Nacional de Amostra de domicilio in Síntese de Indicadores Sociais – Uma análise das condições de vida da população brasileira, 2008. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/sinteseindicsociais2008/indic_sociais2008.pdf Acesso em 27 novembro 2011
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Perfil dos idosos responsáveis pelos domicílios no Brasil 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2000. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/perfilidoso/perfidosos2000.pdf
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Sinopse do Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: http://loja.ibge.gov.br/sinopse-do-censo-demografico-2010.html . Acesso em: 18 janeiro de 2014.
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Síntese dos indicadores sociais, uma análise de condições de vida da população brasileira. Estudo & Pesquisas – Rio de Janeiro: IBGE, 2012
24ZIEGLER, Maria Fernanda. A imagem do idoso ao longo das décadas: de incapaz a “coroa conservado”. Reportagem publicada no site saúde.ig.com.br , em 02/05/2014. Disponível em: http://saude.ig.com.br/minhasaude/2014-05-02/aimagem-do-idoso-ao-longo-das-decadas-de-incapaz-a-coroa-conservado.html Acesso em 15/06/2014.
25GOLDENBERG, Mirian. A Bela Velhice. Rio de Janeiro: Editora Record, 2013.
26CROFFI, Flávio. Número de idosos que usam redes sociais aumenta 43 vezes em sete anos. Site Baboo, publicado em:7 de agosto de 2013. Disponível em: http://www.baboo.com.br/internet/numero-de-idosos-que-usam-redes-sociaisaumenta-43-vezes-em-sete-anos/ . Acesso em 18 de março de 2014 .
27KURNIAWAN, Sri. NUGROHO, Yanuar e MAHMUD, Murni. A Study of the Use of Mobile Phones by Older Persons. CHI 2006 Congress ,April 22–27, 2006 Montreal, Quebec, Canadá. ACM 1-59593-298-4/06/0004
28MCLAUGHLIN, Anne e PAK, Richard. Designing displays for older adults. Human Factors & Aging Series. New York, CRC Press – Taylor & Francis Group, 2011 .
29Stamato, Cláudia. Idosos, tecnologias de comunicação e socialização / Cláudia Stamato ; orientadora: Claudia Renata Mont’Alvão; co-orientadora: Maria Manuela Rupp Quaresma. – 2014. 2v. : il.(color.) ; 30 cm . Tese (doutorado)–Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Artes e Design, 2014. Cláudia Stamato . Idosos, tecnologias de comunicação e socialização . Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Design da PUC-Rio como requisito parcial para obtenção do grau de Doutor em Design. Aprovada pela Comissão Examinadora abaixo assinada.
Profa. Claudia Renata Mont’Alvão Orientadora Departamento de Artes & Design - PUC-Rio
Profa. Maria Manuela Rupp Quaresma Departamento de Artes & Design - PUC-Rio
Profa. Luiza Novaes Departamento de Comunicação Social - PUC-Rio
Profa. Vera Maria Marsicano Damazio Departamento de Artes & Design - PUC-Rio
Profa. Claudia Rocha Mourthé Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Prof. Giuseppe Amado de Oliveira Universidade Federal Fluminense - UFF
Profa. Denise Berruezo Portinari Coordenadora Setorial do Centro de Teologia e Ciências Humanas – PUC-Rio
30FORT WASHINGTON, Maryland — It’s late morning and roughly 25 senior citizens are learning how to talk to Siri. They pick up their iPads and press the home button, and pings echo around the room as Siri asks what she can do to help.
“Siri, what’s the closest coffee shop?” one woman asks.
“Sorry I’m having trouble with the connection, please try again?” Siri says.
A handful of employees with AARP, the national nonprofit focused on Americans age 50 and older, hover behind the participants and jump in to help. They’re in Fort Washington, Maryland, to deliver four free workshops about how to use an iPad. Participants learn how to turn it on, what an app is, how to text, and how to flip the camera to take a selfie, among other activities.
Janae Wheeler, an AARP community manager, has been giving these workshops since 2016, and has perfected her delivery. She suggests people open an app by pressing its icon “as nicely as you would tap a baby’s nose.” During the section on text messaging, she reminds the group not to “write a textbook in your text message” and advises that LOL “used to mean ‘lots of love,’ but doesn’t anymore.”
“We have an important goal of bridging the digital divide,” Wheeler told the group at the start of the day. “Being in tune with technology enables you to really connect with all the things and people you care about.”
It’s a comforting message, but the reality is more urgent. Although many older Americans have, like the rest of us, embraced the tools and playthings of the technology industry, a growing body of research shows they have disproportionately fallen prey to the dangers of internet misinformation and risk being further polarized by their online habits. While that matters much to them, it’s also a massive challenge for society given the outsize role older generations play in civic life, and demographic changes that are increasing their power and influence.
People 65 and older will soon make up the largest single age group in the United States, and will remain that way for decades to come, according to the US Census. This massive demographic shift is occurring when this age group is moving online and onto Facebook in droves, deeply struggling with digital literacy, and being targeted by a wide range of online bad actors who try to feed them fake news, infect their devices with malware, and steal their money in scams. Yet older people are largely being left out of what has become something of a golden age for digital literacy efforts.

Since the 2016 election, funding for digital literacy programs has skyrocketed. Apple just announced a major donation to the News Literacy Project and two related initiatives, and Facebook partners with similar organizations. But they primarily focus on younger demographics, even as the next presidential election grows closer.

This means the very people who struggle the most with digital information and technology risk being left to fend for themselves in an environment where they’re being targeted and exploited precisely because of their vulnerabilities.

Older people are also more likely to vote and to be politically active in other ways, such as making political contributions. They are wealthier and therefore wield tremendous economic power and all of the influence that comes with it. With more and more older people going online, and future 65-plus generations already there, the online behavior of older people, as well as their rising power, is incredibly important — yet often ignored.
Four recent studies found that older Americans are more likely to consume and share false online news than those in other age groups, even when controlling for factors such as partisanship. Other research has found that older Americans have a poor or inaccurate grasp of how algorithms play a role in selecting what information is shown to them on social media, are worse than younger people at differentiating between reported news and opinion, and are less likely to register the brand of a news site they consume information from.

Those digital and news consumption habits intersect with key characteristics of older Americans, such as being more likely to live in rural and isolated areas, and, perhaps in part as a result, to experience a high degree of loneliness. A survey conducted by AARP of Americans found that 36% of people ages 60–69 were lonely, while 24% of those ages 70 and older registered as lonely. (The survey focused on adults over 45.)

As a result, it’s now essential to better understand the effects of social media, loneliness, and a lack of digital literacy on older people, according to Vijeth Iyengar, a psychologist focused on aging at the US Department of Health and Human Services, and Dipayan Ghosh, a fellow at the Harvard Kennedy School.

“With recent evidence that older adults are much more likely to disseminate fake news compared with their younger counterparts, coupled with the projected growth for this population segment in the decades to come, it is crucial to advance our understanding of the factors affecting the ways in which older adults engage with these platforms and how in turn these platforms are affecting how they function in society,” they wrote in a recent article for Scientific American.
Kevin Munger, a political scientist who studies the online habits of older Americans and their effect on politics, painted a stark image of the reality for many older Americans and their relationship with the internet.

“They’re alone, relatively wealthy, alienated, and stuck in places where they don’t know anybody and feel angry,” he said. “And they have access to the internet.”

The present and future of what the internet and social media look like with a massive population of extremely online seniors is unknown. But what’s clear is older Americans will become even more of an online force to be reckoned with — and no one is really sure what that will look like, or how to prepare for it.

Munger said the culture and content of the internet have historically been determined by an equation that roughly works out to the people who have access multiplied by those who have the most time to spend on it.

“In the next decade, it’s going to become way more old people,” he said.
Blame the boomers.
“Older people are the forgotten generation — that’s why it’s important for us to learn stuff like this,” says Joshua Rascoe, 70, after the first AARP workshop wraps up.

Rascoe says he’s retired but spends time working with kids to teach them how to start a small business mowing lawns in order to save money and get ahead. He used Facebook for a previous business but said he’s wary of social media.

“I know how to Facebook and I know how to go to Instagram,” he says. But he needs to learn more because, his impression is, “about 80% of it is fake.” Rascoe just isn’t sure how to navigate around it.

As the day goes on, there are many aha moments in the room. A first selfie. The first time texting a photo. By the end, participants are ready to go online and try things. And that’s when they become targets, particularly on Facebook, which has seen massive growth in the number of older Americans joining the platform since 2011, according to data from Gallup. If there’s a sucker for fake news on Facebook, it’s easy to find them and feed them more.

Jestin Coler, who ran a network of websites that published completely false material about science, politics, and other topics, told BuzzFeed News that baby boomers were a key demographic for his sites because they “are absolutely more likely to share and consume fake news online, particularly on Facebook.”

“We did target older age groups when running ads, and I'm sure you will find the same with hyperpartisan publishers,” he said.


Coler’s firsthand experience is borne out by study after study, and not just when it comes to Facebook.

Research published in January found that “On average, users over 65 [on Facebook] shared nearly seven times as many articles from fake news domains as the youngest age group.” Similar findings have come from studies looking at the spread of false information on Twitter and at web browsing in general around the 2016 election.

“People over 60 or 65 seem to be especially prone to consuming and sharing fake news and online misinformation more generally,” Brendan Nyhan, a political science professor at the University of Michigan and a coauthor of one of the studies, told BuzzFeed News.

As Coler noted, boomers are also big consumers of content from hyperpartisan political Facebook pages, which drive huge engagement on the platform by stoking partisan passion via memes and articles. Nicole Hickman James spent years working for a publisher that ran both liberal and conservative hyperpartisan Facebook pages and associated websites. She says over time she tailored her articles to older readers because they were the most engaged audience.

“Like a popular post was always ‘X celebrity slams Trump.’ If that celeb was Jennifer Lawrence I wouldn’t do it because for the most part boomers either don’t know of her or care for her,” she told BuzzFeed News via a Twitter direct message. “But if Barbra Streisand says something that will always do well. I kind of think of what my own parents/grandparents would be interested in.”

James said a lot of the people who regularly commented on her stories on Facebook or reached out to her were older. When she would occasionally pitch in to help run her employer’s hyperpartisan conservative Facebook pages, she saw the same thing. “The commenters were the same, just on the other side of the aisle. Older, very partisan, etc. And the conservative engagement was always much higher,” she said in a Twitter direct message.

As with Coler’s fake news sites, these publishers create ads and target them at people older than 50 or 60. But even if they’re not trying to reach older people, they may still find their ads attracting eager older Facebook users. Turning Point USA, a non-profit conservative group focused on college students, was until very recently receiving the vast majority of engagement for its ads from older people on Facebook

Progressive activist Jordan Uhl highlighted this in February when he tweeted a series of screenshots showing the demographic data for Turning Point’s ads.
The Facebook ad archive shows that after Uhl’s viral tweets, Turning Point’s ads changed and began reaching young people, as one would expect for a student-focused group. Turning Point did not respond to a request for comment, but it seems the organization initially used criteria other than age to target its ads — and boomers just happened to be the most receptive demographic.

That’s also the case for Ami Horowitz, a conservative filmmaker who produces short video segments for Fox News and often appears as a guest. He’s been running multiple versions of an ad asking people to “LIKE if you agree” that the US needs to stop illegal immigration.

The versions viewed by BuzzFeed News in the Facebook ad archive primarily reached people older than 55, with those over 65 being the largest portion of audience. “I do not target any ages,” Horowitz told BuzzFeed News in a Facebook message.

That means his ads naturally appealed to older Facebook users. (It’s unclear what targeting criteria other than age Horowitz used for his ads, as he did not respond to follow up questions. Facebook declined to comment for this story.)
Anyone who clicks that Like button would automatically become a fan of Horowitz’s page, and possibly begin to see his content show up in their News Feed. Someone who is targeted by, and clicks on, many ads like these can end up with a Facebook profile like Betty Manlove’s. She’s a grandmother and great-grandmother featured in a PBS series about “junk news.”

Manlove has liked more than 1,400 Facebook pages, many of which are hyperpartisan conservative or religious. She recognized that her Facebook usage has become unhealthy in some ways. Manlove managed to quit smoking but confessed, “My other addiction is Facebook. I have lost hours on Facebook that I should have been doing other things.”

At least three of the pages she liked were run by the Russian trolls at the Internet Research Agency, and at least one is a fake conservative page run by a self-described liberal troll who targets conservatives with false stories and memes.

Cameron Hickey, her grandson, was a producer for the PBS series and noticed his grandmother’s liking and sharing habits when analyzing hyperpartisan Facebook pages for the show. When discussing her Facebook usage with BuzzFeed News, he mentioned that she had recently shared a meme from the fake conservative page, even though he’s tried to help her better navigate Facebook.

"Despite very specifically discussing these issues with my grandmother, she hasn't stopped liking and sharing things on the platform, and perhaps that is our fault — not spending more time with her," he said, adding “I love my grandma.”

That sense of frustration mixed with love and a tinge of guilt is familiar to many people. But there’s also a rising strain of resentment and anger being expressed publicly (often on Twitter by media insiders) toward boomers and Facebook, and what the two together have wrought.

“My current understanding of Facebook is that it's the place everyone goes out of necessity for news from the handful of groups they follow, and a handful of mostly boomers go to redpill themselves into believing utter nonsense,” tweeted Christopher Mims, a technology columnist for the Wall Street Journal.

“The evolution of Facebook from the hip thing Obamaites used to target young suckers into the scary thing Russians used to target old suckers has been fascinating to live through,” tweeted Sonny Bunch, executive editor of the Washington Free Beacon.
These sentiments are likely a byproduct of the fact that our current chaotic information environment is creating a historic gulf in the media habits between generations. People 25 and younger are heavy users of platforms such as Snapchat and Instagram and barely watch any traditional TV. Older Americans are more likely to use Facebook and watch traditional TV. People of all ages in the US are on Facebook, but younger people use it far less, and often cite the fact that their parents and grandparents are there as a reason to stay away.
But even with a growing amount of data showing how much older Americans struggle with digital literacy, it’s unfair to point the finger at one age group as the cause of informational rot on the internet, according to Andy Guess, an assistant professor of politics and public affairs at Princeton University, and the coauthor of a recent study about fake news consumption.

“It’s really easy to latch onto an explanation like that. And if it seems to really resonate with your experiences, that’s when you should stop and think, What am I missing?” he said.
Generational resentment also further isolates boomers, which compounds the problem.

“Seems like I see a lot of loneliness,” James said of the commenters she interacted with on liberal and conservative hyperpartisan Facebook pages.

Feelings of isolation and loneliness are important factors in the online behavior of older people. In their Scientific American article, Ghosh and Iyengar cited research that found loneliness can affect cognitive functions and physical and mental health, and can result in a decline in the ability to self-regulate.
“This constellation of behaviors, which broadly seeks to avoid conflict and minimize disappointment, may make these individuals prone to gravitating towards sources of information that mirror their own worldview thereby maintaining a sense of self,” they write.

That translates into online habits that could cause older people to unwittingly construct filter bubbles as they seek out contact and reinforcement for their worldview. It may also make them more vulnerable to elder scams and fraud, which have become an epidemic.

In early March, the Department of Justice announced “the largest coordinated sweep of elder fraud cases in history,” resulting in charges against more than 260 people “from around the globe who victimized more than two million Americans, most of them elderly.”

“Crimes against the elderly target some of the most vulnerable people in our society,” Attorney General Bill Barr said.

Steve Baker worked for the Federal Trade Commission for more than 30 years, specializing in investigating fraud and scams. He told BuzzFeed News that the Jamaican lottery fraud, which involves telling someone they won a cash prize and then asking them to pay a fee to collect it, specifically targets older people.

“With the Jamaican fraud, we know they’re not only getting tons of older people but they’re looking for older people to target,” he said.

Baker, who now runs a website and newsletter about frauds targeting older consumers, also said it’s common for older adults who’ve been scammed to genuinely not realize they’ve been ripped off, which makes it even easier on the crooks.

The DOJ announcement noted that it recently helped organize the first Rural and Tribal Elder Justice Summit in Iowa to help combat elder abuse and economic exploitation in these communities. Older Americans are more likely to live in rural communities and this can bring with it a sense of isolation that makes the internet seem like the best, or perhaps only, way to connect with others.

There is also another, delicate issue regarding older people and their interactions with digital information and technology. It’s something no one wants to talk about directly, least of all with their relatives, but it’s a reality of aging: cognitive decline. We are all susceptible to it, and it can come on suddenly or creep up over years. But once it has taken hold, it can drastically affect how you interact with the world.

Munger said there is a “phenomenon which is still somewhat rare but will be increasingly common of 90-year-olds on Facebook with limited cognitive capacity.”

“It’s sad and potentially very dangerous,” he said.
Aging out of the internet.
Even boomers who have experience with computers and technology find themselves feeling a bit left behind. At the AARP workshop, Charles Robinson, 75, stood with his cane proudly wearing a Veterans of Foreign Wars hat. He took his iPhone out of his pocket and said he does everything on it, from paying bills to email. As he was speaking to a reporter, a text message arrived from this grandson asking whether Robinson had managed to get his home computer back up and running. He hadn’t, and the instructions sent by his grandson didn’t help.

“I don’t feel too confident about doing that he wants me to do. That’s why I called him,” Robinson said. “He says this sounds like a very simple problem. It sounds simple to him, you know, that’s fine.”

He and his wife, Jan (who winkingly gave her age as “70-plus”), are retired and have spent recent years traveling. They have college degrees and remain engaged in the world around them. But using technology is more of a struggle for them than it used to be.

“We both worked in the government and went to college, but the technology is still moving on no matter how many degrees you got, so we got to keep up with it somehow,” she said, noting that she was happy to have learned how to crop a photo.

“Years back when the computers came out, we were more savvy.”

Of course, those currently over 65 didn’t grow up using the internet or spend a large portion of their lives with it. But it will be different for people who will turn 65 in another 20 years, right?

Probably not, says Munger.

“The rate of change on the internet is going to increase, and the extent to which we have people in their mid-twenties who already feel alienated from people in their teens who experience the internet differently is only going to become more serious unless the internet itself stops changing so quickly,” he said.

An avid Facebooker in their forties may already be puzzled by TikTok, for example. And so it’s possible that today’s internet-savvy adults become tomorrow’s struggling seniors.

That means the question of how to help older people adapt to the internet and new digital environment isn’t just about supporting today’s seniors. Solutions have to anticipate and meet the digital literacy needs of the 65-pluses of the future. That’s difficult given that as of today, older people are largely left out of the digital literacy boom, and often struggle to get family members to help them.
Munger says one response we might see to an increasingly older internet population would be for “tech companies and other established elites to take a paternalistic approach.”

“We have a childproof internet, so the solution might well be a senior-proof internet. But the point is, this won’t work because the seniors vote a lot and they do not want to be told what to do at all,” he says.

They also may not be interested in digital literacy classes if they aren’t framed properly. Coler, the former fake news publisher, said a senior center in his California town recently tried to hold a "Tips for Spotting Fake News" workshop. It was canceled due to a lack of interest.

“I think naming the class ‘Tips for Spotting Fake News’ was poorly planned—everyone thinks THEY can spot fake news, just not others,” he said in a Twitter direct message.

Munger says the starting point is to recognize that older people are justified in feeling they’re not being given proper support and understanding, and to meet them on their terms. That could mean more offerings like AARP’s workshops in a wide variety of areas, but also more research to understand how aging, social media, technology, and society intersect.

“I don’t really blame the older people at all. They have some actual legit grievances, and we’re going to have to figure out how to better integrate them in the future,” Munger said.

Old, Online, And Fed On Lies: How An Aging Population Will Reshape The Internet. Older people play an outsized role in civic life. They also are more likely to be online targets for misinformation and hyperpartisan rhetoric. Craig Silverman. BuzzFeed News Reporter. Reporting From. Fort Washington, Maryland. Posted on April 3, 2019, at 5:44 a.m. ET. Craig Silverman is a media editor for BuzzFeed News and is based in Toronto. Contact Craig Silverman at craig.silverman@buzzfeed.com. https://www.buzzfeednews.com/article/craigsilverman/old-and-online-fake-news-aging-population .
32L'expérience chinoise et l'analyse de l'URSS.
En Chine, Bettelheim a l'impression qu'il est en train d'assister à un tel processus de transformation. En particulier, il soutient que la Révolution culturelle – une révolution de la superstructure politique, idéologique et culturelle – a changé l'organisation industrielle en l'accompagnant d'une participation générale des travailleurs à toutes les décisions et en surmontant la division du travail manuel et intellectuel. Pendant ces années, la Chine est le modèle de référence de l' « école radicale de l'économie » néomarxiste, représentée par Bettelheim, Paul M. Sweezy, André Gunder Frank, Samir Amin et d'autres qui, en s'opposant aux théories de la « modernisation », affirment qu'à la périphérie du système mondial capitaliste, dans les pays « sous-développés » un « développement » n'est possible que sous la condition que ces pays se détachent des rapports inégaux et asymétriques du marché mondial dominé par les pays impérialistes, pour choisir un chemin différent et autonome : le développement d'une production non pas pour le profit ou pour une accumulation de richesses abstraites mais pour les besoins du peuple.

Sous le signe d'un tel accès « maoïsant », Bettelheim commence son ouvrage volumineux sur l'histoire de l'Union soviétique, Les luttes de classes en URSS (1974-1982), où il examine les raisons des déformations du socialisme soviétique qui, selon Bettelheim, n'est qu'un « capitalisme d'État ». Bettelheim montre qu'après la Révolution russe, les bolchéviques n'ont pas réussi à stabiliser à long terme l'alliance des ouvriers et des paysans pauvres conçue par Lénine. Durant les années 1920, cette alliance est remplacée par une alliance des élites ouvrières et de l'intelligence technique contre les paysans, débouchant sur la collectivisation forcée de l'agriculture en 1928. L'idéologie « économiste » (le « primat des forces productives »), née dans la social-démocratie et nourrie des intérêts de l' « aristocratie ouvrière » et des intellectuels progressistes, ressuscite au sein du Parti bolchévique, fonctionnant comme une légitimation des nouvelles élites technocratiques qui établissent les mêmes hiérarchies, divisions de travail et différenciations sociales que le capitalisme. Cependant l'illusion « juridique » selon laquelle la propriété d'État est définie comme « socialiste » cache l'exploitation réelle. Finalement, Bettelheim a mis en doute le caractère socialiste de la Révolution d'Octobre, l'interprétant comme la prise de pouvoir d'un courant radical de l'intelligentsia russe qui a « confisqué » la révolution populaire.

Déclin du milieu marxiste
Quand, en 1978, la République populaire de Chine sous la direction de Deng Xiaoping met fin à la stratégie « maoïste » du développement autarcique et guidé par le primat de la politique, pour réaffirmer le primat de l'économie et s'insérer au marché mondial, le paradigme des théoriciens du développement autonome a perdu sa force de conviction. En même temps, l'influence du marxisme a décliné, spécialement en France, où les marxistes critiques comme Bettelheim ont perdu de leur visibilité, en même temps que l'orthodoxie archéo-communiste. Lui, qui n'a jamais abandonné la pensée marxienne, perdit alors son autorité. En 1982, il publia les deux tomes de la troisième partie de Les luttes de classes en URSS, dédiés aux « dominés » et « dominants » du stalinisme, mais le milieu marxiste dans lequel Bettelheim avait été enraciné auparavant s'était dissout. Aujourd'hui l'Inde est le seul pays où Bettelheim est encore l'objet d'une discussion[réf. nécessaire].

Héritage.


Bien que son nom et son œuvre soient perdus de vue dans les travaux contemporains, Charles Bettelheim a laissé des traces. Sa pensée marxiste hétérodoxe a contribué à la mise en doute du « progressisme » et du « productivisme » de la gauche classique, donnant lieu à une pensée « alternative » qui ne fait plus dériver l'idée de l'émancipation sociale de la croissance industrielle comme fin en soi, mais aspire à l'insertion du développement productif dans un contexte de rapports sociaux conscients (au fond, ce n'est que l'idée originale de Marx : rompre la soumission de l'agir social au processus de production en faveur de sa soumission consciente à la production des besoins sociaux). Ainsi, Bettelheim a été un intermédiaire entre la pensée « rouge » et « verte », entre le socialisme et l'écologie. Sur le plan de la théorie économique, ses analyses, en distinguant des formes différentes du capitalisme, ont influencé l'École de la régulation. Enfin, il a dirigé les travaux de recherche de nombreux étudiants en économie, notamment la thèse de 3e cycle de l'économiste hétérodoxe Jacques Sapir, directeur d'Etudes à l'EHESS, et spécialiste de l'économie post-soviétique, qui est un de ses héritiers depuis les années 1970”. https://fr.wikipedia.org/wiki/Charles_Bettelheim .
34Marcadamente de origem norte-americana, aliada a outras teorias conspiratórias. https://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_da_conspira%C3%A7%C3%A3o . “Ocultação de dados pela NASA: Frequentemente, teorias conspiratórias acerca da agência espacial americana são difundidas na internet em vários meios, alegando que a organização ludibria o povo ocultando fatos importantes e/ou perigosos, como um suposto asteroide prestes a colidir com a Terra, controle mental por meio de satélites, a farsa da ida do homem à Lua, a teoria de que a Terra é plana e a Nasa engana as pessoas fazendo-as acreditar que é redonda (por motivos sem o menor fundamento lógico) ou teorias que afirmam que a agência espacial esconde informações sobre a iminente colisão da Terra com um suposto planeta chamado Nibiru”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_teorias_de_conspira%C3%A7%C3%A3o . https://www.porcocapitalista.com.br/o-que-exatamente-olavo-de-carvalho-disse-sobre-heliocentrismo-e-por-que-e-um-absurdo/ . https://www.porcocapitalista.com.br/teoricos-da-conspiracao-so-querem-se-sentir-especiais/ . https://catracalivre.com.br/cidadania/olavo-de-carvalho-guru-de-bolsonaro-e-contra-vacinacao-infantil/ . https://catracalivre.com.br/colunas/dimenstein/guru-de-bolsonaro-abandonou-escola-na-8a-serie-do-fundamental/ .http://conspiratio3.blogspot.com/2018/12/fetos-abortados-na-pepsi.html . https://netnature.wordpress.com/2019/02/26/o-minimo-que-voce-precisa-saber-para-nao-ser-o-olavo-de-carvalho/ . https://pt.wikipedia.org/wiki/Discuss%C3%A3o%3AOlavo_de_Carvalho .
35“Durante os dois últimos meses, Câmaras de Vereadores e Assembleias Legislativas de todo o país selaram uma interferência bastante perigosa do pensamento religioso conservador sobre as políticas públicas de educação, colocando em xeque o princípio constitucional da laicidade do Estado.
Nas votações dos planos de educação por todo o Brasil, houve um movimento bastante articulado para suprimir das diretrizes educacionais qualquer compromisso expresso com o combate das desigualdades de gênero e de sexualidade.

Admitiu-se que constasse, no máximo, fórmula genérica de “combate a todas as formas de preconceito e discriminação” em detrimento de jogar luz às diferentes formas de violência, nomeando-as e, assim, dando a visibilidade necessária para a busca de soluções a esse problema.

O argumento utilizado para a cruzada fundamentalista contra a inserção desse recorte de gênero e de sexualidade foi o de que se trata da tentativa de implantar uma “ideologia de gênero”, cujo maior objetivo seria desfigurar a família tradicional e subverter os sexos biológicos, designados como dados imutáveis pela natureza ou por Deus.

Tal argumento é falacioso por diversas razões. Primeiro, porque não se trata de uma “ideologia” o reconhecimento do caráter social e histórico dos dispositivos e arranjos de regulação do sistema que articula a dicotomia sexo-gênero. As diferentes formas de organizar a experiência humana das sexualidades e das identidades variaram a depender de fatores diversos em cada sociedade, sendo que os padrões de comportamento tidos por “normais” e “legítimos” sempre conviveram – em tensão – com uma enorme gama de diversidades no campo dos desejos e das subjetividades dissidentes.

Para além de sonegar reconhecimento à riqueza de experiências humanas, essa visão conservadora comete outro equívoco, que é desqualificar a discussão sobre gênero e sexualidade como “ideológica” e, portanto, imprestável. No debate democrático, “ideológico” não é adjetivo pertinente para desqualificar uma posição política. Independentemente da definição adotada, em linhas básicas, ideologia remete a um conjunto de ideias e valores que pautam o pensar e o agir de indivíduos e grupos na sociedade, a partir de seus interesses e lugares. Assim, tão “ideológica” quanto a “ideologia de gênero” é a “ideologia anti-gênero”. Como adverte Zizek, “quando um processo é denunciado como ‘ideológico por excelência’, pode-se ter certeza de que seu inverso é não menos ideológico” (Um mapa da ideologia, Ed. Contraponto).

Não há, assim, o lugar de imparcialidade ou neutralidade que esses setores reivindicam, como se a natureza fosse um dado que lhes desse razão inquestionável. Eles tentam, aliás, apresentar sua ideologia conservadora como uma “segunda natureza”, buscando confundir uma convenção social com um determinismo natural.

Ao agir assim, alçam a hetenormatividade e o patriarcalismo a horizontes insuperáveis da vida humana, como se qualquer afronta a essas formas hegemônicas não pudessem contar com proteção e reconhecimento do Estado.

Desse modo, a inclusão de um recorte, nos planos de educação, que contemple o tema da orientação sexual e da identidade de gênero é fundamental para subverter essa visão autoritária, construindo para as novas gerações uma educação voltada para a alteridade, com tolerância e respeito à diversidade.

A luta pela inclusão de diretrizes igualitárias em nossa legislação não vem de hoje. É bastante conhecida, por exemplo, a importante campanha que o grupo Triângulo Rosa, com João Antônio Mascarenhas à frente, empreendeu para incluir o termo “orientação sexual” na Constituição. A despeito de aprovada em duas Subcomissões, a proposta foi derrotada em 1988 com 53 votos a favor, 250 contra e 6 abstenções.

A inscrição da proteção da diversidade e da promoção do respeito em texto legal não é finalidade última, mas instrumento para a efetivação dos direitos em uma democracia.

Na cidade de São Paulo, essa votação ocorrerá na Câmara Municipal agora, no dia 11 de agosto. É preciso somar à mobilização em curso, garantindo que haja a inclusão desse recorte de sexualidade e de gênero ao Plano Municipal de Educação para que respeito, de fato, se aprenda na escola.

Até o momento, o modo equivocado como esses setores conservadores estão pautando esse debate revelam mais do gênero da ideologia deles – heteronormativa, transfóbica e patriarcal – do que da “ideologia de gênero”.
“Ideologia de gênero” ou o gênero da ideologia? Renan Quinalha;10 de agosto de 2015. Discussões sobre gênero e sexualidade são, geralmente, desclassificadas https://revistacult.uol.com.br/home/ideologia-de-genero-ou-o-genero-da-ideologia/ .
37“Desde o início do século XXI, no entanto, o termo tem sido apropriado por grupos religiosos e conservadores para criar um tipo de pânico moral com base em distorções sobre os aspectos dos estudos de gênero, com o objetivo de alimentar teorias conspiratórias sobre um conluio mundial para 'destruir os valores familiares' e voltar a opinião pública contra políticas sociais direcionadas para as mulheres e a população LGBT, uma estratégia conhecida como falácia do espantalho.[4][5][6][7][8][9][10][11][12][13][14]. (…) A Igreja Católica tem usado o termo pelo menos desde 1998, após uma nota da Conferência Episcopal do Peru, intitulada “A ideologia de gênero: seus perigos e alcances".[29] ”. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ideologia_de_g%C3%AAnero .
39A memória positiva da ditadura e seus porquês. PESQUISA | Estudiosa da ditadura militar brasileira, a historiadora francesa Maud Chirio apresenta suas perspectivas em relação ao crescimento da direita no Brasil; 01:30 | 03/12/2018. História . MAUD CHIRIO é formada em história pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, e em sociologia pela Universidade Paris 5 René Descartes. Mestrado e doutorado realizados na Universidade Paris I - Sorbonne. A pesquisadora também é diplomada pela Ecole Normale Supérieure de Paris.
Em livro. O LIVRO "A política nos quartéis: Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira", lançado em 2012, é resultado das pesquisas de doutorado de Maud Chirio sobre os conflitos político-ideológicos que se davam, durante o período ditatorial brasileiro, no interior das Forças Armadas. LUANA BARROS. https://www.opovo.com.br/jornal/paginasazuis/2018/12/a-memoria-positiva-da-ditadura-e-seus-porques.html
40Relevar ou negar a existência da ditadura militar é perigoso para o Brasil, advertem historiadoras francesas
Fábio Motta/Estadão Conteúdo. 28/03/2019 13h42.
41Bruno Latour: “O sentimento de perder o mundo, agora, é coletivo”. Em seu último livro, o influente pensador francês descreve um planeta onde a mudança climática altera tudo. Bruno Latour (Beaune, 1947) é um dos filósofos franceses mais influentes da atualidade. Acaba de publicar Down to Earth. Politics in the New Climatic Regime (Com os pés no chão. Política no novo regime climático, em tradução livre). O livro faz um diagnóstico sobre um mundo onde tudo é perturbado pela mudança climática e permite compreender fenômenos que vão das desigualdades até a globalização, passando pela ascensão do populismo. A obra também é um pedido de ação e um manifesto europeísta. E, finalmente, uma síntese do pensamento de um precursor de disciplinas como a sociologia da ciência sobre os fatos e a verdade. MARC BASSETS; 31 MAR 2019 - 15:37 CEST. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/29/internacional/1553888812_652680.html .

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