Raça, religião e gênero na ponta do iceberg dos partidos: a busca da pureza?



Claudio Antunes Boucinha.1



Introdução


Steven Levitsky concedeu uma entrevista para o jornal “El País”2, em que faz algumas considerações sobre a conjuntura política atual, a partir de certos princípios, que o “cientista político” registra como importantes. O seu livro sobre a democracia, sem dúvida, é uma análise interessante sobre como personalidades autoritárias galgam postos na democracia, evitando filtros, seletividades, que os partidos normalmente instituem para o impedimento de certas minorias consideradas “perigosas”, por suas ideias impregnadas de preconceitos, racismo, discriminação de todos os tipos: os “outsiders”. Sem considerar a teoria marxista, Steven Levitsky propõe narrativas que sugerem contradições políticas, mas que deixam de lado a análise da economia política. Propõe, por exemplo, a divisão dos EUA, entre dois mundos: o urbano e o interior, entre o campo e a cidade. Do ponto de vista da geografia, é importante a percepção de como votam essas duas áreas. Pode-se fazer um mapa das eleições a partir desses dois mundos. No entanto, tal leitura, vista em bloco e não no detalhe, pode gerar preconceitos de toda ordem. Você padroniza o voto, como que seu comportamento fosse sempre o mesmo, o que não pode ser assim, e nem o autor do livro certamente não pensa assim. Deve ser visto como um comportamento atual, mas não permanente ou perene. Observa-se que não é considerado os interesses de classe que estão presentes tanto no mundo urbano como no mundo rural. Dividir também o mundo entre os que têm formação e o que não têm, também considera variáveis que fazem um mapa eleitoral, mas não fazem uma boa explicação sobre os interesses de classe que estão em jogo. O mesmo acontece quando se utiliza as variáveis direita e esquerda, altamente voláteis, genéricas, conjunturais. Isto não quer dizer que a utilidade de tais termos esteja ultrapassada. Como referências políticas dentro de um determinado quadro político, esquerda e direita ainda são variáveis explicativas, mas não em si mesmas, mas num conjunto geral de análise, buscando seus vínculos históricos. Não existe um mapa definitivo do que é ser de esquerda ou de direita, visto que são guarda-chuvas de uma série de opiniões políticas, que podem convergir ou divergir à esquerda ou à direita. São leituras dogmáticas, seja de direita ou de esquerda, muitas vezes; padrões, lugares comuns, estereótipos, enfim, máscaras. Apesar de tudo, tais termos são úteis para uma análise de pouca duração de tempo, considerando as bandeiras levantadas por um lado ou outro, historicamente. Embora, em um ponto ou outro, as ditas esquerda e direita possam direcionar energias para um mesmo lugar, chegando a fazer acordos pontuais. Isso, do ponto de vista da política. Do ponto de vista da ideologia, do sonho, da utopia, existem, às vezes, campos intransponíveis, verdadeiras trincheiras do pensamento, parafraseando, como dizia Gaspar Silveira Martins, “ideias não são metais que se fundem”.

47. O retorno de Castilhos: Pródromos da Guerra Civil. O General Barreto Leite, tornou a adiar as eleições, desta vez para o dia 21 de junho. A administração sem autoridade, com fraca representação, ficava apreensiva com o que fosse ocorrer. Os republicanos conspiravam contra a Junta Governativa que havia assumido o poder político do Estado. A disputa travada entre Castilhos e Silveira Martins relevava mais do que preocupar-se com o decadente governicho. Promoveu-se, ao menos, duas reuniões entre Castilhos e Gaspar. O intermediador teria sido um amigo em comum, o Senhor César Ferreira, o qual almejava a pacificação do Estado, temendo a rivalidade entre os ilustres líderes políticos. Como se esperava de homens com posições fortes, e liderança política expressiva, os entendimentos malograram. Desta reunião ‘amistosa e apaziguadora’, no Hotel La Minuta, o velho Gaspar teria pronunciado, talvez, a sua mais emblemática sentença: ‘ideias não são metais que se fundem’ [FRANCO, S., 1996, p. 121]”. (...) “A bandeira de Gaspar Silveira Martins marcou tanto o pensamento político riograndense que inúmeros parlamentaristas gaúchos seguiram sua trajetória, sem contar que em vida, muitos solicitaram seu apoio político. Os próprios dissidentes Castilhistas, quando fundaram o Partido Republicano Liberal, fruto do ―racha republicano‖ procuraram abrigo junto ao Partido Federalista, em 1897 [FRANCO, S., [19__], p. 12-133] . Em 1892, diversos republicanos dissidentes (João de Barros Cassal, J. F. de Assis Brasil, Demétrio Ribeiro e Homero Batista) queriam por todos os meios, atrair para as fileiras dissidentes, Silveira Martins e seus correligionários. Não lograram êxito. A repulsão desfechada por Silveira Martins não impediu uma segunda investida em 1897, desta vez pela iniciativa de Homero Batista, que propôs a Silveira Martins a coalizão dos partidos. A esta investida teria Gaspar Silveira Martins batido em seu ombro e respondido paternalmente: ‘Meu caro amigo, és muito moço para convenceres um velho!’ Completando a resposta com a célebre frase: ‘Idéias não são metais que se fundem!’ [JACQUES, 1943, p. 1414]”5.


Eça de Queirós (1905), ao analisar “Os Ingleses no Egito”, fez uma análise surpreendente sobre o comportamento inglês, que muito ainda serve para compreender o fenômeno que se passa na atualidade.

Estranha gente, para quem é fora de dúvida que ninguém pode ser moral sem ler a Bíblia, ser forte sem jogar o críquete e ser ‘gentleman’ sem ser inglês! E é isto que os torna detestados. Nunca se fundem, nunca se ‘desinglesam’. Há raças fluidas, como a francesa, a alemã, que, sem perderem os seus caracteres intrínsecos, tomam ao menos exteriormente a forma da civilização que momentaneamente as contém. O francês no interior da África adora sem repugnância o manipanso6, e na China usa rabicho. O inglês cai sobre as ideias e as maneiras dos outros como uma massa de granito na água: e ali fica pesando, com a sua Bíblia, os seus clubes, os seus sports, os seus prejuízos, a sua etiqueta, o seu egoísmo – fazendo na circulação da vida alheia um incomodativo tropeço. É por isso que nos países onde vive há séculos é ele ainda o estrangeiro”7.


Colocado sob a bandeira do nacionalismo, os cidadãos do mundo comportam-se de maneira diferente, de forma fluídica ou como massa de granito na água. Contextualizando para o problema que é enfrentado, os eleitores e partidos estão adotando uma atitude de massa de granito na água, sem flexibilidade, sem plasticidade, sem elasticidade, não arredando o pé de suas convicções políticas, como se fossem dogmas. Quais os motivos que estão levando as pessoas a entrarem numa verdadeira guerra civil? Quem vai dizer aos irracionais que não há nenhuma guerra? Eu acho que ninguém. Por que são monólogos. São epitáfios. Aqui jaz fulano de tal que lutou para sempre contra os negros. Aqui jaz alguém que lutou contra os homosexuais. Aqui jaz alguém que lutou contra os estrangeiros. Aqui jaz alguém que lutou contra os ricos. Aqui jaz alguém que lutou contra o Estado. São missões de vida. Buscam uma transcendência ao levantar certas bandeiras. “Viu, brother, como fui melhor que usted?”. Trata-se de uma competição pelo amor de Deus; e é em nome dele que se luta e se mata. É um monólogo sacralizado. Daí o fanatismo. É um monólogo irracional.


Os mesmos motivos que levaram o eleitorado dos EUA a votarem no fascista americano, são praticamente os mesmos que levaram os brasileiros a votarem no fascista local. O medo do desemprego, e da crise social que já está em curso. Nesse sentido, argumentos de supremacia racial, homofobia, xenofobia, misoginia, são revigorados, resgatados, tão perigosos quanto antes, como se o mundo pudesse andar para trás. Como não podem resolver a crise a contento, a partir do Estado e dos partidos, procuram-se culpados mais próximos, o vizinho do lado, o passante, o transeunte, o estranho, desde que todos esses se encaixem nos medos mais íntimos dos intolerantes.

A obra de J. M. Coetzee, À espera dos bárbaros, é atual para revelar o que se quer dizer:

O clima era de paz, as preocupações não iam além do dia-a-dia. Mas com o surgimento de uma notícia ou capricho político, cria-se um inimigo, instalando medo e ódio na vida das pessoas, a ponto de receber apoio irrestrito, capaz até de tolerar a prática de tortura. O que serviria como um resumo da ainda não acabada Guerra do Iraque, é o enredo do livro À espera dos bárbaros, de J.M. Coetzee, Prêmio Nobel de 2003 e único escritor a ter vencido por duas vezes o Booker Prize, considerado o mais importante prêmio da Grã-Bretanha.

O conflito forjado pelo presidente americano George W. Bush contra o Iraque, que poderia ter sido a fonte de inspiração para Coetzee, na realidade serve para mostrar o quanto o livro continua atual e, infelizmente, arcaicas as estratégias de manutenção de um Império. Lançado pela primeira vez em 1980, o livro chega com um atraso de 26 anos ao Brasil, mas revigorado pelos rumos da História.

Assim como ocorre em seus outros livros, Coetzee prefere abordar o problema através da tangente, a partir dos efeitos causados na vida de pessoas comuns (no caso, numa vila de fronteira); ao invés de abordar o problema em seu epicentro, nos círculos onde as decisões são tomadas. Com isso, o escritor conserva o clima de incertezas, fazendo o leitor perguntar se tudo aquilo tem fundamento ou não passa de uma interpretação equivocada do personagem.

Sempre colado a um único personagem, Coetzee encarna desta vez o velho magistrado da cidade. Levando uma vida monótona, entre a burocracia de administrar o vilarejo e jogar conversa fora com os amigos; o magistrado ia envelhecendo em paz, até a chegada do coronel Joll, da temida Terceira Divisão da Guarda Civil. Com ordens de promover uma missão contra os bárbaros, Joll bate de frente com os princípios do magistrado, que inicialmente se mantém discreto na defesa dos seus ideais. Mas com as práticas desumanas utilizadas pelo coronel, o magistrado vai deixando transparecer seu desconforto, perguntando-se quem são os verdadeiros bárbaros, até ser considerado um traidor.

Como o protagonista de Vida e Época de Michael K ou o professor universitário de Desonra, o magistrado também possui uma visão diferenciada dos que estão a sua volta. Todos três não se deixam levar pelas versões oficiais. Ao contrário, se opõem a elas, mas de uma maneira bem particular, sem a intenção de informar sobre o que está acontecendo, agregar forças para os seus lados ou tornarem-se líderes. No máximo, mártires de si mesmos. A luta se dá mais num campo individual, pautada pela ética pessoal, de uma forma quase egoísta.

Essa consciência mais apurada dos protagonistas, impedem que eles tenham uma relação mais próxima com outras pessoas, fazendo da solidão uma temática importante da obra de Coetzee. O isolamento é construído tanto pelos cenários remotos, como pelas diferenças físicas. Se Michael K sofria pelo seu lábio leporino e aparência de deficiente mental, os personagens de Desonra e À Espera dos Bárbaros encaram o problema da velhice. Neste último, o autor utiliza as preocupações pessoais do magistrado, quanto ao esvaziamento da vida de um velho, como uma metáfora para o sentimento de um vilarejo que luta pela sobrevivência, seja ela contra os bárbaros ou o deserto que o cerca”.8

A ideia da tortura, por si só, remete ao passado da humanidade, em formações sociais pré-capitalistas, à escravidão na Antiguidade Ocidental, ao Santo Ofício da Inquisição, aos calabouços da realeza, à invasão dos Espanhóis na América, aos rituais macabros em comunidades primitivas, ao canibalismo em todas as partes do mundo. Essa admissibilidade, essa legitimidade que a tortura ainda tem no mundo, tanto em formações periféricas do capitalismo, como o Brasil, Rússia, península arábica; como no centro do capitalismo, como os EUA, Itália, Inglaterra, China, em que o corpo precisa ser destruído, canibalizado, como se fosse algo sem importância, vendido como carne para um açougue, ou atirado ao cães, como alimento. O corpo que, no capitalismo, deveria gerar trabalho e riqueza. Quais os motivos que levam o capitalismo a se servir da tortura? A explicação seria a superexploração, o trabalho compulsório, a necessidade de manter uma sociedade injusta, desigual, para que uma minoria seja privilegiada. Assim como nas comunidades primitivas, em que o terror do canibalismo servia para dominar a sociedade, assim é com a tortura na atualidade, que impõe um rastro de silêncio para os desiguais. Embora Marx tenha sugerido que tudo que é sólido se desmancha no ar9.


A burguesia desempenhou na história um papel extremamente revolucionário. Onde quer a burguesia tenha chegado ao poder, ela destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Ela rompeu impiedosamente os variegados laços feudais que atavam o homem ao seu superior natural, não deixando nenhum outro laço entre os seres humanos senão o interesse nu e cru, senão o insensível "pagamento à vista". Ela afogou os arrepios sagrados do arroubo religioso, do entusiasmo cavalheiresco, da plangência do filisteísmo burguês, nas águas gélidas do cálculo egoísta. Ela dissolveu a dignidade pessoal em valor de troca, e no lugar das inúmeras liberdades atestadas em documento ou valorosamente conquistadas, colocou uma única inescrupulosa liberdade de comércio. A burguesia, em uma palavra, colocou no lugar da exploração ocultada por ilusões religiosas e políticas a exploração aberta, desavergonhada, direta, seca. A burguesia despojou de sua auréola sagrada todas as atividades até então veneráveis, contempladas com piedoso recato. Ela transformou o médico, o jurista, o clérigo, o poeta, o homem das ciências, em trabalhadores assalariados, pagos por ela. A burguesia arrancou às relações familiares o seu comovente véu sentimental e as reduziu a pura relação monetária. A burguesia revelou como o dispêndio brutal de forças, que a reação tanto admira na Idade Média, encontrava a seu complemento adequado na mais indolente ociosidade. Apenas ela deu provas daquilo que a atividade dos homens é capaz de levar a cabo. Ela realizou obras miraculosas inteiramente diferentes das pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das catedrais góticas, ela executou deslocamentos inteiramente diferentes das Migrações dos Povos e das Cruzadas. A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, assim, o conjunto das relações sociais. Conservação inalterada do velho modo de produção foi, ao contrário, a condição primeira de existência de todas as classes industriais anteriores. O revolucionamento contínuo da produção, o abalo ininterrupto de todas as situações sociais, a insegurança e a movimentação eternas distinguem a época burguesa de todas as outras. Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu séquito de veneráveis representações e concepções, são dissolvidas; todas as relações novas, posteriormente formadas, envelhecem antes que possam enrijecer-se. Tudo o que está estratificado e em vigor volatiliza-se, todo o sagrado é profanado, e os homens são finalmente obrigados a encarar a sua situação de vida, os seus relacionamentos mútuos com olhos sóbrios. A necessidade de um mercado cada vez mais expansivo para seus produtos impele a burguesia por todo o globo terrestre. Ela tem de alojar-se por toda parte, estabelecer-se por toda parte, construir vínculos por toda parte”. 10


Na verdade, Marx imaginava um homem totalmente inserido no mercado, sem espelhos, sem máscaras de nenhum tipo, um homem desnudado, enquanto ser econômico. Em tese, Marx está certo, na medida em que todas as relações, no mundo capitalista, são relações com alto teor econômico. Mas como explicar sobrevivências como a chibata, os castigos corporais, a burka, guantánamo, Articolo 41 bis11, Gulag?


Todos aqueles que o apreciam, que acreditam que ele enobrece o homem, que é parte fundamental da vida, pois afinal, todos precisam mesmo trabalhar, concebem seus primórdios semânticos da palavra latina “lavoro”, donde lavorar, classes laboriosas, etc. (...) Todos esses que naturalizam o trabalho “lavoro” insistem em apontar os cercamentos
ingleses como sendo um momento na transmissão energética que agudizou as relações do trabalho como opressão que, no entanto, já vinha desde sempre, desde os escravos gregos, desde os escravos egípcios, desde os escravos romanos, desde os servos medievais. (...) O trabalho assumiu sua função inescrupulosamente. Thomas Carlyle afirmava, em 1843, em texto intitulado Trabalhar e não desesperar: ‘Preserve o conhecimento comprovado no trabalho, pois a própria natureza confirma esse conhecimento dizendo sim a ele. No fundo, você não tem outro conhecimento a não ser aquele que foi adquirido através do trabalho, todo o resto é somente uma hipótese do saber’ [0 Grupo Krisis. Manifesto contra o trabalho. São Paulo, Conrad, 2003, p.78]. Assim, juntamente com a consolidação do trabalho sobre o lavoro também o saber, e seus ofícios, foram desaparecendo, sobrepujado pelo conhecimento: eis o grande vínculo
entre o trabalho e o iluminismo, a estruturação de um conhecimento válido e aceitável cuja função era erradicar os saberes livres transmitidos pela tradição, vilipendiado pela lógica do trabalho mental e do trabalho manual como atividade separada”. (...) “TRABALHO: do latim, TRIPALIU, instrumento de tortura, consiste num gancho de três pontas, cuja função é a evisceração ou a retirada e exposição das tripas, região de intensa dor e de lenta agonia. Foi criado e utilizado durante a Inquisição”. (...) “Todavia, num determinado momento, houve uma ruptura nas relações entre os homens e entre eles e a natureza. O agricultor “labora”; o mineiro “trabalha”:
No fim da Idade Média, o antigo sonho do alquimista de fabricar um homúnculo em laboratório tomou pouco a pouco a forma da criação de robots para trabalharem em vez do homem e da educação do homem para trabalhar ao seu lado. Esta nova atitude perante a atividade produtiva reflete-se na introdução de uma nova palavra. Tripaliare significava “torturar sobre o trepalium”, mencionado no século VI como uma armação construída por três troncos, suplício que substituiu o da cruz no mundo cristão. No século XII, a palavra trabalho significava uma experiência dolorosa. Foi preciso esperar até o século XVI para se poder utilizar a palavra trabalho em vez de obra ou de labor. À obra (poiesis) do homem artista e livre, ao labor (poneros) do homem pressionado por outro ou pela natureza, acrescentou-se então o trabalho ao ritmo da máquina. Seguidamente, a palavra trabalhador deslocou o seu sentido para agricultor e operário. No fim do século XIX, os três últimos termos mal se distinguiam entre si’[Illich, Ivan. A convivencialidade. Lisboa, Europa América, 197, p.49].
Aí, o trabalho passou a significar submissão de homens a outros homens e passou a não fazer mais sentido para a vida. A esse trabalho, cuja tradição genealógica é oriunda da palavra também latina “tripalium”, um instrumento de tortura inquisitorial, alguns homens atribuem uma conotação de sofrimento e dele querem separação. Tentar testemunhar seu aparecimento é a proposta deste ensaio.
No seu livro The Myth of the Machine: The Pentagon of Power, Lewis Munford sublima as características específicas que converteram a atividade mineira em protótipo das formas ulteriores de mecanização: “...indiferença para com os fatores humanos, a poluição e a destruição do ambiente, o acento posto no processo físico-químico com vista a obter o metal ou o carburante desejado e, sobretudo, o isolamento geográfico e mental do universo do agricultor e do artesão, do mundo da Igreja, da Universidade e da Cidade. Pelo seu efeito destrutor sobre o meio ambiente e pelo seu desprezo pelos riscos impostos ao homem, a atividade mineira aproxima-se muito da atividade guerreira – tal como a guerra, a mina produz com freqüência um tipo de homem duro e digno, habituado a enfrentar o perigo e a morte (...), o soldado no seu melhor aspecto. Mas o animus destrutor da mina, o seu sinistro afã, a sua aura de miséria humana e a degradação da paisagem, tudo isto é transmitido pela atividade mineira às indústrias que lhe utilizam a produção. O custo social ultrapassa largamente o benefício mecânico’ [Ilichi, Ivan. Convivencialidade. P. 48-9]. (...)
Esse movimento de imposição do trabalho já vinha sendo experimentado na Holanda, por essa mesma época. Em História dos maravilhosos milagres num local chamado a Tuchtbuys, há a descrição de uma cela para a internalização arbitrária do tripalium:
No vestíbulo ou entrada da casa, há água corrente e, ao lado, um cômodo com duas bombas, uma fora e outra dentro. O paciente era levado para ali, de modo que, bombeando para dentro do cômodo, primeiro até os joelhos, depois até a cintura e, se ainda não estivesse preparado para dar atenção a São Pono (ou seja, para a devoção ao trabalho), até as axilas e por fim até o pescoço; então, temendo afogar-se, começava sua devoção a São Pono e se punha a bombear furiosamente até esvaziar o cômodo e descobrir que sua fraqueza o deixara e que tinha de confessar sua cura’ [Schama, Simon. O desconforto da riqueza. São Paulo, Cia das Letras, 1992, p.33].
E Marx que acreditava que o trabalho é natural-biológico! Esteja certo incrédulo leitor: não se pode explorar sem antes dominar. Então precisamos perguntar com urgência: PARA QUÊ SERVEM OS PATRÕES? [Marglin, Stephen, A. ORIGEM E FUNÇÕES DO PARCELAMENTO DAS TAREFAS, In: Gorz, André. Divisão Social do Trabalho e Modo de Produção Capitalista. Lisboa, Escorpião, 1976].
Numa sociedade industrial complexa, pode o trabalho favorecer a realização dos indivíduos ou será que o preço da prosperidade material é a alienação no trabalho? Todas as discussões sobre as possibilidades de êxito de uma revolução verdadeira voltam, mais cedo ou mais tarde, a essa questão. Se a autoridade hierárquica for indispensável para atingir uma produtividade elevada, a realização no trabalho será, no máximo, o privilégio de pequena minoria e isso independente do regime social e econômico. E as satisfações dessa minoria serão sempre pervertidas pelo fato de que, salvo raríssimos casos, elas se apóiam na opressão dos outros. Mas, a organização do trabalho é determinada pela tecnologia ou pela sociedade? A autoridade hierárquica é realmente necessária para obter elevados níveis de produção? Ou será que a prosperidade material é compatível com uma organização do trabalho não-hierárquica? Os defensores do capitalismo estão profundamente convencidos de que a hierarquia é imprescindível. O argumento último seria que a pluralidade das hierarquias capitalistas é preferível a uma hierarquia socialista única. Eles podem até apoiar-se num aliado inesperado: Friedrich Engels. Talvez sob efeito de um descuido passageiro, Engels sustentou, em determinada época, que a autoridade era tecnológica e não socialmente determinada: ‘Se o homem, pelo saber e pelo gênio criador, domesticou as forças da natureza, estas últimas vingam-se dele, submetendo-o, na proporção em que ele as usa, a um verdadeiro despotismo independente de qualquer organização social. Querer abolir a autoridade na grande indústria equivale a própria indústria, a destruir o tear mecânico para retroceder à roca’. (p.39)
1. A divisão capitalista do trabalho – caracterizada pelo célebre exemplo da manufatura de alfinetes, analisada por Adam Smith – foi adotada não pela sua superioridade tecnológica, mas porque garantia ao empresário um papel essencial no processo de produção: o de coordenador que, combinando os esforços separados dos seus operários, obtém um produto mercante.
2. Do mesmo modo, a origem e o sucesso da fábrica não se explicam por sua superioridade tecnológica, mas pelo fato dela despojar o operário de qualquer controle e de dar ao capitalista o poder de prescrever a natureza do trabalho e a quantidade a produzir. A partir disso, o operário não é livre para decidir como e quando quer trabalhar para produzir o que lhe é necessário; mas é preciso que ele escolha trabalhar nas condições do patrão ou não trabalhar, o que não lhe deixa nenhuma escolha.
3. a função social do controle hierárquico da produção consiste em permitir a acumulação do capital. Via de regra, o indivíduo não escolhe deliberada e conscientemente economizar. Inúmeras pressões são exercidas sobre ele para levá-lo a gastar. Quando há uma economia pessoal (a da família), isso resulta de uma defasagem dos hábitos de despesa em relação ao aumento da renda, pois a despesa, como qualquer atividade, tem necessidades de ser aprendida e a aprendizagem leva tempo. Assim, a economia individual é a conseqüência do crescimento e não constitui uma causa independente dele’. (p.41-2) (...)
Podemos afirmar que a ruptura do mundo imposta pelo tripalium foi uma revolução? Se o foi, devemos primar pelo seu sentido cíclico, pois o termo “trabalho” como tripalium (tortura, hierarquia, submissão, exploração) foi arremessado a todos os passados e naturalizou-se na trajetória humana. É equivocado, portanto, denominar de Revolução Industrial tal fenômeno no sentido que comumente é aplicado, exceto se quisermos aceitar que o tripalium é o avatar de um novo tempo e uma ruptura em relação ao lavoro. Aí a mudança foi brutal e verdadeiramente revolucionária e inaugurou novíssimas relações sociais, sobremaneira injustas”. 12


Eduardo Antonio Bonzatto (s/d) encaminha a questão, ao vincular o mundo do trabalho como uma extensão da tortura. Mas é preciso dizer mais, ao apontar os vínculos entre trabalho e tortura, é preciso perceber que é esse tipo de trabalho semelhante a tortura é que legitima, que legaliza, que constitucionaliza, que faz jurisprudência, mesmo que confidencial, da própria tortura em si, na atualidade. A “tortura, hierarquia, submissão, exploração” fazem parte de um todo, em que o trabalho, por uma série de motivos, é dito ético e digno, quando não o é; e a tortura é dita não ética e não digna, quando apenas é o próprio trabalho, sem seus enfeites e penduricalhos. Por isso que o trabalho é “pedagógico”, mas é a própria negação da pedagogia. Para terminar a tortura, onde ainda existe, é preciso repensar o próprio trabalho. Não é à toa que o Brasil, um país que trabalha, é um dos lugares em que a superexploração do trabalhador é imensa; e onde a tortura está arraigada nos costumes locais.

Em março, a Assembleia Nacional da Coreia do Sul aprovou uma lei que reduzirá a carga de trabalho de sua população: o limite máximo de horas trabalhadas por semana passará de 68 para 52. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Coreia do Sul é o país desenvolvido com o maior número de horas trabalhadas. A nova regra passará a ser aplicada em julho de 2018, mas iniciará com empresas grandes antes de chegar a negócios menores. Apesar da contrariedade de alguns empresários, o governo do país acredita que a lei é necessária para melhorar a qualidade de vida, criar mais empregos e impulsionar a produtividade. O governo sul-coreano também acredita que a medida pode ajudar a aumentar a taxa de natalidade, que caiu substancialmente nas últimas décadas. No volume de horas trabalhadas por ano, a Coreia do Sul lidera entre os países desenvolvidos: uma média anual de 2.069, segundo dados de 2016 compilados pela OCDE. A análise se debruçou sobre dados de 38 países e mostrou que apenas o México (2.225 horas no ano) e Costa Rica (2.212) trabalham mais. O levantamento da organização não inclui o país [Brasil]. Mas, segundo o escritório de St. Louis do Federal Reserve, o banco central americano, em 2014, a média anual de horas trabalhadas pelos brasileiros foi de 1.771 horas. Esse dado colocaria o Brasil em 16º na lista da OCDE, logo atrás dos Estados Unidos e à frente de países como Japão, Reino Unido e Alemanha, quarta economia do mundo e último da lista. A iniciativa da Coreia do Sul parece seguir na contramão do que ocorre em outros países asiáticos. Muitos não têm limites para horas trabalhadas por semana, inclusive o Japão, a terceira maior economia do mundo. O Japão tem um problema com as mortes por trabalho em excesso - algo expresso não só pelas estatísticas, como também por uma palavra em japonês que dá nome justamente a esse tipo de problema: karoshi. O significado da palavra remete às mortes de empregados ligadas ao estresse (como derrames e ataques cardíacos) ou a suicídios relacionados à pressão sentida no trabalho. A média anual de 1.713 horas trabalhadas não coloca o Japão no topo da lista da OCDE. No entanto, para além deste dado, está o fato de que o país não tem uma legislação que determine um limite para o número de horas trabalhadas ou de horas extras. Entre os anos de 2015 e 2016, o governo registrou um recorde de 1.456 casos de karoshi. Grupos que defendem os direitos dos trabalhadores dizem que, na realidade, os números são muito maiores - isto por conta, hoje, da subnotificação. Segundo estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT), trabalhadores de países com renda baixa e média tendem a trabalhar por mais tempo do que em países mais ricos. Isso graças a uma série de fatores, como uma maior proporção de trabalhadores autônomos, instabilidades no trabalho e questões culturais. A OIT diz que a Ásia é o continente em que mais pessoas fazem as jornadas mais longas de trabalho. A maioria dos países (32%) não tem um limite nacional para o volume de horas trabalhadas por semana; outros 29% dos países têm valores considerados altos (60 horas semanais ou mais). E somente 4% dos países seguem a recomendação da OIT de limitar o valor em 48 horas semanais ou menos. Nas Américas e no Caribe, 34% das nações não têm um limite legal - entre elas, está os Estados Unidos. No Brasil, a Constituição determina o limite de 44 horas semanais. Mas é no Oriente Médio que os limites legais têm a maior abertura para longas horas: oito entre dez países permitem que elas passem de 60 horas semanais. Na Europa, por outro lado, todos os países têm limites estabelecidos. Apenas na Bélgica e Turquia esse valor passa de 48 horas. Cidades do batente. Enquanto isso, a África é a região do mundo em que o maior número de países tem mais de um terço de sua força de trabalho atuando mais de 48 horas semanais. Essa é a situação de 60% dos trabalhadores na Tanzânia, por exemplo. Algumas pesquisas já identificaram a situação de cidades pelo mundo no que diz respeito às horas trabalhadas.Em 2016, o banco suíço UBS publicou um estudo sobre a situação de 71 cidades. Hong Kong apareceu no topo, com 50,1 horas trabalhadas por semana, na frente de Mumbai (43,7); Nova Déli (42,6) e Bangcoc (42,1). Duas cidades brasileiras foram incluídas: Rio de Janeiro (33,5) e São Paulo (34,9).
Os mexicanos, além de terem a maior soma de horas trabalhadas, também têm um tamanho tímido de férias remuneradas: um mínimo de 10 dias, como na Nigéria, Japão em China. Um valor bem distante do Brasil, que tem um mínimo de 20 a 23 dias úteis. Mas poderia ser pior: na Índia, não há limites legais para o volume de horas trabalhadas e nem um mínimo de férias remuneradas”.13


O trabalho e a tortura não andam juntos no país, historicamente?

Assim, a escravidão de africanos e indígenas foi uma constante desde o início da colonização. Isso condicionou a organização da economia e da sociedade. Esse sistema não apenas desvalorizava o trabalho manual, mas igualmente retirava do negro africano e do índio brasileiro sua humanidade, tornando-os “coisas”. Estes quase nunca dispunham de si mesmos, nem de sua vida, nem de sua liberdade. (...) Em seu primeiro Relatório ao Comitê contra a Tortura (ONU), o Estado brasileiro aponta que a estrutura econômica da colônia foi fundada na mão-de-obra escrava, indígena e, principalmente, africana: ‘Os negros foram trazidos da África do século XVI ao XIX. A condição de escravos na qual viriam significava uma constante possibilidade de um tratamento violento da parte do senhor. À penúria das condições de vida e trabalho a que eram submetidos juntava-se a possibilidade de o senhor, ao seu arbítrio, impor os castigos que quisesse ao escravo. Privações, açoites, mutilações, palmatoadas, humilhações diversas foram práticas comuns nas casas e fazendas dos senhores donos de escravos durante toda a vida da colônia. [MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Relatório do Brasil ao Comitê contra a Tortura. p. 13-14].14


Essa relação entre trabalho e tortura não é novidade.

Essa base econômica criou as condições para o processo mais violento da história da humanidade: “Se o dinheiro nasceu com manchas naturais de sangue no rosto, como disse Auger, o capital veio ao mundo jorrando sangue e barro por todos os poros, dos pés até a cabeça”15. [Karl Marx. O Capital, Livro I, capítulo XXIV(?)]. A nascente “identidade europeia” (cuja definição primeira coincidiu com a expansão colonial desse continente) era assim “descoberta” junto com o mundo extra europeu na base do genocídio, da tortura, no saque da África e na escravidão no continente americano, e no progresso da acumulação originária de capital na Europa por essa via sangrenta”. (...) “Desse modo, a população rural, expropriada e expulsa de suas terras, compelida à vagabundagem, foi enquadrada na disciplina exigida pelo sistema de trabalho assalariado por meio de um terrorismo legalizado que empregava o açoite, o ferro em brasa e a tortura. Muitas áreas agrícolas, antes cultivadas e que garantiam a subsistência de inúmeras famílias de camponeses, foram cercadas e transformadas em pastagens. Sem condições de adaptar-se à rígida disciplina da manufatura ou mesmo à vida urbana, muitos camponeses se transformaram em mendigos; sucederam-se leis e decretos para diminuir essa categoria de habitantes das cidades. As leis proibiam a existência de desempregados, punindo-os com severas penas. Henrique VIII estabeleceu em lei que "doentes e velhos incapacitados têm direito a uma licença para pedir esmolas, mas vagabundos sadios serão flagelados e encarcerados" (os reincidentes tinham, ademais, metade da orelha decepada). (...) “Os "aprendizes" de paróquias ficavam confinados nas fábricas, isolados da sociedade e ao arbítrio dos patrões, um arbítrio que se estendia à toda sua existência. Nos relatos sobre o emprego de crianças nos primeiros anos da Revolução Industrial, não foram raras as denúncias sobre torturas e maus tratos dispensados a elas. Em The Logic of Political Economy (1844) Thomas de Quincey relatava: “Três crianças de treze anos de idade, com salários de seis a oito shillings por semana, substituíram na fábrica um homem maduro com um salário semanal de 45 shillings”. Na década seguinte, o romancista Charles Dickens (em Oliver Twist ou em Tempos Difíceis) relatou casos semelhantes ou ainda piores. A análise da situação da classe operária feita pelo militante cartista James Leach (Stubborn facts from the Factories by a Manchester Operative, de 1844) inspirou A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, de Friedrich Engels, que também habitava Manchester à época, trabalho publicado em 1845”. 16



Abre-se um novo grande ciclo agrário, e contra esse pano de fundo – que, de alguma maneira, indignou More e inspirou-lhe o sonho -, surgem e se desenvolvem as condições em torno das quais o capital impõe o seu domínio. Por essa época, o espantoso aumento da violência acompanha toda travessia da usurpação das terras camponesas. A usurpação está por toda parte, a realizar as tarefas inglórias que a dinâmica do capital nascente impõe. As imagens dessa violência ainda palpitam nos anais da história, o que intima os ideólogos do capital a elaborar imagens menos dolorosas desses relatos. Assim, enquanto se põe de lado as imagens negativas de violência, outras, carregadas de imposturas idílicas, são criadas, e quando desmistificadas, são reabilitadas e renascem vestidas de novas formas e cores. ‘Assim, a população rural, depois de ter sua terra violentamente expropriada, sendo dela expulsa e entregue à vagabundagem, viu-se obrigada a se submeter, por meio de leis grotescas e terroristas, e por força de açoites, ferros em brasa e torturas, a uma disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariada’ (MARX, 2013, p. 808)”.17


Não é por acaso que a “ideologia” de gênero, incomoda tanto. Por que tal “ideologia” insere, incluem, reintegra, grandes parcelas da sociedade que não tinham voz e nem vez. Os “párias” de uma sociedade que se via a si mesmo como perfeita, cujo símbolo maior é a família dita tradicional, cuja hipocrisia interna chega às raias do absurdo, quando joga para baixo do tapete uma série de problemas reais, sublimados com todo o tipo de drogas lícitas, vem a público dizer que existe uma “ideologia” que vai acabar com a família. É preciso dizer, com todas as letras, que a família não vai acabar. Mas a concepção de família tradicional já acabou para muita gente, há muito tempo. Agora, isso não é assinar embaixo para qualquer proposta ou para qualquer raciocínio, quando se fala de ideologia de gênero. É perceber a importância do problema. “A história de gênero é a única arena que manteve esse viés subversivo, e eu espero que continue a fazê-lo”.18


Neste ponto é bem visível o quanto é deletéria a adesão cega a uma ideologia mal formatada, com bases errôneas e marcada pela desinformação como é a chamada “Ideologia de Gênero”. [Para uma visão crítica dessa ideologia: Cf. SCALA, Jorge. Ideologia de Gênero – O neototalitarismo e a morte da família. São Paulo: Katechesis/Artpress, 2011, “passim”.] Esta, por seu turno, revelando a complexidade dessas teias de mentiras e meias – verdades juntadas à ocultação de desígnios, demonstra como a mistificação negativa da “Idade Média” (a nomenclatura, como já visto, já é pejorativa, passando uma mensagem de nulidade) e a falsa glorificação do “Renascimento” (novamente a terminologia é parcial), influenciam terrivelmente o pensamento até penetrar em seu mais profundo núcleo. Digo isso porque, observando a constatação de Pernoud [PERNOUD, Régine. O Mito da Idade Média. Trad. Maria do Carmo Santos: Lisboa: Publicações Europa – América, 1978, “passim”] sobre o desejo de imitação do masculino pelo feminino, a teia de mentiras, de ideologização, produz como que uma fusão intelectual entre uma tendência existente no mal nominado “Renascimento” (sic) e o Feminismo moderno, qual seja, o ímpeto da imitação e da falta de originalidade e imaginação. A ilusão de um renascer glorioso que nada mais é do que submissão imitativa” (...) “Na mesma medida outra costumeira afirmação insustentável que diz respeito à criação da tortura como meio de prova pela Inquisição. Ora, a tortura existe e é praticada pelos povos mais primitivos e no Oriente Antigo muito antes sequer da existência do Cristianismo. O próprio Cristo juntamente com muitas outras pessoas foi vítima de tortura durante a “via crucis” e no ato da crucifixão, ou será que aquilo tudo não era tortura, era alguma espécie de brincadeirinha? O que a Inquisição faz em relação à tortura é também uma institucionalização e um regramento, ao passo que o que acontecia antes disso era seu exercício absolutamente livre e desregrado. Objetar-se-á que o melhor seria não torturar ninguém, nem queimar ninguém em fogueiras. É verdade, é até indiscutível. Mas, fato é que não se pode atribuir historicamente a origem dessas barbaridades à Inquisição. Isso é ignorância, obscurantismo ou mesmo desinformação dolosa”.19


Cada um fala o que quer na hora que quiser. O papel aceita tudo. No entanto, existe a lógica, a matemática, o método, a prova, a evidência, a experiência, enfim, a ciência. Negar que novas pautas, que novos enredos, estão colocados no mundo, que muda constantemente, é simplesmente ficar atolado no barro com bota e tudo; ou pior, cair numa areia movediça. O passado é causa do presente? Nem sempre. A história também dá saltos. O que nos torna mais humanos e mais solidários? É essa a questão.

Como lembra Viana [Anotações de aula ministrada por Márcio Túlio Viana no programa de pós-graduação em Direito da PUC Minas, no dia 02 de mar. 2009], a origem da palavra trabalho remete à dor e à esperança. Em grego, labor significa fadiga, que estava associada aos cultivos dos campos que requerem extremo esforço físico. Em latim, trabalho deriva de tripalium, instrumento de três paus utilizado em tortura, que também era usado no arado do campo”.20



Quando fala de economia, fala de maneira geral, como se ela existisse além de regimes totalitários, ou de regimes democráticos. É fato que o capital tem suas regras próprias e não obedece fronteiras, sentimentos, ética, a não ser que todas essas variáveis estejam a serviço desse mesmo capital. É tendência atual imaginar o fim da história e aceitar que o capitalismo venceu. Daí o aceite de tais ideias que imaginam um capitalismo que navega em águas tranquilas, sem o incômodo da política. No entanto, as relações entre política e economia, muitas vezes, acontecem de forma autônoma, como paralelas, sem nenhuma convergência. É fato que ao se estudar a Reforma, os aspectos da superestrutura tenham uma importância fundamental na transformação da sociedade, sem, no entanto, a companhia de necessárias transformações no campo econômico, naquela época. Ou seja, a economia e a política podem andar juntas ou não. Até onde o capitalismo, enquanto economia, no sentido figurado, sazonalmente, socorre-se de formações autoritárias, ou até onde as formações autoritárias estão latentes nas formações econômicas capitalistas. Ou ainda mais, até onde novas ideias podem enterrar formações econômicas que se consolidaram com um perfil autoritário. Em outras palavras, o capitalismo da China, da Rússia, da Coreia da Norte, do Afeganistão, do Brasil, é o mesmo capitalismo apregoado pelos EUA, Alemanha, França, Inglaterra, Japão, ou os “tigres asiáticos”? Em tese, sim, se considerar-se apenas algumas variáveis, como o mercado, o lucro, os meios de produção. No entanto, se não for considerado a variável da intervenção do estado na economia, não se poderá chegar a conclusão alguma sobre o que se denominou de capitalismo de estado, ao que qualificar o socialismo real. Poderá se fazer outra análise, de que o capitalismo precisa e não prescinde da intervenção do Estado, em qualquer economia, sendo falsa a ideia de que existe um liberalismo econômico como foi pensado pelos seus primeiros teóricos. Daí, volta-se a ideia, como um círculo vicioso, a ideia de que o capitalismo é mais ou menos igual, em toda a terra, surgindo como solução final para a história. Mas, veja-se, nada sobre a superestrutura, como uma vida autônoma, que pode antecipar mudanças. O homem está submetido à economia, mais precisamente, a economia capitalista. Não é o marxismo que se dizia “vulgar”? Não é a “vulgarização” do marxismo? A liberdade do homem desaparece. A teoria marxista, às avessas, é incorporada ao capitalismo, como uma ideia fora do lugar, como dizia um pensador brasileiro. Somos todos de Marx, afinal. A economia é o centro do mundo. Lá se vai o saudoso Hegel. As contradições econômicas desaparecem, e os debates sobre economia são debates de fundo técnico, entre este ou aquele grupo acadêmico. É como se o capitalismo nunca mudasse, o que não é verdadeiro. Por outro lado, no estágio atual do capitalismo mundial, novas áreas são incorporadas, como saídas para novos lucros, desconsiderando as necessidades de sobrevivência da própria espécie. No atual desenho do capitalismo no país, as terras dos índios, os parques nacionais, protegidos por lei, que até então estavam sob salvaguardas, estão sendo entregues a voracidade insaciável capitalista. Sem a proteção do Estado, a sociedade pensada pela Constituição de 1988 vai ladeira abaixo. Até mesmo leis sociais são atacadas pelos capitalistas, vendo nelas uma forma de ganhar dinheiro do pobre povo.

R. O país se divide entre centros urbanos, com pessoas com título universitário, e cidades pequenas em zonas rurais, com pessoas sem tanta formação. Nessa divisão, todos os professores e a maioria dos estudantes estão de um lado. Além disso, nos EUA a juventude é muito mais democrata do que republicana. Trump tem apoio de pessoas mais velhas do que eu, de 60, 70 anos... Mas entre as pessoas de 18 a 20, quase 70% hoje em dia são democratas. Agora há dois mundos: o mundo urbano do litoral é muito mais cosmopolita, muito mais progressista, mais liberal; o interior é muito conservador.

P. Uma fratura tão grande “campo-cidade” erode a democracia?

R. Sim. Acontece em outros países, mas aqui, talvez pelo tamanho, a segregação nas bases sociais dos dois partidos é enorme. Há poucos lugares nos EUA em que convivem democratas e republicanos. Onde moro, Boston, tenho de dirigir 20 quilômetros para encontrar um trumpista. É preciso sair da cidade e chegar ao campo para encontrar um trumpista, isso não é normal. E, ao contrário, se você for a Oklahoma vai encontrar cidades inteiras que votam 99% em Trump, não há democratas. Se apareço por lá me veem como um marciano. É uma mudança lenta, mas relativamente nova, e não me parece saudável para a democracia. Os cidadãos perdem o hábito e a capacidade de coexistir, de tolerar a diferença, de discutir sobre política e depois ir jogar futebol juntos. Estamos perdendo essa capacidade mínima do cidadão de conseguir conviver com pessoas de outro partido. Os políticos representam seu território e se este é homogêneo não há necessidade de assumir compromissos, nem de negociar. Em Oklahoma é possível ser totalmente trumpista porque sua base é 100% trumpista. E todo o eleitorado do meu representante, que é neto de Bob Kennedy [Joseph Kennedy, de Massachusetts], é democrata, então se a pessoa começa a negociar com a direita, é linchada por nós. A ausência total de integração entre as pessoas dos dois partidos é muito daninha para a democracia.

P. A polarização então vai além do efeito Trump.
R. Trump é mais sintoma do que causa. O principal problema, em nossa opinião, é a polarização partidária, que é baseada, além disso, não em termos de direita e esquerda, mas em raça, religião e cultura. Produto dessa polarização é o enfraquecimento das regras básicas da democracia.

P. Mas isso é tão novo ou agora é que chama mais a atenção?

R. É novo em um sentido muito importante. A questão da raça esteve conosco desde o nascimento da república, e foi fonte de autoritarismo, abuso, conflito e até guerra civil no século XIX. O novo é que a raça está fortemente ligada ao partidarismo. Pela primeira vez desde o século XIX, desde a guerra civil, a identidade partidária tem a ver com raça e religião. As pessoas brancas e cristãs são republicanas, para generalizar, e as demais são democratas. O partido republicano se tornou um bastião de brancos cristãos que foi maioria em toda a história da república. Era o grupo que dominou as hierarquias políticas, econômicas, sociais e culturais deste país por 200 anos, mas que está perdendo peso na sociedade norte-americana. É uma mudança de longo prazo, inevitável.

P. Surpreende que o sr. não mencione o fator do gênero.

R. Em minha opinião, o efeito de gênero está aí no sentido de que a maioria das mulheres votam nos democratas e que a figura de Trump representa um retrocesso de mais ou menos meio século em termos de normas sociais de gênero. Mas há muitas mulheres republicanas e democratas. A raça e a religião dividem a sociedade, nem tanto o gênero. Se você fosse norte-americana e eu lhe perguntasse sua religião, sua raça e seu nível de formação, acertaria mais facilmente em que partido você vota do que sabendo seu gênero.

P. O tema de seu livro é como morrem as democracias. E os regimes autoritários? Dizem que o chavista está se autodestruindo.

R. De várias maneiras. Nesse caso, o Governo sofre a maldição do petróleo. Muitos regimes, inclusive a democracia venezuelana dos anos setenta, sofrem com a abundância do petróleo e acabam arruinando a economia. Enquanto o preço estava acima de 100 dólares por barril, Chávez utilizava os recursos para manter um apoio majoritário. Quando o preço cai a economia começa a baixar em 2011, 2012, 2013..., e então a popularidade também cai. A causa principal da fraqueza do regime é a economia. Nem todos os regimes autoritários caem assim. Vietnã e China têm regimes autoritários muito mais estáveis. Assim como a América Latina. A própria Espanha com Franco, entre os anos 50 e 60, quando começou a crescer, se estabilizou. O crescimento ajuda muito a estabilizar o regime autoritário.
P. Quais são as democracias mais sólidas e saudáveis atualmente?

R. Ninguém gosta de política, ninguém gosta das pessoas que estão no poder, seja na Suécia, seja na Finlândia, seja no Reino Unido... Esperamos muito dos representantes políticos, eles têm uma responsabilidade muito grande aos olhos do cidadão, e os políticos são medíocres. Buscam o poder, é seu trabalho, chegar ao poder e ficar. Isso soa mal. Além disso, têm de ser pragmáticos, adaptar-se. Dizem uma coisa na campanha, mas a situação muda, e têm de pactuar com a oposição, chegar a acordos que ninguém gosta. Um Franco ou um Pinochet podem ser puros. Se você mata a oposição ou a manda para o exílio, pode se manter puro, mas na democracia é preciso sujar as mãos — não digo no sentido de corrupção — é preciso fazer acordos. Exceto em casos de democracias recém-nascidas, como a espanhola no fim dos anos setenta, os cidadãos não estão satisfeitos, não vamos encontrar uma democracia com décadas de vida na qual as pessoas estejam felizes com o sistema. Sempre reclamam.

P. No fundo é bom sinal, de que o cidadão está descontente porque se acostumou a padrões altos.

R. Sim, e também há mudanças nas democracias estabelecidas que acredito que ainda não chegamos a entender completamente, como o crescente enfraquecimento do establishment político. Na Europa, Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos, nos anos sessenta havia um establishment muito forte: dois partidos que controlavam as candidaturas, três canais de televisão que todo mundo via, fontes de financiamento limitadas, sindicatos, empresários... Nos EUA em 1958, se não aparecesse na NBC, CBS, ABC [grandes redes], você não chegaria ao eleitorado. Se não tenho amigos no sindicalismo ou entre os empresários, não consigo dinheiro para minha campanha. E se não faço parte do mainstream do partido, como não há primárias, não posso ser candidato a nada. Assim, todos os políticos costumavam ser moderados. Isso mudou por várias razões. Bernie Sanders pode arrecadar tantos fundos quanto Hillary Clinton, buscando dinheiro na Internet, e um candidato pode se tornar conhecido pelo WhatsApp ou pelo Facebook.

P. Houve uma abertura de mercado.

R. Há uma democratização das democracias que gera muita incerteza, mais populismo. Em 1958 eu não podia ser populista porque o establishment me rejeitava. Hoje posso rejeitar o establishment e ganhar votos, ser o Movimento Cinco Estrelas, ser Vox ou ser Trump. A democracia dos anos cinquenta era muito elitista, muito contida. Hoje é muito mais um circo, mais aberta, mas em crise.

P. E o que se pode fazer? Voltar ao establishment?

R. Impossível, as pessoas não toleram. É um dos desafios que nós, políticos e cientistas políticos, temos: aprender como fazer funcionar uma democracia em uma época em que o establishment não pesa nada”.


Notas

1Mestre em História do Brasil. (PUCRS). Licenciado em História. (UFSM).
3FRANCO, Sérgio da Costa. A Guerra Civil de 1893. 2. ed. Porto Alegre: Renascença Edigal, 2012.
________________________. Cadernos de História. Porto Alegre: [s.n.], [19__], Memorial do Rio Grande do Sul, nº 13.
________________________. Júlio de Castilhos e sua época. 3. ed. Porto Alegre: UFRGS, 1996.
4JACQUES, Paulino. Curso de Direito Constitucional. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1987.
_________________. Gaspar Silveira Martins: o condestável da democracia brasileira. Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1943.
_________________. O Governo Parlamentar e a Crise Brasileira. Brasília: Universidade de Brasília, 1982.
5UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. FACULDADE DE DIREITO. CARLOS EDUARDO DIEDER REVERBEL. A REVOLUÇÃO FEDERALISTA E O IDEÁRIO PARLAMENTARISTA. SÃO PAULO 2014. Tese apresentada à Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Direito. Área de Concentração: Direito do Estado. Orientador: Prof. Dr. Manoel Gonçalves Ferreira Filho.http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2134/tde-21012015-085452/pt-br.php .



6“África. Ídolo africano, feitiço; qualquer coisa ou objeto, tanto real quanto abstrato, que possa ser utilizado para realização de um culto; cuja essência pode ser sobrenatural”. https://www.dicio.com.br/manipanso/
7 Eça de Queirós. “Os Ingleses no Egito”. In Cartas de Inglaterra. Publicado originalmente em 1905. José Maria de Eça de Queirós (1845 — 1900). “Projeto Livro Livre”. Livro 104 . Poeteiro Editor Digital. São Paulo - 2014. www.poeteiro.com .http://www.santoandre.sp.gov.br/pesquisa/ebooks/366702.pdf .

8http://www.vacatussa.com/a-espera-dos-barbaros-j-m-coetzee/ . À espera dos bárbaros – J. M. Coetzee. THIAGO CORRÊA RAMOS EM 30 OUTUBRO, 2008.
9
Ensaio Tudo que é Sólido Desmancha no ar: Marx, Modernismo e Modernização — Marshall Berman. Bárbara Fernandes. Sep 13, 2017. https://medium.com/@brbarafernandes_69006/ensaio-tudo-que-%C3%A9-s%C3%B3lido-desmancha-no-ar-marx-modernismo-e-moderniza%C3%A7%C3%A3o-marshall-berman-dc67b745da2 .

10MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Estud. av., São Paulo , v. 12, n. 34, p. 7-46, Dec. 1998 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141998000300002&lng=en&nrm=iso>. access on 21 Apr. 2019. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40141998000300002.
12 Eduardo Antonio Bonzatto. “TRIPALIUM: O trabalho como maldição, como crime e como punição”. Doutor em História Social. http://www.unifia.edu.br/projetoRevista/artigos/direito/Direito_em_foco_Tripalium.pdf .
13Dia do Trabalho: quais os países onde as pessoas trabalham mais horas? 1 maio 2018.
14Maia, Luciano Mariz. DO CONTROLE JUDICIAL DA TORTURA INSTITUCIONAL NO BRASIL À luz do direito internacional dos direitos humanos/ Luciano Mariz Maia – Recife, 2006. https://apublica.org/wp-content/uploads/2012/06/DO-CONTROLE-JUDICIAL-DA-TORTURA-INSTITUCIONAL-NO-BRASIL-HOJE.pdf .
15“Marx certamente não é um cínico empedernido, alheio à miséria dos povos explorados. Losurdo sabe disso muito bem, quando lhe concede a palavra para dele ouvir que o "capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés". Mas nem por isso o jovem Marx se deixou tomar por sentimentos piedosos. Convicto de que a humanidade não poderia "cumprir a sua missão sem uma verdadeira revolução do estado social na Ásia", vale-se de Goethe para dizer que não lamentava "os estragos, pois os frutos são prazerosos". Leitor de Hegel, aprendeu que a história universal não é uma aventura romântica, "viagens de cavaleiros errantes". Essa idéia aparece com toda força no Manifesto Comunista. Seus autores viam o mundo civilizado como "o instrumento inconsciente da História", ao qual cabia a tarefa de realizar o trabalho sujo: varrer da terra todas "as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas". (...) “Se, para Marx, "o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés", o colonialismo volta com mais sede de sangue do que nunca”. TEIXEIRA, Francisco José Soares. A democracia e seus inimigos!. Estud. av., São Paulo , v. 22, n. 63, p. 309-314, 2008 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142008000200022&lng=en&nrm=iso>. access on 21 Apr. 2019. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142008000200022. “O capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés. Karl Marx, O capital, Livro I. REVISITANDO O CONCEITO DE ACUMULAÇÃO DO CAPITAL: A pilhagem territorial promovida pela Veracel Celulose no Extremo Sul da Bahia. Guilherme Marini Perpetua [Mestre em Geografia pela UFGD e doutorando em Geografia na UNESP – Campus de Presidente Prudente (SP). Membro do Centro de Estudos de Geografia do Trabalho (CEGeT) e do Centro de Estudos
do Trabalho, Ambiente e Saúde (CETAS). geomarini@yahoo.com.br ] & Antonio Thomaz Junior [Bolsista de produtividade CNPq 1. Doutor em Geografia pela USP e professor dos cursos de graduação pós-graduação em Geografia da UNESP – Campus de Presidente Prudente. Coordenador do CEGeT e do CETAS. thomazjr@gmail.com . http://www.seer.ufu.br/index.php/campoterritorio/article/download/30683/18933/ . “Se o dinheiro, segundo Augier, “vem ao mundo com manchas naturais de sangue numa de suas faces” [Marie Augier, Du crédit public (Paris, 1842), p. 265], o capital nasce escorrendo sangue e lama por todos os poros, da cabeça aos pés [“O Capital”, diz o Quarterly Reviewer, “foge do tumulto e da contenda, e é tímido por natureza. Isso é muito certo, porém não é toda a verdade. O capital abomina a ausência do lucro, ou ao lucro muito pequeno, assim como a natureza o vácuo. Com um lucro adequado, o capital torna-se audaz. Com 10%, ele está seguro, e é possível aplicá-lo em qualquer parte; com 20%, torna-se impulsivo; com 50%, positivamente temerário; com 100%, pisoteará todas as leis humanas; com 300%, não há crime que não arrisque, mesmo sob o perigo da forca. Se tumulto e contenda trouxerem lucro, ele encorajará a ambos. A prova disso é o contrabando e o tráfico de escravos”, T. J. Dunning,Trade’s Unions and Strikes, cit., p. 35-6]”.KARL MARX. O CAPITAL. CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA. VOLUME I. LIVRO PRIMEIRO . O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL. 6. Gênese do capitalista industrial. p. 539. https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2547757/mod_resource/content/1/MARX%2C%20Karl.%20O%20Capital.%20vol%20I.%20Boitempo..pdf .



16CAPITALISMO: Origens e Dinâmica Histórica. Osvaldo Coggiola São Paulo, 2014.https://raquelcardeiravarela.files.wordpress.com/2014/11/ocogg-histe280a1ria-do-capitalismo1.pdf .
17REVISTA ELETRÔNICA ARMA DA CRÍTICA NÚMERO 7/DEZEMBRO 2016 ISSN 1984-4735. OS 500 ANOS DA OBRA UTOPIA E ACUMULAÇÃO PRIMITIVA DE CAPITAL: CONVERGÊNCIAS ONTOLÓGICAS ENTRE UM SANTO CATÓLICO E O FUNDADOR DO SOCIALISMO CIENTÍFICO. Frederico Jorge Ferreira Costa (UECE)[ Doutor em Educação. Professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Colaborador e
Pesquisador do Instituto de Estudos e Pesquisas do Movimento Operário (IMO/UECE).
frederico1917@yahoo.com.br ] & Fábio Queiroz (URCA) [Doutor em Sociologia. Professor da Universidade Regional do Cariri (URCA).
fabiojosequeiroz@yahoo.com.br ] & Maria do Socorro Lima (UECE) [Mestranda em Educação. Professora e Orientadora Educacional da Rede Municipal de Fortaleza. socorrolcosta@yahoo.com.br ] & Karla Raphaella Costa Pereira (UECE) [Mestra em Educação. Professora da Secretaria de Educação da Rede Estadual de Educação do
18ABORDAGENS MARXISTAS SOBRE A IDADE MÉDIA, ALGUMAS QUESTÕES E EXEMPLOS
Chris Wickham [ Christopher Wickham é Chichele Professor of Medieval History e Fellow do All Souls College da Universidade de Oxford]. Mare Nostrum, ano 2012, n. 3. http://leir.fflch.usp.br/sites/leir.fflch.usp.br/files/upload/paginas/marenostrum-ano3-vol3-lab1.pdf .
19“Direito, sociedade e cultura na chamada idade média”. Eduardo Luiz Santos Cabette, Professor de Direito do Ensino Superior. Publicado por Eduardo Luiz Santos Cabette; há 5 anos. Autor: Eduardo Luiz Santos Cabette, Delegado de Polícia, Mestre em Direito Social, pós – graduado com especialização em Direito Penal e Criminologia, Professor de Direito Penal, Processo Penal, Criminologia e Legislação Penal e Processual Penal Especial na graduação e na pós – graduação da Unisal e Membro do Grupo de Pesquisa em Ética e Direitos Fundamentais do Programa de Mestrado da Unisal. https://eduardocabette.jusbrasil.com.br/artigos/130621663/direito-sociedade-e-cultura-na-chamada-idade-media .
20A EVOLUÇÃO DO VALOR TRABALHO: DA NEGAÇÃO NA ANTIGUIDADE À CENTRALIDADE NO SISTEMA FILOSÓFICO MARXISTA. Maíra Neiva Gomes [Mestre e doutoranda em Direito Privado: linha de pesquisa Direito do Trabalho, Modernidade e Democracia pela PUC Minas. Professora. Coordenadora do Departamento Jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos de Belo Horizonte, Contagem e Região. Bolsista da Capes. mairaneiva@gmail.com ] & Davi Niemann Ottoni [Mestre em Direito Público: linha de pesquisa Direitos Humanos, Processo de integração e constitucionalização do Direito Internacional pela PUC Minas. Professor. Advogado. daviniemann@gmail.com ]. http://publicadireito.com.br/artigos/?cod=0810699abe09927a .

21Steven Levitsky: “Perdemos a capacidade de discutir política e depois ir jogar futebol juntos”. Autor do best-seller ‘Como as democracias morrem’, ele é uma espécie de médico legista dos regimes políticos, estuda o porquê do populismo e da polarização em países nos quais o ‘establishment’ está sendo rejeitado. AMANDA MARS; 11 ABR 2019 - 19:00. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/05/internacional/1554485166_408018.html .


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