PT, o norte e o Nordeste, Grande Medo, obscenidade da palavra, corpo do povo negro e do índio, Carnavalização do Brasil- IV
Cláudio
Antunes Boucinha1
Cláudio
Antonio Oliveira Camargo (2011), sintetizava a questão do
desenvolvimento do Brasil, da melhor maneira. Não se entende,
verdadeiramente, como é que o Brasil tem inúmeras riquezas, das
mais valiosas no mundo, como o petróleo, como o lítio, e tem que
esperar que algum “gringo” se interesse para explorar a mina. A
nossa elite econômica é incapaz de desenvolver qualquer processo de
extração, no país? A não ser o ouro, através de processos
marcadamente ultrapassados? Como ficam as pedras semipreciosas e o
contrabando? Olhando o agronegócio, observando como gastam o
dinheiro principalmente no exterior, percebe-se o quanto a elite
econômica é parasitária, no seu comportamento. Ao condenar, de
maneira genérica, o Estado, adjetivando-o como corrupto, em nome de
um mínimo de interferência no mercado, levou o público, em geral,
a acreditar que a corrupção é o principal problema brasileiro.
Gerando uma caça às bruxas sem fim, que atualizou em parte a
legislação sobre os crimes do “colarinho branco”, mas não
resolveu, como era de se esperar, e não resolverá, as questões
fundamentais do bem-estar do povo brasileiro. Essa é a questão
central que FHC não percebeu, ao aderir ao neoliberalismo.
“A
melhor maneira de se entender o conservadorismo do PSDB é ler as
obras do 'maître
à penseur' do tucanato, o
sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Junto com Enzo
Faletto, ele foi um dos formuladores da chamada “Teoria da
Dependência”, que surgiu no início dos anos 1960 como uma
alternativa ao modelo nacional desenvolvimentista de matriz cepalina
(da CEPAL, Comissão Econômica para a América Latina), do qual o
economista Celso Furtado foi uma das grandes expressões no Brasil.
Criador da SUDENE, ministro de João Goulart e autor do Plano
Trienal, Furtado elaborou um projeto para o país que apostava no
Estado como indutor de uma política de industrialização capaz
produzir o desenvolvimento apesar da dependência externa. Seu
pensamento passou por reformulações e ajustes, mas sempre manteve
essa espinha dorsal. Foi contra essa espinha dorsal que a ditadura,
primeiramente, e os neoliberais, bem depois, assestaram suas
baterias. O próprio Lula e
o (PT), nos primórdios, colocavam o nacional desenvolvimentismo na
vala comum do “populismo”. Felizmente, no (poder) Lula
compreendeu o equívoco.
Mas estou fazendo digressões demais; essa é outra história...
Voltando ao sociólogo frio, na época, os escritos de FHC foram
equivocadamente considerados como uma crítica “pela esquerda” ao
pensamento cepalino e ao esquema stalinista-etapista do Partidão.
Este último defendia a
velha tese de que o Brasil era um país semicolonial ou semifeudal,
com uma oligarquia latifundiária que, aliada ao imperialismo
norte-americano, impedia o desenvolvimento do capitalismo nacional e
sufocava tanto a burguesia nacional quanto os trabalhadores e os
camponeses. Não é preciso dizer que esse esquema do Partidão era
completamente furado, como apontou Caio Prado Jr. já em 1966(in A
Revolução Brasileira): o Brasil podia ser subdesenvolvido, mas era
capitalista havia muito tempo.
Por isso a “Teoria da Dependência” teve seus méritos: propor
um esquema mais complexo para explicar nossa situação de
subdesenvolvimento, como se chamava à época, fugindo dos esquemas
dogmáticos e ultrapassados do partidão e da própria CEPAL. Como
explicou o prof. Durval Muniz de Albuquerque Júnior, da UFRN, a
“Teoria da Dependência” e a CEPAL concordam que “o
subdesenvolvimento era produto do próprio desenvolvimento do
capitalismo, que se dá desigualmente gerando um centro e uma
periferia do sistema, que tende a reproduzir subordinadamente a
dinâmica que é dada pelas economias centrais e seus modelos”.
Ambas concordam com a possibilidade de ocorrer desenvolvimento mesmo
na periferia, de haver desenvolvimento apesar da dependência e da
subordinação, mas divergiam de como isto seria possível.
“Para
as formulações cepalinas lá dos anos 1950”, prossegue o prof.
Durval Muniz, “com seu nacionalismo típico da época, as forças
externas eram encaradas como obstáculo ao desenvolvimento do país,
assim como as forças internas a eles aliadas, como os setores
agrário-exportadores. Mesmo reformulando mais tarde estas ideias,
Celso Furtado mantém a opinião que o processo de desenvolvimento,
em países como o Brasil, deve ter como motor as forças econômicas,
sociais e políticas nacionais, que saibam inserir o país na
economia global, mas tendo seus interesses estratégicos sempre à
frente e bem definidos”. Isso
Lula aprendeu na prática. Para Celso Furtado, prossegue Durval, "o
Brasil tinha um enorme potencial de crescimento endogenamente gerado
por seus amplos recursos naturais, por já ter internalizado e
desenvolvido o processo de industrialização - nos governos Getúlio
Vargas e JK -, devendo ampliar bases técnicas, tecnológicas e
educacionais próprias. "O país já possuía a enorme
potencialidade de um grande mercado consumidor de massas, bastando
para isto que fossem prioritárias em qualquer política econômica a
ênfase em mecanismos distributivos de renda e de redução das
desigualdades regionais”, diz Durval.
Bingo! O fato de o governo
Lula ter compreendido essa realidade fez com que o Brasil pudesse
enfrentar o tsunami mundial de 2008 e transformá-lo em "marolinha"
aqui - expressão que horrizou nossa elite branca "bem
pensante". Já FHC
nunca acreditou na possibilidade de se fazer o desenvolvimento sem
que a direção do processo se desse nos "países centrais"
do sistema capitalista. Avaliando como sociólogo a mentalidade
empresarial brasileira, FHC sempre foi pessimista em relação a
esperar das forças nacionais a liderança do desenvolvimento
econômico. A crítica do prof. Durval à Teoria da Dependência de
FHC é precisa: por ser um crítico de primeira hora das ideias
'cepalinas' que vêem o elemento externo como obstáculo ao
desenvolvimento nacional, FHC dá imediatamente "enorme
audiência ao seu discurso no mundo e, por incrível que pareça,
entre nossa elite empresarial que parece ter aceitado com gosto e
alegria o lugar menor e subalterno que o pensamento da dependência
lhes reservava, talvez porque sempre no fundo se sintam não
pertencentes ao país, mas estrangeiros em sua própria terra”,
diz o acadêmico. “Estas formulações da Teoria da Dependência
mal disfarçam que requentam teses já bastante gastas entre nossas
elites letradas da incapacidade de nosso povo para a civilização,
para o progresso, para o trabalho livre, para o desenvolvimento. Nas
formulações pessedebistas há clara desconfiança em relação ao
nosso povo”. Continua Durval: “Foi a Teoria da Dependência que
inspirou já o primeiro programa econômico apresentado por um
candidato tucano a concorrer à Presidência da República. O “choque
de capitalismo”, prometido por Mário Covas em 1989, foi finalmente
realizado por Fernando Collor e continuado nas duas gestões de FHC e
se mostrou efetivamente chocante para a sociedade brasileira. A
ideia de que seria expondo os setores da economia brasileira à
concorrência externa, abrindo a economia para os fluxos de capital
internacionais, privatizando os setores estratégicos dominados pelo
Estado e os entregando a moderna gestão empresarial internacional,
que se faria o país desenvolver-se, se modernizar, palavra mágica
para a Teoria da Dependência henriquiana, se torna o centro das
políticas econômicas do PSDB.
A concorrência externa também afetaria as relações de trabalho e
emprego, as modernizaria, levando a ruína à estrutura
burocrático-estatal montada pelo nacional desenvolvimentismo”. Por
tudo isso é injusto dizer que FHC teria dito para “esquecer o que
escrevi”. Ele realmente jamais proferiu essa frase. Mais do que
isso, no poder, FHC foi extremamente coerente com o que escreveu,
aderindo com gosto ao
Consenso de Washington.
Uma determinada esquerda é que interpretou sua versão da Teoria da
Dependência - sim, porque havia outras, como a de Ruy Mauro Marini,
Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra, essas eram realmente de
esquerda - como portadores de um projeto progressista. Celso Furtado
dizia que só um economista acredita que o problema da economia seja
estritamente econômico. Mas ele, que era economista, teve uma visão
muito mais abrangente do que o nosso "príncipe dos sociólogos".
Hoje o Brasil só não virou uma Argentina ou um México porque não
abandonou inteiramente o ideário de Celso Furtado”.2
“Em
A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato, Jessé
Souza quer fazer o que, em sua opinião, nenhum intelectual da
esquerda jamais fez: explicar o Brasil desde o ano zero. Isso porque
se ideias antigas nos legaram o tema da corrupção como grande
problema nacional – conforme defende no livro -, só mesmo novas
concepções sobre o país e seu povo poderiam explicar, de uma vez
por todas, que as raízes da desigualdade brasileira não estão
na herança de um Estado corrupto, mas na escravidão.
Para
tanto, o sociólogo confronta uma das principais obras do pensamento
social brasileiro, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de
Holanda – responsável por utilizar pela primeira vez a ideia de
patrimonialismo para definir a política nacional. Jessé compreende
que o conceito – segundo o qual o Estado brasileiro seria uma
extensão do “homem cordial” que não vê distinções entre
público e privado – serve para legitimar interesses
econômicos de uma elite que manda no mercado, este sim a real fonte
de corrupção e poder.
Doutor
em sociologia pela Universidade de Heidelberg
(Alemanha) e professor da UFABC, Jessé Souza é autor de 27 livros,
incluindo A ralé brasileira: quem é e como vive (2009), A
tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do
golpe (2016). Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) entre 2015 e 2016, coordenou pesquisas de amplitude
nacional sobre classes e desigualdade social. Em entrevista à CULT,
o sociólogo critica a existência de uma interpretação dominante
sobre o Brasil e aponta os motivos pelos quais a sociedade brasileira
em 2017 não passa de uma continuidade da sociedade escravocrata de
500 anos atrás.
No
livro você afirma que Sérgio Buarque de Holanda inaugurou uma forma
de pensar o brasileiro como negatividade que se estende ao Estado,
visão que teria influenciado de Raymundo Faoro a Sergio Moro. Por
que essa chave de leitura tem tanta força?
Essa
ideia foi montada para defender interesses econômicos. Às
vezes me espanto como não se percebeu isso antes. Quando a
elite paulistana perde o poder político para Vargas em 1930 – e
perde para um movimento de classe média, que estava se formando no
país naquela época -, ela começa a organizar um poder ideológico
para condicionar o poder político a atuar conforme as suas regras.
Isso foi dito, articulado, pensado. Esse pessoal já tinha fazendas
de café, as grandes indústrias em São Paulo, já tinha controle
sobre a produção material e aí constroem as bases para o poder
simbólico – e a sociedade moderna vive desse poder simbólico.
Essa elite cria a Universidade de São Paulo, que vai formar
professores de outras universidades e que vai produzir conceitos
importantes para que essa elite, tirando onda de que está fazendo o
bem, faça efetivamente todo mundo de imbecil para que seus
interesses materiais e políticos sejam preservados.
Que
conceitos são esses?
São
duas ideias que nos fazem de imbecis. Uma delas é a do
patrimonialismo, em que há uma distorção da fonte do poder social
real, como se o Estado fosse montado para roubar, vampirizar e fazer
o mal – e como se nada acontecesse no mercado. Embora seja uma
instância de poder importante, no capitalismo quem comanda o poder é
o mercado. Há uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até
hoje3
professam esse tipo de coisa. Sérgio Buarque inaugura [esse
pensamento no Brasil], depois Raymundo Faoro dá uma profundidade
histórica e Fernando Henrique Cardoso transforma isso em
teoria; o programa político do PSDB é todo retirado de
Raízes do Brasil.
Mas também influenciou a esquerda. Sérgio Buarque foi um dos
fundadores do (PT), fez todo mundo de imbecil, da direita à
esquerda. E como a esquerda não tem uma concepção
autônoma de como a sociedade funciona, de como o Estado funciona,
ela chega ao poder com um plano econômico alternativo, mais
inclusivo, e acha que as pessoas por alguma mágica vão perceber que
aquilo é bom pra elas. A esquerda nunca fez o que a direita e a
elite fizeram.
Por
que a esquerda nunca articulou uma narrativa contrária a essa?
Porque
foi incapaz. Porque não foi inteligente, porque se deixou
imbecilizar. Porque o tema do patrimonialismo é tratado como
crítica social: “Olha, estamos descobrindo quais são as mazelas
brasileiras, um gene da corrupção de 800 anos que nos toma a
todos”. Isso significa que o Estado [teoricamente] vampiriza
e não deixa as forças “emancipadoras” do mercado agirem –
como se o mercado, em algum lugar do mundo tivesse sido emancipador
por si próprio. Os países campeões do liberalismo como Inglaterra
e Estados Unidos têm uma estrutura de Estado extremamente
forte, foram protecionistas – e depois dizem a outros
países serem o que eles mesmos nunca foram. Isso deu esse charme –
o “charminho crítico”, como eu chamo – a esse tipo de ideia
como o patrimonialismo, que muitas vezes a esquerda comprou.
O
segundo conceito chave, também inventado na Usp, foi o populismo,
que torna suspeito e criminaliza tudo aquilo que vem das classes
populares – inclusive qualquer liderança associada a elas, que são
também estigmatizadas e suspeitas de estarem manipulando a
tolice “inata” dessas classes. Eu estudei por décadas os
muito pobres e eles são muito mais inteligentes do que a classe
média. Eles veem a política como o jogo dos ricos em que todo mundo
rouba enquanto a classe média se deixa engambelar por esse tipo de
coisa. A classe média foi montada para ser idiotizada, é uma
espécie de capataz da elite entre nós.
Na
história do pensamento social brasileiro nenhum intelectual chegou
perto de romper com essas duas ideias, na sua opinião?
Florestan
Fernandes saiu um pouco disso porque estudou dilemas e conflitos de
classe; Celso Furtado foi outro genial que percebeu
coisas importantes que não têm nada a ver com esses esquemas.
Mas esses caras não reconstruíram a história do Brasil como um
todo. Foi essa a ambição que eu tive nesse livro porque eu percebi
que, para atacar esse negócio e dar nele um nocaute, é preciso
fazer o que eles [a elite] fizeram: explicar o Brasil desde o ano
zero. O que foi, como foi, por que somos hoje o que somos e o que
isso implica para o nosso futuro. Eu tentei fazer o que esses caras
não fizeram, apesar de termos tido críticos que discutiram aspectos
parciais de modo extremamente importante. Mas se não reconstruirmos
o todo, as lacunas do que construímos apenas parcialmente serão
invadidas pela teoria dominante, daí Florestan usar o
patrimonialismo e essa bobagem toda.
Esse
pessoal diz que nosso berço é Portugal e que de lá vem a nossa
corrupção – uma coisa que me dá raiva de tão frágil, já
que corrupção é um conceito moderno que implica a noção de
soberania popular que é coisa de 200 anos. O nosso
berço é a escravidão, que não existia em Portugal a não
ser para os muito ricos. Não era fundante, era marginal, nunca foi
mais de 5%, enquanto nós fomos montados nela. Essa teoria sobre o
Brasil, que se põe como científica, no fundo não
vale um centavo furado. É montada a partir de ilusões do senso
comum, como se a tradição cultural fosse transmitida pelo
sangue. São instituições concretas que nos moldam, é a
forma da família, da escola que faz com que sejamos o que somos.
No
livro você comenta que um dos principais problemas do Brasil é que
aqui não houve nenhum tipo de reflexão acerca da escravidão. Quais
são os efeitos práticos disso na sociedade brasileira, hoje?
Literalmente
tudo. Primeiro há a naturalização da miséria e do
sofrimento alheio. Todas as sociedades já foram um dia
escravocratas, apenas a Europa, no Ocidente, quebrou com a herança
escravista do mundo antigo. Isso significa que embora a pessoa seja
socialmente inferior a você, ela não será tratada como uma coisa,
mas como um ser humano. E com as lutas sociais por igualdade, são
produzidos processos coletivos de aprendizado na qual a dor e o
sofrimento do outro podem ser revividos em cada um. Nós, por outro
lado, mantivemos essa sub-humanidade. Nós não nos importamos
com a dor e com o sofrimento dos pobres, as evidências
empíricas são claríssimas como a luz do sol, inegáveis para
qualquer pessoa de boa vontade. A polícia mata, pobres,
indiscriminadamente — e faz isso porque a classe média e a
elite aplaudem. Houve recentemente essa coisa completamente
absurda e bárbara das matanças nos presídios, e a
classe média aplaudiu. São provas de que temos, como sociedade,
ódio aos pobres. Isso veio da escravidão, em que
havia uma distinção muito clara entre quem é gente e quem não é.
Por isso, não nos importamos com o tipo de escola e de hospital que
essa classe vai ter, por exemplo, o que é uma enorme burrice porque
estamos criando inimigos, ressentimento. A Alemanha fez um esforço
extraordinário para incorporar os 17 milhões que viviam na Alemanha
Oriental, tornando seu mercado mais forte, mas aqui a gente
simplesmente joga no lixo esse tipo de coisa porque nunca
criticamos a nossa herança escravocrata, porque acreditamos
nessa baboseira de herança portuguesa da corrupção.
Raymundo Faoro tratava a existência de senhores de escravos
como algo banal, quando na verdade o senhor de escravo deve
estar no centro [da análise], já que todas as outras instituições
vão se montar a partir daí. É uma continuidade absurda de 500 anos
e nós somos cegos a isso.
Como
essa continuidade aparece?
A
família dos muito pobres repete há 500 anos a família dos escravos
e eles ainda fazem o mesmo tipo de serviço que faziam antes, são
escravos domésticos. Fazem parte de famílias
desestruturadas, uma vez que na escravidão não se estimulava que o
escravo tivesse família porque era preciso humilhá-lo,
abatê-lo. Exatamente como acontece hoje. A escravidão
só prospera com o ódio ao escravo e o Brasil de hoje é marcado por
uma coisa central que só um cego não vê, o ódio ao pobre.
A humilhação do pobre. O PT caiu não por causa da corrupção –
que pode ter existido, é bom ver as provas -, mas porque tocou no
grande pecado de ter diminuído um pouquinho a distância entre as
classes. A distância desses 20% para os 80% é a pedra de
toque para esse acordo de classes absurdo no Brasil.
O
único país que se assemelha a nós no planeta é a África do Sul.
Vivemos um apartheid aqui. Governos de esquerda caem, acontecem
golpes de Estado toda vez que tentam diminuir essa distância entre
as classes. Com isso você constrói dois planetas dentro de um mesmo
país, é isso o que temos hoje. Como a classe média não pode
transformar esse seu ódio ao pobre em mensagem política – porque
isso seria canalhice e temos essa influência cristã
-, ela utiliza o pretexto da corrupção já dado pelos nossos
intelectuais no tema do patrimonialismo. Todas as elites estudaram em
todas as universidades essa mesma bobagem, todo jornal
repetiu e repete em pílulas essa mesma imbecilidade, fazendo com que
as pessoas internalizem isso como uma verdade absoluta.
Você
afirma no livro que a crise atual do Brasil é “também e
principalmente uma crise de ideias”. Partindo disso, quanto dessa
crise a gente pode colocar na conta da própria esquerda, já que ela
nunca se mobilizou para produzir outra interpretação do Brasil?
Ela
nunca se mobilizou, isso é uma fraqueza e eu acho que temos que
mudar isso. Eu decidi transformar a minha vida nisso, por exemplo.
Tem que começar em algum momento. Eu tive sorte porque morei muito
tempo fora do Brasil e de algum modo peguei um olhar externo.
Tem um grande filósofo que diz que o que propicia o conhecimento é
o fato de você conhecer aquele lugar, mas estranhá-lo,
ou todas as coisas viram naturais. E se tudo é natural você não
interroga, não há dúvida.
Um
estudo recente do Instituto Fórum Brasileiro de Segurança Pública
e do Instituto Datafolha mostra que, numa escala de 0 a 10, a
sociedade brasileira chega num índice de 8,1 na predileção
por posições autoritárias, principalmente entre jovens de 16 a 24
anos4.
Como interpreta esse dado?
É
de fácil explicação. A partir de 1980 há um partido que nasce de
baixo para cima. Nunca havia existido isso entre nós, um partido que
congrega trabalhadores rurais e urbanos – eu tenho muitas
críticas ao PT, mas é inegável que ele foi uma inflexão
importante nessa história da escravidão. E ele passa a
representar uma demanda por igualdade nessa sociedade perversamente
desigual. Quando você afirma que esse partido é uma
organização criminosa – usando no fundo aquela ideia do
populismo, de que tudo o que vem das classes populares é
estigmatizado – você está afirmando que a igualdade não é um
fim, mas um mero meio, uma estratégia de assalto ao Estado.
Ora, para onde vai a raiva justa dos 80% dos excluídos se ela
não pode ser expressa de modo político e racional? Vai ser expressa
de modo pré-político, ou seja, violência pura. A
Globo e a Lava Jato criaram Jair Bolsonaro, só o cego ou o mal
intencionado não vê. Esse namoro com o autoritarismo tem a ver com
o ataque midiático, esse conluio entre Rede Globo e Lava Jato, e eu
espero que esse pessoal pague por isso um dia.
No
limite, essa chave de leitura inaugurada por Sérgio Buarque serve
para justificar golpes de Estado e a Lava Jato, por exemplo?
Sim,
a Lava Jato não tem nada a ver com acabar com a roubalheira.
Até porque a roubalheira aumentou, isso é visível agora que temos
no governo uma turma da pesada. É claro que a corrupção dos
políticos existe, mas é uma gota no oceano. Esses caras são meros
lacaios do mercado, os office-boy, é o que
o nosso presidente é. Se você disser que o sistema inteiro é
corrupto e que ele foi montado assim para que o mercado pudesse
comprá-lo, aí você estaria esclarecendo alguma coisa, mas
quando se diz que apenas um partido, aquele das classes populares,
rouba, isso é uma mentira e um crime.
Vê
saídas para essa tendência autoritária observada na sociedade
brasileira?
Não
tem nenhum outro modo, os seres humanos precisam ter ideias, sem
ideias não dá para ir a lugar algum. É claro que isso tudo pode
ficar ainda pior, a gente pode chegar a formas fascistas, mas o
que a elite quer é dinheiro, se for por uma ditadura militar, se for
matando gente, não tem nenhuma importância. Fato é que
nesse instante de crise estamos com as vísceras à mostra e isso é
uma oportunidade de vermos a podridão desse esquema que foi montado
por essa elite usando e imbecilizando não só a classe média,
e retirando a possibilidade de levarmos a vida de modo reflexivo. O
que esse pessoal nos tirou foi a possibilidade de aprendizado da
sociedade brasileira baseado na reflexão. E isso é impagável.5
O
filme “Uma história de amor e fúria”6
https://www.youtube.com/watch?v=KtxXbBDotrM&t=170s,
recupera um pouco esse tipo de história de que se está discutinho.
É uma história a partir do povo índio, resgatando o corpo do
índio, numa sociedade distópica. Também é a história do povo
negro, que ainda não foi contada.
O
documentário “CHICO SCIENCE vs ARIANO SUASSUNA: BATTLE FOR
PERNAMBUCO #meteoro.doc”
https://www.youtube.com/watch?v=9tEOHb3vClQ
, afirma que “Pernambuco viu nascer dois grandes movimentos com
visões antagônicas a respeito da cultura: Ariano Suassuna fundou o
movimento Armorial, preocupado em preservar a pureza da cultura
local, já Chico Science, com seu Manguebeat, queria misturar para
transformar. Será que você precisa escolher um lado nesse
conflito?”.
Esse
conflito é real e interligado ou representa exatamente o assunto com
que se está exatamente travando uma batalha conceitual?
Fábula
das Três Raças
O que está a se discutir é a
ideologia dominante no país, para que se possa compreender o tamanho
do problema, quais as armas do inimigo a ser vencido, o texto
subjacente do Brasil, e o motivo pelos quais somente saídas
autoritárias podem frear, arrefecer os interesses dos negros e
índios.
“Digressão:
A Fábula das Três Raças, ou o Problema do Racismo à Brasileira.
(…) Destas, vale destacar o nosso racismo contido na «fábula das
três raças» que, do final do século passado até os nossos dias,
floresceu tanto no campo erudito (das chamadas teorias científicas),
quanto no campo popular. (…) Do mesmo modo, ele [antropólogo
social] não é também o sagaz contador de casos, capaz de alinhavar
historietas de negros escravos, lendas de índios idealizados ou
episódios históricos de damas, duques e príncipes portugueses, na
nossa graciosa fábula das três raças. (…) Agora, porém, é
preciso prosseguir na especulação do sentido psicológico da nossa
fábula das três raças e de suas implicações para uma
antropologia brasileira que se deseja realmente libertadora. (…)
Essa fábula ó importante porque, entre outras coisas, ela permite
juntar as pontas do popular e do elaborado (ou erudito), essas duas
pontas de nossa cultura. Ela também permite especular, por outro
lado, sobre as relações entre o vivido (que é frequentemente o que
chamamos de popular e o que nele está contido) e o concebido (o
erudito ou o científico — aquilo que impõe a distância e as
intermediações). (…) É impressionante também observar a
profundidade histórica desta fábula das três raças. (…) E mais,
como essa triangulação étnica, pela qual se arma geometricamente a
fábula das três raças, tornou-se uma ideologia dominante,
abrangente, capaz de permear a visão do povo, dos intelectuais, dos
políticos e dos acadêmicos de esquerda e de direita, uns e outros
gritando pela mestiçagem e se utilizando do «branco», do «negro»
e do «índio» como as unidades básicas através das quais se
realiza a exploração ou a redenção das massas. (…) Creio que
ela [ideologia] veio na forma da fábula das três raças e no
«racismo à brasileira», uma ideologia que permite conciliar uma
série de impulsos contraditórios de nossa sociedade, sem que se
crie um plano para sua transformação profunda. (…) Pode-se, pois,
dizer que a «fábula das três raças» se constitui na mais
poderosa força cultural do Brasil, permitindo pensar o país,
integrar idealmente sua sociedade e individualizar sua cultura. Essa
fábula hoje tem a força e o estatuto de uma ideologia
dominante: um sistema
totalizado de ideias que interpenetra a maioria dos domínios
explicativos da cultura. Durante muitos anos forneceu e ainda hoje
fornece, o mito das três raças, as bases de um projeto político e
social para o brasileiro (através da tese do «branqueamento» como
alvo a ser buscado); permite ao homem comum, ao sábio e ao ideólogo
conceber uma sociedade altamente dividida por hierarquizações como
uma totalidade integrada por laços humanos dados com o sexo e os
atributos «raciais» complementares; e, finalmente, é essa fabula
que possibilita visualizar nossa sociedade como algo singular —
especificidade que nos é presenteada pelo encontro harmonioso das
três «raças». Se no plano social e político o Brasil é rasgado
por hierarquizações e motivações conflituosas, o mito das três
«raças» une a sociedade num plano «biológico» e «natural»,
domínio unitário, prolongado nos ritos de Umbanda, na cordialidade,
no carnaval, na comida, na beleza da mulher (e da mulata) e na
música...”. 7
Se
é verdade o que diz Marília Paula dos Santos (2017) citando Da
Matta (1987), o movimento “armorial”, na atualidade, é
manifestação, é a verdadeira expressão do que deve ser combatido
culturalmente, visto que se refugia num mito, num absurdo, que é a
“fábula das três raças”:
“Posteriormente,
o antropólogo Roberto Da Matta escreveu sobre a “fábula das três
raças” como fator de justificativa e de uma visão errônea sobre
o atraso econômico do Brasil, de maneira que nessa junção se
sobressaem a “preguiça do índio”, a “melancolia do negro” e
a “cupidez e estupidez do branco lusitano” (DA MATTA, 1987, p.
59, 62). Da Matta8
enfatiza que: 'É impressionante também observar a profundidade
histórica desta fábula das três raças. Que os três elementos
sociais – branco, negro e indígena – tenham sido importantes
entre nós é óbvio, constituindo-se sua afirmativa ou descoberta
quase que numa banalidade empírica. É claro que foram! Mas há uma
distância significativa entre a presença empírica dos elementos e
seu uso como recursos ideológicos na construção da
identidade social, como foi o caso do brasileiro. […]. E me
parece sumamente importante considerar como esse triângulo foi
mantido como um dado fundamental na compreensão do Brasil pelos
brasileiros. E mais, como essa triangulação étnica, pela
qual se arma geometricamente a fábula das três raças,
tornou-se uma ideologia dominante, abrangente, capaz de permear a
visão do povo, dos intelectuais, dos políticos e dos acadêmicos de
esquerda e de direita. Uns e outros gritando pela mestiçagem e se
utilizando do “branco”, do “negro” e do “índio” como as
unidades básicas através das quais se realiza a exploração ou a
redenção das massas'. (DA MATTA, 1987, p. 62 – 63). Criado então
o mito, para justificar a suposta autenticidade brasileira, seria
necessário buscar elementos que estivessem presentes nas três raças
já citadas. E é com base nesse ser brasileiro que permeia o
consciente e o inconsciente social, que o Movimento Armorial buscará
construir, como veremos, a base ideológica que dá origem aos seus
trabalhos artísticos. Essa necessidade de a origem de uma
raiz autenticamente brasileira está relacionada com o desejo de
afirmar uma identidade nacional”. 9
Tainara
Jovino Dos Santos (2015), citanto também Da Matta (1987), aprofunda
um pouco mais o que se denomina de fábula das “três raças”, em
que a divisão entre trabalho intelectual e o manual10
está travestida de um invólucro racista.
“Neste
sentido, o etnocentrismo colonial e a classificação racial
universal, ajudam a explicar a razão pela qual os europeus foram
levados a sentirem-se naturalmente superiores a todos os demais povos
do mundo. Neste os grupos
negros e indígenas foram representados como incapazes e servis. Os
índios eram comparados a macacos e porcos, em uma visão mitificada,
como selvagens, pela sua falta do que aos olhos estrangeiros era a
“civilização”. Negros, mestiços e índios não eram vistos
como raças, mas como subespécies. Os teólogos discutiram mais de
cem anos se eles teriam alma ou não (SANTOS, 198411).
As representações negativas e estereotipadas eram tanto sobre suas
características físicas como de seus costumes, hábitos, crenças e
cultura. Com o colonialismo ainda foram geradas uma série de
ideologias [Cada fase do espírito humano o leva a criar um conjunto
de ideias para explicar a totalidade dos fenômenos naturais e
humanos, essas explicações constituem a ideologia de cada fase.
Ideologia é sinônimo de teoria, a organização sistemática de
todos os conhecimentos científicos. Sendo conhecimento científico
das leis necessárias do real e sendo corretivo das ideias comuns de
uma sociedade, a ideologia passa a ter um papel de comando na prática
dos homens, que devem submeter-se aos critérios e mandamentos do
teórico antes de agir. A ideologia durante toda a história serviu
de instrumento de dominação econômica, social e política,
mascarando a realidade social e ocultando a verdade dos dominados
(Marilena Chauí, O que é ideologia, 1994, p. 11)12]
que influenciaram e
continuam a influenciar no fortalecimento e reprodução do racismo,
desigualdade e segregação.
Estas ideologias contribuem e fundam o tipo específico do racismo à
brasileira e impede a compreensão das origens da negação de nossa
identidade. A “fábula das três raças” [A “fábula das três
raças” ou o “triângulo de raças” segundo Da Matta (1987) foi
mantida como um dado fundamental na compreensão do Brasil pelos
brasileiros visto que essa triangulação étnica se tornou uma
ideologia dominante, abrangente, capaz de permear a visão do povo
gritando pela mestiçagem e se utilizando do elemento branco, negro e
índio como unidades básicas através dos quais se realiza a
exploração ou a redenção das massas. Essa fábula permite juntar
as pontas do vivido, do popular e o que nele está contido], por
exemplo, se constitui uma das mais poderosas forças culturais do
Brasil, forneceu e fornece as bases de um projeto político e social
para o brasileiro, permite ao homem comum, ao sábio e ao ideólogo
conceber uma sociedade altamente dividida por hierarquizações como
uma totalidade integrada por laços humanos dados com o sexo e os
atributos raciais complementares,
permite visualizar de forma errônea a sociedade como algo singular
(DAMATTA, 1987). É claro que os três elementos sociais; branco,
negro e o índio são reais e foram obviamente importantes, mas,
segundo o autor estes elementos foram usados equivocadamente na
construção da identidade social, com uma hierarquização das
contribuições, onde os
negros e índios ficam com as contribuições superficiais ligadas
apenas as artes e a força braçal e os brancos com a parte
intelectual que realmente
teria desenvolvido o Brasil”.13
E
o movimento “Manguebeat”, até que ponto é diferente? A música
“Etnia”, não sugere muitas diferenças entre um movimento e
outro.
“Etnia”:
Esta música é uma
celebração à miscigenação
e ao hibridismo. Segundo a letra, não interessa sua origem, raça,
credo, pois somos todos iguais, e assim devem ser tratadas todas as
culturas (como diz a letra, “o seu e o meu são iguais”). É
importante o processo de mistura, e por isso temos: o “hip-hop na
minha embolada”, o “maracatu psicodélico”, e o “berimbau
elétrico”. Na questão da forma musical, o que se tem aqui é uma
grande mistura de ritmos e estilos, ao mesmo tempo em que ouvimos
scratchs do DJ remetendo ao hip-hop, a percussão toca a rítmica do
xaxado e do funk, misturando as duas batidas – já que, em diversos
momentos da música, os dois ritmos são justapostos. Enquanto isso,
a guitarra e o baixo “brincam” de variar entre o rock e o groove
do funk. Ao analisar essa música, Herom Vargas levanta a hipótese
de ela ser uma crítica ao movimento Armorial, pois a arte é do
povo, e o povo é da arte, e não daqueles que dizem fazer arte com a
arte do povo (“E não o povo na arte de quem faz arte com o povo”)”
(…) “ETNIA. Somos todos
juntos uma miscigenação/E não podemos fugir da nossa etnia/Índios,
brancos, negros e mestiços/Nada de errado em seus princípios/O
seu e o meu são iguais/Corre nas veias sem parar/Costumes, é
folclore é tradição/Capoeira que rasga o chão/Samba que sai da
favela acabada/É hip hop na minha embolada/É o povo na arte/É arte
no povo/E não o povo na arte/.De quem faz arte com o povo/Por de
trás de algo que se esconde/Há sempre uma grande mina de
conhecimentos/e sentimentos/Não há mistérios em descobrir/O que
você tem e o que gosta/Não há mistérios em descobrir/O que você
é e o que você faz/Maracatu psicodélico/Capoeira da Pesada/Bumba
meu rádio/Berimbau elétrico/Frevo, Samba e Cores/Cores unidas e
alegria/Nada de errado em
nossa etnia/14”.15
A
música “etnia”, é do ano de 1996.
“Chegou
a hora de viajar sobre uma das bandas nacionais que mais merecia
estar aqui desde o começo. Como de costume, eu não contava com o
entendimento mínimo necessário para falar de tal magnitude que é a
banda de Chico Science e Nação Zumbi. Ainda não tenho tal
entendimento, é verdade, mas viagens não param de chegar cada vez
que escuto o disco "Afrociberdelia" de 1996, por isso me
arriscarei, mesmo pisando em solo sagrado. Segue a letra:
Etnia(Science/Maia).
Somos
todos juntos uma miscigenação
E
não podemos fugir da nossa etnia
Índios,
brancos, negros e mestiços
Nada
de errado em seus princípios
O
seu e o meu são iguais
Corre
nas veias sem parar
Costumes,
é folclore é tradição
Capoeira
que rasga o chão
Samba
que sai da favela acabada
É
hip hop na minha embolada
É
o povo na arte
É
arte no povo
E
não o povo na arte
De
quem faz arte com o povo
Por
de trás de algo que se esconde
Há
sempre uma grande mina de conhecimentos
e
sentimentos
Não
há mistérios em descobrir
O
que você tem e o que gosta
Não
há mistérios em descobrir
O
que você é e o que você faz
Maracatu
psicodélico
Capoeira
da Pesada
Bumba
meu rádio
Berimbau
elétrico
Frevo,
Samba e Cores
Cores
unidas e alegria
Nada
de errado em nossa etnia
Vamos
à andança... O
principal motivo pela minha demora em me render ao Nação Zumbi foi
um: preconceito. É triste falar, mas é feliz reconhecer e
transcender tão pobre sentimento. Quando tentaram me apresentar
essa banda há uns 5 anos atrás eu simplesmente fechei meus ouvidos.
Naquela época eu era ainda mais tolo do que hoje e pré-julgava uma
banda simplesmente por ser brasileira. Com os anos passando e os
ensinamentos de vários Mestres me iluminando fui conhecendo mais
desse lendário grupo de Recife que mistura como ninguém nesse país
o melhor do Rock, Punk, Samba, Funk e Manguebeat com letras de um
nível tão elevado que coloca Chico Science - principal compositor -
no patamar de grande poetas da atualidade. Faço das palavras de
Marcelo D2 as minhas: "Salve os verdadeiros arquitetos da música
brasileira. Salve Chico Science". E já que comecei o texto
falando sobre preconceito, é justamente sobre isso que canta essa
música sensacional. Etnia começa com uma estrofe ótima:
"Somos todos juntos uma miscigenação e não podemos fugir da
nossa etnia. Índios, brancos, negros e mestiços: nada de errado em
seus princípios". Ouça a voz da sabedoria. Chico quer
dizer com essa letra o mesmo que U2 disse em One e Jack Johnson em
Crying Shame: somos todos um. Não há separação entre você e eu,
nem entre você e seu vizinho. Somos todos uma grande rede de seres
interligados e não é por causa de cores de pele ou de sotaques que
seremos separados. Não mesmo. No caso da canção Etnia há ainda
uma foco maior no nosso país, sempre conhecido por sua grande
variedade de raças e culturas. Esse fato, que deveria ser apenas
positivo, infelizmente também é o causador de mais
preconceito e ilusões como superioridade de raças ou regiões.
Mas Chico está aqui pra lutar contra isso e com ele eu irei até o
fim. Ao som da guitarra pesada e excelente de Lúcio Maia, os versos
são cantados rapidamente com uma energia perfeita. Maia também
assina a letra da canção, talvez daí o entrosamento são ótimo
entre guitarra e voz. Acompanhando as levadas Hard, a bateria de
Pupilo também mantém nosso espírito em nível alto de poder. No
meio da canção, o grupo conduz uma virada gloriosa onde Chico solta
os versos mais marcantes da música: "Não há mistérios em
descobrir o que você tem e o que gosta. Não há mistérios em
descobrir o que você é e o que você faz". Ao fundo, no meio
das palavras, podemos ouvir um leve som de metais viajantes que
colaboram em muito com a viagem. Se a mensagem ainda não ficou
clara, uma nova subida empolgante traz diversos ícones do nosso país
até explodir na frase que encerra a obra: "Nada de errado
em nossa etnia!" Abra sua mente, conheça-se, descubra o
que te faz feliz e o que te move. E o mais importante: respeite os
mesmos atributos de outras pessoas. Melhor ainda: admire-os e se
ispire com eles ;).” 16
Observando
a história de vida de Chico Science, em
seu percurso em direção ao pensamento de Josué de Castro, tudo
sugere uma ruptura linguística com o que havia na tradicional
cultura em que nasceu. Essa ruptura foi interpretada como uma
inovação musical. No entanto, ao citar Josué de Castro, essa
ruptura tem a ver com uma nova linguagem que interpreta o real.
Existe uma disputa sobre o real. Notava-se, também, como é
conhecido na filosofia brasileira, a tentativa da conciliação de
ideias, o ecletismo, enlouquecido de si mesmo, porque não tem
critério algum.
“[Em]
13 de março de 2017, hoje Chico
faria 51 anos, nascido em Olinda, Pernambuco em 13 de março 1966,
Francisco de Assis França, filho de funcionário público
aposentado, o Sr. Francisco de Assis, e mãe dona de casa, a Senhora
Rita França, de origem muito humilde cresce na periferia de Olinda,
no bairro de Rio Doce, estudava no colégio (…) Compositor
Antônio Maria com seus
três irmãos, Jamersson, Jéferson e Goretti. Frequentavam a igreja
do bairro, Comunidade São Francisco de Assis, onde tiveram o
primeiro contato com a música, nas aulas de violão e canto no
coral. Na década de 1980, Francisco de Assis França, com amigos do
bairro freqüentava os mangues em busca de caranguejos para
vendê-los, o pouco dinheiro arrecadado somado a uma contribuição
vinda por parte dos pais era o suficiente para que Chico pudesse
participar dos bailes de periferia da cidade. Nessa mesma época era
novidade em território brasileiro o Hip Hop, então por toda parte
era comum ver os jovens aderindo à novidade, rodas de break,
grafiteiros, ao som do rap,onde MC’s mandavam suas rimas enquanto
que os DJ’s faziam seus screatchs,
e nessas festas de periferia Chico conheceu o movimento e também o
parceiro de jornada Jorge Du Peixe, que atuava no movimento hip hop
como grafiteiro, Chico e Jorge formaram então a Legião Hip Hop, que
era a forma de se divertir dentro da cultura e com toda sua corda,
esse era o primeiro grupo de Chico Vulgo, o apelido da época, onde
saiam para mostrar os passos de Break, atuando como B.Boys e
grafitando os muros da cidade. Com o crescimento do hip hop no
Brasil, Chico criou a Orla Orbe, um grupo de rap, trazendo a música
negra americana como foco, tinha como inspiração LL Cool Jay e Run
DMC. O funk e o soul eram o estilo da Orla Orbe, que buscava embalar
as noites com música dançante, mas também pensante, já nascia daí
uma das idéias do revolucionário Manguebit: “A Diversão levada a
sério”. A Banda teve seu inicio em 1986, Chico Vulgo conseguiu
espaço na rádio Transamérica de Recife para divulgar os bailes de
periferias e shows da Orla Orbe, quando encontra com Doktor Mabuse e
Fred 04, que gravavam o programa “Novas Tendências” na emissora,
logo se instalaria uma amizade entre os três, o que anos mais tarde
seria o núcleo fundador do Manguebeat. Da mesma época do grupo Orla
Orbe, e o encontro com o Mabuse, (ou HD Mabuse), vem um novo
experimento o Bom Tom Radio, também com o inseparável parceiro de
infância Jorge Du Peixe, e como equipamentos modesto e até mesmo
arcaicos, pra não dizer pré-históricos, como brincavam anos mais
tarde. Da experiência veio a letra da música A Cidade, porém é
claro em uma versão mais bruta, e a forma cantada é o rap. Chico
apesar de estar totalmente integrado no universo hip hop, sentia a
necessidade de explorar novos ritmos e conceitos, então em 1988,
junto com Du Peixe a convite de um amigo foram assistir ao ensaio de
uma banda de garagem e conheceram Lúcio Maia, um guitarrista que não
levava o som muito a sério, Chico e Jorge ficaram só observando os
ensaios até um dia perderem a timidez, e em cima da guitarra de Maia
cantaram seu rap, funk e soul da característico da Orla Orbe, o que
chamou a atenção de Lúcio Maia e veio a influenciá-lo. No mesmo
ano, em homenagem a um desenhista francês, Jaques de Loustal, que
desenhava capa de bandas de rock, Chico, Lúcio Maia e Jorge, junto
com o baixista Alexandre Dengue e o baterista Vinícius Enter, ambos
vizinhos de bairro e amigos de infância de Lúcio Maia, formaram a
banda Loustal, que tinha a base do rock dos anos 60 e misturavam com
o funk/soul que estava explodindo na época, decorrente ao hip hop,
assim como o rap da Orla Orbe. Nessa
fase Chico escreveu as músicas Etnia e Manguetown.
Em paralelo ao Loustal, ainda em 1988, Chico Science mantinha a Bom
Tom Radio, H.D. Mabuse tocava baixo, Jorge Du Peixe ficava na bateria
eletrônica, com equipamentos altamente defasados e usando um
cubículo como estúdio fizeram algumas “paradas” que
posteriormente viraram músicas conhecidas como “Samba de
Lado”,”Maracatu de Tiro Certeiro” de Jorge Du Peixe,”O
Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu” e novamente a
música “A Cidade” do Orla Orbe é gravada pela Bom Tom Rádio,
assim como outras músicas feitas por Chico na época do hip hop do
Orla como Negros”, “Valor” e “Roda, Rodete e Rodiano”,
foram gravadas pela Bom Tom Rádio. H.D. Mabuse conhecia Chico
Science, Jorge Du Peixe, Lúcio Maia e Alexandre Dengue do Bairro do
Rio Doce em Olinda. Porém as andanças por outras áreas
renderam-lhe amizades como as de Fred Zeroquatro, Renato L., Xico Sá,
e DJ Dolores. Esses últimos nomes são músicos e jornalistas do
bairro de Candeias, de classe média de Recife, porém longe do
centro da cidade. H.D. Mabuse permitiu o encontro entre os dois
grupos de amigos, o pessoal do Rio Doce e de Candeias, bairros de
periferia, cujos habitantes foram se encontrar no centro, como
lembrou Du Peixe anos mais tarde em uma entrevista, assim formou-se
uma forte amizade onde eles trocavam figurinhas sobre cinema, RPG,
conflitos étnicos, a cena pernambucana, política, discutiam sobre
quadrinhos, e é claro, sobre música também.Por
brincar e ao mesmo levar a sério essa mistura de rap, funk/soul com
rock, psicodélica Chico ganhou a alcunha de alquimista dos ritmos, e
por sua imensa paixão pela ficção cientifica recebeu o apelido de
Science, que vem de Ciência, apelido dado por Renato L. que tinha um
tio com esse apelido, que também era fissurado por cinema de ficção
cientifica, Renato acho interessante esse nome para Francisco França,
que misturava ritmos em alquimia como um personagem de ficção
cientifica. Agora com a
alcunha de Science, Chico viu no amigo Fred Zeroquatro, um
companheiro para as misturas musicais, já que o rapaz de Candeias
tinha uma forte participação na cena punk de Recife, no cenário
Pré-Mangue. Chico Science leu o livro “Homens
e Caranguejos” de Josué
de Castro, um escritor
pernambucano autor do livro “Geografia
da Fome” que levava em seus
textos discursos e estudos sobre a fome de modo universal, indicado
ao Nobel da Paz e vencedor do Prêmio Internacional da Paz, Chico já
se identificava com o escritor, mas o fato de ser de origem humilde e
o personagem central do romance “Homens
e caranguejos” ser de
certo modo mais um Francisco de Assis ou Jorge Du Peixe, fez
com que o livro fosse sua biografia também ao descobrir o mundo
quando se depara com a miséria da lama,
as brincadeiras e referencias ao mangue, recife passa a se chamar
Manguetown, o que originou a letra de mesmo nome, ainda com o grupo
Loustal, a cidade construída em cima da lama dos manguezais, onde
habitam os homens caranguejos, ou posteriormente os mangueboys a
forma de modernizar o termo, já que os anos 90 começam com uma
série de acontecimentos tecnológicos que mudam a cultura do
brasileiro, aproveitando o ensejo o núcleo base, ou seja, a galera
de Candeias e Rio Doce, de forma metafórica, pensa na idéia de
injetar um novo sangue no mangue, para não deixar a cidade morrer,
visto que os manguezais são as veias de Recife, e forma adotada de
dar uma nova adrenalina a Manguetown é fincar uma parabólica na
lama afim de captar as ondas das freqüências mundiais, ou seja
incluir aos costumes tradicionais o que existe de novo no cenário da
música pop, e pela primeira vez ouve-se falar de chip, transistor,
parabólica, antena, junto as palavras caranguejo, mangue, lama.
Science continuava com sua banda Loustal, fazia seus shows e suas
letras já apresentavam fragmentos do mangue, como por exemplo,
Manguetown, a letra se refere à cidade com seus cheiros peculiares,
sobre a situação de pobreza de um homem que quer apenas se
divertir. Como o Loustal não garantia o sustento de Chico, o mesmo
ainda tinha que trabalhar, e foi através de seu trabalho na Emprel
(Empresa Municipal de Processamento Eletrônico) em Recife, que
conheceu Gilmar Bolla 8, músico percursionista de um bloco de
samba-reggae denominado Lamento Negro. Bolla 8 insistia para que
Science fosse até o Centro Cultural Daruê Malungo, em Peixinhos,
bairro da periferia de Olinda. Demorou mas Chico decidiu ir até lá,
e quando chegou se encantou com os tambores de maracatu do Lamento
Negro, e pensou: “Por que não misturar o som do tambor com os das
guitarras psicodélicas do Loustal?”, essa seria mais uma proposta
que sua comparação entre o mangue e a tecnologia, sendo que a o
rock e o rap sempre presente em Science seriam a modernidade
tecnológica e os ritmos regionais como o maracatu, por exemplo, em
analogia, seria o mangue, algo cultural já existente, que seria
reprocessado. Chico Science & Lamento Negro, foi uma banda
experimental de Chico junto sua musicalidade aos tambores e assim
participava de algumas apresentações.O ano era de 1991, quando tudo
se encaixava perfeitamente, as brincadeiras de boteco, os
textos de Josué de Castro,
a analogia do mangue com o Pernambuco, os ritmos regionais sendo
reprocessados com ritmos novos, a eletricidade na lama, foi no Bar
Catinho das Graças que Chico Science entrou com um sorriso no rosto,
e entre um gole e outro de uma cerveja antes do almoço, anunciou uma
nova batida: O Mangue.Então acontece o primeiro show, realizado em
1991 no Espaço Oásis, em Recife. E após um ano tentando convencer
o Lamento Negro a doar sua musicalidade o Cientista ou Alquimista dos
ritmos desenvolveu a seguinte equação: Loustal + Lamento Negro =
Chico Science & Nação Zumbi”.17
(…) “Porém, foi-se quase um ano até o nome Chico Science
e Nação Zumbi oficializar-se como como banda, Chico ainda se
apresentava com Loustal e com o Lamento Negro, ao mesmo tempo em que
o nome mangue
já havia explodido. O Bloco Lamento
Negro, após ceder
componentes para o Nação Zumbi, ainda permaneceu com suas
atividades, ou seja, não deixou de existir, até por que é um
projeto social com crianças e adolescentes no Chão de Estrelas,
outro bairro carente de Olinda. Chico deixou o Loustal para estar a
frente da Nação Zumbi, todavia o Loustal continuava, agora com
Jorge Du Peixe nos vocais, e ainda tinha a presença de Lúcio Maia e
Dengue, todos viam o Loustal como um projeto paralelo ao Nação
Zumbi, porém a importância do CSNZ fez com que pouco a pouco o
Loustal deixa-se de existir. A primeira formação de Chico Science e
Nação Zumbi tinha aproximadamente 15 integrantes, era uma
desorganização total no palco, Lúcio e Dengue reclamavam que não
conseguiam ouvir o som de seus instrumentos ao meio de tantos
tambores, e a principio foram contra essa fusão, mas Science
conseguiu convencê-los de que algo grande estaria por vir. Com tanta
gente na banda era inevitável que uns e outros faltassem aos ensaios
e não levavam a sério o trabalho, talvez por não acreditar, Toca
Ogan, um dos percussionistas, não comparecia aos ensaios, todos
davam como desistente da banda, e de repente em um show, ele aparece
tocando seu instrumento e surpreende e supera a todos, mostrando
grande capacidade de interação com os demais. Desse modo, a Nação
Zumbi foi enxugada e ficaram apenas 8 integrantes, sendo eles: Chico
Science, Jorge Du Peixe, Lúcio Maia, Alexandre Dengue, Gilmar Bolla
Oito, Toca Ogam, Gira e Canhoto. Du Peixe, foi convidado por Chico a
compor a Nação Zumbi, logo após a extinção dão Loustal, porém
para o amigo só restaria espaço nos tambores, onde Jorge assumiu
com maestria, mostrando a sua versatilidade musical. Após ouvir o
som do Lamento Negro e propor uma fusão Chico diz fazer a batida do
mangue um novo som, seria prepotência de Science dizer criar um novo
estilo musical? Hoje vimos que não foi só um estilo musical, mas
uma cena musical de um estado quase defasado em música, pois como
Fred 04 disse, já havia muito tempo que não saia nada de grande do
Recife, o último foi Alceu Valença, e a as pessoas já não estavam
mais ouvindo esse som.Com essa proposta de mesclar e usar termos do
universo Mangue em suas letras, Chico Science e Nação Zumbi, como
dito anteriormente, reprocessaram a música Manguetown, que virou
hino dessa proposta. Como tudo fora uma brincadeira que tomou
proporção gigantesca de âmbito mundial, nada foi premeditado, a
idéia era de mistura de ritmos, e de realizar uma cooperativa, outro
termo muito utilizado na época, tanto é que as músicas eram
compostas em conjunto entre a nação Zumbi e o Mundo Livre S/A, e os
amigos que não atuavam como músicos, ajudaram na divulgação, como
o caso de Renato L. e Mabuse. Fred 04 trabalhou em uma emissora de
Pernambuco, a TV Uva, como uma espécie de repórter de documentários
(Free Lancer) e antes de Chico de pensar no Mangue como música, 04
já havia feito uma espécie de documentário sobre os manguezais,
então foi juntar o útil ao agradável, já que a imprensa, a
principio pernambucana, e em seguida a brasileira de modo geral,
queria uma resposta sobre que som é esse que vem do Pernambuco? Que
história é essa de parabólica fincada na lama? Então nasce o
primeiro manifesto do Manguebit: Caranguejos com Cérebro. A cena em
Recife estava formada. Músicos tocavam juntos, e juntos distribuíam
panfletos, emprestavam instrumentos, e até letras em conjunto eram
feitas, isso era uma cooperativa na música pernambucana, e a
organização em meio ao caos chamou a atenção de olhos de todo o
Brasil, assim a MTV Brasil foi até o Pernambuco para fazer uma
matéria sobre a cena do mangue. Havia festivais em Pernambuco como o
Abril Pro Rock em que os shows eram lotados apenas por bandas grandes
nacionalmente, mas naquela época a galera estava em massa para ver
Mundo Livre S/A e Chico Science e Nação Zumbi. O Manguebeat foi
apresentado ao resto do Brasil, e veio presentear os ouvidos dos
demais brasileiros. Ainda em Recife, a “cooperativa mangue” fez
uma série de ‘shows’ denominados “Da
Lama Ao Caos” e
arrecadaram fundos para uma turnê pelo sudeste do país. A novidade
de algo denominado Manguebit,
fez pessoas arriscarem palpites sobre o futuro da música e das
bandas, alguns viram oportunidades de ouro para fazer dinheiro com os
pernambucanos, que a essa altura buscavam um lugar ao sol. Desse modo
a gravadora Banguela Records, do grupo Titãs, fechou contrato com o
Mundo Livre S/A, enquanto a multinacional Sony ficou com Chico
Science e Nação Zumbi. Foram gravados, então, os dois primeiros
discos do Manguebeat: Samba Esquema Noise do Mundo Livre S/A — 1994
e o Da lama ao Caos de Chico Science e Nação Zumbi — 1994,
com essas duas obras estava fincado o conceito Manguebeat, que provou
que não era apenas uma forma de fazer música misturando ritmos
regionais aos modernos, mas sim que era uma nova cultura, ou contra
cultura como alguns preferem chamar, era a necessidade de sair do
mormaço pernambucano, que foi obtido inicialmente através da
música, mas refletiu em outros segmentos da sociedade como os
Quadrinhos, Esculturas, Cinema, Moda, Dança e na literatura. Com o
sucesso no sudeste do Brasil, aconteceram 0s shows pela Europa,
turnês mundiais, cantando ao lado de ídolos como Gilberto Gil em
New York e os Páralamas do Sucesso na Alemanha, porém devido a
inexperiência, o jovem percursionista Canhoto oriundo do Lamento
Negro, humilde de origem acabou fazendo coisas que os outros
integrantes da Nação não aprovaram, e isso resultou em sua saída
da banda, dando lugar para o baterista Pupilo. Assim, colhendo frutos
do sucesso, a Nação Zumbi, gravou seu segundo disco Afrociberdelia,
em 1996.O nome resulta da mistura de África com Cibernética e
psicodélica, a última música do CD Da Lama Ao Caos, já apontava
para o novo termo que Science e amigos inventaram, a faixa é Coco
Dub (Afrociberdelia). E
nesse álbum puderam colocar músicas que não couberam no primeiro
disco, como Manguetown, Etnia e Sangue de Bairro, essa última
composta para o filme Baile Perfumado, junto com Angicos [A música
Angicos está no CD Trilha Sonora do Filme Baile Perfumado, de
199618],
que não entrou em nenhum CD da Banda, enquanto que Manguetown e
Etnia já existiam desde da época de Loustal.
Outra canção de sucesso do disco é Maracatu Atômico, de Nelson
Jacobina e Jorge Mautner, que foi, originalmente, gravada em 1973 por
Gilberto Gil, e em 1974 pelo próprio Jorge Mautner, e então em 1996
é feita a releitura por CSNZ. O sucesso de Chico Science & Nação
Zumbi estava consolidado, sendo freqüentemente convocados para
participações com artistas já consagrados como Fernanda Abreu, em
Rio 40º e Arnaldo Antunes em Inclassificáveis, Max Cavallera, líder
da Banda de Heavy Metal Sepultura, queria fazer um projeto paralelo
com o malungo Chico Science, porém nunca chegou a dar certo devido a
perca prematura do ídolo nordestino, mas o projeto já tinha até
nome “Almas Sebosas” com Chico e Cavaleira nos vocais e um misto
de maracatu com heavy metal nos instrumentais. Porém, por intrigas
com os músicos do Sepultura, Max deixou a banda e montou um novo
grupo, o Soulfly, tendo como parceiro, Lúcio Maia da Nação Zumbi,
e a nova banda de Cavallera já nasce como herdeira do Mangue, tendo
músicas como Sangue de Bairro, de Chico e outras que são
inspirações pura como Cangaço e Molambo. No ano de 1997, ao dia 2
de fevereiro, aconteceu à morte de Chico Science, o movimento mangue
sente sua falta. Science perde controle do Fiat Uno que dirigia e se
choca contra um poste, fãs de todo mundo se despedem de uma mente
brilhante, dentre eles Ariano Suassuna, que frequentemente se
desentendia com Chico devido a sua posição armorial [Ariano
Suassuna, escritor de sucesso, autor de livros como O
Auto da Compadecida e A
Pedra do Reino, era líder do
movimento Armorial, que defendia a conservação dos ritmos
nordestinos, sendo rigorosamente contra a fusão de outros estilos as
musicas regionais pernambucanas. Em resumo era contra o Manguebit19]
de não gostar da mistura de ritmos regionais com os mais modernos. A
morte de Chico foi um choque para os mangueboys, mas o movimento
soube atravessar essa fase de perca incomparável, e mesmo não sendo
tão difundido como na época de Science,
o mangue vive, talvez precisando que seja injetada nova energia na
lama.Logo veio o segundo Manifesto do Movimento Mangue, também
escrito por Fred Zeroquatro”.20
Helio
Oiticica21
(1968), citado por Ana Paula Pacheco Godoy (2013), embora fale no
mito da miscigenação, percebe-se muito bem a intenção real desse,
ao afirmar que “só o negro e o índio não capitularam”. É
exatamente essa a questão. Subjacente a ideia do mito das três
raças ou da miscigenação, esta uma tentativa despudorada de
escamotear toda a história de massacre do povo negro e do índio. É
um faz de conta, um verdadeiro “imbróglio”22.
“Antes
mesmo das ideias de Caetano Veloso e Gilberto Gil tomarem forma e
virem a público no festival de MPB em outubro de 1967, Oiticica já
citava em seu texto sobre a nova objetividade o conceito de
Antropofagia desenvolvido por Oswald de Andrade como uma forma de
caracterizar a cultura brasileira. Sua proposta era também a de
criação de uma “imagem brasileira total”, com a intenção de
se questionar o universalismo cultural que tomava o Brasil e as
produções intelectuais da época
',
na verdade, porém, a exposição de Nova objetividade era quase que
por completo mergulhada nessa linguagem pop, híbrida para nós,
apesar do talento e força dos artistas nela comprometidos. Por isso
creio que a “Tropicália”, que encerra toda essa série de
proposições, veio contribuir fortemente para essa objetivação de
uma imagem brasileira total, para a derrubada do mito universalista
da cultura brasileira, toda calcada na Europa e na América do
Norte, num arianismo inadmissível aqui: na verdade quis eu com a
“Tropicália” criar o mito da miscigenação - somos
negros, índios, brancos, tudo ao mesmo - nossa cultura nada
tem a ver com a europeia, apesar de estar até hoje a ela submetida:
só o negro e o índio não capitularam a ela'.
(OITICICA, 2008, p. 101) [Trecho retirado do livro Tropicália,
organizado por Frederico Coelho e Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco
do Azougue, 2008. Extraído do depoimento “Tropicália”, escrito
em 4 de março de 1968, por Helio Oiticica]”. (…) “Em 1928,
Oswald escreve o Manifesto Antropófago, considerado um importante
documento histórico que norteou as ideias modernistas no Brasil.
Segundo Veloso, o manifesto antropófago.
'desenvolve
e explicita a metáfora da devoração.
Nós, brasileiros, não deveríamos
imitar e sim devorar a informação nova, viesse de onde viesse, ou
nas palavras de Haroldo de Campos, assimilar sob espécie brasileira
a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com
qualidades locais ineludíveis que dariam ao produto resultante um
caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade
de passar a funcionar por sua vez, confronto internacional, como
produto de exportação”. Oswald subverte a ordem de importação
perene – de formas e fórmulas gastas – (que afinal se
manifestava mais como má seleção das referências do passado e das
orientações para o futuro do que como medida da força criativa dos
autores) e lançava o mito
da antropofagia, trazendo para as relações culturais internacionais
o ritual canibal. A cena da deglutição do padre D. Pero Fernandes
Sardinha pelos índios passa a ser a cena inaugural da cultura
brasileira, o próprio fundamento da nacionalidade.
(VELOSO, 2008, p. 24223)””.24
“Manifesto
Antropófago. Oswald Andrade. Em Piratininga. Ano 374 da Deglutição
do Bispo Sardinha. Revista de Antropofagia, Ano 1, N. 1, maio de
1928. Só a Antropofagia
nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os
individualismos, de todos
os coletivismos. De todas
as religiões. De todos os tratados de paz. 'Tupi, or not tupi that
is the question'.'Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos
Gracos.'Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do
antropófago. Estamos fatigados de todos os maridos católicos
suspeitosos postos em drama. Freud
acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia
impressa. O que
atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo
interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O
cinema americano informará. Filhos do sol, mãe dos viventes.
Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade,
pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No
país da cobra grande.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos
vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço
e continental. Preguiçosos
no mapa-múndi do Brasil.
Uma consciência participante, uma rítmica religiosa. Contra todos
os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da
vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
Queremos a Revolução
Caraíba. Maior que a
Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na
direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre
declaração dos direitos do homem. A idade de ouro anunciada pela
América. A idade de ouro. E todas as 'girls'. Filiação. O contato
com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre25.
Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao
Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e
ao bárbaro tecnizado de Keyserling26.
Caminhamos… Nunca fomos
catequizados. Vivemos
através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou
em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre
nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo,
para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no
papel, mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar
brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a
lábia. O espírito
recusa-se a conceber o espírito sem o corpo.
O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o
equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições
exteriores. Só podemos atender ao mundo orecular. Tínhamos a
justiça codificação da vingança. A ciência codificação da
Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem.
Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O
stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema.
Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o
esquecimento das conquistas interiores. Roteiros. Roteiros. Roteiros.
Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. O
instinto Caraíba. Morte
e vida das hipóteses. Da equação eu, parte do Cosmos, ao axioma
Cosmos, parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia.
Contra as elites vegetais.
Em comunicação com o solo. Nunca
fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval.
O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou
figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos
portugueses. Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua
surrealista. A idade de ouro. Catiti Catiti/Imara Notiá/Notiá
Imara/Ipeju27.A
magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens
físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor
o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a
garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli
Mathias. Comi-o. Só não há determinismo onde há mistério. Mas
que temos nós com isso? Contra as histórias do homem que começam
no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem
Napoleão. Sem César. A fixação do progresso por meio de catálogos
e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de
sangue. Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de
um antropófago, o Visconde de Cairu: — É mentira muitas vezes
repetida. Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma
civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos
como o Jabuti. Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci
é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos
Política que é a ciência da distribuição.
E um sistema social planetário. As migrações. A fuga dos estados
tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o
tédio especulativo. De William James e Voronoff. A transfiguração
do Tabu em totem. Antropofagia. O pater famílias e a criação da
Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação
+ sentimento de autoridade ante a prole curiosa. É preciso partir de
um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas
a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
O objetivo criado reage com
os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso?
Antes dos
portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a
felicidade. Contra o índio de tocheiro28.
O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de
D. Antônio de Mariz. A alegria é a prova dos nove. No
matriarcado de Pindorama.
Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada.
Somos concretistas. As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas
praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias.
Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e
nas estrelas. Contra
Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI.
A alegria é a prova dos nove. A luta entre o que se chamaria
Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do
homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o 'modus vivendi' capitalista.
Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em
totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras
elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o
mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por
Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do
instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico.
De carnal, ele se torna
eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor.
Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao
aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo
– a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados
povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo.
Antropófagos. Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu,
na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São
Paulo. A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica
de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes
que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso
expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria
da Fonte. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada
por Freud – a realidade
sem complexos, sem loucura,
sem prostituições e sem penitenciárias
do matriarcado de
Pindorama”.29
“Escrito
pela jornalista carioca Ana Helena Tavares30,
o livro “O problema é ter medo do medo: o que o medo da
ditadura tem a dizer à democracia” [Editora Revan, 2016] reúne
26 entrevistas com personagens que viveram de perto o pré-golpe ou a
resistência à ditadura e “trazem rico material para conhecimento
e análise do que foi esse período na história do Brasil”,
escreveu o também jornalista e ex-guerrilheiro Cid Benjamin31
no prefácio do livro. O título do livro foi emprestado da resposta
de Dom Pedro Casaldáliga32
a uma das perguntas de Ana Helena, durante entrevista em sua casa em
2012. “O sr. alguma vez teve medo?”, perguntou a jornalista.
“Várias! O medo é natural ao ser humano. O problema é ter medo
do medo”, respondeu o bispo do Araguaia. Durante seu depoimento
Casaldáliga acrescenta que a democracia é uma palavra profanada.
“Porque se tem uma democracia, entre aspas, política. Mas não se
tem democracia econômica. Não se tem democracia étnica. Os
povos indígenas, dentro destes Estados democráticos, são coibidos.
São marginalizados”. Uma das falas mais emblemáticas vem
de Carlos Eugênio Paz [o comandante Clemente], último comandante
vivo da ALN [Ação Libertadora Nacional]. De acordo com a autora do
livro, Carlos Eugênio teve sua foto ainda jovem estampada em
cartazes e jornais. “Estava marcado para morrer. Mas sobreviveu e,
após exílio forçado, voltou para contar história. Não se
incomoda em contá-la, com seus erros e acertos. Ele acha que todos
precisam saber de tudo. Por isso, constantemente ele dá palestras em
escolas e toca em feridas”. No livro está registrado seu desejo de
que “o Juquinha precisa saber”, referindo-se ao direito de nossas
crianças e adolescentes conhecerem a verdade sobre os sombrios
tempos de autoritarismo vividos no Brasil. “Eu só vou morrer feliz
quando ‘Juquinha’ chegar à escola, abrir seu livro e estudar
sobre João Cândido, o Almirante Negro. Apolônio de Carvalho,
Joaquim Câmara Ferreira”, declara Carlos Eugênio. Sim. É
fundamental que a história desse país e de toda a humanidade seja
contada sem máscaras, sem recortes e sem versão única, para
que as novas gerações e as futuras não se apresentem propensas a
apoiar posições autoritárias como vem fazendo parcela
significativa da nossa juventude. Pesquisa recente realizada
pelo DataFolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança
Pública [FBSP] [Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no
Brasil: índice de propensão ao apoio a posições autoritárias.
Organizador: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo:
Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2017. 39p.], aponta que
8,1% dos jovens brasileiros com idade entre 16 e 24 anos, tende a
apoiar medidas autoritárias, acreditando ser essa a solução para
os nossos problemas atuais [O Datafolha aplicou 2.087 entrevistas, em
uma amostra estatisticamente representativa da população brasileira
com 16 anos ou mais e em 130 municípios de pequeno, médio e grande
porte, entre os dias 07 e 11 de março de 2017]. Certamente o
desconhecimento dos graves fatos que marcaram a história recente do
Brasil — especialmente durante o período ditatorial de mais de
duas décadas, iniciado em 1964 com o golpe civil militar que depôs
o presidente João Goulart – ou seu conhecimento pela via do
caminho único, escolhido pelos que ditaram a história e seu
registro oficial, contribuem significativamente para que parcela de
nossa juventude, em pleno século XXI, defenda a volta da ditadura ou
se apresente simpático a discursos de ódio e intolerância
patrocinados por mentes doentias capazes de fazer apologia à tortura
e defender o genocídio. Lembro-me aqui de um dos textos de Eduardo
Galeano publicado no (livro) Mulheres
[1997]. Nos conta o escritor uruguaio: ' — Em épocas remotas,
as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As
mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam
quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a
comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos
filhos e curtiam as peles de abrigo. Assim era a vida entre os índios
onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens
mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres
tinham inventado para aterrorizá-los. Somente as meninas
recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam,
os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu
destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as
filhas de suas filhas'. Assim se reproduz a história contada
conforme o querer e os interesses dos dominadores. Assim se conduz à
alienação e à ignorância gerações e mais gerações, pela
perpetuação do medo e das mentiras que o alimentam. Ademais, o que
temos observado ultimamente confirma a orientação ambivalente entre
autoridade e poder, identificada pelo psicanalista judeu alemão
Erich Fromm como
uma das principais características vinculadas à personalidade
autoritária. Segundo Fromm, o indivíduo
autoritário é, a um só tempo, submisso [em relação àqueles que
percebe como mais fortes] e dominador [diante daqueles que julga mais
fracos]. Por isso, urge que recontemos nossa história, com reflexão
e criticidade, por muitas vozes e livres do fantasma do medo. Se faz
indispensável que a recontemos e a contemos em cada praça, em cada
encontro, em cada escola e em cada livro didático. Por fim,
parafraseando o escritor Rubem Alves, é primordial que não nos
contentemos com o papel de revisores e sejamos, de agora e para
sempre, gramáticos de nossa própria história. 33
1Mestre
em História do Brasil.
2
“DOIS BRASIS: FHC E CELSO FURTADO”. Postado por Cláudio Antonio
Oliveira Camargo às quarta-feira, março 16, 2011.
http://caocamargo.blogspot.com/2011/03/dois-brasis-fhc-e-celso-furtado.html
. Diretor - Ex Libris Comunicação Integrada 2009 –
atualmente.Educação: Ciências Políticas e Sociais - Escola de
Sociologia e Política de São Paulo, 1979 – 1982; Filosofia –
PUC-SP, 1986 – 1987. https://plus.google.com/101512090470183017255
.
4
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/10/1924781-tendencia-para-o-autoritarismo-e-alta-no-brasil-diz-estudo.shtml
.
http://www.forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2017/10/FBSP_indice_propensao_apoio_posicoes_autoritarios_2017_relatorio.pdf
.
http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/572424-tendencia-para-o-autoritarismo-e-alta-no-brasil-diz-estudo
. http://conversadebalcao.com.br/o-livro-que-lula-esta-lendo/
.
5Jessé
Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero. Amanda
Massuela. 19 de outubro de 2017.
https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/
.
6https://pt.wikipedia.org/wiki/Uma_Hist%C3%B3ria_de_Amor_e_F%C3%BAria
7DA
MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia
social. Petrópolis, Vozes, 1981, p. 58
8DA
MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia
social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
9Universidade
Federal da Paraíba Centro de Comunicação, Turismo e Artes
Programa de Pós-Graduação em Música Ecos Armoriais:
Influências e Repercussão da Música Armorial em Pernambuco.
Marília Paula dos Santos. Universidade Federal da Paraíba Centro
de Comunicação, Turismo e Artes Programa de Pós-Graduação em
Música. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em
Música da Universidade Federal da Paraíba como requisito parcial
para a obtenção do título de Mestra em Música, área de
concentração em Etnomusicologia, linha de pesquisa Música,
Cultura e Performance. Orientador: Prof. Dr. Carlos Sandroni. João
Pessoa – PB Outubro/2017.
http://www.ccta.ufpb.br/ppgm/contents/documentos/dissertacoes/MARILIAPAULADOSSANTOS.pdf
.
11SANTOS,
JOSÉ RUFINO DOS. O que é o racismo. São Paulo: abril cultural:
Brasiliense, 1984. Coleção primeiros passos.
12CHAUÍ,
Marilena. (1980). O que é ideologia. Editora Brasiliense, 34ª
edição. São Paulo, 1994. (Coleção primeiros passos).
13UNIVERSIDADE
FEDERAL DE GOIÁS. PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO. NÚCLEO
INTERDISCIPLINAR DE ESTUDOS E PESQUISAS EM DIREITOS HUMANOS.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM DIREITOS HUMANOS.
EDUCAÇÃO E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS: AVANÇOS E RECUOS NUMA
PRÁTICA PEDAGÓGICA ANTIRRACISTA NO MUNICÍPIO DE GOIÂNIA.
TAINARA JOVINO DOS SANTOS. Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação Stricto Senso Interdisciplinar em Direitos Humanos
da Universidade Federal de Goiás na linha de pesquisa Alteridade,
Estigma e Educação em Direitos Humanos, como parte dos requisitos
exigidos para obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos,
sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Rosani Moreira Leitão. GOIÂNIA,
2015.
https://ppgidh.ndh.ufg.br/up/788/o/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Tainara_Jovino_dos_Santos.pdf
. Gledhill, Helen Sabrina. Travessias racialistas no Atlântico
Negro: reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino /
Helen Sabrina Gledhill. - 2014. UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA.
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS. CENTRO DE ESTUDOS
AFRO-ORIENTAIS – CEAO. PROGRAMA MULTIDISCIPLINAR DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM ESTUDOS ÉTNICOS E AFRICANOS – PÓS-AFRO. HELEN SABRINA
GLEDHILL. TRAVESSIAS RACIALISTAS NO ATLÂNTICO NEGRO: reflexões
sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino. Salvador, 2014. Tese
apresentada ao Programa Multidisciplinar de Estudos Étnicos e
Africanos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/Centro de
Estudos Afro-Orientais – CEAO, da Universidade Federal da Bahia,
como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em
Estudos Étnicos e Africanos. Orientador: Prof. Dr. Jeferson Afonso
Bacelar. Salvador, 2014. Banca Examinadora: Jeferson Afonso Bacelar
– Orientador, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade
Federal da Bahia – UFBA, Universidade Federal da Bahia; Flávio
dos Santos Gomes, Doutor em História Social pela Universidade de
Campinas – Unicamp, Universidade Federal do Rio de Janeiro; Luiz
Alberto Ribeiro Freire , Doutor em História da Arte pela
Universidade do Porto, Portugal, Escola de Belas Artes, Universidade
Federal da Bahia; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha , Doutor em
História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, PUC/SP, Universidade Federal da Bahia; Wilson Roberto de
Mattos, Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, PUC/SP, Universidade do Estado da Bahia.
https://www.academia.edu/6578299/Travessias_Racialistas_no_Atl%C3%A2ntico_Negro_Reflex%C3%B5es_sobre_Booker_T._Washington_e_Manuel_R._Querino
.
14“30
Etnia CSNZ Composição C. Science” .
https://pt.wikipedia.org/wiki/CSNZ
. “ "Etnia" Chico Science, Lúcio Maia”.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Afrociberdelia
. https://www.youtube.com/watch?v=tLUcW1WdqME
.
http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=34424
.
http://peraweb.com.br/wp/maracatu-da-nacao-tem-mais-peso-do-que-os-hits-da-antenada-radiola-nz/
.
15Caranguejos
com Cérebro:uma análise dos hibridismos musicais realizados pelo
movimento manguebeat. Ricardo de Lima Zollner Júnior. Prof. Dr.José
Eduardo Ribeiro Paiva (orientador). Universidade Estadual de
Campinas. Instituto de Artes - Programa de Pós Graduação em
Artes. Linha de Pesquisa Cultura Audiovisual e Mídia. Dissertação
de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- graduação em Artes
na Univesidade Estadual de Campinas. UNICAMP, 2010.
http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/283954/1/ZollnerJunior_RicardodeLima_M.pdf
.
16"Etnia”.
Felipe Perazza. 03/08/2012. “Preconceito é triste demais!”.
http://www.musicasdeandarilho.com/2012/08/chico-science-nacao-zumbi-etnia-letra.html
.
18Manguebit.Jefferson
Ferreira Wesolowski. Clube de Autores, 9 de dez de 2009, p. 69.
19Manguebit.Jefferson
Ferreira Wesolowski. Clube de Autores, 9 de dez de 2009, p. 71.
20
Jeff Ferreira . Colunista e entrevistador do site Submundo do Som,
apresentador do programa radiofônico Consciência Brasileira na
Rádio Educadora Estrela FM de Jaguariúna - SP (94.5 MHz), autor
dos livros "Manguebit - A Revolução da Lama" e "30
Anos do Disco Hip Hop Cultura de Rua. Produtor executivo do álbum
"Guia Prático de Como Fazer Inimigos", do rapper Siloque,
e organizador da coletânea "Programa Consciência Brasileira
apresenta: Interior, Mas Não Inferior - vol 1Chico Science: O Poeta
do Mangue - parte II. Jeff Ferreira .
http://www.submundodosom.com.br/2017/03/chico-science-o-poeta-do-mangue-parte-ii.html
23VELOSO,
Caetano. Verdade Tropical. Ed.: Cia das Letras. São Paulo, 2008.
24UNIVERSIDADE
DE SÃO PAULO. ESCOLA DE ARTES, CIÊNCIAS E HUMANIDADES. PROGRAMA DE
PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS CULTURAIS. ANA PAULA PACHECO GODOY. O
MANGUEBEAT ENTRE O GLOBAL E O LOCAL: A DISPUTA NA CENA CULTURAL
PERNAMBUCANA NOS ANOS 1990. SÃO PAULO, 2013. Dissertação de
Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos
Culturais da Universidade de São Paulo como requisito para a
obtenção do título de Mestre em Estudos Culturais. Orientador:
Jefferson Agostini Mello. O Manguebeat entre o global e o local: a
disputa na cena cultural pernambucana nos anos 1990 / Ana Paula
Pacheco Godoy ; orientador, Jefferson Agostini Mello. – São
Paulo,
2013.http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-29062015-111036/pt-br.php
.
25
“'Où Villegaignon print terre' (1554, chegada do francês Nicolas
Durand de Villegagnon ao Brasil e do registro de suas impressões
sobre a vida dos indígenas nativos), Montaigne (segunda metade do
século XVI, ensaio Dos Canibais sobre as práticas
antropofágicas e a decadência das sociedades ditas
desenvolvidas)”. ANTROPOFAGIA COMO MITO DE CONTROLE. Tecia
Vailati. Universiteit Leiden, Países Baixos.
t.e.vailati@hum.leidenuniv.nl
. Artigo recebido em 08 de fevereiro de 2015 e aceito em 20 de março
de 2015. Transversos, Rio de Janeiro, v. 03, n. 03, out. – mar.
2014/2015. |www.transversos.com.br
.
https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/transversos/article/viewFile/18558/13559
. https://sibila.com.br/english/anthropophagic-manifesto/2686
. Eurídice Figueiredo, Paula Glenadel. O francês e a diferença.
7Letras, 2006, p. 15. MENSAGEM AO ANTROPÓFAGO DESCONHECIDO (Da
França Antárctica). Oswald de Andrade.
https://periodicos.ufsc.br/index.php/travessia/article/download/17697/16273
. O Modernismo brasileiro e Montaigne: A Antropofagia de Oswald de
Andrade [Apresento aqui a versão em língua brasileira (e gostaria
de agradecer a Sílvia Pimenta pelo auxílio na elaboração do
presente texto) do artigo originalmente publicado no Bulletin de la
Société des Amis de Montaigne, VII série, nº 19-20, juil-déc.
2000, p. 61-64]. Celso Martins Azar Filho [Celso Martins Azar Filho
é Professor Adjunto na UFRRJ e Professor Permanente no Programa de
Pós-Graduação em Filosofia do IFCS-UFRJ. Líder do Laboratório
de Estudos Renascentistas (LERen) faz parte do núcleo de
sustentação do GT Neoplatonismo da ANPOF. Tendo participado de
grupos e atividades de pesquisa sobre o pensamento renascentista em
diversos países, publicou vários artigos sobre o tema em
periódicos nacionais e estrangeiros, além de um livro (A filosofia
de Montaigne, 2009)]. REVISTA PERIFERIA VOLUME III, Número 1.
https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/download/3410/2337
.
26
Monica Pimenta Velloso. História & Modernismo. Autêntica, 1
de jan de 2013, p. 107.
27
“Catiti catiti/ Imara Notiá / Notiá Imara / Ipeju: pequeno
"poema" em língua indígena, a qual, pelo apelo sonoro e
lúdico, é aproximada da estética surrealista. Couto Magalhães
traduziu por: Lua nova, ó Lua Nova! Assoprai em lembranças de mim;
eis-me aqui, estou em vossa presença; fazei com que eu tão somente
ocupe seu coração”.
http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/catiti.htm
. “Para compreender como se dá esta ressignificação é preciso
levar em consideração o único fragmento supostamente escrito em
língua indígena no Manifesto, que se encontra no aforismo 25:
“Catiti Catiti/ Imara Notiá/ Notiá Imara/ Ipeju”. Apropriados
de um trecho do livro “O Selvagem”, de Couto de
Magalhães, estes versos são, segundo o autor, um canto tupi de
invocação à lua nova (MAGALHÃES, 1935, p. 173 - MAGALHÃES,
Couto de. O selvagem (1876). São Paulo: Comp. Ed. Nacional,
3ª ed, 1935. ). Magalhães aponta, no entanto, que não compreende
plenamente as palavras ali transcritas porque são, possivelmente,
transformações da língua que diferem de seu próprio conhecimento
dela: “Como são curtas, aqui transcrevo tais quais as vi, ou
parecendo-me que, ou a língua está adulterada, ou é algum
fragmento de tupi anterior às transformações por que já tinha
passado a língua, quando nos foi conhecida, porque palavras há que
não entendo” (p. 171)”. O “INDECIDÍVEL CARAÍBA”: UM OLHAR
DERRIDIANO PARA O MANIFESTO ANTROPÓFAGO . Maria Carolina de Almeida
Amaral (Graduanda em Letras, UFPR). Curitiba, Vol. 5, nº 8,
jan.-jun. 2017 ISSN: 2318-1028. REVISTA VERSALETE.
http://www.revistaversalete.ufpr.br/edicoes/vol5-08/12.O%20indecid%C3%ADvel%20cara%C3%ADba.%20Maria%20Carolina.pdf
. Maria Augusta Fonseca. Oswald de Andrade: biografia. Globo
Livros, 2007, p. 209. Lúcia Wataghin. Brasil e Italia:
vanguardas. Atelie Editorial, 2003, p. 38.
29http://tropicalia.com.br/leituras-complementares/manifesto-antropofago
. http://www.uel.br/projetos/artetextos/textos/antropofagico.htm
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http://www.zonacurva.com.br/o-manifesto-antropofagico-de-oswald-de-andrade/
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.
33
MARÇO 24; AMERICA/FORTALEZA 2018. “O Juquinha Precisa Saber”.
Joelmir Pinho. Joelmir Pinho é professor substituto do curso de
Administração Pública da Universidade Federal do Cariri [UFCA].
Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador
da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA].
https://joelmirpinho.wordpress.com/2018/03/24/o-juquinha-precisa-saber/
.
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