PT, o norte e o Nordeste, Grande Medo, obscenidade da palavra, corpo do povo negro e do índio, Carnavalização do Brasil- IV




Cláudio Antunes Boucinha1





Cláudio Antonio Oliveira Camargo (2011), sintetizava a questão do desenvolvimento do Brasil, da melhor maneira. Não se entende, verdadeiramente, como é que o Brasil tem inúmeras riquezas, das mais valiosas no mundo, como o petróleo, como o lítio, e tem que esperar que algum “gringo” se interesse para explorar a mina. A nossa elite econômica é incapaz de desenvolver qualquer processo de extração, no país? A não ser o ouro, através de processos marcadamente ultrapassados? Como ficam as pedras semipreciosas e o contrabando? Olhando o agronegócio, observando como gastam o dinheiro principalmente no exterior, percebe-se o quanto a elite econômica é parasitária, no seu comportamento. Ao condenar, de maneira genérica, o Estado, adjetivando-o como corrupto, em nome de um mínimo de interferência no mercado, levou o público, em geral, a acreditar que a corrupção é o principal problema brasileiro. Gerando uma caça às bruxas sem fim, que atualizou em parte a legislação sobre os crimes do “colarinho branco”, mas não resolveu, como era de se esperar, e não resolverá, as questões fundamentais do bem-estar do povo brasileiro. Essa é a questão central que FHC não percebeu, ao aderir ao neoliberalismo.


“A melhor maneira de se entender o conservadorismo do PSDB é ler as obras do 'maître à penseur' do tucanato, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Junto com Enzo Faletto, ele foi um dos formuladores da chamada “Teoria da Dependência”, que surgiu no início dos anos 1960 como uma alternativa ao modelo nacional desenvolvimentista de matriz cepalina (da CEPAL, Comissão Econômica para a América Latina), do qual o economista Celso Furtado foi uma das grandes expressões no Brasil. Criador da SUDENE, ministro de João Goulart e autor do Plano Trienal, Furtado elaborou um projeto para o país que apostava no Estado como indutor de uma política de industrialização capaz produzir o desenvolvimento apesar da dependência externa. Seu pensamento passou por reformulações e ajustes, mas sempre manteve essa espinha dorsal. Foi contra essa espinha dorsal que a ditadura, primeiramente, e os neoliberais, bem depois, assestaram suas baterias. O próprio Lula e o (PT), nos primórdios, colocavam o nacional desenvolvimentismo na vala comum do “populismo”. Felizmente, no (poder) Lula compreendeu o equívoco. Mas estou fazendo digressões demais; essa é outra história... Voltando ao sociólogo frio, na época, os escritos de FHC foram equivocadamente considerados como uma crítica “pela esquerda” ao pensamento cepalino e ao esquema stalinista-etapista do Partidão. Este último defendia a velha tese de que o Brasil era um país semicolonial ou semifeudal, com uma oligarquia latifundiária que, aliada ao imperialismo norte-americano, impedia o desenvolvimento do capitalismo nacional e sufocava tanto a burguesia nacional quanto os trabalhadores e os camponeses. Não é preciso dizer que esse esquema do Partidão era completamente furado, como apontou Caio Prado Jr. já em 1966(in A Revolução Brasileira): o Brasil podia ser subdesenvolvido, mas era capitalista havia muito tempo. Por isso a “Teoria da Dependência” teve seus méritos: propor um esquema mais complexo para explicar nossa situação de subdesenvolvimento, como se chamava à época, fugindo dos esquemas dogmáticos e ultrapassados do partidão e da própria CEPAL. Como explicou o prof. Durval Muniz de Albuquerque Júnior, da UFRN, a “Teoria da Dependência” e a CEPAL concordam que “o subdesenvolvimento era produto do próprio desenvolvimento do capitalismo, que se dá desigualmente gerando um centro e uma periferia do sistema, que tende a reproduzir subordinadamente a dinâmica que é dada pelas economias centrais e seus modelos”. Ambas concordam com a possibilidade de ocorrer desenvolvimento mesmo na periferia, de haver desenvolvimento apesar da dependência e da subordinação, mas divergiam de como isto seria possível. “Para as formulações cepalinas lá dos anos 1950”, prossegue o prof. Durval Muniz, “com seu nacionalismo típico da época, as forças externas eram encaradas como obstáculo ao desenvolvimento do país, assim como as forças internas a eles aliadas, como os setores agrário-exportadores. Mesmo reformulando mais tarde estas ideias, Celso Furtado mantém a opinião que o processo de desenvolvimento, em países como o Brasil, deve ter como motor as forças econômicas, sociais e políticas nacionais, que saibam inserir o país na economia global, mas tendo seus interesses estratégicos sempre à frente e bem definidos”. Isso Lula aprendeu na prática. Para Celso Furtado, prossegue Durval, "o Brasil tinha um enorme potencial de crescimento endogenamente gerado por seus amplos recursos naturais, por já ter internalizado e desenvolvido o processo de industrialização - nos governos Getúlio Vargas e JK -, devendo ampliar bases técnicas, tecnológicas e educacionais próprias. "O país já possuía a enorme potencialidade de um grande mercado consumidor de massas, bastando para isto que fossem prioritárias em qualquer política econômica a ênfase em mecanismos distributivos de renda e de redução das desigualdades regionais”, diz Durval. Bingo! O fato de o governo Lula ter compreendido essa realidade fez com que o Brasil pudesse enfrentar o tsunami mundial de 2008 e transformá-lo em "marolinha" aqui - expressão que horrizou nossa elite branca "bem pensante". Já FHC nunca acreditou na possibilidade de se fazer o desenvolvimento sem que a direção do processo se desse nos "países centrais" do sistema capitalista. Avaliando como sociólogo a mentalidade empresarial brasileira, FHC sempre foi pessimista em relação a esperar das forças nacionais a liderança do desenvolvimento econômico. A crítica do prof. Durval à Teoria da Dependência de FHC é precisa: por ser um crítico de primeira hora das ideias 'cepalinas' que vêem o elemento externo como obstáculo ao desenvolvimento nacional, FHC dá imediatamente "enorme audiência ao seu discurso no mundo e, por incrível que pareça, entre nossa elite empresarial que parece ter aceitado com gosto e alegria o lugar menor e subalterno que o pensamento da dependência lhes reservava, talvez porque sempre no fundo se sintam não pertencentes ao país, mas estrangeiros em sua própria terra”, diz o acadêmico. “Estas formulações da Teoria da Dependência mal disfarçam que requentam teses já bastante gastas entre nossas elites letradas da incapacidade de nosso povo para a civilização, para o progresso, para o trabalho livre, para o desenvolvimento. Nas formulações pessedebistas há clara desconfiança em relação ao nosso povo”. Continua Durval: “Foi a Teoria da Dependência que inspirou já o primeiro programa econômico apresentado por um candidato tucano a concorrer à Presidência da República. O “choque de capitalismo”, prometido por Mário Covas em 1989, foi finalmente realizado por Fernando Collor e continuado nas duas gestões de FHC e se mostrou efetivamente chocante para a sociedade brasileira. A ideia de que seria expondo os setores da economia brasileira à concorrência externa, abrindo a economia para os fluxos de capital internacionais, privatizando os setores estratégicos dominados pelo Estado e os entregando a moderna gestão empresarial internacional, que se faria o país desenvolver-se, se modernizar, palavra mágica para a Teoria da Dependência henriquiana, se torna o centro das políticas econômicas do PSDB. A concorrência externa também afetaria as relações de trabalho e emprego, as modernizaria, levando a ruína à estrutura burocrático-estatal montada pelo nacional desenvolvimentismo”. Por tudo isso é injusto dizer que FHC teria dito para “esquecer o que escrevi”. Ele realmente jamais proferiu essa frase. Mais do que isso, no poder, FHC foi extremamente coerente com o que escreveu, aderindo com gosto ao Consenso de Washington. Uma determinada esquerda é que interpretou sua versão da Teoria da Dependência - sim, porque havia outras, como a de Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Vânia Bambirra, essas eram realmente de esquerda - como portadores de um projeto progressista. Celso Furtado dizia que só um economista acredita que o problema da economia seja estritamente econômico. Mas ele, que era economista, teve uma visão muito mais abrangente do que o nosso "príncipe dos sociólogos". Hoje o Brasil só não virou uma Argentina ou um México porque não abandonou inteiramente o ideário de Celso Furtado”.2


“Em A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato, Jessé Souza quer fazer o que, em sua opinião, nenhum intelectual da esquerda jamais fez: explicar o Brasil desde o ano zero. Isso porque se ideias antigas nos legaram o tema da corrupção como grande problema nacional – conforme defende no livro -, só mesmo novas concepções sobre o país e seu povo poderiam explicar, de uma vez por todas, que as raízes da desigualdade brasileira não estão na herança de um Estado corrupto, mas na escravidão.

Para tanto, o sociólogo confronta uma das principais obras do pensamento social brasileiro, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda – responsável por utilizar pela primeira vez a ideia de patrimonialismo para definir a política nacional. Jessé compreende que o conceito – segundo o qual o Estado brasileiro seria uma extensão do “homem cordial” que não vê distinções entre público e privado – serve para legitimar interesses econômicos de uma elite que manda no mercado, este sim a real fonte de corrupção e poder.

Doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e professor da UFABC, Jessé Souza é autor de 27 livros, incluindo A ralé brasileira: quem é e como vive (2009), A tolice da inteligência brasileira (2015) e A radiografia do golpe (2016). Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) entre 2015 e 2016, coordenou pesquisas de amplitude nacional sobre classes e desigualdade social. Em entrevista à CULT, o sociólogo critica a existência de uma interpretação dominante sobre o Brasil e aponta os motivos pelos quais a sociedade brasileira em 2017 não passa de uma continuidade da sociedade escravocrata de 500 anos atrás.

No livro você afirma que Sérgio Buarque de Holanda inaugurou uma forma de pensar o brasileiro como negatividade que se estende ao Estado, visão que teria influenciado de Raymundo Faoro a Sergio Moro. Por que essa chave de leitura tem tanta força?

Essa ideia foi montada para defender interesses econômicos. Às vezes me espanto como não se percebeu isso antes. Quando a elite paulistana perde o poder político para Vargas em 1930 – e perde para um movimento de classe média, que estava se formando no país naquela época -, ela começa a organizar um poder ideológico para condicionar o poder político a atuar conforme as suas regras. Isso foi dito, articulado, pensado. Esse pessoal já tinha fazendas de café, as grandes indústrias em São Paulo, já tinha controle sobre a produção material e aí constroem as bases para o poder simbólico – e a sociedade moderna vive desse poder simbólico. Essa elite cria a Universidade de São Paulo, que vai formar professores de outras universidades e que vai produzir conceitos importantes para que essa elite, tirando onda de que está fazendo o bem, faça efetivamente todo mundo de imbecil para que seus interesses materiais e políticos sejam preservados.

Que conceitos são esses?

São duas ideias que nos fazem de imbecis. Uma delas é a do patrimonialismo, em que há uma distorção da fonte do poder social real, como se o Estado fosse montado para roubar, vampirizar e fazer o mal – e como se nada acontecesse no mercado. Embora seja uma instância de poder importante, no capitalismo quem comanda o poder é o mercado. Há uma tradição inteira, 99 de 100 intelectuais até hoje3 professam esse tipo de coisa. Sérgio Buarque inaugura [esse pensamento no Brasil], depois Raymundo Faoro dá uma profundidade histórica e Fernando Henrique Cardoso transforma isso em teoria; o programa político do PSDB é todo retirado de Raízes do Brasil. Mas também influenciou a esquerda. Sérgio Buarque foi um dos fundadores do (PT), fez todo mundo de imbecil, da direita à esquerda. E como a esquerda não tem uma concepção autônoma de como a sociedade funciona, de como o Estado funciona, ela chega ao poder com um plano econômico alternativo, mais inclusivo, e acha que as pessoas por alguma mágica vão perceber que aquilo é bom pra elas. A esquerda nunca fez o que a direita e a elite fizeram.

Por que a esquerda nunca articulou uma narrativa contrária a essa?

Porque foi incapaz. Porque não foi inteligente, porque se deixou imbecilizar. Porque o tema do patrimonialismo é tratado como crítica social: “Olha, estamos descobrindo quais são as mazelas brasileiras, um gene da corrupção de 800 anos que nos toma a todos”. Isso significa que o Estado [teoricamente] vampiriza e não deixa as forças “emancipadoras” do mercado agirem – como se o mercado, em algum lugar do mundo tivesse sido emancipador por si próprio. Os países campeões do liberalismo como Inglaterra e Estados Unidos têm uma estrutura de Estado extremamente forte, foram protecionistas – e depois dizem a outros países serem o que eles mesmos nunca foram. Isso deu esse charme – o “charminho crítico”, como eu chamo – a esse tipo de ideia como o patrimonialismo, que muitas vezes a esquerda comprou.

O segundo conceito chave, também inventado na Usp, foi o populismo, que torna suspeito e criminaliza tudo aquilo que vem das classes populares – inclusive qualquer liderança associada a elas, que são também estigmatizadas e suspeitas de estarem manipulando a tolice “inata” dessas classes. Eu estudei por décadas os muito pobres e eles são muito mais inteligentes do que a classe média. Eles veem a política como o jogo dos ricos em que todo mundo rouba enquanto a classe média se deixa engambelar por esse tipo de coisa. A classe média foi montada para ser idiotizada, é uma espécie de capataz da elite entre nós.

Na história do pensamento social brasileiro nenhum intelectual chegou perto de romper com essas duas ideias, na sua opinião?

Florestan Fernandes saiu um pouco disso porque estudou dilemas e conflitos de classe; Celso Furtado foi outro genial que percebeu coisas importantes que não têm nada a ver com esses esquemas. Mas esses caras não reconstruíram a história do Brasil como um todo. Foi essa a ambição que eu tive nesse livro porque eu percebi que, para atacar esse negócio e dar nele um nocaute, é preciso fazer o que eles [a elite] fizeram: explicar o Brasil desde o ano zero. O que foi, como foi, por que somos hoje o que somos e o que isso implica para o nosso futuro. Eu tentei fazer o que esses caras não fizeram, apesar de termos tido críticos que discutiram aspectos parciais de modo extremamente importante. Mas se não reconstruirmos o todo, as lacunas do que construímos apenas parcialmente serão invadidas pela teoria dominante, daí Florestan usar o patrimonialismo e essa bobagem toda.

Esse pessoal diz que nosso berço é Portugal e que de lá vem a nossa corrupção – uma coisa que me dá raiva de tão frágil, já que corrupção é um conceito moderno que implica a noção de soberania popular que é coisa de 200 anos. O nosso berço é a escravidão, que não existia em Portugal a não ser para os muito ricos. Não era fundante, era marginal, nunca foi mais de 5%, enquanto nós fomos montados nela. Essa teoria sobre o Brasil, que se põe como científica, no fundo não vale um centavo furado. É montada a partir de ilusões do senso comum, como se a tradição cultural fosse transmitida pelo sangue. São instituições concretas que nos moldam, é a forma da família, da escola que faz com que sejamos o que somos.

No livro você comenta que um dos principais problemas do Brasil é que aqui não houve nenhum tipo de reflexão acerca da escravidão. Quais são os efeitos práticos disso na sociedade brasileira, hoje?

Literalmente tudo. Primeiro há a naturalização da miséria e do sofrimento alheio. Todas as sociedades já foram um dia escravocratas, apenas a Europa, no Ocidente, quebrou com a herança escravista do mundo antigo. Isso significa que embora a pessoa seja socialmente inferior a você, ela não será tratada como uma coisa, mas como um ser humano. E com as lutas sociais por igualdade, são produzidos processos coletivos de aprendizado na qual a dor e o sofrimento do outro podem ser revividos em cada um. Nós, por outro lado, mantivemos essa sub-humanidade. Nós não nos importamos com a dor e com o sofrimento dos pobres, as evidências empíricas são claríssimas como a luz do sol, inegáveis para qualquer pessoa de boa vontade. A polícia mata, pobres, indiscriminadamente — e faz isso porque a classe média e a elite aplaudem. Houve recentemente essa coisa completamente absurda e bárbara das matanças nos presídios, e a classe média aplaudiu. São provas de que temos, como sociedade, ódio aos pobres. Isso veio da escravidão, em que havia uma distinção muito clara entre quem é gente e quem não é. Por isso, não nos importamos com o tipo de escola e de hospital que essa classe vai ter, por exemplo, o que é uma enorme burrice porque estamos criando inimigos, ressentimento. A Alemanha fez um esforço extraordinário para incorporar os 17 milhões que viviam na Alemanha Oriental, tornando seu mercado mais forte, mas aqui a gente simplesmente joga no lixo esse tipo de coisa porque nunca criticamos a nossa herança escravocrata, porque acreditamos nessa baboseira de herança portuguesa da corrupção. Raymundo Faoro tratava a existência de senhores de escravos como algo banal, quando na verdade o senhor de escravo deve estar no centro [da análise], já que todas as outras instituições vão se montar a partir daí. É uma continuidade absurda de 500 anos e nós somos cegos a isso.

Como essa continuidade aparece?

A família dos muito pobres repete há 500 anos a família dos escravos e eles ainda fazem o mesmo tipo de serviço que faziam antes, são escravos domésticos. Fazem parte de famílias desestruturadas, uma vez que na escravidão não se estimulava que o escravo tivesse família porque era preciso humilhá-lo, abatê-lo. Exatamente como acontece hoje. A escravidão só prospera com o ódio ao escravo e o Brasil de hoje é marcado por uma coisa central que só um cego não vê, o ódio ao pobre. A humilhação do pobre. O PT caiu não por causa da corrupção – que pode ter existido, é bom ver as provas -, mas porque tocou no grande pecado de ter diminuído um pouquinho a distância entre as classes. A distância desses 20% para os 80% é a pedra de toque para esse acordo de classes absurdo no Brasil.

O único país que se assemelha a nós no planeta é a África do Sul. Vivemos um apartheid aqui. Governos de esquerda caem, acontecem golpes de Estado toda vez que tentam diminuir essa distância entre as classes. Com isso você constrói dois planetas dentro de um mesmo país, é isso o que temos hoje. Como a classe média não pode transformar esse seu ódio ao pobre em mensagem política – porque isso seria canalhice e temos essa influência cristã -, ela utiliza o pretexto da corrupção já dado pelos nossos intelectuais no tema do patrimonialismo. Todas as elites estudaram em todas as universidades essa mesma bobagem, todo jornal repetiu e repete em pílulas essa mesma imbecilidade, fazendo com que as pessoas internalizem isso como uma verdade absoluta.

Você afirma no livro que a crise atual do Brasil é “também e principalmente uma crise de ideias”. Partindo disso, quanto dessa crise a gente pode colocar na conta da própria esquerda, já que ela nunca se mobilizou para produzir outra interpretação do Brasil?

Ela nunca se mobilizou, isso é uma fraqueza e eu acho que temos que mudar isso. Eu decidi transformar a minha vida nisso, por exemplo. Tem que começar em algum momento. Eu tive sorte porque morei muito tempo fora do Brasil e de algum modo peguei um olhar externo. Tem um grande filósofo que diz que o que propicia o conhecimento é o fato de você conhecer aquele lugar, mas estranhá-lo, ou todas as coisas viram naturais. E se tudo é natural você não interroga, não há dúvida.

Um estudo recente do Instituto Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Datafolha mostra que, numa escala de 0 a 10, a sociedade brasileira chega num índice de 8,1 na predileção por posições autoritárias, principalmente entre jovens de 16 a 24 anos4. Como interpreta esse dado?

É de fácil explicação. A partir de 1980 há um partido que nasce de baixo para cima. Nunca havia existido isso entre nós, um partido que congrega trabalhadores rurais e urbanos – eu tenho muitas críticas ao PT, mas é inegável que ele foi uma inflexão importante nessa história da escravidão. E ele passa a representar uma demanda por igualdade nessa sociedade perversamente desigual. Quando você afirma que esse partido é uma organização criminosa – usando no fundo aquela ideia do populismo, de que tudo o que vem das classes populares é estigmatizado – você está afirmando que a igualdade não é um fim, mas um mero meio, uma estratégia de assalto ao Estado. Ora, para onde vai a raiva justa dos 80% dos excluídos se ela não pode ser expressa de modo político e racional? Vai ser expressa de modo pré-político, ou seja, violência pura. A Globo e a Lava Jato criaram Jair Bolsonaro, só o cego ou o mal intencionado não vê. Esse namoro com o autoritarismo tem a ver com o ataque midiático, esse conluio entre Rede Globo e Lava Jato, e eu espero que esse pessoal pague por isso um dia.

No limite, essa chave de leitura inaugurada por Sérgio Buarque serve para justificar golpes de Estado e a Lava Jato, por exemplo?

Sim, a Lava Jato não tem nada a ver com acabar com a roubalheira. Até porque a roubalheira aumentou, isso é visível agora que temos no governo uma turma da pesada. É claro que a corrupção dos políticos existe, mas é uma gota no oceano. Esses caras são meros lacaios do mercado, os office-boy, é o que o nosso presidente é. Se você disser que o sistema inteiro é corrupto e que ele foi montado assim para que o mercado pudesse comprá-lo, aí você estaria esclarecendo alguma coisa, mas quando se diz que apenas um partido, aquele das classes populares, rouba, isso é uma mentira e um crime.

Vê saídas para essa tendência autoritária observada na sociedade brasileira?

Não tem nenhum outro modo, os seres humanos precisam ter ideias, sem ideias não dá para ir a lugar algum. É claro que isso tudo pode ficar ainda pior, a gente pode chegar a formas fascistas, mas o que a elite quer é dinheiro, se for por uma ditadura militar, se for matando gente, não tem nenhuma importância. Fato é que nesse instante de crise estamos com as vísceras à mostra e isso é uma oportunidade de vermos a podridão desse esquema que foi montado por essa elite usando e imbecilizando não só a classe média, e retirando a possibilidade de levarmos a vida de modo reflexivo. O que esse pessoal nos tirou foi a possibilidade de aprendizado da sociedade brasileira baseado na reflexão. E isso é impagável.5


O filme “Uma história de amor e fúria”6 https://www.youtube.com/watch?v=KtxXbBDotrM&t=170s, recupera um pouco esse tipo de história de que se está discutinho. É uma história a partir do povo índio, resgatando o corpo do índio, numa sociedade distópica. Também é a história do povo negro, que ainda não foi contada.


O documentário “CHICO SCIENCE vs ARIANO SUASSUNA: BATTLE FOR PERNAMBUCO #meteoro.doc” https://www.youtube.com/watch?v=9tEOHb3vClQ , afirma que “Pernambuco viu nascer dois grandes movimentos com visões antagônicas a respeito da cultura: Ariano Suassuna fundou o movimento Armorial, preocupado em preservar a pureza da cultura local, já Chico Science, com seu Manguebeat, queria misturar para transformar. Será que você precisa escolher um lado nesse conflito?”.

Esse conflito é real e interligado ou representa exatamente o assunto com que se está exatamente travando uma batalha conceitual?


Fábula das Três Raças

O que está a se discutir é a ideologia dominante no país, para que se possa compreender o tamanho do problema, quais as armas do inimigo a ser vencido, o texto subjacente do Brasil, e o motivo pelos quais somente saídas autoritárias podem frear, arrefecer os interesses dos negros e índios.

Digressão: A Fábula das Três Raças, ou o Problema do Racismo à Brasileira. (…) Destas, vale destacar o nosso racismo contido na «fábula das três raças» que, do final do século passado até os nossos dias, floresceu tanto no campo erudito (das chamadas teorias científicas), quanto no campo popular. (…) Do mesmo modo, ele [antropólogo social] não é também o sagaz contador de casos, capaz de alinhavar historietas de negros escravos, lendas de índios idealizados ou episódios históricos de damas, duques e príncipes portugueses, na nossa graciosa fábula das três raças. (…) Agora, porém, é preciso prosseguir na especulação do sentido psicológico da nossa fábula das três raças e de suas implicações para uma antropologia brasileira que se deseja realmente libertadora. (…) Essa fábula ó importante porque, entre outras coisas, ela permite juntar as pontas do popular e do elaborado (ou erudito), essas duas pontas de nossa cultura. Ela também permite especular, por outro lado, sobre as relações entre o vivido (que é frequentemente o que chamamos de popular e o que nele está contido) e o concebido (o erudito ou o científico — aquilo que impõe a distância e as intermediações). (…) É impressionante também observar a profundidade histórica desta fábula das três raças. (…) E mais, como essa triangulação étnica, pela qual se arma geometricamente a fábula das três raças, tornou-se uma ideologia dominante, abrangente, capaz de permear a visão do povo, dos intelectuais, dos políticos e dos acadêmicos de esquerda e de direita, uns e outros gritando pela mestiçagem e se utilizando do «branco», do «negro» e do «índio» como as unidades básicas através das quais se realiza a exploração ou a redenção das massas. (…) Creio que ela [ideologia] veio na forma da fábula das três raças e no «racismo à brasileira», uma ideologia que permite conciliar uma série de impulsos contraditórios de nossa sociedade, sem que se crie um plano para sua transformação profunda. (…) Pode-se, pois, dizer que a «fábula das três raças» se constitui na mais poderosa força cultural do Brasil, permitindo pensar o país, integrar idealmente sua sociedade e individualizar sua cultura. Essa fábula hoje tem a força e o estatuto de uma ideologia dominante: um sistema totalizado de ideias que interpenetra a maioria dos domínios explicativos da cultura. Durante muitos anos forneceu e ainda hoje fornece, o mito das três raças, as bases de um projeto político e social para o brasileiro (através da tese do «branqueamento» como alvo a ser buscado); permite ao homem comum, ao sábio e ao ideólogo conceber uma sociedade altamente dividida por hierarquizações como uma totalidade integrada por laços humanos dados com o sexo e os atributos «raciais» complementares; e, finalmente, é essa fabula que possibilita visualizar nossa sociedade como algo singular — especificidade que nos é presenteada pelo encontro harmonioso das três «raças». Se no plano social e político o Brasil é rasgado por hierarquizações e motivações conflituosas, o mito das três «raças» une a sociedade num plano «biológico» e «natural», domínio unitário, prolongado nos ritos de Umbanda, na cordialidade, no carnaval, na comida, na beleza da mulher (e da mulata) e na música...”. 7


Se é verdade o que diz Marília Paula dos Santos (2017) citando Da Matta (1987), o movimento “armorial”, na atualidade, é manifestação, é a verdadeira expressão do que deve ser combatido culturalmente, visto que se refugia num mito, num absurdo, que é a “fábula das três raças”:

“Posteriormente, o antropólogo Roberto Da Matta escreveu sobre a “fábula das três raças” como fator de justificativa e de uma visão errônea sobre o atraso econômico do Brasil, de maneira que nessa junção se sobressaem a “preguiça do índio”, a “melancolia do negro” e a “cupidez e estupidez do branco lusitano” (DA MATTA, 1987, p. 59, 62). Da Matta8 enfatiza que: 'É impressionante também observar a profundidade histórica desta fábula das três raças. Que os três elementos sociais – branco, negro e indígena – tenham sido importantes entre nós é óbvio, constituindo-se sua afirmativa ou descoberta quase que numa banalidade empírica. É claro que foram! Mas há uma distância significativa entre a presença empírica dos elementos e seu uso como recursos ideológicos na construção da identidade social, como foi o caso do brasileiro. […]. E me parece sumamente importante considerar como esse triângulo foi mantido como um dado fundamental na compreensão do Brasil pelos brasileiros. E mais, como essa triangulação étnica, pela qual se arma geometricamente a fábula das três raças, tornou-se uma ideologia dominante, abrangente, capaz de permear a visão do povo, dos intelectuais, dos políticos e dos acadêmicos de esquerda e de direita. Uns e outros gritando pela mestiçagem e se utilizando do “branco”, do “negro” e do “índio” como as unidades básicas através das quais se realiza a exploração ou a redenção das massas'. (DA MATTA, 1987, p. 62 – 63). Criado então o mito, para justificar a suposta autenticidade brasileira, seria necessário buscar elementos que estivessem presentes nas três raças já citadas. E é com base nesse ser brasileiro que permeia o consciente e o inconsciente social, que o Movimento Armorial buscará construir, como veremos, a base ideológica que dá origem aos seus trabalhos artísticos. Essa necessidade de a origem de uma raiz autenticamente brasileira está relacionada com o desejo de afirmar uma identidade nacional”. 9


Tainara Jovino Dos Santos (2015), citanto também Da Matta (1987), aprofunda um pouco mais o que se denomina de fábula das “três raças”, em que a divisão entre trabalho intelectual e o manual10 está travestida de um invólucro racista.


Neste sentido, o etnocentrismo colonial e a classificação racial universal, ajudam a explicar a razão pela qual os europeus foram levados a sentirem-se naturalmente superiores a todos os demais povos do mundo. Neste os grupos negros e indígenas foram representados como incapazes e servis. Os índios eram comparados a macacos e porcos, em uma visão mitificada, como selvagens, pela sua falta do que aos olhos estrangeiros era a “civilização”. Negros, mestiços e índios não eram vistos como raças, mas como subespécies. Os teólogos discutiram mais de cem anos se eles teriam alma ou não (SANTOS, 198411). As representações negativas e estereotipadas eram tanto sobre suas características físicas como de seus costumes, hábitos, crenças e cultura. Com o colonialismo ainda foram geradas uma série de ideologias [Cada fase do espírito humano o leva a criar um conjunto de ideias para explicar a totalidade dos fenômenos naturais e humanos, essas explicações constituem a ideologia de cada fase. Ideologia é sinônimo de teoria, a organização sistemática de todos os conhecimentos científicos. Sendo conhecimento científico das leis necessárias do real e sendo corretivo das ideias comuns de uma sociedade, a ideologia passa a ter um papel de comando na prática dos homens, que devem submeter-se aos critérios e mandamentos do teórico antes de agir. A ideologia durante toda a história serviu de instrumento de dominação econômica, social e política, mascarando a realidade social e ocultando a verdade dos dominados (Marilena Chauí, O que é ideologia, 1994, p. 11)12] que influenciaram e continuam a influenciar no fortalecimento e reprodução do racismo, desigualdade e segregação. Estas ideologias contribuem e fundam o tipo específico do racismo à brasileira e impede a compreensão das origens da negação de nossa identidade. A “fábula das três raças” [A “fábula das três raças” ou o “triângulo de raças” segundo Da Matta (1987) foi mantida como um dado fundamental na compreensão do Brasil pelos brasileiros visto que essa triangulação étnica se tornou uma ideologia dominante, abrangente, capaz de permear a visão do povo gritando pela mestiçagem e se utilizando do elemento branco, negro e índio como unidades básicas através dos quais se realiza a exploração ou a redenção das massas. Essa fábula permite juntar as pontas do vivido, do popular e o que nele está contido], por exemplo, se constitui uma das mais poderosas forças culturais do Brasil, forneceu e fornece as bases de um projeto político e social para o brasileiro, permite ao homem comum, ao sábio e ao ideólogo conceber uma sociedade altamente dividida por hierarquizações como uma totalidade integrada por laços humanos dados com o sexo e os atributos raciais complementares, permite visualizar de forma errônea a sociedade como algo singular (DAMATTA, 1987). É claro que os três elementos sociais; branco, negro e o índio são reais e foram obviamente importantes, mas, segundo o autor estes elementos foram usados equivocadamente na construção da identidade social, com uma hierarquização das contribuições, onde os negros e índios ficam com as contribuições superficiais ligadas apenas as artes e a força braçal e os brancos com a parte intelectual que realmente teria desenvolvido o Brasil”.13


E o movimento “Manguebeat”, até que ponto é diferente? A música “Etnia”, não sugere muitas diferenças entre um movimento e outro.

“Etnia”: Esta música é uma celebração à miscigenação e ao hibridismo. Segundo a letra, não interessa sua origem, raça, credo, pois somos todos iguais, e assim devem ser tratadas todas as culturas (como diz a letra, “o seu e o meu são iguais”). É importante o processo de mistura, e por isso temos: o “hip-hop na minha embolada”, o “maracatu psicodélico”, e o “berimbau elétrico”. Na questão da forma musical, o que se tem aqui é uma grande mistura de ritmos e estilos, ao mesmo tempo em que ouvimos scratchs do DJ remetendo ao hip-hop, a percussão toca a rítmica do xaxado e do funk, misturando as duas batidas – já que, em diversos momentos da música, os dois ritmos são justapostos. Enquanto isso, a guitarra e o baixo “brincam” de variar entre o rock e o groove do funk. Ao analisar essa música, Herom Vargas levanta a hipótese de ela ser uma crítica ao movimento Armorial, pois a arte é do povo, e o povo é da arte, e não daqueles que dizem fazer arte com a arte do povo (“E não o povo na arte de quem faz arte com o povo”)” (…) “ETNIA. Somos todos juntos uma miscigenação/E não podemos fugir da nossa etnia/Índios, brancos, negros e mestiços/Nada de errado em seus princípios/O seu e o meu são iguais/Corre nas veias sem parar/Costumes, é folclore é tradição/Capoeira que rasga o chão/Samba que sai da favela acabada/É hip hop na minha embolada/É o povo na arte/É arte no povo/E não o povo na arte/.De quem faz arte com o povo/Por de trás de algo que se esconde/Há sempre uma grande mina de conhecimentos/e sentimentos/Não há mistérios em descobrir/O que você tem e o que gosta/Não há mistérios em descobrir/O que você é e o que você faz/Maracatu psicodélico/Capoeira da Pesada/Bumba meu rádio/Berimbau elétrico/Frevo, Samba e Cores/Cores unidas e alegria/Nada de errado em nossa etnia/14”.15


A música “etnia”, é do ano de 1996.

“Chegou a hora de viajar sobre uma das bandas nacionais que mais merecia estar aqui desde o começo. Como de costume, eu não contava com o entendimento mínimo necessário para falar de tal magnitude que é a banda de Chico Science e Nação Zumbi. Ainda não tenho tal entendimento, é verdade, mas viagens não param de chegar cada vez que escuto o disco "Afrociberdelia" de 1996, por isso me arriscarei, mesmo pisando em solo sagrado. Segue a letra:
Etnia(Science/Maia).
Somos todos juntos uma miscigenação
E não podemos fugir da nossa etnia
Índios, brancos, negros e mestiços
Nada de errado em seus princípios
O seu e o meu são iguais
Corre nas veias sem parar
Costumes, é folclore é tradição
Capoeira que rasga o chão
Samba que sai da favela acabada
É hip hop na minha embolada
É o povo na arte
É arte no povo
E não o povo na arte
De quem faz arte com o povo
Por de trás de algo que se esconde
Há sempre uma grande mina de conhecimentos
e sentimentos
Não há mistérios em descobrir
O que você tem e o que gosta
Não há mistérios em descobrir
O que você é e o que você faz

Maracatu psicodélico
Capoeira da Pesada
Bumba meu rádio
Berimbau elétrico
Frevo, Samba e Cores
Cores unidas e alegria
Nada de errado em nossa etnia

Vamos à andança... O principal motivo pela minha demora em me render ao Nação Zumbi foi um: preconceito. É triste falar, mas é feliz reconhecer e transcender tão pobre sentimento. Quando tentaram me apresentar essa banda há uns 5 anos atrás eu simplesmente fechei meus ouvidos. Naquela época eu era ainda mais tolo do que hoje e pré-julgava uma banda simplesmente por ser brasileira. Com os anos passando e os ensinamentos de vários Mestres me iluminando fui conhecendo mais desse lendário grupo de Recife que mistura como ninguém nesse país o melhor do Rock, Punk, Samba, Funk e Manguebeat com letras de um nível tão elevado que coloca Chico Science - principal compositor - no patamar de grande poetas da atualidade. Faço das palavras de Marcelo D2 as minhas: "Salve os verdadeiros arquitetos da música brasileira. Salve Chico Science". E já que comecei o texto falando sobre preconceito, é justamente sobre isso que canta essa música sensacional. Etnia começa com uma estrofe ótima: "Somos todos juntos uma miscigenação e não podemos fugir da nossa etnia. Índios, brancos, negros e mestiços: nada de errado em seus princípios". Ouça a voz da sabedoria. Chico quer dizer com essa letra o mesmo que U2 disse em One e Jack Johnson em Crying Shame: somos todos um. Não há separação entre você e eu, nem entre você e seu vizinho. Somos todos uma grande rede de seres interligados e não é por causa de cores de pele ou de sotaques que seremos separados. Não mesmo. No caso da canção Etnia há ainda uma foco maior no nosso país, sempre conhecido por sua grande variedade de raças e culturas. Esse fato, que deveria ser apenas positivo, infelizmente também é o causador de mais preconceito e ilusões como superioridade de raças ou regiões. Mas Chico está aqui pra lutar contra isso e com ele eu irei até o fim. Ao som da guitarra pesada e excelente de Lúcio Maia, os versos são cantados rapidamente com uma energia perfeita. Maia também assina a letra da canção, talvez daí o entrosamento são ótimo entre guitarra e voz. Acompanhando as levadas Hard, a bateria de Pupilo também mantém nosso espírito em nível alto de poder. No meio da canção, o grupo conduz uma virada gloriosa onde Chico solta os versos mais marcantes da música: "Não há mistérios em descobrir o que você tem e o que gosta. Não há mistérios em descobrir o que você é e o que você faz". Ao fundo, no meio das palavras, podemos ouvir um leve som de metais viajantes que colaboram em muito com a viagem. Se a mensagem ainda não ficou clara, uma nova subida empolgante traz diversos ícones do nosso país até explodir na frase que encerra a obra: "Nada de errado em nossa etnia!" Abra sua mente, conheça-se, descubra o que te faz feliz e o que te move. E o mais importante: respeite os mesmos atributos de outras pessoas. Melhor ainda: admire-os e se ispire com eles ;).” 16


Observando a história de vida de Chico Science, em seu percurso em direção ao pensamento de Josué de Castro, tudo sugere uma ruptura linguística com o que havia na tradicional cultura em que nasceu. Essa ruptura foi interpretada como uma inovação musical. No entanto, ao citar Josué de Castro, essa ruptura tem a ver com uma nova linguagem que interpreta o real. Existe uma disputa sobre o real. Notava-se, também, como é conhecido na filosofia brasileira, a tentativa da conciliação de ideias, o ecletismo, enlouquecido de si mesmo, porque não tem critério algum.


“[Em] 13 de março de 2017, hoje Chico faria 51 anos, nascido em Olinda, Pernambuco em 13 de março 1966, Francisco de Assis França, filho de funcionário público aposentado, o Sr. Francisco de Assis, e mãe dona de casa, a Senhora Rita França, de origem muito humilde cresce na periferia de Olinda, no bairro de Rio Doce, estudava no colégio (…) Compositor Antônio Maria com seus três irmãos, Jamersson, Jéferson e Goretti. Frequentavam a igreja do bairro, Comunidade São Francisco de Assis, onde tiveram o primeiro contato com a música, nas aulas de violão e canto no coral. Na década de 1980, Francisco de Assis França, com amigos do bairro freqüentava os mangues em busca de caranguejos para vendê-los, o pouco dinheiro arrecadado somado a uma contribuição vinda por parte dos pais era o suficiente para que Chico pudesse participar dos bailes de periferia da cidade. Nessa mesma época era novidade em território brasileiro o Hip Hop, então por toda parte era comum ver os jovens aderindo à novidade, rodas de break, grafiteiros, ao som do rap,onde MC’s mandavam suas rimas enquanto que os DJ’s faziam seus screatchs, e nessas festas de periferia Chico conheceu o movimento e também o parceiro de jornada Jorge Du Peixe, que atuava no movimento hip hop como grafiteiro, Chico e Jorge formaram então a Legião Hip Hop, que era a forma de se divertir dentro da cultura e com toda sua corda, esse era o primeiro grupo de Chico Vulgo, o apelido da época, onde saiam para mostrar os passos de Break, atuando como B.Boys e grafitando os muros da cidade. Com o crescimento do hip hop no Brasil, Chico criou a Orla Orbe, um grupo de rap, trazendo a música negra americana como foco, tinha como inspiração LL Cool Jay e Run DMC. O funk e o soul eram o estilo da Orla Orbe, que buscava embalar as noites com música dançante, mas também pensante, já nascia daí uma das idéias do revolucionário Manguebit: “A Diversão levada a sério”. A Banda teve seu inicio em 1986, Chico Vulgo conseguiu espaço na rádio Transamérica de Recife para divulgar os bailes de periferias e shows da Orla Orbe, quando encontra com Doktor Mabuse e Fred 04, que gravavam o programa “Novas Tendências” na emissora, logo se instalaria uma amizade entre os três, o que anos mais tarde seria o núcleo fundador do Manguebeat. Da mesma época do grupo Orla Orbe, e o encontro com o Mabuse, (ou HD Mabuse), vem um novo experimento o Bom Tom Radio, também com o inseparável parceiro de infância Jorge Du Peixe, e como equipamentos modesto e até mesmo arcaicos, pra não dizer pré-históricos, como brincavam anos mais tarde. Da experiência veio a letra da música A Cidade, porém é claro em uma versão mais bruta, e a forma cantada é o rap. Chico apesar de estar totalmente integrado no universo hip hop, sentia a necessidade de explorar novos ritmos e conceitos, então em 1988, junto com Du Peixe a convite de um amigo foram assistir ao ensaio de uma banda de garagem e conheceram Lúcio Maia, um guitarrista que não levava o som muito a sério, Chico e Jorge ficaram só observando os ensaios até um dia perderem a timidez, e em cima da guitarra de Maia cantaram seu rap, funk e soul da característico da Orla Orbe, o que chamou a atenção de Lúcio Maia e veio a influenciá-lo. No mesmo ano, em homenagem a um desenhista francês, Jaques de Loustal, que desenhava capa de bandas de rock, Chico, Lúcio Maia e Jorge, junto com o baixista Alexandre Dengue e o baterista Vinícius Enter, ambos vizinhos de bairro e amigos de infância de Lúcio Maia, formaram a banda Loustal, que tinha a base do rock dos anos 60 e misturavam com o funk/soul que estava explodindo na época, decorrente ao hip hop, assim como o rap da Orla Orbe. Nessa fase Chico escreveu as músicas Etnia e Manguetown. Em paralelo ao Loustal, ainda em 1988, Chico Science mantinha a Bom Tom Radio, H.D. Mabuse tocava baixo, Jorge Du Peixe ficava na bateria eletrônica, com equipamentos altamente defasados e usando um cubículo como estúdio fizeram algumas “paradas” que posteriormente viraram músicas conhecidas como “Samba de Lado”,”Maracatu de Tiro Certeiro” de Jorge Du Peixe,”O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu” e novamente a música “A Cidade” do Orla Orbe é gravada pela Bom Tom Rádio, assim como outras músicas feitas por Chico na época do hip hop do Orla como Negros”, “Valor” e “Roda, Rodete e Rodiano”, foram gravadas pela Bom Tom Rádio. H.D. Mabuse conhecia Chico Science, Jorge Du Peixe, Lúcio Maia e Alexandre Dengue do Bairro do Rio Doce em Olinda. Porém as andanças por outras áreas renderam-lhe amizades como as de Fred Zeroquatro, Renato L., Xico Sá, e DJ Dolores. Esses últimos nomes são músicos e jornalistas do bairro de Candeias, de classe média de Recife, porém longe do centro da cidade. H.D. Mabuse permitiu o encontro entre os dois grupos de amigos, o pessoal do Rio Doce e de Candeias, bairros de periferia, cujos habitantes foram se encontrar no centro, como lembrou Du Peixe anos mais tarde em uma entrevista, assim formou-se uma forte amizade onde eles trocavam figurinhas sobre cinema, RPG, conflitos étnicos, a cena pernambucana, política, discutiam sobre quadrinhos, e é claro, sobre música também.Por brincar e ao mesmo levar a sério essa mistura de rap, funk/soul com rock, psicodélica Chico ganhou a alcunha de alquimista dos ritmos, e por sua imensa paixão pela ficção cientifica recebeu o apelido de Science, que vem de Ciência, apelido dado por Renato L. que tinha um tio com esse apelido, que também era fissurado por cinema de ficção cientifica, Renato acho interessante esse nome para Francisco França, que misturava ritmos em alquimia como um personagem de ficção cientifica. Agora com a alcunha de Science, Chico viu no amigo Fred Zeroquatro, um companheiro para as misturas musicais, já que o rapaz de Candeias tinha uma forte participação na cena punk de Recife, no cenário Pré-Mangue. Chico Science leu o livro “Homens e Caranguejos” de Josué de Castro, um escritor pernambucano autor do livro “Geografia da Fome” que levava em seus textos discursos e estudos sobre a fome de modo universal, indicado ao Nobel da Paz e vencedor do Prêmio Internacional da Paz, Chico já se identificava com o escritor, mas o fato de ser de origem humilde e o personagem central do romance “Homens e caranguejos” ser de certo modo mais um Francisco de Assis ou Jorge Du Peixe, fez com que o livro fosse sua biografia também ao descobrir o mundo quando se depara com a miséria da lama, as brincadeiras e referencias ao mangue, recife passa a se chamar Manguetown, o que originou a letra de mesmo nome, ainda com o grupo Loustal, a cidade construída em cima da lama dos manguezais, onde habitam os homens caranguejos, ou posteriormente os mangueboys a forma de modernizar o termo, já que os anos 90 começam com uma série de acontecimentos tecnológicos que mudam a cultura do brasileiro, aproveitando o ensejo o núcleo base, ou seja, a galera de Candeias e Rio Doce, de forma metafórica, pensa na idéia de injetar um novo sangue no mangue, para não deixar a cidade morrer, visto que os manguezais são as veias de Recife, e forma adotada de dar uma nova adrenalina a Manguetown é fincar uma parabólica na lama afim de captar as ondas das freqüências mundiais, ou seja incluir aos costumes tradicionais o que existe de novo no cenário da música pop, e pela primeira vez ouve-se falar de chip, transistor, parabólica, antena, junto as palavras caranguejo, mangue, lama. Science continuava com sua banda Loustal, fazia seus shows e suas letras já apresentavam fragmentos do mangue, como por exemplo, Manguetown, a letra se refere à cidade com seus cheiros peculiares, sobre a situação de pobreza de um homem que quer apenas se divertir. Como o Loustal não garantia o sustento de Chico, o mesmo ainda tinha que trabalhar, e foi através de seu trabalho na Emprel (Empresa Municipal de Processamento Eletrônico) em Recife, que conheceu Gilmar Bolla 8, músico percursionista de um bloco de samba-reggae denominado Lamento Negro. Bolla 8 insistia para que Science fosse até o Centro Cultural Daruê Malungo, em Peixinhos, bairro da periferia de Olinda. Demorou mas Chico decidiu ir até lá, e quando chegou se encantou com os tambores de maracatu do Lamento Negro, e pensou: “Por que não misturar o som do tambor com os das guitarras psicodélicas do Loustal?”, essa seria mais uma proposta que sua comparação entre o mangue e a tecnologia, sendo que a o rock e o rap sempre presente em Science seriam a modernidade tecnológica e os ritmos regionais como o maracatu, por exemplo, em analogia, seria o mangue, algo cultural já existente, que seria reprocessado. Chico Science & Lamento Negro, foi uma banda experimental de Chico junto sua musicalidade aos tambores e assim participava de algumas apresentações.O ano era de 1991, quando tudo se encaixava perfeitamente, as brincadeiras de boteco, os textos de Josué de Castro, a analogia do mangue com o Pernambuco, os ritmos regionais sendo reprocessados com ritmos novos, a eletricidade na lama, foi no Bar Catinho das Graças que Chico Science entrou com um sorriso no rosto, e entre um gole e outro de uma cerveja antes do almoço, anunciou uma nova batida: O Mangue.Então acontece o primeiro show, realizado em 1991 no Espaço Oásis, em Recife. E após um ano tentando convencer o Lamento Negro a doar sua musicalidade o Cientista ou Alquimista dos ritmos desenvolveu a seguinte equação: Loustal + Lamento Negro = Chico Science & Nação Zumbi”.17 (…) “Porém, foi-se quase um ano até o nome Chico Science e Nação Zumbi oficializar-se como como banda, Chico ainda se apresentava com Loustal e com o Lamento Negro, ao mesmo tempo em que o nome mangue já havia explodido. O Bloco Lamento Negro, após ceder componentes para o Nação Zumbi, ainda permaneceu com suas atividades, ou seja, não deixou de existir, até por que é um projeto social com crianças e adolescentes no Chão de Estrelas, outro bairro carente de Olinda. Chico deixou o Loustal para estar a frente da Nação Zumbi, todavia o Loustal continuava, agora com Jorge Du Peixe nos vocais, e ainda tinha a presença de Lúcio Maia e Dengue, todos viam o Loustal como um projeto paralelo ao Nação Zumbi, porém a importância do CSNZ fez com que pouco a pouco o Loustal deixa-se de existir. A primeira formação de Chico Science e Nação Zumbi tinha aproximadamente 15 integrantes, era uma desorganização total no palco, Lúcio e Dengue reclamavam que não conseguiam ouvir o som de seus instrumentos ao meio de tantos tambores, e a principio foram contra essa fusão, mas Science conseguiu convencê-los de que algo grande estaria por vir. Com tanta gente na banda era inevitável que uns e outros faltassem aos ensaios e não levavam a sério o trabalho, talvez por não acreditar, Toca Ogan, um dos percussionistas, não comparecia aos ensaios, todos davam como desistente da banda, e de repente em um show, ele aparece tocando seu instrumento e surpreende e supera a todos, mostrando grande capacidade de interação com os demais. Desse modo, a Nação Zumbi foi enxugada e ficaram apenas 8 integrantes, sendo eles: Chico Science, Jorge Du Peixe, Lúcio Maia, Alexandre Dengue, Gilmar Bolla Oito, Toca Ogam, Gira e Canhoto. Du Peixe, foi convidado por Chico a compor a Nação Zumbi, logo após a extinção dão Loustal, porém para o amigo só restaria espaço nos tambores, onde Jorge assumiu com maestria, mostrando a sua versatilidade musical. Após ouvir o som do Lamento Negro e propor uma fusão Chico diz fazer a batida do mangue um novo som, seria prepotência de Science dizer criar um novo estilo musical? Hoje vimos que não foi só um estilo musical, mas uma cena musical de um estado quase defasado em música, pois como Fred 04 disse, já havia muito tempo que não saia nada de grande do Recife, o último foi Alceu Valença, e a as pessoas já não estavam mais ouvindo esse som.Com essa proposta de mesclar e usar termos do universo Mangue em suas letras, Chico Science e Nação Zumbi, como dito anteriormente, reprocessaram a música Manguetown, que virou hino dessa proposta. Como tudo fora uma brincadeira que tomou proporção gigantesca de âmbito mundial, nada foi premeditado, a idéia era de mistura de ritmos, e de realizar uma cooperativa, outro termo muito utilizado na época, tanto é que as músicas eram compostas em conjunto entre a nação Zumbi e o Mundo Livre S/A, e os amigos que não atuavam como músicos, ajudaram na divulgação, como o caso de Renato L. e Mabuse. Fred 04 trabalhou em uma emissora de Pernambuco, a TV Uva, como uma espécie de repórter de documentários (Free Lancer) e antes de Chico de pensar no Mangue como música, 04 já havia feito uma espécie de documentário sobre os manguezais, então foi juntar o útil ao agradável, já que a imprensa, a principio pernambucana, e em seguida a brasileira de modo geral, queria uma resposta sobre que som é esse que vem do Pernambuco? Que história é essa de parabólica fincada na lama? Então nasce o primeiro manifesto do Manguebit: Caranguejos com Cérebro. A cena em Recife estava formada. Músicos tocavam juntos, e juntos distribuíam panfletos, emprestavam instrumentos, e até letras em conjunto eram feitas, isso era uma cooperativa na música pernambucana, e a organização em meio ao caos chamou a atenção de olhos de todo o Brasil, assim a MTV Brasil foi até o Pernambuco para fazer uma matéria sobre a cena do mangue. Havia festivais em Pernambuco como o Abril Pro Rock em que os shows eram lotados apenas por bandas grandes nacionalmente, mas naquela época a galera estava em massa para ver Mundo Livre S/A e Chico Science e Nação Zumbi. O Manguebeat foi apresentado ao resto do Brasil, e veio presentear os ouvidos dos demais brasileiros. Ainda em Recife, a “cooperativa mangue” fez uma série de ‘shows’ denominados “Da Lama Ao Caos” e arrecadaram fundos para uma turnê pelo sudeste do país. A novidade de algo denominado Manguebit, fez pessoas arriscarem palpites sobre o futuro da música e das bandas, alguns viram oportunidades de ouro para fazer dinheiro com os pernambucanos, que a essa altura buscavam um lugar ao sol. Desse modo a gravadora Banguela Records, do grupo Titãs, fechou contrato com o Mundo Livre S/A, enquanto a multinacional Sony ficou com Chico Science e Nação Zumbi. Foram gravados, então, os dois primeiros discos do Manguebeat: Samba Esquema Noise do Mundo Livre S/A — 1994 e o Da lama ao Caos de Chico Science e Nação Zumbi — 1994, com essas duas obras estava fincado o conceito Manguebeat, que provou que não era apenas uma forma de fazer música misturando ritmos regionais aos modernos, mas sim que era uma nova cultura, ou contra cultura como alguns preferem chamar, era a necessidade de sair do mormaço pernambucano, que foi obtido inicialmente através da música, mas refletiu em outros segmentos da sociedade como os Quadrinhos, Esculturas, Cinema, Moda, Dança e na literatura. Com o sucesso no sudeste do Brasil, aconteceram 0s shows pela Europa, turnês mundiais, cantando ao lado de ídolos como Gilberto Gil em New York e os Páralamas do Sucesso na Alemanha, porém devido a inexperiência, o jovem percursionista Canhoto oriundo do Lamento Negro, humilde de origem acabou fazendo coisas que os outros integrantes da Nação não aprovaram, e isso resultou em sua saída da banda, dando lugar para o baterista Pupilo. Assim, colhendo frutos do sucesso, a Nação Zumbi, gravou seu segundo disco Afrociberdelia, em 1996.O nome resulta da mistura de África com Cibernética e psicodélica, a última música do CD Da Lama Ao Caos, já apontava para o novo termo que Science e amigos inventaram, a faixa é Coco Dub (Afrociberdelia). E nesse álbum puderam colocar músicas que não couberam no primeiro disco, como Manguetown, Etnia e Sangue de Bairro, essa última composta para o filme Baile Perfumado, junto com Angicos [A música Angicos está no CD Trilha Sonora do Filme Baile Perfumado, de 199618], que não entrou em nenhum CD da Banda, enquanto que Manguetown e Etnia já existiam desde da época de Loustal. Outra canção de sucesso do disco é Maracatu Atômico, de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, que foi, originalmente, gravada em 1973 por Gilberto Gil, e em 1974 pelo próprio Jorge Mautner, e então em 1996 é feita a releitura por CSNZ. O sucesso de Chico Science & Nação Zumbi estava consolidado, sendo freqüentemente convocados para participações com artistas já consagrados como Fernanda Abreu, em Rio 40º e Arnaldo Antunes em Inclassificáveis, Max Cavallera, líder da Banda de Heavy Metal Sepultura, queria fazer um projeto paralelo com o malungo Chico Science, porém nunca chegou a dar certo devido a perca prematura do ídolo nordestino, mas o projeto já tinha até nome “Almas Sebosas” com Chico e Cavaleira nos vocais e um misto de maracatu com heavy metal nos instrumentais. Porém, por intrigas com os músicos do Sepultura, Max deixou a banda e montou um novo grupo, o Soulfly, tendo como parceiro, Lúcio Maia da Nação Zumbi, e a nova banda de Cavallera já nasce como herdeira do Mangue, tendo músicas como Sangue de Bairro, de Chico e outras que são inspirações pura como Cangaço e Molambo. No ano de 1997, ao dia 2 de fevereiro, aconteceu à morte de Chico Science, o movimento mangue sente sua falta. Science perde controle do Fiat Uno que dirigia e se choca contra um poste, fãs de todo mundo se despedem de uma mente brilhante, dentre eles Ariano Suassuna, que frequentemente se desentendia com Chico devido a sua posição armorial [Ariano Suassuna, escritor de sucesso, autor de livros como O Auto da Compadecida e A Pedra do Reino, era líder do movimento Armorial, que defendia a conservação dos ritmos nordestinos, sendo rigorosamente contra a fusão de outros estilos as musicas regionais pernambucanas. Em resumo era contra o Manguebit19] de não gostar da mistura de ritmos regionais com os mais modernos. A morte de Chico foi um choque para os mangueboys, mas o movimento soube atravessar essa fase de perca incomparável, e mesmo não sendo tão difundido como na época de Science, o mangue vive, talvez precisando que seja injetada nova energia na lama.Logo veio o segundo Manifesto do Movimento Mangue, também escrito por Fred Zeroquatro”.20


Helio Oiticica21 (1968), citado por Ana Paula Pacheco Godoy (2013), embora fale no mito da miscigenação, percebe-se muito bem a intenção real desse, ao afirmar que “só o negro e o índio não capitularam”. É exatamente essa a questão. Subjacente a ideia do mito das três raças ou da miscigenação, esta uma tentativa despudorada de escamotear toda a história de massacre do povo negro e do índio. É um faz de conta, um verdadeiro “imbróglio”22.


“Antes mesmo das ideias de Caetano Veloso e Gilberto Gil tomarem forma e virem a público no festival de MPB em outubro de 1967, Oiticica já citava em seu texto sobre a nova objetividade o conceito de Antropofagia desenvolvido por Oswald de Andrade como uma forma de caracterizar a cultura brasileira. Sua proposta era também a de criação de uma “imagem brasileira total”, com a intenção de se questionar o universalismo cultural que tomava o Brasil e as produções intelectuais da época
', na verdade, porém, a exposição de Nova objetividade era quase que por completo mergulhada nessa linguagem pop, híbrida para nós, apesar do talento e força dos artistas nela comprometidos. Por isso creio que a “Tropicália”, que encerra toda essa série de proposições, veio contribuir fortemente para essa objetivação de uma imagem brasileira total, para a derrubada do mito universalista da cultura brasileira, toda calcada na Europa e na América do Norte, num arianismo inadmissível aqui: na verdade quis eu com a “Tropicália” criar o mito da miscigenação - somos negros, índios, brancos, tudo ao mesmo - nossa cultura nada tem a ver com a europeia, apesar de estar até hoje a ela submetida: só o negro e o índio não capitularam a ela'. (OITICICA, 2008, p. 101) [Trecho retirado do livro Tropicália, organizado por Frederico Coelho e Sergio Cohn. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2008. Extraído do depoimento “Tropicália”, escrito em 4 de março de 1968, por Helio Oiticica]”. (…) “Em 1928, Oswald escreve o Manifesto Antropófago, considerado um importante documento histórico que norteou as ideias modernistas no Brasil. Segundo Veloso, o manifesto antropófago.
'desenvolve e explicita a metáfora da devoração. Nós, brasileiros, não deveríamos imitar e sim devorar a informação nova, viesse de onde viesse, ou nas palavras de Haroldo de Campos, assimilar sob espécie brasileira a experiência estrangeira e reinventá-la em termos nossos, com qualidades locais ineludíveis que dariam ao produto resultante um caráter autônomo e lhe confeririam, em princípio, a possibilidade de passar a funcionar por sua vez, confronto internacional, como produto de exportação”. Oswald subverte a ordem de importação perene – de formas e fórmulas gastas – (que afinal se manifestava mais como má seleção das referências do passado e das orientações para o futuro do que como medida da força criativa dos autores) e lançava o mito da antropofagia, trazendo para as relações culturais internacionais o ritual canibal. A cena da deglutição do padre D. Pero Fernandes Sardinha pelos índios passa a ser a cena inaugural da cultura brasileira, o próprio fundamento da nacionalidade. (VELOSO, 2008, p. 24223)””.24


“Manifesto Antropófago. Oswald Andrade. Em Piratininga. Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. Revista de Antropofagia, Ano 1, N. 1, maio de 1928. Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. 'Tupi, or not tupi that is the question'.'Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.'Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago. Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa. O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará. Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande. Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil. Uma consciência participante, uma rítmica religiosa. Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar. Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. A idade de ouro anunciada pela América. A idade de ouro. E todas as 'girls'. Filiação. O contato com o Brasil Caraíba. Ori Villegaignon print terre25. Montaigne. O homem natural. Rousseau. Da Revolução Francesa ao Romantismo, à Revolução Bolchevista, à Revolução Surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling26. Caminhamos… Nunca fomos catequizados. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Ou em Belém do Pará. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel, mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia. O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores. Só podemos atender ao mundo orecular. Tínhamos a justiça codificação da vingança. A ciência codificação da Magia. Antropofagia. A transformação permanente do Tabu em totem. Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. Cadaverizadas. O stop do pensamento que é dinâmico. O indivíduo vitima do sistema. Fonte das injustiças clássicas. Das injustiças românticas. E o esquecimento das conquistas interiores. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. Roteiros. O instinto Caraíba. Morte e vida das hipóteses. Da equação eu, parte do Cosmos, ao axioma Cosmos, parte do eu. Subsistência. Conhecimento. Antropofagia. Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo. Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses. Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro. Catiti Catiti/Imara Notiá/Notiá Imara/Ipeju27.A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais. Perguntei a um homem o que era o Direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Esse homem chamava-se Galli Mathias. Comi-o. Só não há determinismo onde há mistério. Mas que temos nós com isso? Contra as histórias do homem que começam no Cabo Finisterra. O mundo não datado. Não rubricado. Sem Napoleão. Sem César. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Só a maquinaria. E os transfusores de sangue. Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas. Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu: — É mentira muitas vezes repetida. Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somos fortes e vingativos como o Jabuti. Se Deus é a consciênda do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é a mãe dos vegetais. Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social planetário. As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo. De William James e Voronoff. A transfiguração do Tabu em totem. Antropofagia. O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas+ fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa. É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci. O objetivo criado reage com os Anjos da Queda. Depois Moisés divaga. Que temos nós com isso? Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade. Contra o índio de tocheiro28. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. Antônio de Mariz. A alegria é a prova dos nove. No matriarcado de Pindorama. Contra a Memória fonte do costume. A experiência pessoal renovada. Somos concretistas. As ideias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimarnos as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas. Contra Goethe, a mãe dos Gracos, e a Corte de D. João VI. A alegria é a prova dos nove. A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura – ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. O amor cotidiano e o 'modus vivendi' capitalista. Antropofagia. Absorção do inimigo sacro. Para transformá-lo em totem. A humana aventura. A terrena finalidade. Porém, só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal, que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud, males catequistas. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. É a escala termométrica do instinto antropofágico. De carnal, ele se torna eletivo e cria a amizade. Afetivo, o amor. Especulativo, a ciência. Desvia-se e transfere-se. Chegamos ao aviltamento. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo – a inveja, a usura, a calúnia, o assassinato. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados, é contra ela que estamos agindo. Antropófagos. Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu, na terra de Iracema, – o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo. A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: – Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e o rapé de Maria da Fonte. Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama”.29




“Escrito pela jornalista carioca Ana Helena Tavares30, o livro “O problema é ter medo do medo: o que o medo da ditadura tem a dizer à democracia” [Editora Revan, 2016] reúne 26 entrevistas com personagens que viveram de perto o pré-golpe ou a resistência à ditadura e “trazem rico material para conhecimento e análise do que foi esse período na história do Brasil”, escreveu o também jornalista e ex-guerrilheiro Cid Benjamin31 no prefácio do livro. O título do livro foi emprestado da resposta de Dom Pedro Casaldáliga32 a uma das perguntas de Ana Helena, durante entrevista em sua casa em 2012. “O sr. alguma vez teve medo?”, perguntou a jornalista. “Várias! O medo é natural ao ser humano. O problema é ter medo do medo”, respondeu o bispo do Araguaia. Durante seu depoimento Casaldáliga acrescenta que a democracia é uma palavra profanada. “Porque se tem uma democracia, entre aspas, política. Mas não se tem democracia econômica. Não se tem democracia étnica. Os povos indígenas, dentro destes Estados democráticos, são coibidos. São marginalizados”. Uma das falas mais emblemáticas vem de Carlos Eugênio Paz [o comandante Clemente], último comandante vivo da ALN [Ação Libertadora Nacional]. De acordo com a autora do livro, Carlos Eugênio teve sua foto ainda jovem estampada em cartazes e jornais. “Estava marcado para morrer. Mas sobreviveu e, após exílio forçado, voltou para contar história. Não se incomoda em contá-la, com seus erros e acertos. Ele acha que todos precisam saber de tudo. Por isso, constantemente ele dá palestras em escolas e toca em feridas”. No livro está registrado seu desejo de que “o Juquinha precisa saber”, referindo-se ao direito de nossas crianças e adolescentes conhecerem a verdade sobre os sombrios tempos de autoritarismo vividos no Brasil. “Eu só vou morrer feliz quando ‘Juquinha’ chegar à escola, abrir seu livro e estudar sobre João Cândido, o Almirante Negro. Apolônio de Carvalho, Joaquim Câmara Ferreira”, declara Carlos Eugênio. Sim. É fundamental que a história desse país e de toda a humanidade seja contada sem máscaras, sem recortes e sem versão única, para que as novas gerações e as futuras não se apresentem propensas a apoiar posições autoritárias como vem fazendo parcela significativa da nossa juventude. Pesquisa recente realizada pelo DataFolha, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública [FBSP] [Medo da violência e o apoio ao autoritarismo no Brasil: índice de propensão ao apoio a posições autoritárias. Organizador: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2017. 39p.], aponta que 8,1% dos jovens brasileiros com idade entre 16 e 24 anos, tende a apoiar medidas autoritárias, acreditando ser essa a solução para os nossos problemas atuais [O Datafolha aplicou 2.087 entrevistas, em uma amostra estatisticamente representativa da população brasileira com 16 anos ou mais e em 130 municípios de pequeno, médio e grande porte, entre os dias 07 e 11 de março de 2017]. Certamente o desconhecimento dos graves fatos que marcaram a história recente do Brasil — especialmente durante o período ditatorial de mais de duas décadas, iniciado em 1964 com o golpe civil militar que depôs o presidente João Goulart – ou seu conhecimento pela via do caminho único, escolhido pelos que ditaram a história e seu registro oficial, contribuem significativamente para que parcela de nossa juventude, em pleno século XXI, defenda a volta da ditadura ou se apresente simpático a discursos de ódio e intolerância patrocinados por mentes doentias capazes de fazer apologia à tortura e defender o genocídio. Lembro-me aqui de um dos textos de Eduardo Galeano publicado no (livro) Mulheres [1997]. Nos conta o escritor uruguaio: ' — Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo. Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los. Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas'. Assim se reproduz a história contada conforme o querer e os interesses dos dominadores. Assim se conduz à alienação e à ignorância gerações e mais gerações, pela perpetuação do medo e das mentiras que o alimentam. Ademais, o que temos observado ultimamente confirma a orientação ambivalente entre autoridade e poder, identificada pelo psicanalista judeu alemão Erich Fromm como uma das principais características vinculadas à personalidade autoritária. Segundo Fromm, o indivíduo autoritário é, a um só tempo, submisso [em relação àqueles que percebe como mais fortes] e dominador [diante daqueles que julga mais fracos]. Por isso, urge que recontemos nossa história, com reflexão e criticidade, por muitas vozes e livres do fantasma do medo. Se faz indispensável que a recontemos e a contemos em cada praça, em cada encontro, em cada escola e em cada livro didático. Por fim, parafraseando o escritor Rubem Alves, é primordial que não nos contentemos com o papel de revisores e sejamos, de agora e para sempre, gramáticos de nossa própria história. 33
1Mestre em História do Brasil.
2 “DOIS BRASIS: FHC E CELSO FURTADO”. Postado por Cláudio Antonio Oliveira Camargo às quarta-feira, março 16, 2011. http://caocamargo.blogspot.com/2011/03/dois-brasis-fhc-e-celso-furtado.html . Diretor - Ex Libris Comunicação Integrada 2009 – atualmente.Educação: Ciências Políticas e Sociais - Escola de Sociologia e Política de São Paulo, 1979 – 1982; Filosofia – PUC-SP, 1986 – 1987. https://plus.google.com/101512090470183017255 .
3
5Jessé Souza: É preciso explicar o Brasil desde o ano zero. Amanda Massuela. 19 de outubro de 2017. https://revistacult.uol.com.br/home/jesse-souza-a-elite-do-atraso/ .
6https://pt.wikipedia.org/wiki/Uma_Hist%C3%B3ria_de_Amor_e_F%C3%BAria
7DA MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis, Vozes, 1981, p. 58
8DA MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
9Universidade Federal da Paraíba Centro de Comunicação, Turismo e Artes Programa de Pós-Graduação em Música Ecos Armoriais: Influências e Repercussão da Música Armorial em Pernambuco. Marília Paula dos Santos. Universidade Federal da Paraíba Centro de Comunicação, Turismo e Artes Programa de Pós-Graduação em Música. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Música da Universidade Federal da Paraíba como requisito parcial para a obtenção do título de Mestra em Música, área de concentração em Etnomusicologia, linha de pesquisa Música, Cultura e Performance. Orientador: Prof. Dr. Carlos Sandroni. João Pessoa – PB Outubro/2017. http://www.ccta.ufpb.br/ppgm/contents/documentos/dissertacoes/MARILIAPAULADOSSANTOS.pdf .
11SANTOS, JOSÉ RUFINO DOS. O que é o racismo. São Paulo: abril cultural: Brasiliense, 1984. Coleção primeiros passos.
12CHAUÍ, Marilena. (1980). O que é ideologia. Editora Brasiliense, 34ª edição. São Paulo, 1994. (Coleção primeiros passos).
13UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS. PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO. NÚCLEO INTERDISCIPLINAR DE ESTUDOS E PESQUISAS EM DIREITOS HUMANOS. PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO INTERDISCIPLINAR EM DIREITOS HUMANOS. EDUCAÇÃO E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS: AVANÇOS E RECUOS NUMA PRÁTICA PEDAGÓGICA ANTIRRACISTA NO MUNICÍPIO DE GOIÂNIA. TAINARA JOVINO DOS SANTOS. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Stricto Senso Interdisciplinar em Direitos Humanos da Universidade Federal de Goiás na linha de pesquisa Alteridade, Estigma e Educação em Direitos Humanos, como parte dos requisitos exigidos para obtenção do título de Mestre em Direitos Humanos, sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Rosani Moreira Leitão. GOIÂNIA, 2015. https://ppgidh.ndh.ufg.br/up/788/o/Disserta%C3%A7%C3%A3o_Tainara_Jovino_dos_Santos.pdf . Gledhill, Helen Sabrina. Travessias racialistas no Atlântico Negro: reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino / Helen Sabrina Gledhill. - 2014. UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS. CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS – CEAO. PROGRAMA MULTIDISCIPLINAR DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS ÉTNICOS E AFRICANOS – PÓS-AFRO. HELEN SABRINA GLEDHILL. TRAVESSIAS RACIALISTAS NO ATLÂNTICO NEGRO: reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino. Salvador, 2014. Tese apresentada ao Programa Multidisciplinar de Estudos Étnicos e Africanos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas/Centro de Estudos Afro-Orientais – CEAO, da Universidade Federal da Bahia, como parte dos requisitos para obtenção do título de Doutor em Estudos Étnicos e Africanos. Orientador: Prof. Dr. Jeferson Afonso Bacelar. Salvador, 2014. Banca Examinadora: Jeferson Afonso Bacelar – Orientador, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, Universidade Federal da Bahia; Flávio dos Santos Gomes, Doutor em História Social pela Universidade de Campinas – Unicamp, Universidade Federal do Rio de Janeiro; Luiz Alberto Ribeiro Freire , Doutor em História da Arte pela Universidade do Porto, Portugal, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia; Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha , Doutor em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Universidade Federal da Bahia; Wilson Roberto de Mattos, Doutor em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, Universidade do Estado da Bahia. https://www.academia.edu/6578299/Travessias_Racialistas_no_Atl%C3%A2ntico_Negro_Reflex%C3%B5es_sobre_Booker_T._Washington_e_Manuel_R._Querino .
15Caranguejos com Cérebro:uma análise dos hibridismos musicais realizados pelo movimento manguebeat. Ricardo de Lima Zollner Júnior. Prof. Dr.José Eduardo Ribeiro Paiva (orientador). Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Artes - Programa de Pós Graduação em Artes. Linha de Pesquisa Cultura Audiovisual e Mídia. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós- graduação em Artes na Univesidade Estadual de Campinas. UNICAMP, 2010. http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/283954/1/ZollnerJunior_RicardodeLima_M.pdf .
16"Etnia”. Felipe Perazza. 03/08/2012. “Preconceito é triste demais!”. http://www.musicasdeandarilho.com/2012/08/chico-science-nacao-zumbi-etnia-letra.html .
18Manguebit.Jefferson Ferreira Wesolowski. Clube de Autores, 9 de dez de 2009, p. 69.
19Manguebit.Jefferson Ferreira Wesolowski. Clube de Autores, 9 de dez de 2009, p. 71.
20 Jeff Ferreira . Colunista e entrevistador do site Submundo do Som, apresentador do programa radiofônico Consciência Brasileira na Rádio Educadora Estrela FM de Jaguariúna - SP (94.5 MHz), autor dos livros "Manguebit - A Revolução da Lama" e "30 Anos do Disco Hip Hop Cultura de Rua. Produtor executivo do álbum "Guia Prático de Como Fazer Inimigos", do rapper Siloque, e organizador da coletânea "Programa Consciência Brasileira apresenta: Interior, Mas Não Inferior - vol 1Chico Science: O Poeta do Mangue - parte II. Jeff Ferreira . http://www.submundodosom.com.br/2017/03/chico-science-o-poeta-do-mangue-parte-ii.html
23VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. Ed.: Cia das Letras. São Paulo, 2008.
24UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. ESCOLA DE ARTES, CIÊNCIAS E HUMANIDADES. PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS CULTURAIS. ANA PAULA PACHECO GODOY. O MANGUEBEAT ENTRE O GLOBAL E O LOCAL: A DISPUTA NA CENA CULTURAL PERNAMBUCANA NOS ANOS 1990. SÃO PAULO, 2013. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da Universidade de São Paulo como requisito para a obtenção do título de Mestre em Estudos Culturais. Orientador: Jefferson Agostini Mello. O Manguebeat entre o global e o local: a disputa na cena cultural pernambucana nos anos 1990 / Ana Paula Pacheco Godoy ; orientador, Jefferson Agostini Mello. – São Paulo, 2013.http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100135/tde-29062015-111036/pt-br.php .
25 “'Où Villegaignon print terre' (1554, chegada do francês Nicolas Durand de Villegagnon ao Brasil e do registro de suas impressões sobre a vida dos indígenas nativos), Montaigne (segunda metade do século XVI, ensaio Dos Canibais sobre as práticas antropofágicas e a decadência das sociedades ditas desenvolvidas)”. ANTROPOFAGIA COMO MITO DE CONTROLE. Tecia Vailati. Universiteit Leiden, Países Baixos. t.e.vailati@hum.leidenuniv.nl . Artigo recebido em 08 de fevereiro de 2015 e aceito em 20 de março de 2015. Transversos, Rio de Janeiro, v. 03, n. 03, out. – mar. 2014/2015. |www.transversos.com.br . https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/transversos/article/viewFile/18558/13559 . https://sibila.com.br/english/anthropophagic-manifesto/2686 . Eurídice Figueiredo, Paula Glenadel. O francês e a diferença. 7Letras, 2006, p. 15. MENSAGEM AO ANTROPÓFAGO DESCONHECIDO (Da França Antárctica). Oswald de Andrade. https://periodicos.ufsc.br/index.php/travessia/article/download/17697/16273 . O Modernismo brasileiro e Montaigne: A Antropofagia de Oswald de Andrade [Apresento aqui a versão em língua brasileira (e gostaria de agradecer a Sílvia Pimenta pelo auxílio na elaboração do presente texto) do artigo originalmente publicado no Bulletin de la Société des Amis de Montaigne, VII série, nº 19-20, juil-déc. 2000, p. 61-64]. Celso Martins Azar Filho [Celso Martins Azar Filho é Professor Adjunto na UFRRJ e Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Filosofia do IFCS-UFRJ. Líder do Laboratório de Estudos Renascentistas (LERen) faz parte do núcleo de sustentação do GT Neoplatonismo da ANPOF. Tendo participado de grupos e atividades de pesquisa sobre o pensamento renascentista em diversos países, publicou vários artigos sobre o tema em periódicos nacionais e estrangeiros, além de um livro (A filosofia de Montaigne, 2009)]. REVISTA PERIFERIA VOLUME III, Número 1. https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/download/3410/2337 .
26 Monica Pimenta Velloso. História & Modernismo. Autêntica, 1 de jan de 2013, p. 107.
27 “Catiti catiti/ Imara Notiá / Notiá Imara / Ipeju: pequeno "poema" em língua indígena, a qual, pelo apelo sonoro e lúdico, é aproximada da estética surrealista. Couto Magalhães traduziu por: Lua nova, ó Lua Nova! Assoprai em lembranças de mim; eis-me aqui, estou em vossa presença; fazei com que eu tão somente ocupe seu coração”. http://www.ufrgs.br/cdrom/oandrade/catiti.htm . “Para compreender como se dá esta ressignificação é preciso levar em consideração o único fragmento supostamente escrito em língua indígena no Manifesto, que se encontra no aforismo 25: “Catiti Catiti/ Imara Notiá/ Notiá Imara/ Ipeju”. Apropriados de um trecho do livro “O Selvagem”, de Couto de Magalhães, estes versos são, segundo o autor, um canto tupi de invocação à lua nova (MAGALHÃES, 1935, p. 173 - MAGALHÃES, Couto de. O selvagem (1876). São Paulo: Comp. Ed. Nacional, 3ª ed, 1935. ). Magalhães aponta, no entanto, que não compreende plenamente as palavras ali transcritas porque são, possivelmente, transformações da língua que diferem de seu próprio conhecimento dela: “Como são curtas, aqui transcrevo tais quais as vi, ou parecendo-me que, ou a língua está adulterada, ou é algum fragmento de tupi anterior às transformações por que já tinha passado a língua, quando nos foi conhecida, porque palavras há que não entendo” (p. 171)”. O “INDECIDÍVEL CARAÍBA”: UM OLHAR DERRIDIANO PARA O MANIFESTO ANTROPÓFAGO . Maria Carolina de Almeida Amaral (Graduanda em Letras, UFPR). Curitiba, Vol. 5, nº 8, jan.-jun. 2017 ISSN: 2318-1028. REVISTA VERSALETE. http://www.revistaversalete.ufpr.br/edicoes/vol5-08/12.O%20indecid%C3%ADvel%20cara%C3%ADba.%20Maria%20Carolina.pdf . Maria Augusta Fonseca. Oswald de Andrade: biografia. Globo Livros, 2007, p. 209. Lúcia Wataghin. Brasil e Italia: vanguardas. Atelie Editorial, 2003, p. 38.
33 MARÇO 24; AMERICA/FORTALEZA 2018. “O Juquinha Precisa Saber”. Joelmir Pinho. Joelmir Pinho é professor substituto do curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA]. https://joelmirpinho.wordpress.com/2018/03/24/o-juquinha-precisa-saber/ .

Comentários

Postagens mais visitadas