PT, o norte e o Nordeste, Grande Medo, obscenidade da palavra, corpo do povo negro e do índio, Carnavalização do Brasil- II
Cláudio
Antunes Boucinha1
Grande Medo
Durante
a Revolução Francesa, ocorreu o “Grande Medo foi um período no
qual o campesinato francês tomou conhecimento da mudança Francesa,
tornando-a de caráter nacional,
desencadeando uma série de ataques a castelos, casas, igrejas e
saques a aldeias. Muitos nobres fugiram de suas propriedades
propiciando o fim dos resquícios feudais em França”2.
Olhando
as mudanças que estão ocorrendo no que se denomina de nordeste, mas
não de forma exclusiva, principalmente a história brasileira, com
seus séculos de escravidão e racismo; com toda a república em que
a melhor versão ocorreu, um tanto as avessas, com Getúlio Vargas,
especialmente na zona urbana. Na atualidade, com a governança do
Partido dos Trabalhadores, pode-se perceber o quanto a elite vendida
brasileira tem medo dos pobres e dos miseráveis, procurando tachar
ou fazer esteriótipo da ação dos governos progressistas como
“comunistas”, corruptos, ou até mesmo arrogantes. A elite
entreguista brasileira vive no atraso, enquanto ideologia e programa
de desenvolvimento econômico; mas seu grande medo, remete ao século
XVIII, quando os pobres e miseráveis saíram do controle da
burguesia, ou estimulados por alguns burgueses mais radicais. 3
No
resultado das eleições de 2018, a base do (PT) foram os Estados do
Nordeste. Como explicar esse fenômeno que foi contrapondo,
contraposição, contraditório, destoante, estranho, aparentemente
sem lógica, antítese, divergente, foi o diferente, sem dúvida
nenhuma. Havia uma previsão de que o (PT) poderia ganhar as eleições
no nordeste? Significa realmente um apoio incondicional as ideias do
(PT)? Como toda a eleição, apenas uma amostra local e temporal de
um sentimento que foi expresso nas urnas? Tais resultados significam
que o Nordeste vai sempre votar no (PT), de forma incondicional? Por
que o discurso fascista não funcionou no Nordeste?
A
questão da linguagem é outro fenômeno que deve ser estudado, no
caso da região do Brasil que se denomina de “nordeste”. A ideia
é que haja uma certa formalidade da escrita, mas não se trata
somente de escrever. O que se discute é política, acima da
filosofia, da história, da sociologia, da antropologia. Nesse
sentido, a expressão dos sujeitos históricos estão determinados
pela própria cultura que herdaram. A linguagem nem sempre é
obscena, mas é também palavrão, nome “feio”4.
Bocage 5
é nome de uma personalidade, mas, no Brasil, o significado é também
obsceno, obscenidade. Uma piada de Bocage, tem um significado
obsceno. Quem procura a obscenidade de Bocage? O povo. Quem é
esse povo, na atualidade, no Brasil? Serão os povos negro e índio?
Por outro lado, a obscenidade remete para Freud, para a psicanálise.
É preciso melhorar um pouco esse caminho, em direção a Georges
Bataille, como pensador do corpo 6:
“O
que é tocar um rosto, um corpo, a nudez que deles emana, essa
luminosidade oscilante que ainda persiste apesar de toda banalização,
de toda fabricação do nu como produto de consumo, esse
nu retalhado em pedaços ou fetiches cuja topografia desoladora
lembra a figura mapeada de um boi
na porta das churrascarias?”
(…) “Por analogia com as flores, a pele é uma fronteira que
separa o exterior harmonioso e belo do
interior repugnante, constituído de uma maçaroca de nervos,
vísceras, vasos linfáticos, órgãos, sangue, secreções, e outros
componentes do organismo.
O interior do corpo é tido
como horrível e repelente.
Para Freud, a visão da
carne interior é uma visão de angústia, o inverso da forma humana,
a essência do disforme.
O “abjeto é uma
fronteira”, diz Julia Kristeva;
o abjeto está por baixo da superfície da pele. A pele nos defende,
nos resguarda do horror
dessa parte que não interessa ser vista.
A nós, basta que funcione. Revirá-la significa ameaçar o corpo de
alguma forma. (…), ele só se expõe desse modo em casos de
cirurgia, acidente ou de morte na mesa de autópsia. Paradoxalmente,
no entanto, é dentro do
útero materno que a vida começa.
O rebento vem do horror das
entranhas, em meio a outros fluxos interinos como a urina, o
excremento, o sangue. Ele
[o filho] também é “expulso” do organismo à maneira destes
líquidos e do sangue menstrual. O filho, eliminado pelo organismo da
mãe, vem do mesmo lugar imundo (… por isso mesmo sagrado) e é da
mesma natureza do sangue, e do esperma.
O nosso horror diante da sujeira e da abjeção, de acordo com Julia
Kristeva7,
revela no fundo, o recalcamento de um
desejo ligado ao corpo materno. De modo que tocar a sujeira é o
mesmo que (…) este corpo proibido e sagrado”.8
Mais
que os povos índio e negro, é o corpo que está no jogo político,
é a bio política. São os séculos de escravidão e perseguição
que estão em jogo na política atual 9.
É o medo da “volta da aroeira no lombo de quem mandou dar”. É
esse medo ancestral de que um dia, os escravos, os índios, como
maioria absoluta, revoltar-se-iam contra o Senhor e Amo. Por isso
esse estupendo aparato de destruição e morte do corpo do povo negro
e do índio, que permanece até hoje. Não se trata de uma questão
apenas psicológica, mas também cultural, política, que envolve o
corpo da mulher, do homem, do índio, do negro. Quando se fala em
marxismo cultural, não é de Marx que se está falando, mas da
cultura do índio e do negro. A direita mais rasteira do Brasil não
sabe e nem quer saber quem é efetivamente Marx, para o capitalismo.
A direita, no Brasil, imagina Marxismo como “Blanquismo”10.
“Aroeira”11
Vim
de longe, vou mais longe
Quem
tem fé vai me esperar
Escrevendo
numa conta
Pra
junto a gente cobrar
No
dia que já vem vindo
Que
esse mundo vai virar
Noite
e dia vêm de longe
Branco
e preto a trabalhar
E
o dono senhor de tudo
Sentado,
mandando dar
E
a gente fazendo conta
Pro
dia que vai chegar
E
a gente fazendo conta
Pro
dia que vai chegar
Marinheiro,
marinheiro
Quero
ver você no mar
Eu
também sou marinheiro
Eu
também sei governar
Madeira
de dar em doido
Vai
descer até quebrar
É
a volta do cipó de aroeira
No
lombo de quem mandou dar
É
a volta do cipó de aroeira
No
lombo de quem mandou dar”.
O
significado da governança do (PT) ainda vai ser avaliado pela
História, por que ninguém, nenhum estatuto pode declarar alguém ou
algum grupo como diferente deste, ou daquele, do ponto de vista da
revolução, de antemão 12,
qualitativo ou quantitativo, enquanto limites e possibilidades.
“Em
tempos de lembrar 1968, cai bem um verso de Geraldo Vandré que se
referia a um 'dia que já vem vindo, que este mundo vai virar'…
Está na canção Aroeira, do disco Canto Geral, lançado naquele ano
de contestações. (…) encaixa bem nos resultados colhidos por
setores da imprensa comercial em relação ao governo Lula: 'É a
volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar'. Afinal,
tratado com preconceito e grosserias, Lula
apanha sem dó, mas ele e seu governo são recordistas de
popularidade. Uma dor no
pescoço recebe o título 'carne de pescoço'; a tradução para a
ida de qualquer militante a Brasília é envolvimento em negociata;
nas páginas desses veículos, é o governo mais corrupto e
desastroso da história”.13
É
importante contextualizar os versos de Geraldo Vandré, que se
referem a luta contra o Regime Militar, contra o sistema de
“mandonismo” que existia e ainda existe no país. Imaginar algo
diferente na canção, por exemplo, como um simples jogo político de
troca de cadeiras, ou algo assemelhado, é não perceber a intenção
do autor dos versos. Embora Geraldo Vandré tenha renegado seu
passado, por motivos não muito sabidos, negando-se inclusive a
cantar muitas de suas músicas antigas, isso não quer dizer que as
canções perderam seu valor histórico, sociológico,
comportamental, diria, até étnico. A direita brasileira, no afã de
querer aparecer ou debochar das ideias da esquerda, costuma fazer
pouco caso das canções de Geraldo Vandré, embora todo o
significado emocional que tem muitas para a maioria dos
progressistas. Não se roubam, não se sequestram emoções, pois,
são únicas, que somente a esquerda tem condições de se afirmar
como herdeira. A direita que vá procurar seus heróis e suas
canções. A esquerda jamais vai incorporar o discurso da direita no
país, do coronelismo, do senhor de escravos. A extrema-direita
incorpora o passado escravocrata e faz questão de fazer propaganda
de seu discurso racista, preconceituoso, discriminativo, homofóbico,
xenofóbico.
“No
universo eminentemente machista do coronelismo,
e em consequência das obras analisadas, faz-se importante adaptar a
declaração acima, substituindo-se a atribuição aos homens do
conhecimento e do saber por truculência e força, maiores
indicadores de poder nessa sociedade. Aos homens, atribui-se o
controle social pela força, às mulheres, a submissão, como
um mero instrumento corporal de reprodução e satisfação dos
desejos sexuais de seus “senhores””.
14
Até
que ponto o capitalismo se desenvolveu no nordeste, para que possa
superar a visão do coronelismo, tão afeita a época colonial? A
agricultura ainda é a base do desenvolvimento da região? Qual a
formação social que ainda sustenta a figura do coronel? O
comportamento do senhor de escravos de antes, tem continuidade nos
tempos atuais. Senhor de tudo e de todos, ainda mantém sobre seu
jugo, o destino dos mais fracos.
“Do
ponto de vista da ideia de invenção, as narrativas estudadas ajudam
a pensar o coronel como uma figura contraditória, transitando entre
sentimentos opostos (zelo por seus aliados, ódio a seus
adversários), entre atitudes extremas (negociações por paz,
provocação à guerra). O que reforça o imaginário sobre o coronel
nordestino, apontando sua bondade e maldade como ícones de chefes
que deveriam ser temidos por sua força, mas amados por seus feitos e
por suas atitudes de proteção e altruísmo perante seus amigos e
comandados. Essa flagrante contradição sobre a personalidade dos
coronéis é apontada por Albuquerque Júnior (ALBUQUERQUE JÚNIOR,
Durval Muniz de. A
invenção do nordeste e outras artes.
Recife: FJN. ED, Massangana; São Paulo: Cortez,1999, p. 202): 'São
homens para quem mulheres e filhas não passavam de empregadas, que
tinham o poder sobre a alma e sobre o corpo de seus agregados,
podendo surrá-los, mutilá-los ou matá-los quando bem-queriam,
determinando a vida de todos à sua volta. São obras que, às vezes,
como as de Jorge Amado, mal disfarçam sua admiração por essas
figuras masculinas poderosas, de identidades difíceis de definir.
Figuras entre o doce, o sentimental e o terrível. […] Os coronéis
são figuras de quem vinha proteção ou agressão, que impregnam o
imaginário político da região até hoje'. Essa imagem de poder
quase absoluto, portanto, ajudou a constituir a marca do coronel como
líder da região, rico, poderoso, filho
das famílias mais ricas e há gerações detentoras de terras e
poderes políticos no Nordeste.
A ideia de que a região é
dominada por um esquema político obsoleto e centralizador reforça
sua dependência da parte sul do país, tida como desenvolvida.
Alimentar essa imagem do coronel ajuda a justificar o atraso com que
se representava o Nordeste, principalmente o sertão, distante das
sedes de governo e das mais importantes decisões políticas da
região”. 15
A ideia de um racismo “cordial”,
incruento, como muito se reproduziu durante a escravidão,
principalmente no Rio Grande do sul, imaginando, cruelmente, uma
suposta “democracia racial”, diferente do resto do Brasil, só
servia para mascarar a realidade, supondo vida onde havia só
grilhões.
“Numa
época em que os valores europeus entram em crise, os elementos da
cultura africana, incorporados à literatura europeia, ficam
reduzidos, não raro, a ambientes
e sons, à descrição do negro pelo que ele tem de exótico, à
mitologia de sua sensualidade e à nostalgia de um universo
primitivo” (…). Por fim
Salústio, pajem de Laerte, perpassa toda a narrativa como serviçal,
talvez denunciando o lugar do
negro na sociedade do racismo à brasileira, qual seja o do exílio
dentro de sua própria cultura e sociedade.
(…), porém, na sociedade do
racismo cordial, ainda que
detendo cada vez mais poder econômico, Amleto era ainda um mulato,
ou seja, possuía um “defeito” que precisava ser corrigido para
que ele pudesse figurar na alta sociedade e na história oficial. . 16
A
ideia de dois “brasis” deve ser questionada porque não
instrumentaliza a esquerda para os embates políticos atuais. Embora
a ideia dos dois “brasis” seja um significado enorme em perceber
a necessidade de incluir a maioria da população brasileira, a dos
dois sugere uma dicotomia e não uma contradição. Mesmo
considerando um Brasil só, os interesses de classe estão acima de
regionalismos de ordem geográfica, ou culturais. O que divide o
Brasil não é o sertão ou litoral, mas interesses econômicos que
se locupletam. A superexploração das classes mais desvalidas
favorece a acumulação de capital por uma minoria. A hiper
concentração de capital, em poucas cidades brasileiras, é um
demonstrativo do que se está falando. A própria concepção de
trabalho, associado a ideia de escravidão, e de que o bom é não
trabalhar, como vivem os ricos e abonados do país, os senhores de
escravos, é o que perpassa as relações. Isso não quer dizer que
existem escravos literalmente, embora o trabalho escravo seja
detectado, e também não quer que se viva num sistema escravista. O
fato é que as relações, no país, comparando com as mesmas em
outros países, considerando as mesmas condições e funções
exercidas por operários, nota-se que o valor do trabalho é
infinitamente desvalorizado. Em nome de uma suposta carência de mão
de obra ou de desqualificação do trabalhador, demonstrado o quanto
a cultura escravista ainda importa.
“Eis
o dilema da (inclusão) enunciado pelo plebeísmo de Cícero Araújo
[Araújo parte da suposição de que a cidadania democrática encerra
três ideais normativos: civismo, que representa um ideal de
excelência no exercício da (…) ; (…), um (…) de extensão da
(…) . (...) Pluralismo, que é um (…) de tolerância para com os
diferentes estilos de vida e crenças religiosas e filosóficas dos
cidadãos]. A medida que o corpo político e o círculo social são
pressionados a assimilar mais pessoa (negros, caboclos, imigrantes),
sobretudo em virtude da
Abolição da Escravidão e da Proclamação da República, a questão
sobre a qualidade e a excelência da (…) torna-se premente.
“Que país queremos?” e “qual são as fisionomias, o modo de
ser, a realidade, os dilemas e as perspectivas da sociedade, do povo
brasileiro (…)?” serão as duas grandes perguntas que animam as
discussões”. 17
Nesse
sentido, em que a questão política do Nordeste se confunde com o
povo negro e o índio, o livro DIVISÕES PERIGOSAS: POLÍTICAS
RACIAIS NO BRASIL CONTEMPORÂNEO 18,
indiretamente, afirma o quanto a elite branca escravocrata ainda tem
hegemonia no pensamento brasileiro. Imagina que está discutindo cor,
raça, em contraposição a igualdade, a universalidade, à
civilização. Triste engano, em que parte desses autores convidados
tentaram impedir um mal ainda maior de tal publicação. Imaginam
democracia, onde existe apenas é reprodução do que sempre existiu
na cultura brasileira, autoritarismo, preconceito, discriminação. A
discussão que estava e está presente no país é o quanto o (PT)
incluiu os tradicionais excluídos, o filho da empregada doméstica,
o povo negro e índio. Nunca esteve em discussão o modelo
norte-americano para a solução de problemas raciais, nunca se
pensou em transposição ou deslocamento de conceitos, como se o
norte-americano fosse o único. É essa inclusão da pobreza e da
miséria nos programas de governo, algo jamais visto na história do
Brasil, que levou Lula à prisão e escarnecimento por parte da elite
branca, que jamais admitiu um filho de empregada tornar-se médico.
Discutir biologia, com Gobineau19,
autor do Essai sur
l'inégalité des
races humaines20,
é demonstrativo da decadência intelectual da academia. Se, no
início do (PT), os intelectuais, em geral, simpatizaram com a
proposta, com exceções importantes, quando o (PT) colocou a “mão
na massa”, muitos desses preferiram o conforto de seus gabinetes e
uma certa equidistância da lida com problemas menores, de caráter
meramente político. Renegaram Sartre, não por discussões teóricas,
mas simplesmente por conveniência. Olham os acontecimentos de 1968
com um olhar lânguido, saudosista, tipo (classe) média dos anos
1970, no país, e se apavoraram rapidamente quando parte do (PT)
envolveu-se em corrupção 21,
sem fazer o estudo necessário do que estava acontecendo. Preferem a
leitura de discutíveis jornalistas da grande mídia, que imaginam
uma imprensa norte-americana, independente, em que a notícia também
é um produto mercantil. Estão pagando caro agora, quando muita
gente dessa imprensa “norte-americanizada”, o “pão que o diabo
amassou”, por um prócer do fascismo que está mesma dos “EUA”
ajudou a se consolidar. Estarão estes intelectuais da biologia,
seguros, em tempos fascistas? Preferiram a Biologia às questões
políticas. O que querem agora? Por que essa discussão foi travada
agora? Porque, agora, a esquerda sabe por quem foi utilizado o livro
para combater a própria? Dizem eles, “vejam como a esquerda trata
os negros, afirmando que os próprios é que inventaram e
consolidaram o estatuto da escravidão, então é melhor a Princesa
Isabel, branca, que Zumbi, negro, escravocrata assumido”. Não
deveria ser assim, já que está-se falando de ciência histórica.
De história da África, de costumes e comportamentos de alguns
africanos; no entanto, mais que sociologia, mais que etnografia, o
que está em jogo é a ideologia fascista, a política rasteira, a
manipulação costumeira, a falta do aprofundamento na pesquisa. A
escravidão não é negra ou branca, mas de sujeitos históricos,
submetidos às múltiplas determinações, de acordo com seus
interesses de classe. Cabe a ciência estabelecer as diferenças, as
classificações, os contextos. Observar a economia politica. Não
simplesmente fazer declarações populistas, demagógicas. Em cima
de patrulhamentos de pensamentos que não se coadunam com o que uma
certa academia compreende como de “bom-tom”. Que estão na onda,
ou estão em alta, em useiro e vezeiro, de acordo com os costumes e
as regras, do modo que deve ser ou exigido pela situação, “chique”.
22
O próprio pensamento anarquista, serviu e serve de “guarda-chuva”
para muitas posturas ou comportamentos, muito convenientes para
justificar atitudes serviçais perante as classes dominantes, para,
enfim, participarem dessa “festa pobre”23
24
25
26,
os 'champagnes' e tira-gostos 27,
as vernissages 28,
os saraus 29,
o grande teatro. Até mesmo uma certo ambiente “underground”30.
Imaginar a política como algo fora de todo o contexto teórico, em
que se visita de vez em quando, é não ter lido Paulo Freire 31.
Não se quer destruir, atenuar, minimizar, mitigar o anarquismo,
visto que existem uma série de reflexões que o próprio fez, no
século XIX e também no XX, que ajudam e ajudaram a compreender o
funcionamento, a prática, o sentido, do totalitarismo. No entanto,
do ponto de vista da política, é de reconhecido valor a ideia de
que o parlamento não é lugar de anarquista, comprovado
historicamente no Brasil. O quanto essas ideias anarquistas
contribuíram para a não participação popular no parlamento
brasileiro, durante a República Velha, ainda está para ser contado.
“Os
anarquistas sempre recusaram a ideia de representação política,
seja no parlamento ou fora dele.(…)
Podemos perceber, ao longo das edições de A
Voz do Trabalhador, que a
direção do jornal tratava de assuntos de interesse e propaganda
anarquista32,
em contraste com o que se passava com outras tendências. Sendo
apolíticos, especialmente no sentido “contrários à política
eleitoral” como defendia o sindicalismo, podiam falar de sua
concepção de (...) com muito mais liberdade do que os das outras
tendências. Sindicalistas que não eram anarquistas, mas membros da
COB33,
escreviam a favor da partidarização.
Tinham espaço para publicar, mas, quando o faziam, deveriam esperar
respostas na edição seguinte, quando não alguma nota imediatamente
após seu texto, como o que aconteceu com um artigo de Antônio
Cunha. Este sindicalista, que
fazia ressalvas à ação direta e à recusa em se aceitar
representantes no Parlamento, bem como em (…) algumas benesses do
governo, como casas para operários, teve o seguinte comentário
publicado logo após o seu texto:
'N. da (R). — Dando
publicidade a este artigo do camarada Cunha, não fazemos mais do que
agir de acordo com as deliberações do Segundo Congresso Operário
Brasileiro, que aconselham a mais franca exposição de ideias tanto
dentro dos sindicatos como nas colunas dos jornais operários. Pela
orientação a que sempre obedeceu 'A
Voz', não
será difícil verificar que estamos em completo desacordo com os
argumentos apresentados pelo companheiro Cunha,
que serão refutados no próximo número'.[Nota da Redação ao
artigo A política e o sindicalismo. A
Voz do Trabalhador —
Órgão da Confederação Operária Brasileira, Rio de Janeiro, ano
VII, n. 46, 1 jan. 1914, p. 3]”.34
A
ideia de uma história incruenta é dirigida ao povo negro e ao
índio. Esconde a verdadeira origem do racismo a moda brasileira, o
imaginário de que o branco, estrangeiro, é refinado, educado, moral
e intelectualmente e que o povo negro e índio não tem a mesma
capacidade de ser:
“No
Brasil, portanto, especialmente durante às três primeiras décadas
do século XX, quando chegavam as grandes levas imigratórias e
quando eram sentidas as (…) mudanças provocadas pela abolição
formal da escravidão, as
segmentações identitárias marcadas por concepções racialistas se
manifestavam por dois vieses interligados: brancos X negros;
imigrantes X brasileiros natos. De modo geral, acreditava-se
que “brancos”, estrangeiros ou nascidos no Brasil eram mais
elevados, intelectual e moralmente.
(…) Em diversos momentos se reputou aos estrangeiros (ou mais
especificamente, a alguns grupos e indivíduos) a responsabilidade
por distúrbios sociais, ao instigarem os trabalhadores brasileiros,
que teriam uma índole
positiva e naturalmente amante da ordem,
a revoltar-se. Entre todos esses mitos, contudo, ao
trabalhador negro sempre coube somente atributos caricaturalmente
negativos, como a ignorância, o primitivismo, a preguiça, a
tendência natural ao roubo, ao alcoolismo, à trapaça e à
violência. Na visão da
classe dominante, o máximo
de valorização “positiva” que os negros, como nacionais,
poderiam receber era o atributo de “pacatos”,
quando o objetivo de os discursos era perseguir os revoltosos
anarquistas estrangeiros, ou
ainda palavras em tons paternalistas que estabeleciam vínculos
distorcidos entre o passado e o presente sobre o paciente sofrimento
por que passaram seus antepassados durante tantos séculos.35
O
interessante é perceber o quanto a ideia de povo revoltava a elite
branca racista:
“A
edição especial de uma página de A
Plebe, datada de 15 de
setembro de 1917, trazia como manchete principal 'No Reino da
Senegâmbia'. Por ter tido sua sede invadida e seu equipamento
empastelado pela polícia de São Paulo, a folha só pôde ser
impressa graças à solidariedade dos redatores do periódico O
Combate. Para denunciar a
abusiva perseguição revanchista da polícia paulista aos militantes
e operários por causa da greve de julho, os
redatores se valeram de ironia agressiva e procuraram desconstruir a
idéia de que o Brasil era um país civilizado,
como afirmava o discurso oficial. A ação da polícia brasileira era
a ação da (…) de um país selvagem, primitivo, violento, de
métodos rudimentares. Um país de “escuros” e de “escuras
leis”, como a Libéria e a Senegâmbia: 'Engana-se quem supuser
que este suplemento (…) A
PLEBE está sendo escrito
em S. Paulo, capital do Estado do mesmo nome, República dos Estados
Unidos do Brasil. Engana-se redondamente, deploravelmente. Não. A
PLEBE está sendo escrita
na Senegâmbia, vasta região de pretos no continente preto. Não
poderíamos escrever este suplemento em São Paulo, nem noutra
qualquer cidade brasileira, porque S. Paulo é um rico e poderoso
centro de civilização e o Brasil inteiro um país de nobres e
antigas tradições de liberalismo.
Só na Senegâmbia era possível escrevermos o suplemento do nosso
jornal, porque só neste país escuro de escuras leis, poderiam
ocorrer os fatos que acabam de se produzir e que determinam a
publicação(…) A PLEBE
(suplemento) e não d’A
PLEBE (jornal). A PLEBE
(jornal) não existe desde ontem. Não existe porque a polícia da
Senegâmbia invadiu a tipografia onde era impressa, substituindo dali
todos os originais. Eis porque afirmamos que o nosso suplemento não
é escrito em São Paulo, nem em nenhum outro ponto do Brasil. Esta
república não é a da Libéria, não é uma (…) de negros, de
selvagens de tanga e de usos e leis rudimentares. É um vasto país
de muitos milhões de habitantes, seres
civilizados, generosos e livres, com uma constituição liberal, com
um corpo de leis escritas, com tribunais, com parlamentos.
(…) Estas instituições traduzem a civilização dos séculos,
representam um estádio na evolução, uma fase na vida social dos
homens. Por isto o Brasil se
chama um povo culto, por isto
ele reclama essa prerrogativa, por isto ele se equipara às demais
nações que o são. Numa coisa, porém, o Brasil não é o que são
os outros países, e esta 'coisa' é a polícia. A polícia não é,
nunca foi brasileira, a polícia é da Senegâmbia, usa os processos
senegambienses e são senegambienses os seus funcionários. (…)”[No
Reino da Senegâmbia — A Constituição republicana é uma burla: —
está em cena a heroica polícia de S. Paulo. Numerosas prisões de
operários — Assalto à tipografia onde se imprime A
Plebe e às Ligas
operárias — Subtração dos originais — A prisão do nosso
diretor Edgard Leuenroth — O Centro Libertário é violentamente
assaltado e todos os móveis e arquivo removidos para a Polícia
Central — Espancamentos – Outras proezas. O intuito da polícia e
do governo. A Plebe,
São Paulo, ano I, suplemento, 15 setembro 1917]”.36
O
quanto essa ideia de “racialismo” já foi discutida no Brasil, e,
porque não é o melhor caminho:
“Possivelmente,
Isabel (Cerruti) Silva, pelos padrões raciais da época no Brasil,
era vista e sentia-se como 'branca', para poder pôr-se em igualdade
(biológica e moralmente) com os 'negros', apesar da cor. Poderíamos
considerar apenas um breve rasgo de percepção individual desta
militante a respeito da linha da cor. (…) A existência de outros
fragmentos de teor semelhante, espalhados na imprensa anarquista, nos
leva a crer que outros anarquistas compartilhavam a mesma autoimagem.
João Crispim [João Crispim militava na Federação Operária Local
de Santos (FOLS), associação que esteve à frente de diversas
iniciativas do movimento operário dessa cidade portuária. Em junho
de 1913, a associação declarou-se abertamente anarquista. Atitude
que, neste mesmo ano no II Congresso Operário Brasileiro, recebeu
críticas de outros militantes anarquistas, que
defendiam a neutralidade política e religiosa nos sindicatos.
Sobre isso há um interessante debate entre Crispim e Neno Vasco no
jornal da C.O.B., A Voz do
Trabalhador, que precedeu
o evento]. Por exemplo, um dos mais ativos militantes anarquistas de
Santos, condenou o racismo e a aura de legitimação. Primeiro
religiosa, e depois cientificista, que essa ideologia recebeu. Nos
seguintes termos: 'Para encontrar argumentos que satisfizessem o
desejo de justificar este princípio, e, ainda, a bárbara
escravatura, há pouco nominalmente abolida, estudou-se o homem de
cor e observou-se e propagou-se que tem muito pronunciados os
caracteres de bestialidade. Tanto (…) ponto de vista físico como
intelectual. A sua conformação craniana, cuja fronte é, como a do
símio, pouco elevada, os pômulos salientes e as mandíbulas
formidáveis, o nariz achatado, são caracteres próprios do tipo que
vive em vida vegetativa, que não tem outras funções que as da
nutrição. Para justificar a caça e a escravidão dos negros, os
cientistas definiam-nos como bestas ferozes, à qual era preciso não
domar, mas amansar. Os padres diziam que os negros não tinham alma
(…), portanto, não era pecado tratá-los como aos outros animais'.
[CRISPIM, João. '(…) 13 de maio'. A Rebelião — Semanário de
propaganda socialista anarquista — Escrito por trabalhadores e para
(…), São Paulo, ano I, n. 2, 9 maio 1914, p. 1]. A essência do
texto de Crispim, assim como o de Isabel Silva e todas as outras
referências sobre o 13 de (…) e a escravidão negra no Brasil,
condena as barbáries cometidas contra os negros no passado e contra
todos os (…). “(…), brancos, amarelos ou cobriços”, no
presente, suscitando, como única solução possível e necessária,
a união de todos em torno da ação direta da classe trabalhadora.
Mesmo assim, ainda que para
esses militantes ninguém devesse sofrer discriminação por causa da
cor da pele, o fato é que a sua visão, ainda que combativamente
contra hegemônica, estava permeada pelos preconceitos dominantes,
dentre eles o racialismo.
De outra forma, e se não se considerasse branco, dificilmente
Crispim repetiria que a formação craniana dos negros se assemelhava
à dos “símios”, com características próprias de quem tinha
uma “vida vegetativa”. 37
Por
isso que essa ideia de povo negro e índio, mesmo em 1920, ainda não
estava construída:
“Nisso,
deixaram aberta uma lacuna que os comunistas iriam preencher já a
partir da década de 1920, com uma propaganda específica voltada
para negros e indígenas, tal qual a Internacional Comunista
orientava a ação nos países dominados pelo imperialismo branco e
ocidental”. ”. 38
É
interessante observar o quanto o povo negro sempre foi injustiçado
no país. É surpreendente que intelectuais fiquem discutindo o “sexo
dos anjos”, imaginando polêmicas do século XIX, quando o que se
quer é o resgate do que foi deixado a míngua pela libertação dos
escravos, entre 1884 e 1888. Nem terras tinham direito. A ideia de
uma país incruento, ainda é propagandeada por historiadores.
Octávio Ianni39
colocava exatamente o absurdo dessa ideia de “revoluções brancas”
no país, quando perguntado sobre “Qual é a relação que se
estabelece entre a questão racial e a social?”. “O Brasil tem
sido visto como um país que se destaca por sua “história
incruenta”, uma (…) de "revoluções brancas", na qual
floresce a “democracia racial", tudo isso "lusotropical"”.40
Outro
autor, José Honório Rodrigues (1976), afirmava que:
“Foi
assim que construímos não uma história, mas um passado irreal um
Império encantado, repleto de mitos que se repetem monotonamente. Um
Império próspero, róseo, calmo, tranquilo, um povo dócil,
cordial; um passado incruento, uma liderança de grandes homens, que
praticavam a conciliação para o bem de todos, povo e país, que
queria reformas, que servia apenas ao Brasil, com um governo que
apreciava seu povo, que o queria sadio e educado, que não fazia do
poder um círculo de ferro, plástico às mudanças sociais,
compreensivo não só de seus iguais, na fortuna e no poder, mas dos
seus desiguais na pobreza e na humildade. Relações paternais e
doces entre senhores e escravos, fazendeiros e colonos, patrões e
operários, povo e governo; não houve nem capitulação, nem
terrorismo, de um lado ou de outro, todos colaborando no sucesso do
nosso passado, tão criador que nos libertou de qualquer
subdesenvolvimento futuro. (…) E mais, o que é inédito, e único,
a história não foi branca, foi também a da coloração negra,
índia, cabocla enfim. Os negros, os mulatos, os índios, os
caboclos, os mestiços de todas as variedades tiveram o seu papel
incorporado e destacado, inclusive seus protestos e lutas, na
história oficial. Foi assim que escreveram esta história, que se
ensina de um passado prodigiosamente positivo". 41
Leonardo
Boff (2015) sintetizava o que é o (PT) na história brasileira.
Existe a anti-história. Pode-se falar de uma “história oficial”,
de uma “dos oprimidos, dos excluídos”, ou até mesmo numa “dos
dominados”42.
No entanto, a postura de um verdadeiro historiador não pode a de
ser aquela que é levado pelas paixões. Existem inúmeros estudos
que se tornaram marcos teóricos na ciência histórica e ninguém
perguntou pela ideologia do pesquisador. É ou não é história. O
resto é literatura, sem querer fazer um julgamento apressado entre
os vínculos obrigatórios entre história e narrativa. Não é o
momento de discutir se a história é ciência ou não é. Importa,
isto sim, perceber que a ciência histórica evoluiu muito para se
prender ou virar penduricalho dessa, ou aquela ideologia, partindo
do pressuposto que não se está desvalorizando o termo.
“Nenhum
governo antes em nossa história conseguiu esta façanha memorável.
Nem havia condições para realizá-la porque nunca houve interesse
em fazer das massas exploradas de indígenas, escravos e colonos
pobres, um povo consciente e atuante na construção de um projeto
Brasil. Importante era manter a massa como (...), sem possibilidade
de sair da condição de (…), pois, assim não poderia ameaçar o
poder das classes dominantes, conservadoras e altamente insensíveis
aos padecimentos do próximo. Essas
elites não amam a massa empobrecida.
(…) Tem pavor de um povo que pensa, pois, faz valer seus direitos e
pode ameaçar os privilégios dela. Para conhecer esta anti-história
aconselho aos políticos, aos pesquisadores e aos leitores/as que
leiam o estudo mais minucioso que conheço:'a
política de conciliação: história cruenta e incruenta',
um largo capítulo de 88 páginas do clássico “Conciliação
e reforma no Brasil” de
José Honório Rodrigues (1965 pp. 23-111). Ai se narra, como a
dominação de classe no Brasil, desde Mende de Sá até os tempos
modernos, foi extremamente violenta e sanguinária, com muitos
fuzilamentos e enforcamentos e até de guerras oficiais de extermínio
dirigidas contra tribos indígenas como contra os botocudos em
1808.Também seria falso pensar que as vítimas tiveram um
comportamento conformista. Ao contrário, reagiram também com
rebeliões e violência. Foi
a massa indígena e negra, mestiça e cabocla a que mais lutou e que
foi reprimida cruelmente, sem qualquer piedade cristã. Nosso solo
ficou ensopado de sangue”.43
Por
isso, a necessidade de pensar a linguagem, a política, a obscenidade
da palavra, do corpo do povo negro e do índio.
“Se
a lenda o imortalizou não é menos certo que dele fez o que quis, e
tantos escritores de pouco talento se valeram do seu prestígio e
algum lucro tiraram, atribuindo-lhe
ou fazendo dele o protagonista de todo um anedotário popular poucas
vezes inspirado e tantas grosseiro.
As gerações sucediam-se e
a biografia de Bocage foi ficando soterrada por fábulas de um género
soez, por historietas sem graça e facécias de almanaque barato.
(…) se «em torno do seu nome chegou a formar-se uma atmosfera de
depravação e de escândalo», levando a que os versos bocagianos a
dada altura fossem sinónimos de uma «literatura
de sal grosso e bafio nauseante, florilégio de lama»,
como recordou Carlos Jaca
num excelente e longo artigo publicado em sucessivas edições do
Diário do Minho, em 2005,
talvez a tudo isso tenha sobrevivido o talento que o fazia
destacar-se e um gosto pela transgressão. E
talvez o exagero na representação do poeta revele uma homenagem do
povo, que o puxou para si, o reclamou construindo à sua imagem um
herói e um porta-voz, alguém que exprimia um inconformismo, um
desejo de liberdade resvalando na libertinagem, e o desafio a uma
ordem e moral sempre repressivas.
A um canto ficaram os seus versos, exigentes, vibrantes, em
composições impecáveis que abarcam todos os géneros poéticos;
isso e as inspiradas traduções que acompanhou de longas notas
justificando as suas opções e que dão testemunho não só da sua
inspiração mas dos seus imensos cuidados – a um tal ponto que se
diz que valorizava o próprio original. Porque Bocage era senhor de
uma erudição que abrangia os clássicos, as mitologias latina e
grega, dominando o Francês e o Latim. Tudo isto continuou a ser
motivo de espanto entre os intelectuais, mas
a reputação desenhava o seu vulto entre uns fumos nalgum fim de rua
lisboeta, cambaleando, o estroina do Bocage a sair e entrar dos
botequins, todos os lugares mal afamados, esse «repentista consumado
de metro fácil e rima facílima».
(…) A fama de rabo de
saias, de libertino, vem ainda dos versos cheios de intenção
sedutora, menos maturados, quando a sua poesia sugeria um coração
que era um harém, com constantes referências a Marílias, Ritálias,
Márcias, Gertrúrias e outras.
Mas todas estas paixões não o ancoraram na capital, e com 20 anos
embarcou como oficial da marinha para o Rio de Janeiro, cidade que o
encantou e, num esforço de ali ficar indefinidamente, lembrou-se de
dedicar ao vice-rei algumas canções não se poupando em elogios.
Aparentemente, aquele seria avesso a bajulações, e desagradado com
algumas rimas de baixo calão, fê-lo prosseguir para a Índia. É
assim que Bocage, depois de fazer escala na Ilha de Moçambique,
chega a Goa, cidade que vem a achar decadente, chama-lhe esta
«república de loucos», causando-lhe tristeza ver a Lisboa do
Oriente dar testemunho de um império falido, consumido pela
corrupção. Compensou-se
hasteando de novo a bandeira sexual, mergulhando de cabeça na boémia
dali, o que lhe trouxe os primeiros problemas de saúde.
Em Pangim44,
frequentou de novo estudos regulares de oficial da marinha. Foi
depois colocado em Damão, mas desertou em 1789, embarcando para
Macau. As viagens pouco contribuíram para a sua obra, tudo o perde e
é só em 1790, com 25 anos, depois de ter conseguido ajuda para
regressar a Lisboa, que um poderoso golpe o faz retomar a arte como
tábua de salvação. A Gertrúria que exaltava em tantos dos seus
versos, e que era na verdade Gertrudes Homem de Noronha – filha do
governador da Torre de Outão em Setúbal –, a grande paixão que o
fez deixar o país, casara-se com o seu irmão mais velho, Gil
Bocage. O sofrimento que isto lhe causou fez com que tivesse a
vontade de perder a pele, e assim foi mais longe que nunca nas suas
viagens ao fim da noite. É
desses dias que lhe vem a fama de obsceno, mas é também nesse
período que toma contacto com os ideais da Revolução Francesa, lê
os iluministas, adere ao espírito do liberalismo político e
cultural, e a sua poesia torna-se um mirante para esta visão.
Ainda nesse ano é convidado e adere à Academia das Belas Letras ou
Nova Arcádia, cujos encontros são realizados nos salões da casa do
conde Pombeiro e nos quais adoptou o pseudónimo Elmano Sadino. Mas
não demorou muito para que o seu temperamento chocasse com o das
alminhas notáveis e contentes do seu tempo, de modo que as
«quartas-feiras de Lereno»
se tornaram o alvo da sua sátira, atacando o seu presidente e vários
outros dos seus pares. Trava-se
então uma autêntica guerra verbal e a inventividade trepa a árvore
da obscenidade para colher os insultos mais chocantes.
Em 1971, Bocage publica o primeiro tomo das Rimas, firmando a sua
reputação poética, onde a irreverência do seu temperamento
desafiava abertamente a ordem e a moral de então. Apesar da
protecção de alguns amigos, como Filinto Elísio e a marquesa de
Alorna, o poeta é expulso da Nova Arcádia e, três anos mais tarde,
em 1797, é preso e processado pelas posições antimonárquicas e
anticatólicas, acusado por conspirar contra a segurança do Estado e
pela autoria de «papéis
ímpios, sediciosos e críticos».
Primeiramente recolhido à cadeia do Limoeiro, é, depois, por
influência de amigos e mediante muitas súplicas e retratações,
transferido para o mosteiro de São Bento e deste para o mosteiro dos
Oratorianos. Os anos que passa enclausurado são aqueles que vai
dedicar à tradução dos poetas franceses e latinos. Só em 1799
regressa à liberdade, para se entregar uma vez mais ao álcool, ao
tabaco e ao trabalho, publicando o segundo tomo de Rimas. É então
que os excessos de toda uma vida vêm cobrar a dívida e um aneurisma
atira-o, definitivamente, para o leito. Em 1804, é publicado o
terceiro volume de Rimas e, um ano mais tarde, em 21 de dezembro de
1805, morre o homem e a lenda começa o seu caminho. Estão em curso
as Comemorações dos 250 Anos do Nascimento de Bocage, que decorrem
em Setúbal entre setembro de 2015 e setembro de 2016, e é nesse
enquadramento que surge Bocage
a Imagem e o Verbo, uma
edição luxuosa e de grande formato da Imprensa Nacional-Casa da
Moeda cuja organização coube ao investigador
bocageano Daniel Pires,
que é também presidente da direção do Centro de Estudos
Bocageanos, e que foi já responsável pela edição das obras
completas do poeta, entretanto esgotadas. Trata-se de uma publicação
que se propõe dar a conhecer as linhas de força da poesia, da
biografia e da recepção de Bocage, e que o faz de forma algo
sintética dando primazia ao abundante material iconográfico que
reúne e que está organizado em quatro grandes temas essenciais: a
época, a vida, a poesia e a posteridade do poeta.
O
que há para si de mais instigador nesta figura?
'Para
começar uma poesia genial. A lírica de Bocage é comparável à de
Camões. É uma poesia com uma grande especificidade; uma voz muito
singular. Abriu portas ao romantismo e demoliu outras, mais
concretamente o neoclassicismo. Isto embora tenha cultivado, quer um,
quer outro. A sua obra foi a verdadeira pedrada no charco
naquela sociedade de finais do século XVIII'.
E
relativamente à pessoa?
'É
alguém que se colocou contra a corrente, e que foi remando na medida
das suas forças. Vivia-se numa sociedade muito fechada. Uma pessoa
não podia manifestar-se abertamente sob o risco de lhe cair em cima
o poder de um Estado muito repressivo. Isto num país periférico,
dominado por uma ínfima minoria, a nobreza, que suportava um
aparelho fortíssimo e no qual sobressaía o Pina Manique.
Nessa altura, as liberdades individuais eram praticamente
inexistentes. A religião estava metida em tudo, com a Inquisição
sempre vigilante. As prisões funcionavam como elemento dissuasor de
qualquer irreverência. E Bocage enfrentou tudo isso, muitas vezes
disseminando a sua poesia clandestinamente, anonimamente, textos que
se espalham um pouco por todo o país'.
Camões
tornou-se o maior vulto da nossa língua, Bocage parece ter-se
tornado um herói do folclore.
'Em
parte sim. Além da confusão entre o erotismo e a pornografia,
isso resulta da confusão entre sátira e anedota, as muitas anedotas
que lhe foram atribuídas, tantas delas boçais. Boa parte das
anedotas que circularam como do Bocage estavam na mesma linha que as
que têm o Alentejano como protagonista ou alvo. Houve extrapolações
ao longo dos séculos que não resistem a uma análise histórica.
Mas Bocage não deixa de ser conhecido pela obra que de facto
escreveu. E a irreverência crítica, social, o humor, muitas vezes
corrosivo, fazem dele um mito também'”.45
É
o povo que está no centro da discussão da linguagem do Nordeste e
de todos os pobres e miseráveis do Brasil. Lembrar Bocage é
perceber os vínculos deste com o carnaval, com a subversão da ordem
vigente, desconstituindo uma suposta moral, que desconhece o humilde,
os instintos, o grotesco da vida. Negar o Bocage popular, é não
perceber o quanto explica um pouco do português, do brasileiro, dos
mais pobres.
“Antes
de frequentar o antigo 7º ano dos Liceus e, de seguida, durante três
anos, a disciplina de Literatura Portuguesa, como matéria opcional,
na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Bocage que eu
conhecia era aquele que ficou no comum das gentes, e que terá
sobrevivido pelas gerações fora. Esse conhecimento, dizia respeito
apenas ao anedotário caricatural de um Bocage de «pilhéria e
chalaça», a quem se atribuía tudo e mais alguma coisa, excepto a
obra poética que escreveu. O
prestígio boémio do seu
nome anulava toda a grandeza dessa obra — não
havia historieta sem graça, não havia laracha gratuita, não havia
piada soez, que não fosse imputada a Bocage. De tal modo era assim,
que no meu tempo de adolescência as historietas atribuídas a
Bocage, (as historietas) eram, normalmente, contadas à “chucha
calada”. Do
grande poeta perdurava, e ainda perdurará, sobretudo, a lenda cómica
do Bocage estróina, prevaricador incorrigível, frequentador
impenitente de botequins e lugares mal afamados, «repentista
consumado de metro fácil e rima facílima».
A isto se reduzia praticamente toda a reputação de Bocage junto da
grande maioria que pronunciava o seu nome. (…), todavia… esse
Bocage nunca existiu… a não ser na imaginação de “escritores”
que, servindo-se de facécias de almanaque barato, e inventando
outras, consideravam mais
lucrativo atribuir ao glorioso poeta toda a espécie de piadas
grosseiras e obscenas que o (povo) retinha na memória e foi
transmitindo de geração em geração.
Bocage, o autêntico Bocage que marcou toda uma época, o «Elmano
Sadino» dos imortais sonetos, esse ninguém conhece, o Bocage de «A
morte de Leandro e Hero», dos idílios, das canções e das odes de
inspiração pura e harmoniosa, esse poucos o conhecem. Quem é que
conhece esse Bocage que traduziu Castel e Delille,
e elevou a sua arte portentosa ao ponto de valorizar o seu próprio
original? O Bocage que
todos conhecem é um poeta chocarreiro que andaria por essas ruas,
soltando graçolas impertinentes e curtindo uma embriaguês crónica
pelas mesas dos botequins. Em torno do seu nome chegou a formar-se
uma atmosfera de depravação e de escândalo. «Versos bocagianos»
na boca do povo querem, ou queriam dizer, «literatura de sal grosso
e bafio nauseante, florilégio de lama». Ora, esse Bocage nunca
existiu!
«Só conhecendo Bocage através da sua poesia é possível acertar
contas que andavam erradas, pois, é a obra que devolve o poeta à
sua própria imagem, que restitui Bocage à sua verdade, que
exemplarmente o recupera, em toda a inteireza do que ele foi»”.46
1 Mestre em História do Brasil.
3Delumeau,
Jean, 1923- . História do medo no ocidente 1300-1800 : uma
cidade sitiada / Jean Delumeau ; tradução Maria Lucia Machado
; tradução de notas Heloísa Jahn. — São Paulo : Companhia das
Letras, 2009.
https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/80113.pdf
.
4https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/almanaque/palavroes-comecaram-como-termos-inocentes.phtml
.
http://omundodogrotesco.blogspot.com/2014/04/a-origem-dos-palavroes.html#.XDuhjFzMPIU
.
https://forums.tibiabr.com/threads/479161-Portal-explica-a-origem-de-alguns-dos-palavr%C3%B5es-mais-usados-no-Brasil
.
http://mctograf.blogspot.com/2014/03/palavrao-interjeicao-se-vai-ofender.html
. http://www.facha.edu.br/pdf/monografias/20113080.pdf
.
6
“Bataille, o pensador do corpo”. Wesley Peres. 12 de setembro
de 2013.
https://revistacult.uol.com.br/home/georges-bataille-o-pensador-do-corpo/
.
7
J. Kristeva. Pouvoirs de l’horreur. Paris, Seuil, 1980.
8“a
beleza terrível”. Contador Borges. Poeta, ensaísta e tradutor.
Publicou os livros de poesia Angelolatria (1997) e O reino da pele
(2003); traduziu Aurélia, de Gérard de
Nerval, (1991), O nu perdido e outros poemas, de René Char (1995),
e A filosofia na alcova, de Marquês de Sade (1999), entre outros,
todos pela editora Iluminuras. Tem colaborado com artigos, poemas e
traduções em várias revistas e jornais no Brasil e no exterior.
Verve, 6: 81-100, 2004.
https://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/viewFile/5006/3548
9“É
nesta direção que Dépêche [ DÉPÊCHE, M. Reações hiperbólicas
da violência da linguagem patriarcal e o corpo feminino. In:
STEVENS, Cristina. & SWAIN, Tânia Navarro. (Orgs). A construção
dos corpos- Perspectivas feministas. Florianópolis: Ed. Mulheres,
2008, p. 209] aponta que a linguagem utiliza uma língua natural,
sim, mas ela é uma máquina simbólico-ideológica que funciona
conforme as condições de produção/imaginação social (...). A
linguagem, então, reflete o meio social, húmus onde ela nasce, mas
também, cria sentidos, que modelam corpos segundo uma diferença
instituída politicamente (...)”. Xingamentos masculinos: a
falência da Xingamentos masculinos: a falência da virilidade e da
produtividade virilidade e da produtividade. Valeska Zanello e
Tatiana Gomes. Valeska Zanello. Professora Adjunta do Curso de
Psicologia. IESB (Instituto de Educação Superior de Brasília)
Tatiana Gomes. Graduada em Psicologia/IESB (Instituto de Educação
Superior de Brasília). Recebido em 30/06/2010. Aprovado em
30/09/2010. Caderno Espaço Feminino | v. 23 | n. 1/2 |p. 265-280|
2010.
http://www.seer.ufu.br/index.php/neguem/article/viewFile/7615/7079
.
11Geraldo
Vandré. https://www.letras.mus.br/geraldo-vandre/83305/
.
13Número
24, Maio 2008. CARTA AO LEITOR. Cipó de aroeira. por Redação
publicado , última modificação 31/10/2017
15h17.https://www.redebrasilatual.com.br/revistas/24/cipo-de-aroeira
.
http://nominuto.com/dialogosdiscursoseoutrasleituras/revoltadobusao-e-a-volta-do-cipo-de-aroeira-no-lombo-de-quem-mandou-dar/1217/
.
https://www.geledes.org.br/a-volta-do-cipo-de-aroeira-no-lombo-de-quem-mandou-dar/
.
http://segurancailimitada.blogspot.com/2016/03/e-volta-do-cipo-de-aroeira-no-lombo-de.html
.
http://www.contextolivre.com.br/2010/10/volta-do-cipo-de-aroeira-no-lombo-de.html
.
14Galvão,
André Luis Machado. O coronelismo na literatura : espaços de
poder / André Luis Machado Galvão – Cruz das Almas/BA :
UFRB, 2018.
https://www1.ufrb.edu.br/editora/component/phocadownload/category/2-e-books?download=107:o-coronelismo-na-literatura
.
15Galvão,
André Luís Machado. O coronelismo nas narrativas de Wilson
Lins: espaços de poder /André Luís Machado Galvão, 2010.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA. Departamento de Letras e
Artes. O CORONELISMO NAS NARRATIVAS DE WILSON LINS: ESPAÇOS DE
PODER. ANDRÉ LUÍS MACHADO GALVÃO. Feira de Santana, 2010.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA E DIVERSIDADE CULTURAL .
Livros Grátis. http://www.livrosgratis.com.br
. UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA. Departamento de Letras
e Artes. O CORONELISMO NAS NARRATIVAS DE WILSON LINS: ESPAÇOS DE
PODER. ANDRÉ LUÍS MACHADO GALVÃO. Feira de Santana, 2010.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE FEIRA DE SANTANA. Programa de Pós-Graduação
em Literatura e Diversidade Cultural. BANCA EXAMINADORA. Prof.ª
Dra. Eliana Mara de Freitas Chiossi (Orientadora);Prof.º Dr. Rubens
Edson Alves Pereira (Membro); Prof.ª Dra. Alvanita Almeida Santos
(Membro). Em 28/09/10. Feira de Santana, Setembro/2010.
http://livros01.livrosgratis.com.br/cp155949.pdf
.
16Luiz
Henrique Silva de Oliveira. O negrismo e suas configurações em
romances brasileiros do século XX (1928-1984). Tese apresentada ao
Programa de PósGraduação em Letras - Estudos Literários, da
Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, como
parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de
Doutor em Letras – Teoria da Literatura e Literatura Comparada.
Linha de pesquisa: Literatura, História e Memória Cultural (LHMC)
Orientadora: Profa. Dra.Haydée Ribeiro Coelho. Co-orientador: Prof.
Dr. Eduardo de Assis Duarte. Universidade Federal de Minas Gerais.
Faculdade de Letras. Belo Horizonte, 2013.
http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP-9ARHQK/tese_final_corrigida_14_09_2013.pdf?sequence=1
.
https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/Busca_etds.php?strSecao=resultado&nrSeq=10192@1
.
17Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo PUC-SP. Paulo Alexandre de
Moraes. Entre o chucro e o chique: um país em busca de um conceito.
Mestrado em Ciências Sociais. Dissertação apresentada à Banca
Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em
Ciências Sociais, sob orientação da Professora Doutora Maria
Celeste Mira Bolsa: CNPQ. São Paulo, 2016, p. 44.
https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/19232/2/Paulo%20Alexandre%20de%20Moraes.pdf
. PINTO, Rubia-Mar Nunes. Nação, região, sertão e a invenção
dos brasis: chaves de leitura para a história da educação. Rev.
Bras. Educ., Rio de Janeiro , v. 18, n. 53, p. 355-376, June
2013 . Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782013000200007&lng=en&nrm=iso>
. access on 16 Jan. 2019.
http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782013000200007
. UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA. MESTRADO EM GEOGRAFIA.
BRASIL DOS BRASIS E OUTROS ENSAIOS.Danielle Gregole ColucciBELO
HORIZONTE. MAIO DE 2013 . Dissertação apresentada ao Programa de
PósGraduação em Geografia do Instituto de Geociências da
Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à
obtenção do título de Mestre em Geografia. Área de concentração:
Organização do espaço. Linha de pesquisa: Teoria, Métodos e
Linguagens em Geografia. Orientador: Prof. Dr. Cássio Eduardo Viana
Hissa.
https://www.ppghufgd.com/wp-content/uploads/2017/04/VLADIMIR-JOS%C3%89-DE-MEDEIROS-tese-arquivo-%C3%BAnico.pdf
.
18Fry
P, Maggie Y, Maio MC, Monteiro S, Santos RV. Rio de Janeiro: Editora
Civilização Brasileira; 2007. 363 pp.
23
Cazuza - Brasil (ao vivo) - Show Teatro Ipanema 1987."Do CD
póstumo de 2005 - O poeta está vivo - Show no Teatro Ipanema 1987
. “Brasil”. Composição: Cazuza / Nilo Roméro / George Israel
. “Não me convidaram/Pra esta festa pobre/Que os
homens armaram/Pra me convencer/A pagar sem ver/Toda essa droga/Que
já vem malhada/Antes de eu nascer.../Não me ofereceram/Nem um
cigarro/Fiquei na porta/Estacionando os carros/Não me
elegeram/Chefe de nada/O meu cartão de crédito/É uma
navalha.../Brasil!/Mostra tua cara/Quero ver quem paga/Pra gente
ficar assim/Brasil!/Qual é o teu negócio?/O nome do teu
sócio?/Confia em mim.../Não me convidaram/Pra essa festa pobre/Que
os homens armaram/Pra me convencer/A pagar sem ver/Toda essa
droga/Que já vem malhada/Antes de eu nascer.../Não me sortearam/A
garota do Fantástico/Não me subornaram/Será que é o meu fim?/Ver
TV a cores/Na taba de um índio/Programada/Prá só dizer "sim,
sim"/Brasil!/Mostra a tua cara/Quero ver quem paga/Pra gente
ficar assim/Brasil!/Qual é o teu negócio?/O nome do teu
sócio?/Confia em mim.../Grande pátria/Desimportante/Em nenhum
instante/Eu vou te trair/Não, não vou te trair.../Brasil!/Mostra a
tua cara/Quero ver quem paga/Pra gente ficar assim/Brasil!/Qual é o
teu negócio?/O nome do teu sócio?/Confia em mim...(2x)/Confia em
mim/Brasil!!/ https://www.youtube.com/watch?v=JViRj2icPdg
.
24Eduardo
Dusek - Barrados no Baile - Ano 1983. Wapa
pararurará/Papapapararurá/Wapa pararurará/Papapapararurá.../ Ela
num macacão de plástico/Ele com o corpo elástico/Pensaram em se
divertir/ Fizeram muito cooper, ginástica/ Ligados numa muito
bombástica/ Aplicados prá não dormir.../Ela se sentia incrível/
Ele se achava apetecível/Disseram somos gente de nível/O casal
vinte daqui.../Mas foram barrados no baile/Tratados como maus
elementos/Lá dentro rolando Bob Marley/Cá fora/Por favor:
Documento!/Barrados no Baile/Oh! Oh!/Só viviam dando
detalhe/Barrados no Baile/Oh! Oh!/E meu amor, nem me fale/Mas isso é
que dá/Cê querer freqüentar...(2x)/Tentaram argumentar/"Somos
chiques"/Ele de leve/Sugeriu um trambique/Lhe deram uma
bofetada/Pensando que a finesse/Não importa/Ela gritou:/"Olha
que arrombo essa porta"/Já levando uma pernada.../O plástico
e a plástica/Não são nada/Mesmo gente considerada/Saca aqui
qualquer privê/É cilada/Se não for peixinho/Não nada.../Barrados
no Baile/Oh! Oh!/Só viviam dando detalhe/Barrados no Baile/Oh!
Oh!/E meu amor, nem me fale/Mas isso é que dá/Cê querer
freqüentar...(2x)/A dupla que era chique/Na entrada/Amarrotada teve
que "sartar"/Ainda foi vista pela madrugada/Comendo um
hot-dog vulgar.../Pois foram barrados no baile/Tratados como maus
elementos/Lá dentro rolando Bob Marley/Cá fora/Por favor:
Documento!/Barrados no Baile/Oh! Oh!/Só viviam dando
detalhe/Barrados no Baile/Oh! Oh!/E meu amor, nem me fale/Mas isso é
que dá/Cê querer freqüentar...(2x)/Isso é que dá!/Cê querer
freqüentar/Isso é que
dá!...https://www.youtube.com/watch?v=-5Zoiw1uYHI
.
31http://www.acervo.paulofreire.org:8080/jspui/bitstream/7891/3441/3/FPF_PTPF_21_008.pdf
.
http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/torres/scocuglia.pdf
.http://forumeja.org.br/files/PoliticaeEducacao.pdf
.
http://www.ihuonline.unisinos.br/artigo/7437-o-carater-politico-e-incomodo-da-pedagogia-do-oprimido
.
https://www.sabedoriapolitica.com.br/products/pedagogia-do-oprimido-resenha-critica/
.
https://www.brasil247.com/pt/colunistas/durvalangelo/317220/Toda-educa%C3%A7%C3%A3o-%C3%A9-ideol%C3%B3gica.htm
.
32Inúmeros
axiomas de pensadores e militantes libertários internacionalmente
reconhecidos, chamadas e notícias sobre congressos (…), acusações
contra seus perseguidores, debates envolvendo a temática do
sindicalismo e do anarquismo.
33Confederação
Operária Brasileira.
34Oliveira,
Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no
Brasil (1906-1936) / Tiago Bernardon de Oliveira. – 2009.
Niterói, Abril de 2009. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE
ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA . Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em História da UFF como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em História. Tese de doutorado em
História / Universidade Federal Fluminense, 2009. Comissão
examinadora: Prof. Dr. Marcelo Badaró Mattos (orientador)
Universidade Federal Fluminense (UFF). Profa. Dra. Silvia Regina
Ferraz Petersen Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Prof. Dr. Claudio Henrique de Moraes Batalha Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Prof. Dr. Alexandre Fortes Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . Prof. Dr. Norberto Osvaldo
Ferreras Universidade Federal Fluminense (UFF).
http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf
.
35Oliveira,
Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no
Brasil (1906-1936) / Tiago Bernardon de Oliveira. – 2009.
Niterói, Abril de 2009. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE
ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA . Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em História da UFF como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em História. Tese de doutorado em
História / Universidade Federal Fluminense, 2009. Comissão
examinadora: Prof. Dr. Marcelo Badaró Mattos (orientador)
Universidade Federal Fluminense (UFF). Profa. Dra. Silvia Regina
Ferraz Petersen Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Prof. Dr. Claudio Henrique de Moraes Batalha Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Prof. Dr. Alexandre Fortes Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . Prof. Dr. Norberto Osvaldo
Ferreras Universidade Federal Fluminense (UFF).
http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf
.
36Oliveira,
Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no
Brasil (1906-1936) / Tiago Bernardon de Oliveira. – 2009.
Niterói, Abril de 2009. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE
ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA . Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em História da UFF como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em História. Tese de doutorado em
História / Universidade Federal Fluminense, 2009. Comissão
examinadora: Prof. Dr. Marcelo Badaró Mattos (orientador)
Universidade Federal Fluminense (UFF). Profa. Dra. Silvia Regina
Ferraz Petersen Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Prof. Dr. Claudio Henrique de Moraes Batalha Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Prof. Dr. Alexandre Fortes Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . Prof. Dr. Norberto Osvaldo
Ferreras Universidade Federal Fluminense (UFF).
http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf
.
37Oliveira,
Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no
Brasil (1906-1936) / Tiago Bernardon de Oliveira. – 2009.
Niterói, Abril de 2009. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE
ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA . Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em História da UFF como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em História. Tese de doutorado em
História / Universidade Federal Fluminense, 2009. Comissão
examinadora: Prof. Dr. Marcelo Badaró Mattos (orientador)
Universidade Federal Fluminense (UFF). Profa. Dra. Silvia Regina
Ferraz Petersen Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Prof. Dr. Claudio Henrique de Moraes Batalha Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Prof. Dr. Alexandre Fortes Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . Prof. Dr. Norberto Osvaldo
Ferreras Universidade Federal Fluminense (UFF).
http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf
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38Oliveira,
Tiago Bernardon de. Anarquismo, sindicatos e revolução no
Brasil (1906-1936) / Tiago Bernardon de Oliveira. – 2009.
Niterói, Abril de 2009. UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE
ESTUDOS GERAIS INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA PROGRAMA
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA . Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em História da UFF como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em História. Tese de doutorado em
História / Universidade Federal Fluminense, 2009. Comissão
examinadora: Prof. Dr. Marcelo Badaró Mattos (orientador)
Universidade Federal Fluminense (UFF). Profa. Dra. Silvia Regina
Ferraz Petersen Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Prof. Dr. Claudio Henrique de Moraes Batalha Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp). Prof. Dr. Alexandre Fortes Universidade
Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) . Prof. Dr. Norberto Osvaldo
Ferreras Universidade Federal Fluminense (UFF).
http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf
.
39Elide
Rugai Bastos. Conversas com sociólogos brasileiros. Editora
34, 2006, pp.49-55-56-65. O depoimento é de 1983.
40IANNI,
Octávio. Tipos e mitos do pensamento brasileiro. Sociologias,
Porto Alegre , n. 7, p. 176-187, June 2002 . Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-45222002000100008&lng=en&nrm=iso>
. access on 15 Jan. 2019.
http://dx.doi.org/10.1590/S1517-45222002000100008
. https://pt.wikipedia.org/wiki/Octavio_Ianni
.
41Riolando
Azzi. “A Interpretação da História do Brasil Segundo José
Honório Rodrigues”. Rodrigues, José Honório, História, Corpo
do Tempo, S. Paulo, Perspectiva, 1976, 133-136.
https://faje.edu.br/periodicos/ind/ex.php/Sintese/article/viewFile/2347/2617
.
42
Quem construiu Tebas, a das sete portas?/Nos livros vem o nome dos
reis,/Mas foram os reis que transportaram as pedras?/Babilónia,
tantas vezes destruída,/Quem outras tantas a reconstruiu? Em que
casas/Da Lima Dourada moravam seus obreiros?/No dia em que ficou
pronta a Muralha da China para onde/Foram os seus pedreiros? A
grande Roma/Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre
quem/Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio/Só tinha
palácios/Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida/Na
noite em que o mar a engoliu/Viu afogados gritar por seus
escravos./O jovem Alexandre conquistou as Índias/Sozinho?/César
venceu os gauleses./Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu
serviço?/Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha/Chorou. E
ninguém mais?/Frederico II ganhou a guerra dos sete anos/Quem mais
a ganhou?/Em cada página uma vitória./Quem cozinhava os
festins?/Em cada década um grande homem./Quem pagava as
despesas?/Tantas histórias/Quantas perguntas./Bertolt Brecht.
Perguntas de um Operário Letrado
Quem...https://www.pensador.com/frase/MTQ5MDc5/
. “Trata-se do poema “Fragen eihes lesenden Arbeiters”,
reproduzido no final do artigo”. WALTER CARLOS COSTA. TRÊS
BRECHTS. Universidade Federal de Santa Catarina. Fragmentos, número
25, p. 069/076 Florianópolis/ jul - dez/ 2003.
https://periodicos.ufsc.br/index.php/fragmentos/article/viewFile/7680/7013
.
43O
que se esconde atrás do ódio ao PT? Por Leonardo Boff. [Leonardo
Boff é teólogo, filósofo e escritor].12 de Março de 2015.
https://www.brasildefato.com.br/node/31546/
.
45
CULTURA 15 de maio 2016. Bocage: Sobreviver à LendaEm grande medida
a figura lendária de Bocage trai a sua memória. As fábulas e
anedotas que dele se contam deixam de fora o génio dos seus versos,
lembram o boémio inveterado que ele certamente foi, mas esquecem a
sensibilidade feroz que embaraçou os poderosos e que fez mais deste
país. Diogo Vaz Pinto. diogo.pinto@newsplex.pt
. Daniel Pires.
https://sol.sapo.pt/artigo/510577/bocage-sobreviver-a-lenda
.
46Bocage.
Bicentenário da morte do Poeta. (1805 – 2005). Carlos Jaca.
Diário do Minho 30 de Novembro e 7e 14 de Dezembro de 2005. “Esse
Bocage nunca existiu…”. http://www.esas.pt/jaca/docs/Bocage.pdf
.
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