Revolução e Democracia
Rosa Luxemburgo fez algumas
considerações luminares sobre democracia que, a toda prova,
continuam valendo, mesmo que sejam parte de um discurso sobre a
revolução russa de 1917, no início do século XX. Questionando a
estratégia política de Lenin durante 1917, Rosa prefere o
aprofundamento da democracia ampla e a organização das massas,
mesmo percebendo toda crise institucional que a Rússia vivia. Esse
acreditar na democracia, como um valor universal, amplo, para evitar
a tirania, o terror, a ditadura, soa como um sino numa noite de
inverno, numa capela das mais simples, em campos de centeio.
Respeitar a vida, acima de tudo; ética revolucionária para um mundo
em ebulição.
“Entretanto,
houve dois aspectos de prelúdio de 1905 que escaparam inteiramente a
ela. Havia, afinal o fato surpreendente de que a revolução
eclodira, não só num país atrasado e não industrializado, mas num
território onde não existia absolutamente nenhum movimento
socialista forte com apoio das massas. Em segundo lugar havia o
fato igualmente inegável de que a revolução fora o resultado da
derrota russa na guerra russo-japonesa. Foram dois fatos que Lenin
nunca esqueceu e dos quais extraiu duas conclusões. Primeiramente,
não era necessário uma grande organização; um grupo pequeno e
solidamente organizado, com um líder que soubesse o que queria, era
suficiente para tomar o poder, uma vez eliminada a autoridade do
antigo regime. Grandes organizações revolucionárias constituíam
apenas um incômodo. E, em segundo lugar, como as revoluções não
eram 'feitas”, mas resultantes de circunstâncias e acontecimentos
além do poder de quem quer que fosse, as guerras eram bem vindas.
[Lênin leu Vom Kriege de
Clausewitz (1832) durante a Primeira Guerra Mundial; suas anotações
foram publicadas na década de 1950 em Berlim Oriental. De acordo com
Werner Hahlberg (“Lenin und Clausewitz”, Archiv für
Kulturgeschichte, Berlim, vol. 36, 1954), Lenin estava sob a
influência de Clausewitz quando começou a considerar a
possibilidade de a guerra, o colapso do sistema europeu de
Estado-nação, substituir o colapso econômico do capitalismo
predito por Marx]. Esse segundo ponto foi a fonte dos desacordos de
Rosa com Lenin, durante a Primeira Guerra Mundial, e a primeira de
suas críticas à tática de Lenin na Revolução Russa de 1917.
Pois ela se recusava categoricamente, do princípio ao fim, em ver na
guerra outra coisa senão a mais terrível catástrofe, sem importar
qual fosse seu resultado final; o preço em vidas
humanas, principalmente vidas proletárias, seria alto demais sob
quaisquer circunstâncias. Além disso, seria contra seu feitio
encarar a revolução como beneficiária da guerra e do massacre
— coisa que não incomodava minimamente a Lenin. E
quanto à questão da organização, ela não acreditava numa vitória
onde o povo em geral não tomasse parte ou não tivesse voz; na
verdade, acreditava tão pouco em tomar o poder a qualquer preço que
“tinha muito mais medo de uma revolução deformada do que uma
fracassada” — esta era, de fato, “a grande diferença entre
ela” e os bolcheviques. E
os acontecimentos não provaram que ela tinha razão? Não é a
história da União Soviética uma longa demonstração dos terríveis
perigos das “revoluções deformadas”? O “colapso moral” que
ela previra — sem antever, evidentemente, a aberta criminalidade do
sucessor de Lênin — por acaso não causou mais dano à causa da
revolução tal como a entendia do que “toda e qualquer derrota
política [...] em luta honesta contra forças superiores e nas
garras da situação histórica” possivelmente teria provocado? Não
era verdade que Lenin estava “completamente equivocado” quanto
aos meios que empregou, e que a única via de salvação
era a “escola da própria vida pública, a democracia e a opinião
pública mais amplas e mais ilimitadas”, e que o terror
“desmoralizava” todos e destruía tudo?”.
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1https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4419740/mod_resource/content/1/ARENDT%2C%20Hannah.%20Homens%20em%20tempos%20sombrios.pdf
. ARENDT, Hannah. “Rosa Luxemburgo”. In: Homens em Tempos
Sombrios. São Paulo; Companhia das Letras. 2003, pp. 53-54.
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