Política e Religiosos





As relações entre política e religião sempre oscilaram muito na história da humanidade. Até mesmo Jesus, na visão mundana, não escapou aos trâmites políticos de sua época. Há vários momentos nos Evangelhos que sugerem uma tentativa de pressionar Jesus para tomar posição contra ou favor de César, da lei judaica, do sábado, da prostituição, dos leprosos, dos gentios, dos impuros, da Galileia, dos nazarenos, dos zelotes, essênios, fariseus, saduceus, das mulheres, das crianças, e por aí em diante. Jesus, cognominado de Cristo, ainda hoje é discutida sua historicidade, visto que, por citações de outrem, pouco poderia ser dito a não que era mais um profeta judaico. A grandiosidade de Jesus não passa pelo crivo da ciência histórica, como muitos pretendem, desejam, vociferam, ora superlativizar fatos sobre a vida de Jesus, ora atenuando ou minimizando a vida de Jesus. Para a história enquanto ciência, Jesus é o mesmo que Sócrates e outros que não tiveram sua história relatada ao gosto do século XVIII. Não cabe, pela própria pouca historicidade de Jesus, dizer isso ou aquilo sobre essas ou aquelas atitudes que imaginamos que Jesus tomaria hoje. A discussão sobre Jesus e os Evangelhos, do ponto de vista da história, é como um cego andando em círculos: não leva a lugar algum. A importância de Jesus, a discussão sobre Jesus só pode ser travada se for considerada a dimensão espiritual, isto é, de que o ser humano não está sozinho, que ele não é uma entidade criada do nada, de uma suposição de que o plano espiritual é anterior, prescinde o mundo material, ou até mesmo nem dessa forma, um outra que nem se imagina ainda. O mistério de Jesus só pode ser respondido no plano espiritual, ou seja, no plano da fé, individual, particular, de cada um. Pode-se falar numa fé coletiva, de grupo, de povo? Com certeza; mas toda fé coletiva, comunal, parte do princípio de que primeiro é o indivíduo, o sujeito, o ser em si mesmo, a alma daquele corpo em específico, que carrega sua própria cruz, como Jesus, o Cristo. Como afirmava ELIZABETH LESEUR, “uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro”. Ou Gandhi: “Na verdade há tantas religiões como indivíduos”; “Se um único homem chega à plenitude do amor, neutraliza o ódio de milhões”.

A propósito da ideia de que um individuo pode mudar o mundo, como sugere Norbert Elias, ao perceber as mudanças na moral e nos costumes, mudança que não é automática, mecânica, e nem planejada, pois não há um plano anterior, e isso não significa descartar a ideia de Deus, apenas ressaltar a fertilidade da vida,

"a ideia tradicional de uma 'razão' ou 'racionalidade' de que todas as pessoas são dotadas por natureza como uma peculiaridade inata da espécie humana e que ilumina todo o ambiente como um farol ( a menos  que haja uma disfunção) conforma-se muito pouco aos fatos observáveis". (ELIAS, NORBERT. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 71).


O nascimento biológico do ser, por si só, não o qualifica como civilizado, com uma filosofia humana pré-concebida. O estatuto do ser humano também é uma construção individual.

Aqui, neste momento, deve-se lembrar de Thiago de Mello, Santiago do Chile, abril de 1964, sobre a natureza conquistada pelo ser:

"   ESTATUTO DO HOMEM 
   (Ato Institucional Permanente)
 
                                          A Carlos Heitor Cony
 
    Artigo I
 
   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira.
 
 
   Artigo II
   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
 
 
   Artigo III
 
   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança.
 
 
   Artigo IV
 
   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.

 
           Parágrafo único:
 
           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino.
 
 
   Artigo V
 
   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa.
 
 
   Artigo VI
 
   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
 
 
   Artigo VII

   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo.
 
 
   Artigo VIII
 
   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor.
 
 
   Artigo IX

   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura.
 
 
   Artigo X

   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco.
 
 
   Artigo XI
 
   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã.
 
 
   Artigo XII
 
   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.

 
           Parágrafo único:
 
           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.
 
 
   Artigo XIII
 
   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou.
 
 
   Artigo Final.
 
   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.

  Thiago de Mello. Santiago do Chile, abril de 1964. http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/p01/p011101.htm



Agora, os seguidores de Cristo, já é outra coisa. A igreja de Cristo sempre foi tomada por discussões teológicas e políticas. É como comparar Marx e o seguidores de Marx. A teoria marxista, o que disse Marx, é uma coisa; o que dizem os seguidores de Marx, é outra. A necessidade de critérios é fundamento.
Por isso a discussão política da intervenção de seguidores de Cristo na conjuntura atual não pode ser travada em várias frentes, querendo, com o disparo de várias flechas, dar flechadas em todos os alvos, ora atacando as incongruências históricas dos Evangelhos, ora atacando as práticas políticas da igreja cristão na história do mundo, ora atacando essa ou aquela corrente cristã da atualidade. Um erro não justifica um outro erro. É preciso separar, olhar cada parte, enfim, analisar.
Ao contrário do que diz Juan Arias, a Bíblia não é clara, a não ser do ponto de vista da fé. Do ponto de vista da historicidade da Bíblia, ou até mesmo do Jesus histórico, tudo que foi escrito está submetido a verdade histórica, aos condicionantes, as múltiplas determinações, enquanto um texto também, mas não somente, histórico.
Nesse sentido, embora com limites, o texto de Juan Arias ajuda a desvendar a análise política atual sobre a participação de seguidores de Jesus no contexto em que se vive.

Há momentos na história dos povos, como hoje no Brasil, onde os cristãos não podem ser omitir quando os direitos fundamentais das pessoas, como suas liberdades e defesa dos mais fracos, estão em perigo. No Brasil, 166 milhões de pessoas, cerca de 86% da população, declaram-se cristãos. Nessa parcela, 64,6% são católicas e o restante, evangélicas. Para ambos os grupos, sua constituição religiosa são os textos da Bíblia, do Antigo e do Novo Testamento. Ambas os grupos cristãos têm como lema a paz e a fraternidade, bem como a defesa dos mais humildes e esquecidos pelo poder. As igrejas evangélicas pregam, como vi escrito até em um caminhão, que "Cristo está voltando". Pergunto-me, no entanto, se os evangélicos e católicos não seriam pegos de surpresa se, de fato, o inocente e pacífico Jesus de Nazaré, crucificado por defender os perseguidos e desprezados pelo poder, aparecesse nos dias de hoje entre eles. Estaria Jesus, nestas eleições, a favor de um candidato que prega a violência como panaceia para todos os males, que zomba das minorias ameaçadas pela intransigência, que ensina crianças a usar as mãos inocentes para imitar um revólver e que, vítima de um ataque injusto, como são todos os atos de violência, continua, de seu leito no hospital, fazendo gestos como se estivesse disparando uma arma? Se Cristo voltasse, ficaria, certamente, surpreso com a notícia publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, de que a Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil decidiu apoiar a candidatura do capitão reformado Jair Bolsonaro, sob o pretexto de frear uma possível vitória da esquerda. Os evangélicos, como todos os cidadãos, têm o direito de preferir um candidato de esquerda ou de direita. Eles são, no entanto, seguidores do profeta que morreu por defender todas as minorias perseguidas em seu tempo e que se recusou a ser defendido por seus discípulos com a espada. Não poderia, por isso, abençoar aqueles que não só pregam a violência e até mesmo o extermínio dos inimigos, mas também fazem alarde sobre isso. E, se pode nos surpreender o fato de que as igrejas evangélicas declarem, por meio de seus pastores, seu apoio ao candidato que fez das armas seu estandarte sagrado, também surpreende que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lave as mãos e não tenha a coragem de assumir uma posição clara sob a desculpa de que a Igreja "não se pronuncia sobre candidatos". O cardeal Sérgio da Rocha, que agora preside a CNBB, em uma cerimônia em Brasília no último dia 14, havia defendido que os católicos não devem apoiar candidatos "que promovam a violência", referindo-se a Bolsonaro. Em seguida, os bispos divulgaram um comunicado para esclarecer que o cardeal havia dado sua opinião pessoal, e que a CNBB "não se pronuncia sobre candidatos". Os bispos, mais uma vez, lavaram as mãos, um gesto que traz tristes lembranças, quando Pôncio Pilatos, antes de condenar Jesus à morte, também lavou as mãos. A Igreja Católica, que carrega nas costas dois mil anos de história, já pagou caro no passado por ter feito uso da violência contra os hereges, nas fogueiras da Inquisição e nas guerras religiosas. Ainda surpreende aquele ambíguo lavar de mãos do papa Pio XII diante de Hitler e do Holocausto. E pagou caro por seus pecados de traição à sua doutrina de paz e de defesa das liberdades, assim como seu apoio às piores ditaduras. Uma coisa é que, como princípio, as igrejas cristãs proclamem sua independência em assuntos transitórios da política, e outra que, quando a política se torna um perigo nacional, se permitam lavar as mãos ou ficar do lado dos opressores dos fracos e daqueles que desejam fazer da violência o centro de gravidade de um país. Para isso, não existe perdão. No cristianismo, a neutralidade quando a vida e os direitos das pessoas estão em jogo é um pecado. A Bíblia é clara. No livro do Apocalipse (3:15-16), aqueles que preferem covardemente lavar as mãos são repreendidos: "Assim, porque és morno, e nem és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”. O Deus cristão exige a coragem de saber se posicionar contra os violentos, no pelotão dos indefesos condenados ao esquecimento e principal alvo da violência. (…) “No entanto apenas um candidato apresenta propostas claras de combate ao que os cristãos percebem como destruição de seus valores tradicionais. Porque será que mesmo apoiado por fascistas, esse candidato leva o voto de uma parcela dos conservadores, aquela mais aterrorizada com propostas pró-aborto, ou de ensinar moral sexual não tradicional em escolas que não conseguem ensinar nem português, ou da possibilidade de normalização da pedofilia, que vêm como o passo seguinte natural após a normalização da homossexualidade e da trans-sexualidade? Por outro lado, porcentagem equivalente da população é formada por trabalhadores.E não existe nenhuma tendência política que proponha uma agenda conservadora nos costumes e progressista na economia? Uma tendência dessas seria imbatível nas urnas. Por isso a criação da Terceira Via nos anos 90 foi fundamental para a radicalização política que vemos hoje. Todos partidos se tornaram liberais-progressistas e não sobrou representação politica para os conservadores. Só resta a eles Trump, Bolsonaro, Le Pen... Estamos pagando o preço por essa contradição.”1. (…) “Nem todo pastor evangélico é fascista. O pastor Henrique Vieira, no vídeo indicado abaixo, justifica porque NÃO votar no Coiso.https://youtu.be/3jIZVadlMYk2. 3

3 “Enquanto pastores evangélicos apoiam o fascismo, cúpula católica lava as mãos”, por Juan Arias. SAB, 22/09/2018 – 08:14. Enviado por Almeida do El País. https://jornalggn.com.br/blog/almeida/enquanto-pastores-evangelicos-apoiam-o-fascismo-cupula-catolica-lava-as-maos-por-juan-arias . https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/20/opinion/1537466622_097329.html .

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