A esquerda é inimiga da verdadeira religião?
Theophilus (2015), é um prócer católico; em sua visão, os
liberais, a direita, não acatariam as ideias do catolicismo. Na
verdade, nem a direita, liberais, nem a esquerda, o PT.
"A direita mais organizada (mas nem tanto) de que
dispomos, para nos defender das arbitrariedades do PT, não é
uma aliada verdadeira, mas os momentos antigos da
Revolução que ainda
sobrevivem.
Na sua época eles é que eram os
radicais; os de esquerda.
São hoje em dia os protestantes, que
querem ser chamados de evangélicos, sem nenhuma razão, pois Deus
não confiou a transmissão de sua mensagem a hereges sem a menor
sombra de autoridade; são os liberais que querem ser chamados
de conservadores porque querem conservar um momento passado
da Revolução, tão funesto quanto os
seguintes.
Sobre os evangélicos nem é preciso falar de seu ódio à Igreja e
por tabela, embora não admitam, pois não seria cristão fazê-lo,
aos que a Ela pertencem; sua livre interpretação da Bíblia é
capaz de justificar os piores crimes e aberrações morais,
inclusive, se preciso for, as futuras perseguições aos autênticos
cristãos.
Não podemos, portanto, contar com eles.
Em relação aos conservadores, o verdadeiro
conservadorismo é o verdadeiro catolicismo, o que
ainda é praticado por bem poucos neste mundo progressista e
enlouquecido, pelos que ainda seguem o depósito inalterado da fé e
por uma graça especial de Deus não se contaminaram de
liberalismo, os que o mundo chama com desprezo de
ultramontanos1,
integristas2,
tradicionalistas3
e, recentemente, de um modo indevido, e ainda por cima por um papa
que devia saber mais, de pelagianos4.
Porque somente o verdadeiro católico conserva o que deve ser
conservado, ou seja, o depósito da fé que foi confiado aos
apóstolos, e a fé espelha a verdadeira doutrina, a que fica longe
de quimeras humanas, mostrando a realidade tal como é, que não se
limita ao mundo material, natural, mas abarca igualmente o
preternatural e o sobrenatural, ambos negados pelo liberalismo.
A direita organizada portanto crê naquilo em que o PT acredita, só
que em um estágio anterior.
Ela não vai nos defender, porque, em termos de
princípios, tem os mesmos da Revolução
que só quer extirpar o Cristianismo da face da terra, usando dos
maiores malabarismos filosóficos para se justificar e de sentimentos
humanos nobres deturpados e falsificados.
Além disso sua miopia materialista em enfatizar
sua diferença em termos de direito de propriedade e resultados
econômicos mostra que não estão nem aí para a resistência
espiritual, que é o único campo em que a Revolução
realmente deve ser combatida e pode ser destruída.
Esta resistência tanto vem do sacrifício pessoal por algo maior que
nós mesmos, maior que o indivíduo sagrado dos liberais, como
do exercício pessoal de renúncia que lhes é
extremamente estrangeiro, tendo em vista o hedonismo em que descamba
a civilização que os direitos do homem criaram.
Os liberais que seguem até o fim as conseqüências de seu
individualismo materialista não podem portanto oferecer resistência
nenhuma à última fase da Revolução
cujo alcance é universal e que também nada nas águas turvas do
materialismo.
Os sinais dos tempos estão também neste desamparo absoluto, de não
haver mais quem nos defenda contra a sanha do Leviatã moderno, não
mais um Sacro Império, uma França militantemente católica.
Os papas conciliares esperam esta defesa da ONU, sem
atentar que é a maior organização promotora da vinda do Anticristo
em toda a terra.
Este desamparo, no entanto, ao invés de nos desesperar deveria nos
alegrar, porque nos indica que a vitória de Nosso Senhor também
mais se aproxima quanto mais desesperadora a situação da Igreja no
mundo.
Portanto, afastemo-nos de esquerdas e direitas,
mantenhamo-nos no centro católico, realista e equilibrado, nesta fé
de cuja manutenção depende nossa salvação.5
Theophilus (2015), imagina a esquerda como uma suposta estética que
beira ao grotesco. É uma esquerda caricatural. Nesse sentido, é
especular. Os pólos se encontram nos extremos e se atraem. A
dualidade massacra. Não há meio termo, o caminho do meio,o bom
senso. O rigor é o ódio; não é o rigor, a virtude. Um coração
doente? A não percepção do homem insuficiente? O repositório
acadêmico e cultural do mundo não pertence, também, a esquerda?
Marx, por exemplo, não leu Kant, Hegel, e todos os filósofos? Só
para falar em Marx; mas tem muito mais.
"A religião é o ópio do povo" (em alemão "Die
Religion ... Sie ist das Opium des Volkes") é uma frase
presente na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
(em alemão, Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie -
Einleitung), de Marx. A Introdução escrita em 1843, foi publicada
em 1844 nos Deutsch-Französischen Jahrbücher. [MARX, Karl. Crítica
da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução à Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel. Marxists Internet Archive].
Marx não foi, todavia, o primeiro a utilizar tal analogia, embora a
autoria lhe seja frequentemente atribuída. Ele, de fato, sintetizou
uma ideia que estava presente em autores do século XVIII.
Origem. A comparação da religião com o ópio já aparece,
por exemplo, em escritos de Immanuel Kant, Johann Herder, Ludwig
Feuerbach, Bruno Bauer, Moses Hess e Heinrich Heine. Este último, em
1840, no seu ensaio sobre Ludwig Börne escreveu:
"Bendita seja a religião, que derrama no amargo cálice da
humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio
espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança. "[]Citado
por Michael Löwy (2006) "Marxismo e religião: ópio do povo?"
in Borón, A. et al. (orgs.), A teoria marxista hoje. Problemas e
perspectivas. Buenos Aires: CLACSO, 2007. ISBN 987-1183-52-6
Moses Hess, num ensaio publicado na Suíça em 1843, também utilizou
a mesma ideia: A religião pode fazer suportável [...] a infeliz
consciência de servidão... de igual forma o ópio é de boa ajuda
em angustiantes doenças.
Além de Heine e Hess, uma ideia similar aparece em Histoire de
Juliette, ou les Prospérités du vice, obra do marquês de Sade, de
1797 :
"É ópio que você faz seu povo tomar, para que, anestesiado
por esse sonífero, ele não sinta as feridas que você lhe rasga."
[No original, em francês: " C’est de l’opium que tu fais
prendre à ton peuple, afin qu'engourdi par ce somnifère, il ne
sente pas les plaies dont tu le déchires. " Ver: Histoire de
Juliette, ou les Prospérités du vice (texto integral)]
Novalis, outro poeta alemão, também teria usado uma comparação
semelhante em Blüthenstaub (Grãos de pólen), seu primeiro trabalho
publicado na revista Athenäum, em 1798:[Novalis. Grains de pollen
(fragmento 77).]
"Sua suposta religião age simplesmente como um ópio:
excitante, estonteante, acalmando os sofrimentos dos fracos."
Contexto original.
A frase está na Introdução feita à Crítica da filosofia do
direito de Hegel, escrita em 1843 e publicada em 1844 nos
Deutsch-Französischen Jahrbücher ('Anais franco-alemães'), que
Marx editava com Arnold Roge. Seu contexto imediato é o seguinte[
MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel; São Paulo:
Boitempo Editorial, 2005, pp 146-147.] [MARX, Karl. Crítica da
Filosofia do Direito de Hegel. Introdução à Crítica da Filosofia
do Direito de Hegel. Marxists Internet Archive]:
"É este o fundamento da crítica irreligiosa: o homem faz a
religião, a religião não faz o homem. E a religião é de fato a
autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se
encontrou ainda ou voltou a se perder. Mas o Homem não é um ser
abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o
Estado, a sociedade. Este Estado e esta sociedade produzem a
religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um
mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, o seu
resumo enciclopédico, a sua lógica em forma popular, o seu 'point
d'honneur' espiritualista, o seu entusiasmo, a sua sanção moral, o
seu complemento solene, a sua base geral de consolação e de
justificação. É a realização fantástica da essência humana,
porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Por
conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, a luta
contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião.
A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria
real e o protesto contra a miséria real. A religião é
o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e
a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do
povo.
A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é
a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as
ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma
condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois,
o germe da crítica do vale de lágrimas, do qual a religião é a
auréola.
A crítica arrancou as flores imaginárias dos grilhões, não para
que o homem os suporte sem fantasias ou consolo, mas para que lance
fora os grilhões e a flor viva brote. A crítica da religião
liberta o homem da ilusão, de modo que pense, atue e configure a sua
realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão,
a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, em volta do seu
verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em
volta do homem enquanto ele não circula em tomo de si mesmo.
Consequentemente, a tarefa da história, depois que o outro mundo da
verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A tarefa
imediatada da filosofia, que está a serviço da história, é
desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas,
agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do
céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da
religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica
da política"."6
Rubem Alves situa muito bem o debate sobre religião e política:
" 'O sofrimento religioso é, ao mesmo tempo, expressão de um
sofrimento real e protesto contra um sofrimento real. Suspiro da
criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de
uma situação sem espírito: a religião é o ópio do povo'. (K.
Marx).
Entramos num outro mundo. Durkheim contemplou as tênues cores
do mundo sacral que desaparecia, como nuvens de crepúsculo que
passam de rosa ao negro, sob as mudanças rápidas da luz que
mergulha. Fascinado, empreendeu a busca das origens, do tempo
perdido... E lá se foi atrás da religião mais simples e primitiva
que se conhecia... Compreender com esperança. . .
Marx não habita o crepúsculo. Vive já em plena noite. Anda em meio
aos escombros. Analisa a dissolução. Elabora a ciência do capital
e faz o diagnóstico do seu fim. Nada tem a pregar e nem oferece
conselhos. Não procura paraísos perdidos porque não acredita
neles. Mas dirige o seu olhar para os horizontes futuros e espera a
vinda de uma cidade santa, sociedade sem oprimidos e opressores,
de liberdade, de transfiguração erótica do corpo...
Mas o solo em que pisa desconhece o mundo sacral, de normas morais e
valores espirituais. Ele é secularizado do princípio ao fim e
somente conhece a ética do lucro e o entusiasmo do capital e da
posse. Não importa que os capitalistas frequentem templos e façam
orações, nem que construam cidades sagradas ou sustentem
movimentos missionários, nem ainda que haja água benta na
inauguração das fábricas e celebrações de ações de graças
pela prosperidade, e muito menos que missas sejam rezadas pela eterna
salvação de suas almas... Este mundo ignora os elementos
espirituais. Salários e preços não são estabelecidos nem pela
religião e nem pela ética. A riqueza se constrói por meio de uma
lógica duramente material: a lógica do lucro, que não conhece a
compaixão. Na verdade, aqueles que têm compaixão se condenam a si
mesmos à destruição... Não se pode negar que os gestos e as falas
ainda se referem aos deuses e aos valores morais: maquilagem,
incenso, desodorante, perfumaria, uma aura sagrada que tudo
envolve no seu perfume, sem que nada se altere. E Marx tem de
insistir num procedimento rigorosamente materialista de análise. De
fato, materialismo que é uma exigência do próprio sistema que só
conhece o poder dos fatores materiais. É a lógica do lucro e da
riqueza que assim estabelece — e não as inclinações pessoais
daquele que a analisava.
Poucas pessoas sabem que o pensamento de Marx sobre a religião tomou
forma e se desenvolveu em meio a uma luta política que travou.
E a luta não foi nem com clérigos e nem com teólogos,
mas com um grupo de filósofos que entendia que a religião era a
grande culpada de todas as desgraças sociais de então, e desejava
estabelecer um programa educativo com o objetivo de fazer com que as
pessoas abandonassem as ilusões religiosas. Marx estava
convencido de que a religião não tinha culpa alguma. E que
não existia nada mais impossível que a eliminação de ideias,
ainda que falsas, das cabeças dos homens. . . Porque as pessoas não
têm certas ideias porque querem. E imagino que clérigos e
religiosos poderão esfregar as mãos com prazer: "Finalmente
descobrimos um Marx do nosso lado". Nada mais
distante da verdade. A religião não era culpada pela
simples razão de que ela não fazia diferença alguma. Como poderia
um eunuco ser acusado de deflorar uma donzela? Como poderia a
religião ser acusada de responsabilidade, se ela não passava
de uma sombra, de um eco, de uma imagem invertida, projetada sobre a
parede? Ela não era causa de coisa alguma. Um sintoma apenas. E, por
isto mesmo, os filósofos que se apresentavam como perigosos
revolucionários não passavam de réplicas de D. Quixote,
investindo contra moinhos de vento.
Marx não desejava gastar energias com dragões de papel. Estava em
busca das forças que realmente movem a sociedade. Porque era aí, e
somente aí, que as batalhas deveriam ser travadas.
Que forças eram estas?
Os filósofos revolucionários a que nos referimos, hegelianos
de esquerda, desejavam que a sociedade passasse por transformações
radicais. E eles entendiam que a ordem social era construída
com uma argamassa em que as coisas materiais eram cimentadas umas nas
outras por meio de ideias e formas de pensar. Assim, armas, máquinas,
bancos, fábricas, terras se integravam por meio da religião, do
direito, da filosofia, da teologia. . . A conclusão
político-tática se segue necessariamente: se houver
uma atividade capaz de dissolver ideias e modificar formas antigas de
pensar, o edifício social inteiro começará a tremer. E foi assim
que eles se decidiram a travar as batalhas revolucionárias no campo
das ideias, usando como arma alguma coisa que naquele tempo se
chamava crítica. Hoje, possivelmente, eles falariam de
conscientização. E investiram contra a religião.
Marx se riu disto. Os hegelianos veem as coisas de
cabeça para baixo. Pensam que as ideias são as causas da vida
social, quando elas nada mais são que efeitos, que aparecem depois
que as coisas aconteceram. . . "Não é a consciência que
determina a vida; é a vida que determina a consciência."
E ele afirmava:
"Até mesmo as concepções nebulosas que existem nos cérebros
dos homens são necessariamente sublimadas do seu processo de
vida, que é material, empiricamente observável e determinado por
premissas materiais. A produção de ideias, de conceitos, da
consciência, está desde as suas origens diretamente
entrelaçada com a atividade material e as relações materiais
dos homens, que são a linguagem da vida real. A produção das
ideias dos homens, o pensamento, as suas relações espirituais
aparecem, sob este ângulo, como uma emanação de sua condição
material. A mesma coisa se pode dizer da produção espiritual de um
povo, representada pela linguagem da política, das leis, da moral,
da religião,da metafísica. Os homens são os produtores de suas
concepções".
"É o homem que faz a religião; a religião não faz o homem".
É o fogo que faz a fumaça; a fumaça não faz o fogo.
E, da mesma forma como é inútil tentar apagar o fogo assoprando a
fumaça, também é inútil tentar mudar as condições de vida pela
crítica da religião. A consciência da fumaça nos remete ao
incêndio de onde ela sai. De forma idêntica, a consciência da
religião nos força a encarar as condições materiais que a
produzem.
Quem é
esse homem que produz a religião?
Ele é um corpo, corpo que tem de comer, corpo que necessita de roupa
e habitação, corpo que se reproduz, corpo que tem de transformar a
natureza, trabalhar, para sobreviver.
Mas o corpo não existe no ar. Não o encontramos de forma
abstrata e universal. Vemos homens indissoluvelmente amarrados aos
mundos onde se dá sua luta pela sobrevivência, e exibindo em seus
corpos as marcas da natureza e as marcas das ferramentas. Os
boias-frias, os pescadores, os que lutam no campo, os que trabalham
nas construções, os motoristas de ônibus, os que trabalham nas
forjas e prensas, os que ensinam crianças e adultos a ler — cada
um deles, de maneira específica, traz no seu corpo as marcas do
seu trabalho. Marcas que se traduzem na comida que podem comer, nas
enfermidades que podem sofrer, nas diversões a que podem se dar, nos
anos que podem viver, e nos pensamentos com que podem sonhar — suas
religiões e esperanças.
Marx também sonhava e imaginava. E muito embora haja alguns que o
considerem importante em virtude da ciência econômica que
estabeleceu, desprezando como arroubos juvenis os voos de sua
fantasia, coloco-me entre aqueles outros que invertem as coisas e se
detêm especialmente nas fronteiras em que o seu pensamento invade os
horizontes das utopias. E Marx se perguntava sobre um outro tipo de
trabalho que daria prazer e felicidade aos homens, trabalho
companheiro das criações dos artistas e do prazer não utilitário
do brinquedo e do jogo... Trabalho expressão da liberdade,
atividade espiritual criadora, construtor de um mundo em harmonia com
a intenção... É claro que Marx nunca viu este sonho utópico
realizado em sociedade alguma. Foi ele que o construiu a partir de
pequenos fragmentos de experiência, trabalhados pela memória e pela
esperança. Mas são estes horizontes utópicos que aguçam os
olhos para que eles percebam os absurdos do "topos", o
lugar que habitamos. E, ao contemplar o trabalho, o que ele descobriu
foi alienação do princípio ao fim.
O que é alienação?
Alienar um bem: transferir para uma outra pessoa a posse de alguma
coisa que me pertence. Tenho uma casa: posso doá-la ou vendê-la a
um outro. Por este processo ela é alienada. A alienação,
assim, não é algo que acontece na cabeça das pessoas. Trata-se de
um processo objetivo, externo, de transferência, de uma pessoa a
outra, de algo que pertencia à primeira.
Por que o trabalho é marcado pela alienação?
Voltemos por um instante ao trabalho não alienado, criador, livre,
que Marx imaginou. Sua marca essencial está nisto: o homem deseja
algo. Seu desejo provoca a imaginação que visualiza aquilo que é
desejado, seja um jardim, uma sinfonia ou um simples brinquedo.
A imaginação e o desejo informam o corpo, que se põe inteiro a
trabalhar, por amor ao objeto que deve ser criado. E quando o
trabalho termina o criador contempla sua obra, vê que é muito boa e
descansa...
Que acontece com aquele que trabalha dentro das atuais condições?
Em primeiro lugar, ele tem de alienar o seu desejo. Seu desejo passa
a ser o desejo de outro. Ele trabalha para outro.
Em segundo lugar, o objeto a ser produzido não é resultado de uma
decisão sua. Ele não está gerando um filho seu. Na verdade, ele
não está metido na produção de objeto algum porque com a divisão
da produção numa série de atos especializados e independentes, ele
é rebaixado da condição de construtor de coisas à condição de
alguém que simplesmente aperta um parafuso, aperta um botão, dá
uma martelada. Se se perguntar a um operário de uma fábrica de
automóveis: "que é que você faz?", nenhum deles dirá
"eu faço automóveis. Você já viu como são bonitos os carros
que fabrico?". Eles não dirão que objetos produzem, mas que
função especializada seus corpos fazem: "Sou torneiro. Sou
ferramenteiro. Sou eletricista".
Em terceiro lugar, e em consequência do que já foi dito, o trabalho
não é atividade que dá prazer, mas atividade que dá sofrimento. O
homem trabalha porque não tem outro jeito. Trabalho forçado. Seu
maior ideal: a aposentadoria. O prazer, ele irá encontrar fora do
trabalho. E é por isto que ele se submete ao trabalho e ao pago do
salário.
Em último lugar, o trabalho cria um mundo independente da vontade de
operários... e capitalistas. Porque também os capitalistas
estão alienados. Eles não podem fazer o que desejam. Todo o seu
comportamento é rigorosamente determinado pela lei do lucro. Não é
difícil compreender como isto acontece. Imaginemos que você,
sabendo que o bom do capitalismo é ser capitalista, e dispondo de
uma certa importância ajuntada na poupança, resolva dar voos mais
altos e investir na bolsa de valores. Como é que você irá
proceder? Você deverá consultar tabelas que o informem dos melhores
investimentos. E que é que você vai encontrar nelas? Números, nada
mais. Números indicam as possibilidades de lucro. Se as firmas em
que você vai investir estão derrubando florestas e provocando
devastações ecológicas, se elas prosperam pela produção de
armas, se elas são injustas e cruéis com os seus empregados, tudo
isto é absolutamente irrelevante. Estabelecida a lógica do
lucro, todas as coisas — da talidomida ao napalm — se
transformam em mercadorias, inclusive o operário. Este é o
mundo secular, utilitário, que horrorizava Durkheim. É o mundo
capitalista, regido pela lógica do dinheiro. E o que ocorre é que o
mundo estabelecido pela lógica do lucro — que inclui de
devastações ecológicas até a guerra — está totalmente
alienado, separado dos desejos das pessoas, que prefeririam talvez
coisas mais simples. . . Assim, as áreas verdes são entregues à
especulação imobiliária, os índios perdem suas terras porque gado
é melhor para a economia que índio, as terras vão-se transformando
em desertos de cana, enquanto que rios e mares viram caldos
venenosos, e os peixes boiam, mortos...
Mas que fatores levam os trabalhadores a aceitar tal situação? Por
que trabalham de forma alienada? Por que não saem para outra?
Porque não há alternativas. Eles só possuem os seus corpos. Para
produzir deverão acoplá-los às máquinas, aos meios de produção.
Máquinas e meios de produção não são seus, e são governados
pela lógica do lucro. E é assim que o próprio conceito de
alienação nos revela uma sociedade partida entre dois grupos, duas
classes sociais. Duas maneiras totalmente diferentes de ser do corpo.
Os trabalhadores são acoplados às máquinas e, por isto, têm de
seguir o seu ritmo e fazer o que elas exigem. Isto deixará marcas
nas mãos, na postura, no rosto, nos olhos, especialmente os olhos. .
. Os corpos que habitam o mundo do lucro também têm suas marcas,
que vão do colarinho branco (os americanos falam mesmo nos
trabalhadores 'white collar'), passando pelos restaurantes que
frequentam, as aventuras amorosas que têm, e as enfermidades
cardiovasculares que os afligem...
E não é necessário pensar muito para compreender que os
interesses destas duas classes não são harmônicos. Para Marx aqui
se encontra a contradição máxima do capitalismo: o
capitalismo cresce graças a uma condição que torna o conflito
entre trabalhadores e patrões inevitável. Marx nunca pregou luta de
classes. Achava tal situação detestável. Apenas como um médico
que faz um diagnóstico de um paciente enfermo, ele dizia: o
desenlace é inevitável porque os órgãos estão em guerra... O
problema não é de natureza moral nem de natureza psicológica. Não
se resolve com boa vontade por parte dos operários e generosidade
por parte dos patrões. Nenhum salário, por mais alto que seja,
eliminará a alienação. Trata-se de uma lei, sob o ponto de vista
de Marx, tão rigorosa quanto a lei da química que diz:
comprimindo-se o volume de um gás a pressão aumenta; expandindo-se
o volume, a pressão cai. E aqui poderíamos afirmar: "Salários
comprimidos ao seu mínimo produzem milagres econômicos
expandidos ao seu máximo".
Isto é a realidade: homens trabalhando, em relações uns com os
outros, sob condições que eles não escolheram, fazendo com seus
corpos um mundo que não desejam.. . E é disto que surgem ecos,
sonhos, gritos e gemidos, poemas, filosofias, utopias, critérios
estéticos, leis, constituições, religiões...
Sobre o fogo, a fumaça, sobre a realidade as vozes, sobre a
infra-estrutura a superestrutura, sobre a vida a consciência...
Só que tudo aparece de cabeça para baixo, confuso. Diz Marx, lá em
O Capital, que só veremos com clareza quando fizermos as coisas
do princípio ao fim, de acordo com um plano previamente
traçado. Mas quem faz as coisas do princípio ao fim? Quem
compreende o plano real? Os presidentes? Os planejadores? Os
ministros? O FMI?
Compreende-se que o que as pessoas têm normalmente em suas
cabeças não seja conhecimento, não seja ciência, mas pura
ideologia, fumaças, secreções, reflexos de um mundo absurdo.
E é aqui que aparece a religião, em parte para iluminar os cantos
escuros do conhecimento. Mas, pobre dela... Ela mesma não vê. Como
pretende iluminar? Ilumina com ilusões que consolam os fracos e
legitimações que consolidam os fortes.
"A religião é a teoria geral deste mundo, o seu compêndio
enciclopédico, sua lógica em forma popular, sua solene completude,
sua justificação moral, seu fundamento universal de consolo e
legitimação."
De fato, quando o pobre/oprimido, das profundezas do seu
sofrimento, balbucia: "É a vontade de Deus", cessam todas
as razões, todos os argumentos, as injustiças se transformam
em mistérios de desígnios insondáveis e a sua própria miséria,
uma provação a ser suportada com paciência,na espera da salvação
eterna de sua alma. E os poderosos usam as mesmas palavras sagradas e
invocam os poderes da divindade como cúmplices da guerra e da
rapina. E os habitantes originais deste continente e suas
civilizações foram massacrados em nome da cruz, e a expansão
colonial levou consigo para a África e a Ásia o Deus dos brancos, e
constituições se escrevem invocando a vontade de Deus, e um
representante de Deus vai ao lado daquele que foi condenado
a morrer... Nada se altera, nada se transforma, mas sobre todas
as coisas dos homens se espalha o perfume do incenso...
Religião, "expressão de sofrimento real, protesto contra um
sofrimento real, suspiro da criatura oprimida, coração de um mundo
sem coração, espírito de uma situação sem espírito, ópio do
povo".
E, desta forma, as palavras que brotam do sofrimento se transformam,
elas mesmas, no bálsamo provisório para uma dor que ele é
impotente para curar. E é por isto que é ópio, "felicidade
ilusória do povo", que deve ser abolida como condição de sua
verdadeira felicidade. Mas o abandono das ilusões não se consegue
por meio de uma atividade intelectual. As pessoas não podem ser
convencidas a abandonar suas ideias religiosas. Ideias são ecos,
fumaça, sintomas. . . Se elas têm tais ideias é porque a sua
situação as exige. É necessário, então, que sua situação seja
mudada, as fendas curadas, para que as ilusões desapareçam.
"A exigência de que se abandonem as ilusões sobre uma
determinada situação, é a exigência de que se abandone uma
situação que necessita de ilusões."
"A crítica arrancou as flores imaginárias da corrente não
para que o homem viva acorrentado sem fantasias ou consolo, mas
para que ele quebre a corrente e colha a flor viva. A crítica da
religião desilude o homem, a fim de fazê-lo pensar e agir e moldar
a sua realidade como alguém que, sem ilusões, voltou à razão;
agora ele gira em torno de si mesmo, o seu sol verdadeiro. A religião
é nada mais que o sol ilusório que gira em torno do homem, na
medida em que ele não gira em torno de si mesmo."
Marx antevê o fim da religião. Ela só existe numa situação
marcada pela alienação. Desaparecida a alienação, numa
sociedade livre, em que não haja opressores, não importa que sejam
capitalistas, burocratas ou quem quer que ostente algum sinal de
superioridade hierárquica, desaparecerá também a religião. A
religião é fruto da alienação. E com isto os religiosos mais
devotos concordariam também. Nem no Paraíso e nem na Cidade
Santa se emitem alvarás para a construção de templos...
O equívoco é pensar que o sagrado é somente aquilo que ostenta os
nomes religiosos tradicionais. Bem lembrava Durkheim que as roupas
simbólicas da religião se alteram. Onde quer que imaginemos
valores e os acrescentemos ao real, aí está o discurso do desejo,
justamente o lugar onde nascem os deuses. E Marx fala sobre uma
sociedade sem classes que ninguém nunca viu, e na visão
transparente e conhecimento cristalino das coisas, e no triunfo
da liberdade e no desaparecimento de opressores e oprimidos, enquanto
o Estado murcha de velhice e inutilidade, ao mesmo tempo que as
pessoas brincam e riem enquanto trabalham, plantando jardins pela
manhã, construindo casas à tarde, discutindo arte à noite. . . De
fato, foram-se os símbolos sagrados, justamente aqueles "já
avançados em anos ou já mortos. . .". Mas eu me perguntaria se
a razão por que o marxismo foi capaz de produzir "horas de
efervescência criativa, nas quais ideias novas apareceram e novas
fórmulas foram encontradas, que serviram, por um pouco, como guias
para a humanidade", sim, eu me perguntaria se tudo isto se
deveu ao rigor de sua ciência ou à paixão de sua visão, se se
deveu aos detalhes de sua explicação ou às promessas e esperanças
que ele foi capaz de fazer nascer.. . E se isto for verdade, então,
à análise que o marxismo faz da religião como ópio do povo, um
outro capítulo deveria ser acrescentado sobre a religião como arma
dos oprimidos, sendo que o marxismo, de direito, teria de ser
incluído como uma delas. . . Parece que a crítica marxista da
religião não termina com ela, mas simplesmente inaugura um
outro capítulo. Porque, como Albert Camus corretamente observa,
"Marx foi o único que compreendeu que uma religião que não
invoca a transcendência deveria ser chamada de política...".
7
É fato que, o Iluminismo e a Revolução Francesa determinaram o
pensamento racionalista de Marx, colocando a razão, o pensamento
científico, concreto, acima de outros pensamentos também
qualificados. A própria Revolução Francesa também criou espaços
totalitários, durante o período revolucionário. "o
democratismo radical de Rousseau inspirou historicamente momentos
políticos que poderiam ser qualificados como de 'democracias
totalitárias'". (CARDOSO, FERNANDO HENRIQUE.Democracia para
mudar. Rio de Janeiro, 1978, p.22. Citado por. COUTINHO, CARLOS
NELSON. A Democracia como Valor Universal e outros Ensaios. Rio de
Janeiro: Salamandra, 1984, p. 47). Agora, o simples fato de que Marx
considerou o valor do sagrado como parte da superestrutura, significa
que ele estava certo ou que não é necessário fazer os devidos
questionamentos sobre o valor do sagrado e da superestrutura,
especialmente quando se estuda o caso da Reforma religiosa na Europa,
como já foi feito por outros historiadores? Cristalizar o pensamento
num autor ou num tempo, é petrificar o pensamento. O que interessa é
a verdade, pura e simplesmente. O fato de se perceber os limites do pensamento de Marx, especialmente sobre o pensamento religioso, o véu de Ísis, os pequenos e os grandes mistérios, sobre Deus, enfim, sobre o sagrado e o transcendente, não significa que esses mesmos limites não foram encontrados em outros assuntos e temas. E, seguindo a ideia de que a verdade é a única guia, porque a verdade é divina, perceber os limites do pensamento marxiano, ficar indiferente, negar em bloco as contribuições que Marx proporcionou no estudo das sociedades, é simplesmente não pensar, é abdicar do pensamento, é abdicar da verdade.
"“Ser homem significa buscar uma verdade que satisfaça a
mente, uma virtude que sacie a consciência, e uma beleza que toque o
coração.
Se o homem for privado de uma destas coisas, ele não encontrará a
felicidade, nem terá paz.
A mais preciosa, a mais profunda e a mais importante das grandes
ideias que a Esquerda nos roubou é a beleza.
Não preciso gastar muito tempo na proposição de que a vida sem
beleza é um pesadelo: aqueles que já contemplaram a beleza
verdadeira - a beleza sublime, mesmo que tenha sido só por alguns
momentos - não podem comparar isso com mais nada a não ser os
êxtases dos místicos e os arrebatamentos dos santos.
A beleza consola os tristes; a beleza traz felicidade e aprofunda o
conhecimento; a beleza é como a comida e o vinho, e os homens que
vivem rodeados de feiura ficam atrofiados e famintos em suas almas.
Se a beleza é assim tão importante, por que é que não há
qualquer discussão em torno dela?
A vitória da Esquerda neste campo foi tão súbita,
tão extraordinária e tão completa, que a discussão da beleza
tornou-se um silêncio total e desolador.
Será que você, caro leitor, chegou alguma vez a ler alguma
discussão em torno da beleza, propondo uma teoria da beleza, ou
mesmo exaltando a importância central da beleza na alma humana,
durante o último ano?
E nos últimos 10 anos?
Será que alguma vez leu?
Esta pode muito bem ser a única dissertação em torno deste tópico
que você vai ler nesta década; e no entanto o tópico é de suprema
importância.
É um assunto de vida ou morte não para o corpo, mas para o
espírito.
Não há qualquer discussão em torno da beleza porque, ao convencer
o público de que a beleza está nos olhos de quem a contempla, a
Esquerda colocou a beleza para além da esfera de discussão.
Segundo a Esquerda, a beleza é uma questão de gosto, e um
gosto arbitrário, note-se.
Não há qualquer discussão em torno do gosto porque dar razões
para se preferir coisas de bom gosto a coisas de mau gosto é
elitista, desagradável, rude e inapropriado.
Ter gosto implica que algumas culturas produzem mais e melhores obras
de arte que as outras, e isto levanta a desconfortável possibilidade
de que o amor à beleza seja eurocêntrico, ou até racista.
Admirar a beleza tornou-se um crime de ódio.
Se a beleza está nos olhos de quem a vê, então não há qualquer
diferença entre as belas artes e a mera decoração, não há
qualquer diferença entre a Mona Lisa de Leonardo da Vinci e um papel
de parede.
Obviamente que há uma diferença: nós decoramos uma ferramenta útil
para torná-la mais agradável à vista ou ao manuseio - tal como
pintar detalhes em um carro e bordar imagens em tecido.
A arte popular tem como propósito o entretenimento; ela deve
satisfazer o olhar e fazer passar o tempo, mas um episódio de 'I
Love Lucy' não é feito com o mesmo propósito que o 'Lago dos
Cisnes' de Tchaikovsky.
A arte não deve ser útil; quando você tem nos braços um bebê e
olha para ele, e fica olhando para a maravilha e o milagre da nova
vida, você não faz isto porque o bebê é útil.
Se a beleza está nos olhos de quem a vê, então não existe esta
coisa de educar o gosto.
Pode-se sentar e assistir a um programa de entretenimento bem feito -
por exemplo, um desenho animado do 'Rato Mickey' - com prazer e
satisfação, e nenhum estudo será necessário para preparar uma
pessoa para o apreciar e entender.
Mas para se sentar e ler o 'Paraíso Perdido' de Milton com
prazer, é preciso que a pessoa já tenha familiaridade suficiente
com as figuras clássicas e bíblicas às quais alude, e a satisfação
de quem lê aumenta quando se conhecem os modelos épicos, Virgílio
e Homero, sobre cujos temas Milton constrói variações tão
criativas e impressionantes.
Se a beleza está nos olhos de quem a vê, então qualquer coisa,
qualquer coisa mesmo, pode ser declarada bonita unicamente pelo
artista.
Tal como Deus a criar luz a partir do nada pelo Poder da Sua Palavra,
o artista cria beleza não através de gênio ou perícia, mas do seu
fiat explícito.
É beleza não porque ele criou algo, mas porque ele assim o
declarou.
Seguindo esta lógica, um urinol é bonito, uma lâmpada que acende e
apaga, uma cabeça de vaca decapitada e coberta de sangue, moscas e
larvas, um copo d'água em uma prateleira, um crucifixo mergulhado em
urina, uma lata de excremento, ou uma cama por fazer.
O argumento dado pela Esquerda é que você não consegue ver a
beleza destas coisas devido às suas limitações, à sua alma
destreinada, ao seu embotamento.
O argumento meramente ignora o fato de que educar os gostos para
serem embotados, filisteus e grosseiros é o oposto de educá-los
para que sejam sensíveis à beleza.
A esta altura, o leitor pode estar se questionando quem ou o
quê na Esquerda alguma vez fez tais declarações absurdas.
Sem dúvida que nem todo esquerdista está preocupado com arte,
e nem todos que se inclinam para a Esquerda em outros tópicos adotam
a visão de arte dominante entre os esquerdistas.
Aqueles que a adotam, contudo, dizem exatamente o que eu digo que
eles dizem.
Se por acaso você nunca ouviu tais disparates sobre pernas de pau,
só posso lhe dizer que você não tem prestado muita atenção ao
mundo da arte - o que, diga-se de passagem, é algo positivo da sua
parte.
Embora se possa achar que estou brincando, não estou.
Cada um dos exemplos que mencionei é real.
Fountain (1917) de Marcel Duchamp8
é um urinol;
Work No. 227, The Lights Going On and Off (2000, Vencedor do Prêmio
Turner) de Martin Creed9
é uma lâmpada piscando;
A Thousand Years (1990) de Damien Hirst10
é a cabeça de uma vaca coberta de larvas;
Nossa geração é a primeira da história da Cristandade a não
possuir, de todo, belas artes.
O público deu as costas ao chafurdar neurótico na auto-repugnância
que domina as belas artes, e busca saciar seus desejos nas artes
populares: se os retratos geram repugnância, pode-se ainda olhar
para cartazes de filmes, calendários e capas de revistas.
O tema musical de John Williams no filme 'Star Wars' servirá
em lugar de Elgar,
Wagner
ou Holst.
Mas todos estes entretenimentos populares servem para entreter, não
para arrebatar..
A arte popular satisfaz os apetites e as paixões.
Mesmo que algumas satisfaçam apetites e paixões nobres, não é
função das obras populares fazerem o que uma verdadeira obra de
arte faz, que envolve esquecer os apetites e as paixões.
É por esta razão que uma estátua clássica nua não é como a
página central da Playboy.
Uma é egoísta, visto que a luxúria é egoísta, e usa a outra como
instrumento; a outra é altruísta, visto que o amor é altruísta.
Se, a qualquer altura antes da Primeira Guerra Mundial, fosse
perguntado a qualquer filósofo ou intelectual qual era o propósito
da arte, da poesia, da música, das pinturas, das esculturas, das
obras de arquitetura, todos eles, de todas as gerações para trás
até Sócrates, diriam que o propósito da arte é buscar a beleza.
O próprio Sócrates teria dito que através da beleza, através do
amor forte e pelo desejo que é criado no peito humano em presença
de algo sublime, somos atraídos para fora de nós, e somos levados,
passo a passo, para longe do mundano em direção do divino.
O argumento mais forte contra o ateísmo tão amado pela
Esquerda não é aquele que pode ser expresso em palavras, visto que
é o argumento da beleza.
Se olharmos para um pôr-do-sol revestido em escarlate, qual rei
descendo a sua pira empurpurada,
ou nos maravilharmos perante o reluzente trovão de uma cascata,
se dermos por nós fascinados pela suave complexidade de uma rosa
vermelha
ou contemplarmos a fria e virgem majestade da estrela da manhã,
ou observamos uma catedral ou um jardim murado,
ou ouvirmos a "Ode à Alegria" de Schiller, musicada por
Beethoven,
ou olharmos para o David de Miguel Ângelo,
ou ficarmos imersos na canção e esplendor e tristeza nórdica do
“Anel dos Nibelungos” de Wagner,
ou do “Senhor dos Anéis” de Tolkien,
se, de fato, observarmos beleza genuína e por alguns momentos nos
esquecermos de nós mesmos, então seremos atraídos para fora de nós
rumo a algo maior.
Nesse momento intemporal de arrebatamento sublime, o coração sabe,
mesmo que a cabeça não consiga expressar em palavras, que o
enfadonho e quotidiano mundo de traição, dor, desapontamento e
mágoa não é o único mundo que existe.
A beleza aponta para um mundo para além deste mundo, um domínio
mais elevado, um país de alegria onde a morte não existe.
A beleza aponta para o divino.
A Esquerda odeia este argumento visto que, como não pode ser
expresso em palavras, não pode ser refutado com palavras.
Este argumento só pode ser refutado com imagens:
um urinol,
uma cabeça de vaca cortada,
uma lata de excremento,
uma cama desarrumada.
Estas imagens são feias, agressivamente feias, feitas com o
propósito de serem humilhantes, feitas para serem absurdas,
chocantes, ofensivas, repugnantes e nojentas.
Se a visão da estrela da manhã aponta para um mundo para além
deste mundo, justo e pleno de música das esferas,
então as visões de excremento e lâmpadas piscando, de cabeças
cortadas e camas por fazer apontam-nos para um mundo de desespero
vociferador, um cemitério profanado, um monte de estrume.
A Esquerda odeia este argumento porque, se a beleza não está
só nos olhos de quem a vê, então a beleza nos diz o que é
a verdade, uma verdade real, uma verdade que nos chega de um mundo
para além do mundo da propaganda mesquinha, um mundo para além da
pornografia.
A Esquerda odeia este argumento porque, se a beleza não está
só nos olhos de quem a vê, então a beleza é para ser
servida, e não usada para prazeres egoístas.
A beleza humilha o orgulhoso, pois revela que existe um mundo para
além dele mesmo e para além dos seus apetites.
E a Esquerda odeia isso.
Acham que estou exagerando?
Acham que aquilo com que estamos a lidar nada mais é que uma falta
de gosto ou uma educada diferença de opinião, e não ódio?
Entrem em um museu de arte moderna:
olhem para o urinol, para a cabeça de vaca cortada,
para a lata de excremento,
para a cama suja.
Não são expressões de um ou dois indivíduos aberrantes com
problemas psicológicos: é o status quo da nossa cultura há quase
um século, uma indústria que envolve quantidades infindáveis de
dinheiro público e privado.
É a liderança da visão artística controlando nossa civilização,
e o que os arqueólogos do futuro irão apontar como as imagens
espirituais da nossa era.
Por que é que eles gostam de tais imagens?
A resposta não é difícil: a desolação da feiura ajuda a
causa esquerdista de uma forma real e bastante sutil.
Imaginem dois homens:
um está em uma casa iluminada, alta e com colunas de mármore,
adornada com arte luxuosa, esplêndida e com brilhantes imagens em
vidro de heróis e santos, lembranças de grandes mágoas e grandes
vitórias, tanto do passado quanto prometidas.
Um coro polifônico eleva sua voz em uma canção dourada, cantando
uma ode à alegria.
O outro homem encontra-se em uma pocilga com papel de parede
caindo,
ou em uma ruína sem teto infestada de ratos,
cercada com lúgubres paredes de cimento borrifadas de excremento e
com graffiti irregulares,
manchada de palavrões e trêmulas luzes neon publicitando locais de
strip.
Por perto ouve-se uma ensurdecedora música rap,
gritando obscenidades.
Um burocrata aproxima-se de cada um dos homens e ordena-os que façam
rotinas e tarefas rotineiramente humilhantes, tais como
urinar em um copo para serem testados quanto à presença de drogas,
ou deixar que suas impressões digitais sejam recolhidas,
ou sofrer uma busca na cavidade anal,
ou entregar suas armas,
ou seu dinheiro,
ou seu nome.
Qual dos dois homens, em princípio, é mais suscetível a não se
submeter?
Qual dos dois homens irá automaticamente assumir que a vida humana é
sagrada, que os direitos humanos são sacrossantos, e que o Homem foi
feito à imagem e semelhança de Deus?
O homem rodeado por imagens divinas?
Ou o homem rodeado por escarnecedora sujeira?
Dito de outra forma, qual dos dois homens é mais suscetível de cair
vítima de uma visão do mundo sombria, sem significado, sem verdade,
sem virtude?
O propósito de quase um século de feiura agressiva nas belas artes
é o de gerar repugnância.
Não interessa se você se tornará um fã da pavorosa abominação e
horror da arte moderna ou se dará as costas em cínico desgosto e
buscará a beleza apenas no entretenimento popular.
Tanto os fãs da feiura como os cínicos repelidos por ela perderam
sua inocência.
Nenhum dos dois ouvirá o argumento da beleza; nenhum dos dois ouvirá
a música das esferas."(John C. Wright, How We've Been Robbed of
Beauty by the Left)".19
5
Não é a direita que irá nos defender. Postado por Theophilus às
10:22. SEXTA-FEIRA, 30 DE OUTUBRO DE 2015.
http://speminaliumnunquam.blogspot.com/2015/10/nao-e-direita-que-ira-nos-defender.html
.
7
As flores sobre as correntes - Rubem Alves. Por: João Márcio F.
Cruz. AS FLORES SOBRE AS CORRENTES. por Rubem AlvesTrecho do livro O
QUE É RELIGIÃO. Autor: Rubem Alves.
http://www.paralerepensar.com.br/paralerepensar/texto.php?id_publicacao=7719
,
19
Spem in Alium. SÁBADO, 24 DE OUTUBRO DE 2015. Como a Esquerda nos
roubou a idéia de beleza.
http://speminaliumnunquam.blogspot.com/2015/10/como-esquerda-nos-roubou-ideia-de-beleza.html
.
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